O Crânio do Corvo
1 Uma luz permanentemente acesa
Já era noite. Passava das seis da tarde e o vento cortava a praça congelando a carne sobre os ossos. Os vendedores desmontavam suas barracas,guardando suas mercadorias para voltarem para o calor de seus lares. Lá no fundo,no fim do corredor de tendas,uma delas ainda mantinha a lâmpada acesa. O casal que se aproximava andava abraçado tentando amenizar o frio. A luz ao longe chamou a atenção da garota. Ela correu por entre as barracas desmontadas puxando o namorado pela mão. Uma velha estava sentada em um banquinho de madeira,tricotando com lã negra algo que ainda não tinha forma. O cabelo da menina enroscou nos móbiles e amuletos pendurados no teto de lona. O barulho dos sinos despertou a atenção da senhora. Ela observou o encantamento da garota com os anéis espalhados pela pequena banca. Variavam entre tamanhos,cores e formatos. Alguns novos e outros já gastos pelo tempo.
Pacientemente a menina passava os dedos pelo mar de círculos e entregava ao namorado aqueles que despertavam seu interesse. A velha desprendeu os olhos do pano por um momento e olhou de soslaio para a garota no exato momento em que ela o tocou. Os olhos de ambas brilharam. Um crânio,um pequeno crânio de pássaro cuidadosamente colocado no topo da jóia já danificada pelo tempo,ornamentado com cristais vermelhos nas órbitas oculares. Colocou-o no dedo longo e magro em um encaixe perfeito:
—Quanto custa este? — a jovem perguntou. A velha se levantou deixando o amontoado de lã escura no banco e segurou sua mão. Um arrepio percorreu seu corpo e ela quase pode sentir o metal do anel aquecer e pesar em seu dedo.
—Leve-o. Como um presente.
—Mas eu quero lhe pagar,diga-me o quanto custa. — ela insistiu gentilmente ainda segurando a mão da idosa.
—Não há valor para ele,querida. E ficou tão bonito em você... Leve. — os olhos da velha estavam ligados aos dela. A garota hesitou.
—Vamos logo,está escurecendo. — o namorado tentou apressá-la.
—Mas...
—Ela já lhe disse que é um presente.
—Tudo bem. — ela disse colocando de volta na banca os outros anéis que tinha separado.—Obrigada,senhora.- disse antes de se virar e ir embora. A velha lhe deu um sorriso e voltou a sentar.
O casal voltou a se abraçar enquanto seguia para a estação de metrô. O frio havia aumentado e cortava seus rostos avermelhando a pele. Andaram rápido em direção à escadaria,desceram os degraus aos pulos e correram para pegar o último trem,a estação fechava mais cedo hoje. Chegaram na plataforma a tempo de ouvir os portões sendo fechados. O corpo da garota estava gélido,mas não por causa do frio. A pele ficando cada vez mais pálida,como se o sangue lhe estivesse sendo drenado. Os olhos distantes e opacos olhavam fixamente para o vão por onde passavam os trilhos. Os dedos magros agarravam o anel cobrindo os olhos vermelhos do crânio em seus dedos. O namorado falava com ela se desesperando a cada segundo. Ela não ouvia. Estava em transe. Ambos estavam na beirada da plataforma,a frente da linha amarela que demarcava o limite de segurança. O som estridente do trem sobre o ferro aumentava conforme se aproximava. Um pássaro negro os observava à espreita de cima de uma das vigas que sustentavam as lâmpadas.
Na praça a velha ainda tricotava,algo sem forma,um emaranhado de lã escura aparentemente sem nenhum propósito. Na plataforma o namorado da garota tentava pedir ajuda,gritava para o vazio dos túneis que alguém o ajudasse. A menina se inclinava na direção dos trilhos. Lá em cima,na praça,a linha de lã foi cortada. Lá embaixo,na plataforma,o pássaro voou por entre eles, desequilibrando-os.
O barulho estridente podia ser ouvido do lado de fora. O garoto caiu primeiro,a namorada ainda com o olhar distante deu o último passo para dentro do vão. O trem passou os atingindo em cheio. Os vagões estavam vazios e foram se distanciando até que a plataforma ficasse completamente vazia. Não havia mais nada ali além de corpos.
Lá em cima na praça uma luz amarelada tremeluzia em meio ao vento. Uma mulher jovem desmontava a sua barraca e guardava sua mercadoria. Segurou algo entre os dedos e depois o apertou com força na palma. Guardou o pequeno objeto metálico dentro do bolso. Seguiu noite adentro fazendo as moedas dos bolsos tintilarem junto ao anel de crânio que guardara ali. Um crânio de corvo.
Fale com o autor