O Céu é o Limite

1 Capítulo 1 O Encontro


Um ensurdecedor grito cortava a noite. Pena que ninguém o ouvirá...

-Como era assustador aquele lugar! Eu... eu pensei que ia morrer. Não... talvez eu... — algumas lágrimas se formaram nos olhos daquela garota. Uma adolescente solitária, 16 anos. Talvez mais, talvez menos. Nem ela mesma sabia. Em meio a seus devaneios, ela conversava sozinha, às margens de um rio, com seu reflexo refletido pela água, cristalina e pura como em nenhum outro lugar. Que lugar era aquele? Ela se perguntava o mesmo todos os dias. Era uma pena, parecia não ter ninguém para respondê-la...

O despertador ressoava sua trágica melodia. Não é como se fosse um som extremamente ruim, mas... acordar cedo é sempre ruim! Ainda mais no caso de Takeda. Um garoto preguiçoso, apesar de dedicado e inteligente. Podia considerá-lo bonito e popular, também, mas ele não dava importância para esses pequenos fatos. Apenas cumpria cada dia como se fosse... um episódio a mais no roteiro da sua vida. Enfim, após se sentar na cama, a muito custo, coçou os olhos enquanto se espreguiçava, dando um longo bocejo.

-Waaaaaaaaaaaah... que droga, eu queria dormir mais... despertador de merda... — olhava para o relógio, e dava um pulo, assustado — NÃO, ESTOU ATRASADO!!

Se levantou da cama o mais rápido que pode e vestiu o uniforme escolar, composto da calça social, camisa branca e gravata vermelha. Passou no banheiro e rapidamente escovou os dentes, descendo em seguida para a sala, aonde sua mãe estava esperando-o.

-Takeda, você vai se atrasar! — disse ela, com as mãos na cintura, enquanto estendia para ele o prato com o pão torrado.

-Desculpe, mãe, mas eu vou comendo no caminho!! — ele pegou o copo de suco, bebeu-o rapidamente e em seguida colocou a ponta do pão na boca, segurando-o com os dentes para poder pegar a mochila com as mãos livres.

-Vá, o metrô está quase saindo! — abriu a porta para o filho, que saiu correndo.

-Estou indo! — disse ele antes de sair, mesmo que não se pudesse compreender, já que estava de boca cheia.

Enquanto corria até a estação de trem, encontrou como todos os dias com seus amigos, na mesma esquina de sempre, mas eles pareciam um pouco impacientes.

-Oooooooora, Takeda, vamos logo! Está atrasado!! — gritou Maya, uma garota de longos cabelos negros, que estavam sempre soltos.

-É isso mesmo, maldito preguiçoso! O que acha que está fazendo? — disse Kuro, seu amigo. Bem, pelo menos, devia ser. Tinha cabelos loiros, uma aura contagiante, extrovertida.

-Argh! — Takeda parou em frente a eles por alguns segundos, sua respiração estava acelerada, ele dava sinais de cansaço — Me desculpem pelo atraso!!

-Sem tempo pra descanso, vamos logo! — Maya pegou em um braço e Kuro em outro, e assim, ambos começaram a puxar Takeda, que por mais que tentasse se manter no lugar e descansar, acabou se entragando e acompanhando os dois, logo chegando a estação de trem.

Ao chegar na estação de trem, uma pequena fila estava formada na entrada, aonde se passava o cartão de acesso. Era uma pena, mas parecia que eles iam se atrasar para a primeira aula. Maya e Kuro trocavam reclamações — todas direcionadas a Takeda. Ele parecia alheio a eles. Estava observando as pessoas do metrô, quando viu uma garota um tanto baixa, de cabelos brancos, com os longos cabelos amarrados pros lados, formando duas longas chiquinhas, tinha um belo rosto, meigo, delicado. Ela estava desesperadamente tentando falar com todos que passavam por ela, mas por algum motivo todos pareciam desprezar sua existência. Era como se ninguém notasse. Ele pensou em ir até ela, mas logo foi interrompido.

-Ei, Takeda! Está ouvindo? É sua vez, passe logo! — disse Maya, apontando para a catraca.

-Ah, sim! — ele rapidamente voltou o olhar para a catraca, passando o passe. Deu uma última olhada na garota que viu, antes de correr até o metrô que se preparava pra sair.

A viagem do metrô foi normal para todos, Takeda, Maya e Kuro conversaram entre si. Mesmo assim, Takeda continuou a pensar por um tempo na garota e na situação dela, parecia importante o que ela tinha a dizer. Mas agora já não tinha jeito, estavam no ponto que tinham de descer. E assim foi feito.

-Espero que o professor não fique irritado! Ele permanece na sala por duas aulas... — disse Maya, suspirando logo em seguida.

-É mesmo... — lamentou Kuro.

-Gente, eu já pedi desculpas! — completou Takeda, notando as indiretas e puxando os dois para dentro da escola, rapidamente sendo abordados por um dos serventes, que também ajudava a controlar os alunos que 'cabulavam'.

-O que estão fazendo fora da sala, espertinhos? Vamos, a segunda aula já vai começar! — disse com um tom repreensivo, olhando os três alunos.

-S-Sim! — disseram os três, se apressando para a sala.

Ao chegar lá, eles entraram na sala e, após pedir licença e se desculparem com o professor, foram para seus respectivos lugares. Seria um longo dia de estudos. Um longo dia de pensamentos.

As aulas passaram vagarosamente — como todos os dias — e Takeda finalmente pôde comemorar com um suspiro cansado, a chegada do intervalo. Logo seus dois amigos, Kuro e Maya, vieram ao seu encontro.

-Argh, que aulas chatas... — resmungou Maya, suspirando em seguida ao apoiar as mãos na carteira de Takeda.

-Nem me fale... aquele maldito do Norman, quem ele acha que é?! — esbraveja Kuro, que foi repreendido pelo tal professor Norman. — Aliás, ele pareceu bem simpático com o Takeda, mesmo ele estando disperso, vocês são amigos, seu desgraçado? — segurou Takeda pela gola da camisa, mas este logo se explicou.

-Eu vou bem na matéria dele, é isso. — na verdade, Takeda não fazia ideia, mas ria um pouco da reação do amigo. — Além do que, Norman não é o único a repreendê-lo, Kuro! — concluiu com deboche.

-Hunf... — resmungou consigo mesmo Kuro.

Maya, que apenas acompanhava a conversa, ria e então caminhava em direção a saída da sala, para ir ao pátio, lugar aonde costumavam ir sempre, no intervalo.

-Venham, vocês dois!! — disse Maya, esperando na porta.

Kuro prontamente caminhou na direção dela, mas Takeda se manteve no lugar e acenou.

-Eu vou daqui a pouco, só quero terminar de verificar algo no meu material da próxima aula... — disse ele, dando uma desculpa, mas queria ficar só.

-Sei... fazendo lição atrasada de novo né? — debochou Maya — Se quiser, pode pegar meu caderno emprestado! — ela acenou para ele, e foi para o pátio acompanhada de Kuro.

Takeda riu do comentário da amiga. Mesmo que fosse verdade, dessa vez não era isso. Esperou tempo suficiente para que chegassem ao pátio e se levantou, caminhando lentamente para fora da sala. Ia para a direção contrária, em direção as escadas. Escadas aquelas que levavam ao teto do colégio, aonde dificilmente tinha alguém na hora do intervalo — apesar de haverem bancos e tudo o mais para o lanche. Ao chegar lá, ele lentamente se aproximou do parapeito de concreto do local, olhando todos os estudantes lá de cima, no pátio. Suspirou de forma confusa, e riu em seguida, fechando os olhos e se virando lentamente.

-Ai ai, por que estou tão preocupado, afinal? — sussurrou para si mesmo, quando abriu os olhos e, em seguida, os arregalou, devido ao que enxergava.

Frente a ele, a garota que o fez ficar preocupado pela manhã toda. Era baixa, cabelos negros, pele branca — talvez um pouco mais morena que ele. Suas enormes orbes negras o encaravam com curiosidade, enquanto um de seus dedos estava em frente aos lábios.

-Oi! — disse ela, acenando. Porém, em seus olhos, não se podia enxergar a esperança de ser respondida.

-... O-Oi... — respondeu Takeda, com os olhos ainda arregalados. Não tinha dúvidas! Era a garota que viu.

-O que foi? Viu um fantasma? — disse a garota, arregalando os olhos também e olhando ao redor, nem notou que finalmente fora respondida, tamanha era a preocupação dela com um... fantasma, que não estava alí, é claro.

-Fantasma? O que... — ele balançou a cabeça pros lados, olhando a garota ainda — Como entrou aqui? O que está fazendo aqui? Quem é você?

-Eu entrei pelo portão, oras! Eu vivo andando por aí... mas... quem sou... eu? — ela começou a pensar consigo mesma sobre aquela pergunta. Ela não sabia respondê-la.

Takeda ficou confuso, observando a garota. Será que era doida, e por isso ninguém dava atenção a ela? Como ela mesma não sabia quem era?

-É, tipo, seu nome, aonde estuda, coisas assim, né? — completou a pergunta, tentando facilitar para ela.

-Um nome... eu não sei se tenho algo assim, onii-chan. — ela disse com tranquilidade, sua voz soou doce, e seu rosto era calmo. A reação foi totalmente ao contrário quando se tratava de Takeda.

-Não tem um nome? Como assim?! — ele não podia entender, mas aquelas perguntas deixavam a pobre garota mais e mais confusa, e ela acabou se encolhendo e correndo em direção a um dos bancos, aonde se sentou. Takeda suspirou, então. — Ai, ai, que garota complicada...

Lentamente, ele foi se aproximando do banco aonde ela estava sentada. A mesma estava com a cabeça baixa, parecia fitar as próprias pernas, ou talvez até mesmo o chão. Mas seu olhar se encontrava distante, perdido. Ela estava perdida.

-Desculpe a grosseria... é estranho pra mim isso. — com a voz calma, ele se sentou ao lado dela, mantendo uma distância natural — Eu sou Takeda, esse é meu nome.

Lentamente, a jovem virou a cabeça e fitou-o.

-Takeda...kun? — concluiu ela, abrindo um sorriso em seguida.

-Isso! Mas não precisa do -kun, tudo bem? — disse ele, rindo um pouco. Não gostava de sufixos.

Ela apenas acentiu com a cabeça e repentinamente o abraçou com força, apertava-o, chegava a ser desconfortável. Essa atitude fez com que as têmporas do garoto corassem rapidamente

-O-O que esta... — ele foi interrompido pelo som do choro dela, e foi nessa hora que ele a abraçou também. — Ora, não precisa chorar...

A garota elevou seu rosto, fitando-o nos olhos. Ele se surpreendeu com a expressão chorosa dela. Ela sorria, apesar das lágrimas.

-Você será meu amigo, né? — perguntou, hesitante, com o sorriso aos poucos se desfazendo.

Ele não entendia o por que daquela pergunta, nem das atitudes dela. Mas sorriu, um sorriso sincero que fez a menor abrir-lhe novamente um sorriso.

-Sim, eu serei seu amigo... a partir de agora, vou chamá-la de...Amu. Amu-chan! — concluiu com um sorriso, compartilhado por ela, antes de afundar o rosto no peito do garoto.

Notas finais
Espero que gostem da história, e que aguardem por mais capítulos! Tentarei lançá-los semanalmente, se possível (mas pode depender do público, quem sabe). Até mais. (E sim, o cabelo dela muda <3)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.