O Culpado é o Destino

20 Acontecimentos Inesperados


Passa uma semana. Durante esses dias, Mônica e Milena conseguem algum dinheiro.

Milena havia roubado, obviamente, pois elas não gostavam de pedir dinheiro, somente

comida. Elas pegam alguns ônibus até saírem da cidade. Foram parar numa cidade

vizinha.

Milena: Saímos de Torres.

Mônica: Que cidade é essa?

Milena: Não sei.

Mônica: E agora, o que fazemos?

Milena: Não faço idéia.

Mônica: Ai, ai...

Milena: Ah, vou ali naquele barzinho e já volto.

Mônica: Ok.

Milena volta em alguns minutos com uma carteira de cigarro.

Milena: Quer um?

Mônica: Oh, não, eu não fumo.

Milena: Pô, experimenta!

Mônica: Já disse que não! Preciso dos meus neurônios...

Milena: Você não sabe o que ta perdendo.

Mônica: Ta bom, dá um!

Milena: Toma.

Mônica acende um cigarro. Ela se engasga toda com a fumaça.

Mônica: Cof, cof, cof! Pega essa porcaria...

Milena: Na primeira vez isso também aconteceu comigo, mas depois acostuma...

Mônica: Não mesmo, obrigado...

Milena: Sabe o que eu acho?

Mônica: Diz.

Milena: Que vou voltar pra casa.

Mônica: Mas, porque?

Milena: Ai, não suporto mais ficar na rua. Você vê, a gente tem que dormir no meio da

rua, aí uma fica vigiando enquanto a outra dorme, e outra fica vigiando enquanto uma

dorme. A gente não tem roupa a não ser essa, o dinheiro que a gente tem só da pra

comer, porque também não quero passar por nenhuma assaltante, só roubo pra poder

comer!

Mônica: Eu não volto por nada!

Milena: Mas...

Mônica: Eu não vou voltar!

Milena: Ta... Eu também não, vir até aqui pra nada não teria graça.

Mônica: Não é pra ter graça.

Milena: Sei. Olha, to com muita fome. Vamos achar um lugar aqui pra mim roubar o

que comer. Um mercado, a partir de hoje não roubo mais dinheiro, só comida. E acho

que ta na hora de você aprender também.

Mônica: O que?

Milena: A roubar, né?!

Mônica: Ah, não... Você é quem sabe fazer isso.

Milena: É, mas não quero fazer tudo sozinha!

Mônica: Por enquanto eu não vou te ajudar... Só se eu observar pra aprender primeiro e

depois tentar ajudar você!

Milena: Ta, mas façamos isso depois, porque agora to com a maior fome e vou ali

naquele mercado roubar alguma coisinha pra comer.

Mônica: Ta. Te espero aqui embaixo dessa árvore.

Milena: Ta, até já!

Mônica: Até!

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O mercado não ficava longe. Milena entra no mercado, Mônica observa tudo de longe.

Milena: Vou lá para os fundos, é lá que ficam as frutas e os pães!

Ela pega duas maçãs e coloca no bolso da blusa. Pega um pacote de pão e vai pra saída.

Perto da porta do mercado tinha uma prateleira com escovas de dente e coisas assim.

Ela fica ali, como se estivesse procurando alguma coisa. De repente, sai correndo com

os pães embaixo da blusa. O problema é que um caixa vê ela fugindo e

sai correndo atrás dela.

Caixa do mercado: Pega ladrão! Pega ladrão!

Milena sai correndo, mas o caixa a apanha facilmente. Mônica estava distraída, e nem

percebeu que a amiga estava passando por apuros a alguns metros dali.

Milena: Por favor seu moço, eu devolvo tudo, eu devolvo!

Caixa do mercado: Não quero saber! Vou levar a senhorita até o Conselho Tutelar.

Por muita coincidência, ou melhor, por uma coincidência impressionante, o Conselho

Tutelar ficava bem na frente do mercado. O caixa leva Milena até lá.

Conselheiro Tutelar: Posso saber o que aconteceu?

Caixa do mercado: Essa garota roubou comida do mercado onde eu trabalho!

Conselheiro Tutelar: Ei, mocinha, olhe pra mim!

Milena levanta a cabeça. Estava chorando.

Milena: Eu não queria, seu moço, eu não queria!

Caixa do mercado: Então porque roubou, sua fedelha?

Milena: Eu tava com fome!

Conselheiro Tutelar: Bem, isso não justifica o seu ato. Mas, vamos ver. Qual o telefone dos seus pais?

Milena fica calada.

Caixa do mercado: Não vai responder, pirralha?

Conselheiro Tutelar: Acalme – se senhor.

Caixa do mercado: Tudo bem.

Enquanto tudo isso acontecia, Mônica nem sentiu falta da amiga. Achou que ela ainda

estivesse lá disfarçando. Voltando ao Conselho Tutelar.

Conselheiro Tutelar: Olha, se você não me responder, a situação vai ficar bem

complicada!

Neste momento Milena sai correndo porta afora. Aquela hora havia bastante movimento

na rua, pois eram seis e pouca da tarde, horário em que a maior parte das pessoas saem

do trabalho. Milena corre pelo meio da rua, e um carro bate nela. A sorte dela é que ela

caiu na calçada, e não no meio da rua. O motorista foge e o Conselheiro e o caixa dão

uma olhada na rua, mas não vêem ela. Após uns cinco minutos Mônica

vê a amiga caída no chão.

Mônica: Meu Deus, aquela lá não é a Milena?

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Mônica: É ela mesma! Meu Deus, o que pode ter acontecido?

Mônica sai correndo em direção à amiga.

Mônica: Milena, Milena, acorda!

Milena (ferida, com os olhos fechados, gemendo): Mônica, me ajuda...

Mônica: Claro, vou te levar para um hospital!

Milena: Não...

Mônica: Ah, o que quer que eu faça?

Milena: Igreja...

Mônica: Quer que eu te leve pra igreja, é isso?

Milena: Sim...

Mônica: Ok!

Mônica pega Milena no colo. Apesar de magra, Milena era mais alta que Mônica, por

isso ela teve um pouco de dificuldade. Na verdade, Mônica nem sabia onde achar

uma igreja, então saiu andando a esmo. Milena já estava desmaiada, ela provavelmente havia

batido a cabeça no asfalto. Depois de uns cinco minutos (que pareceram uma

eternidade), Mônica finalmente achou uma igreja. Ela entrou correndo e foi até o altar. Largou Milena lá e começou a rezar pela amiga.

Mônica: Ó minha Senhora, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a Vós, e em prova de

minha devoção para convosco, eu vos consagro neste dia meus olhos, meus ouvidos,

minha boca, meu coração e inteiramente todo o meu ser.

E como assim sou vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e, defendei-me como coisa e

propriedade vossa. Amém.

Uma velhinha que estava rezando em um dos bancos da igreja se manifesta.

Dona Ana: Olá, minha filha. O que aconteceu?

Mônica: A minha amiga, ela sofreu um acidente.

Dona Ana: Ó, meu Deus! Venha, traga ela. Estou de carro, posso levar ela até o

hospital!

Mônica: Ah, muito obrigado mesmo, dona...

Dona Ana: Ana, meu nome é Ana. Venha logo!

Mônica: Ta bom, dona Ana.

Dona Ana: O que aconteceu exatamente, minha filha?

Mônica: Ela foi atropelada.

Dona Ana: Oh, tudo bem, coloque ela dentro do carro. Isso. Vamos logo!

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Elas chegam no hospital rapidamente. Um médico as atende e leva Milena para a sala de

emergência. Mônica e Dona Ana ficam na sala de espera, enquanto isso, conversam.

Dona Ana: Parece que eu conheço você de algum lugar...

Mônica: Acredito que não...

Dona Ana: Bem, onde você mora?

Mônica: Na verdade eu... Eu havia fugido de casa!

Dona Ana: Ah, mas é claro, eu já tinha percebido! Mas, ah, já sei de onde eu conheço

você! Sua foto saiu no jornal aqui do bairro, seus pais colocaram a foto no jornal!

Mônica: Ah, eu tinha imaginado que eles fariam isso. Faz umas semanas que eu fugi.

Agora, com tudo isso que está acontecendo, acho que vou voltar pra casa... Estou louca

para rever meus pais.

Dona Ana: Como?

Mônica: Eu estou doida para ver meus pais, a saudade é enorme...

Dona Ana: Mas, você não soube?

Mônica: Do que, Dona Ana?

Dona Ana: Oh, eu não sei como dizer, mas, seus pais morreram, garota!

Mônica: Que?

Dona Ana: Oh, eu sinto muito... Me desculpe, eu achei que você soubesse! Ai, porque

eu fui falar isso?!

Mônica: Porqueeeee? Porque, meu Deus? Porqueeeeeeeeeeeeeeeeeeeee?

Mônica começa a chorar e a berrar desesperadamente. O médico tenta contê — la,

pedindo para ela fazer silêncio. Ela se tranca no banheiro e continua a chorar lá. Depois

de algumas horas, Dona Ana resolve bater na porta para ver como Mônica está.

Dona Ana: Ei, Mônica!

Mônica: Oi...

Dona Ana: Você ta melhor?

Mônica: Eu não to melhor, meus pais morreram!

Dona Ana: Eu compreendo. Só quero dizer que a Milena está totalmente bem e já

recebeu alta. Estou levando ela lá pra casa. Você quer ir?

Mônica: Ah, é, eu quero. Por favor, Dona Ana, me conta tudo, me conta tudo o que

aconteceu!

Dona Ana: Os seus pais morreram num acidente de carro.

Mônica: Olha, eu não vou chorar, eu sei que eu tenho que ser forte. É preciso saber lidar

com a morte... Sei que eles nunca irão voltar. Agora, eu não tenho pra onde ir, mas, por

enquanto vou acompanhar a Milena até a sua casa. Depois eu vejo o que eu faço.

Chegando na casa de Dona Ana, Mônica toma um café e passa a tarde toda chorando,

enquanto Dona Ana e Milena tentam ajudá — la. Na verdade, Mônica nunca saberia a

verdadeira história do acidente: Seu Sousa e Dona Luisa estavam andando de carro à

procura de Mônica, e se distraíram procurando por ela, por isso, o carro caiu de um

barranco e o inevitável aconteceu. As garotas dormem na casa de Dona Ana, no outro

dia se levantam pra tomar café.

Dona Ana: Está melhor, Mônica?

Mônica: Eu não estou bem, mas melhor que ontem.

Dona Ana: Sabe no que eu andei pensando?

Mônica: Não, no que?

Dona Ana: Você tem algum parente próximo, por aqui?

Mônica: Na verdade o único parente vivo que eu tenho é uma irmã da mamãe, que mora

na Austrália. Minhas avós e meus avôs já morreram todos, e papai é filho único.

Dona Ana: Bem, eu pensei em adotar você e a Milena.

Mônica: Sério?

Dona Ana: Se vocês quiserem...

Mônica: É claro que eu quero!

Milena: Bem, eu não posso. Se vocês esqueceram, eu tenho a minha família e vou voltar

pra eles.

Mônica: Sim, nós sabemos...

Dona Ana: Depois do café a gente dá uma volta e eu te deixo na sua casa.

Milena: Tudo bem.

Dona Ana: Ah, esqueci de me dizer. Na verdade eu irei me mudar no próximo fim de

semana, para São Paulo. Um bairro do interior, chamado Bairro do Limoeiro.

Mônica: Sério?

Dona Ana: É sim.

Mônica: Nossa! Eu nasci e fui criada nesse bairro!

Dona Ana: Não acredito!

Mônica: Pode acreditar!

Dona Ana: Então iremos morar por lá, você vai voltar às suas origens, hehe!

Mônica: Ai, Dona Ana, só você pra me fazer sorrir numa hora dessas...

Mais tarde, Dona Ana leva Milena até a casa dela.

Milena: Tchau, Mônica!

Mônica: Tchau, amiga! Você foi muito importante pra mim!

Milena: Eu também, nunca vou esquecer – me de você! Espera um pouco, eu vou ali em

casa e já volto.

Dona Ana: Tudo bem.

Ela entra em casa, dá um beijo no pai, um na mãe e pega a câmera digital.

Milena: Olha, quero bater umas fotos com vocês!

A mãe de Milena, Dona Margarida, bate as fotos em frente à casa de delas.

Milena: Bem, agora acho que é hora de despedida mesmo. Tchau Mo, tchau Dona Ana!

Mônica: Tchau, Mi!

Dona Ana: Tchau, querida!

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E chega o fim de semana. Dona Ana passa na casa de Mônica para pegar as malas dela,

pois a garota não queria voltar à casa. Colocaram a antiga casa de dona Ana à venda e em pouco tempo ela

foi vendida, sendo assim, ganharam um bom dinheiro, já que a casa era maravilhosa.

Elas partiram para São Paulo. A viagem foi ótima, as duas foram cantando, contando

piadas, se divertindo. Mônica pôs na cabeça que queria esquecer a morte dos pais e

queria ser feliz.

Chegaram no Bairro do Limoeiro. Se instalaram na nova casa, Mônica pediu a bicicleta

de Dona Ana emprestada e foi até a casa de Magali.

Mônica: Magali! Magaaaaa!

Magali: Amiga, é você mesma?

Mônica: Sim, sou eu! Vem cá, me dá um abraço!

Elas dão um abraço muito forte uma na outra. Ambas começam a chorar.

Magali: Que saudade!

Mônica: Eu também, estava morrendo de saudade.

Magali: Mas, e aí, já voltou?

Mônica: Parece, né?! Aconteceu muita coisa...

Magali: Pois é, eu soube que seus pais...

Mônica: Ai, que quero esquecer esse assunto, nem toca nele.

Magali: Tudo bem.

Mônica: E então, como vão as coisas?

Magali: Ai, aqui ta tudo ótimo. Ah, e olha quem vem lá!

Cascão: Mônica! Quanto tempo!

Mônica: Oi, Cas! Tudo bom?

Cascão: Tudo bem sim, e contigo?

Mônica: Apesar de tudo o que aconteceu ta tudo bem sim!

Cascão: Pois é, eu também soube...

Mônica: Agora vou morar com a Dona Ana, ela me adotou...

Magali: Quem é dona Ana?

Mônica: Bem, acho melhor vocês irem até lá em casa pra conhecê — la!

Cascão: Vamos, Ma?

Mônica: Diz que sim, diz que sim!

Magali: É claro!

Eles vão pra casa de Mônica, conhecem Dona Ana, conversam um monte, põem as

fofocas em dia...

Cascão: Pois é, Mo, a gente já vai indo! Mas a gente se vê, hem?!

Magali: É...

Mônica: Claro! Tchau gente, até mais!

Magali: Tchau!

Dona Ana: Tchau!

Cascão: Tchau, Dona Ana! Tchau Mônica!

Mônica: Tchau!

Dona Ana: Tchau!

E os dias passam... Dona Ana e Mônica vivem muito felizes.

Notas finais
Grande esse capítulo, não?

Vocês devem estar se perguntando: e o restante dos personagens, o que aconteceu com eles? Tudo será revelado no próximo e último capítulo. Não percam! Valeu!