Após a décima dose Alice parou de celebrar e encarou o teto. Vivia naquele submundo há tanto tempo. Já deveria estar acostumada com tanta estranheza, não? Contudo, apesar de já ter andado por caminhos sombrios antes, jamais por um tão dominado por uma força tão completamente intensa, tão completamente insana. Sua cabeça rodava e algo a dizia que não deveria estar ali. O teto rodava de maneira que o desenho que havia nele mudava de forma constantemente.

Fechou os olhos. Abriu-os novamente. Prendeu a respiração. Respirou fundo. Sorriu. Chorou. Ninguém pareceu se importar com seu choro ou seu riso. Queria sair dali. Deveria sair dali.

Levantou-se, brusca, caiu de volta na cadeira. Mais uma vez ninguém pareceu se importar. Levantou-se, ainda mais bruscamente, com raiva de tudo. Quis chorar mais uma vez, mas segurou com um gemido baixo. Saiu daquele quarto e fechou a porta com tanta força que até pensou em abri-la novamente apenas para ver se Helena Cartola ou Antônio Lebre se importariam com ela ou se algum daqueles tristes olhares das deprimidas almas havia se quer dado uma leve olhada graças ao estrondo da porta. Algo dentro de Alice, entretanto, sabia que não havia feito diferença. Era quase invisível.

Alice estava tonta. Alice estava triste. Alice estava feliz e com raiva. Alice chorava e ria. Alice estava só. Sozinha.

Encarou a escada e decidiu descer. Não havia nenhum sinal de Mestre Moulin. Ele disse que seria difícil a saída, o que para a moça não parecia. Decidiu descer as escadas e pensou em seu pai. Dos abraços, da solidariedade, da comida e cama quentinhas. Lembrou dos ursos de pelúcia, das escrivaninhas e dos filmes em VHS. O cheiro das coisas limpinhas, do piso de madeira, o som das músicas antigas e o tato do pelo macio de seu gato da infância. Sorriu e riu, dessa vez sem chorar. Deu um passo em direção a escada até que a primeira porta do corredor à esquerda, antes trancada, se escancarou diante dos seus olhos.

A luz estava ligada, bem baixinha em um pequeno palco. Estava centralizada para uma magra e pálida mulher de lingerie preta com cabelos castanhos curtos no estilo Chanel. A mesma estava sentada de lado em uma cadeira de madeira, com o rosto virado para trás. Ela estava sozinha, sem plateia. Alice entrou curiosa, virou para a direita e notou que atrás da porta se encontrava um homem alto que provavelmente foi quem abriu a porta.

Sentou-se em uma das poucas cadeiras em frente ao palco e esperou pelo início do espetáculo que demorava. Após longos minutos de espera, no ponto em que Alice estava quase indo embora – afinal, a porta continuava escancarada –, a mulher de repente se virou e deu um sorriso para a plateia quase vazia. Uma música estranha começou a tocar e conforme a bisonha mulher começava a dançar, Alice percebeu nos seus ossos amostra. Eram ossos assim como os dela. Era a pele assim como a dela. Foi quando se deu conta que a atriz era como ela.

Então se lembrou de seu pai. Do choro no dia da morte de sua mãe, dos soluços no enterro. Dos inúmeros nãos, das cintadas por ter se atrasado quinze minutos na volta para casa, das vezes que a trancou no quarto sem jantar por ter falado com alguém do sexo oposto. Das brigas por coisa alguma e tapas por motivo nenhum. Das rondas á seu quarto no meio da noite, de como a olhava com desprezo e carinho ao mesmo tempo. E por fim, de como justificava todas essas ações com a desculpa que a amava e temia perde-la. Alice chorou dessa vez sem rir ou sorrir. Decidiu ficar e pediu mais um drink para o homem próximo a porta. Ao fim da apresentação, a atriz sorriu e juntas dividiram o resto de pó que a mulher guardou.

— Sabe, eu guardei pronta para cheirar quando ninguém viesse. – disse a mulher sacudindo um plástico. – Mas agora vamos cheirar comemorando que alguém veio.

Novamente, Alice estava só. Sozinha.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.