O Criminoso Perfeito

8 SPIN OFF - Mikael


Notas iniciais
Primeiramente me perdoem pelo atraso no capítulo. Ainda estou tentando me adaptar a vida de curso e faculdade, sem tempo nem para respirar ou estudar, mas não pretendo abandonar a fic. Segundamente : esse capítulo foi terminado às pressas, já que ainda preciso revisar para duas provas amanhã e terminar um trabalho que o professor do curso passou, então podem haver erros de concordância, ou faltando uma vírgula aqui e ali, mas espero que gostem. Próximo cap não sei quando poderei postar, mas provavelmente o 9 e o 10 não atrasarão muito, já que vem esse recesso da Copa e finalmente terei um pouco de paz. Enfim, desfrutem

Às vezes eu imaginava quando, como e com quem teria coragem de colocar tudo que sentia para fora, só não esperava que eu estivesse bêbado no ato. Até porque não tenho o costume de beber, e o que eu tinha dito para o capitão Erwin era apenas uma parte do que havia acontecido. Não consegui dizer tudo que havia acontecido e como meu coração foi destroçado.

Pelo meu próprio irmão.

***

Tudo começou quando eu e meu novo parceiro saímos da delegacia.

Depois de ter meu coração partido, saí de casa e pensei que poderia mudar minha vida. Só pensei. No fundo sabia que não conseguiria superar o que eu sentia pelo Eren tão facilmente, mas não custava tentar. Pedi para meu chefe Erwin (depois de deploravelmente ter chorado feito uma criança na frente dele) para afastar meu irmão e colocá-lo em acompanhamento psicológico (afinal, ninguém em sua sã consciência faria o que ele fez, era o que eu queria acreditar), e trocar meu parceiro, nem que fosse temporariamente. Com isso ganhei de bandeja Ann, uma das pessoas mais misteriosas que já conheci.

Ele era o total oposto de Eren, não costumava falar muito, sempre ficava quieto observando tudo, e eu nunca sabia o que ele estava pensando. Uma hora estava com uma expressão entediada, na outra estava pensativo, e de vez em quando tentava puxar assunto, ou me chamava para beber alguma coisa, o que era o caso agora.

Depois de um dia ajeitando o que ainda faltava para a operação na festa que Don Valentino, um dos maiores chefes de família da máfia na região, saímos da delegacia cansados. Nós entraremos na festa junto com o capitão, mas ao contrário dele, seremos garçons tentando recolher o máximo de informação possível, além de detectar qualquer movimentação suspeita. Se tudo der certo, no final da noite teremos prendido Valentino, e de quebra algum outro criminoso que estiver na festa, de preferência Damien Cardinale, um homem vil que está envolvido com extorsão e tráfico de pessoas.

Eu estava novamente em crise, pensando se deveria ou não ligar para perguntar como Eren estava. De certa forma eu sabia que no final, se eu ligasse, seria apenas o primeiro passo para querer visitá-lo, aí todo meu esforço de decidir esquecer o que sentia por ele teria sido em vão. Nem percebi que estava andando ao lado de Ann, até ele falar comigo.

– Ainda está cedo, quer beber alguma coisa? – falou Ann olhando para frente, sem virar para mim – Acho que você precisa relaxar. Se não quiser, tudo bem.

Demorei alguns segundos para responder. Tentei (novamente) entender meu parceiro, mesmo sabendo que não conseguiria. Eu sentia que ele às vezes queria falar algo, mas não conseguia. Decidi parar de pensar e continuar me aproximando dele, o que vinha acontecendo bastante ultimamente.

– Claro, por que não? – Respondi.

Ann finalmente olhou para mim e deu um sorriso discreto. Não sei porque ele sempre esconde o fato de estar sorrindo, é estranho como ele evita demonstrar qualquer coisa. Mesmo que eu não seja a pessoa mais correta para falar dele, já que também não sou muito de ficar falando a toa e sempre baseava minhas ações a favor de Eren. Estou tentando mudar isso e passar a fazer as coisas por mim mesmo, como sair para beber com meu parceiro.

Fomos a um bar em frente à pensão onde ficamos. Sentamos em uma mesa meio afastada dos demais e pedimos algumas bebidas e petiscos, decidi que não iria exagerar.

Não adiantou. Quase uma hora depois eu estava completamente bêbado.

Acho que nem preciso avisar de que não sei beber, e apenas alguns copos foram o suficiente para me deixar tonto e com a cabeça girando. Ao contrário de mim, Ann parecia ainda estar sóbrio, na verdade ele tinha bebido dois copos a menos que eu, embora eu não acredite que isso possa interferir muito, provavelmente ele está acostumado. Aí está mais uma coisa que não sei sobre ele. Na verdade ainda não sei nada.

Percebi que não agüentaria mais quando comecei a rir e falar besteiras. Ann também ficou mais solto, mas ele parecia preocupado comigo. Depois de pedir a conta, ele a pagou (depois eu quis reembolsá-lo por ter pagado tudo sozinho, mas ele se recusou a aceitar, dizendo que como ele tinha convidado e me embebedado, ele tinha que pagar), conseguiu me fazer apoiar em seus ombros, e me levou de volta para a pensão.

Quando finalmente conseguimos chegar ao ultimo andar (depois de quase cairmos várias vezes no caminho. Pelo que parecia, Ann só aparentava estar bem, mas estava quase tão bêbado quanto eu) e estávamos finalmente na porta do meu quarto, peguei as chaves, mas não consegui abrir sozinho, Ann teve que me ajudar. Precisamos nos apoiar na porta para abri-la, então quando finalmente conseguimos, caímos no chão, e de alguma forma começamos a rir. Aquela era primeira vez que eu fazia algo do tipo, e eu estava estranhamente feliz (provavelmente graças à bebida), nunca antes eu tinha feito nada assim com o Eren, já que ele com certeza iria querer brigar com alguém se ficasse bêbado.

Eu não deveria ter me lembrado de Eren.

Ann conseguiu recuperar o fôlego e tentava se levantar quando segurei seu braço.

– Não vá agora. Por favor.

Ele parou e se virou pra mim. Finalmente levantei o rosto para fitá-lo, deixando evidente que eu tinha começado a chorar. Ao me lembrar de Eren perdi toda a graça, lembrei de tudo que tentava esquecer e não pude evitar começar a chorar. Era como se as lágrimas simplesmente saíssem e eu não pudesse pará-las. Ann me encarou por alguns segundos, ajeitou o corpo e limpou as roupas, achei que ele iria se virar e sair, mas ele apenas estendeu a mão pra mim, me ajudando a levantar. Sentamos no sofá, enterrei meu rosto nas mãos e comecei a chorar compulsivamente enquanto Ann apenas ficava ao meu lado e esperava. Quando consegui recuperar o fôlego e me acalmar um pouco, ele começou:

– O que aconteceu?

– Ann, você já amou ou se apaixonou por alguém?

– Não – respondeu ele depois de pensar por alguns segundos.

– Sorte sua.

– Não acho que seja necessariamente sorte, apenas nunca me interessei por isso, tinha muita coisa para fazer. Mas você está assim porque alguém partiu seu coração?

– Sim...

– Ela traiu você?

– Ele. E bem... quase, mesmo que não tivéssemos nada oficial ou algo do tipo.

– Ah. É alguém da delegacia?

– Sim, mesmo afastado, ele ainda é de lá.

– Seu irmão?

Olhei para ele como se perguntasse “Como você sabe?”. Ele me olhou como se tivesse visto a pergunta em meus olhos e continuou:

– Vim pra cá graças a um policial afastado, você me disse que brigou com seu irmão e saiu de casa, e agora você me diz isso, apenas deduzi.

– E acertou.

– Quer falar sobre isso ou vai continuar ai chorando?

Acabei contando tudo. Desde o começo, quando comecei a morar com Eren, como percebi que estava apaixonado, até a vez em que transamos. Ann ouviu tudo pacientemente, parecendo realmente interessado na minha história. Ao contrário de quando conversei com o capitão Erwin, onde escondi boa parte da historia, contei o que sentia, minhas duvidas, incertezas, e como ainda sentia falta do meu irmão, embora tentasse esquecê-lo.

As palavras saiam sem que eu notasse, percebi que eu realmente precisava contar para alguém tudo aquilo. Quando voltei a olhar para Ann, depois de finalmente parar de chorar, eu achava que o encontraria com um olhar de pena ou de nojo (já que estávamos falando de dois caras, e mais, dois irmãos), mas ele simplesmente parecia triste.

– Eu queria poder dizer alguma coisa reconfortante... que ajudasse... mas sei que nada que eu diga vai fazer você esquecer.

– Só o fato de você ouvir já está bom.

– Eu... sempre estive preocupado com coisas complicadas, problemas envolvendo minha família, então nunca parei para pensar nessas coisas. Queria poder ajudar mais, sinto muito.

– Você deve me achar estranho, ou repugnante...

– Por que acharia?

– Porque me apaixonei pelo meu próprio irmão.

– Nunca senti isso, não posso julgar você.

– Acho que me sinto melhor agor-

Não consegui terminar a frase. Uma súbita vontade de vomitar me atacou, e precisei correr para o banheiro, deixando Ann sentado me observando. Depois de colocar tudo que havia comido e bebido para fora, percebi que ele havia me seguido e estava parado na porta do banheiro.

– Acho melhor você descansar um pouco. Quer que eu compre algum remédio? – Perguntou ele.

– Não... Como você consegue está bem depois de beber?

– Cresci em uma casa cheia de adultos, desde pequeno costumo fazer coisas assim. Só não comecei a fumar porque quase morri engasgado com a fumaça.

Mesmo que ele tenha falado seriamente, dei um sorriso fraco. Me senti extremamente estúpido bebendo, chorando e depois vomitando daquele jeito na frente do meu novo parceiro. Isso claro, sem contar tudo que desabafei com ele. Pra piorar minha situação, Ann teve que me ajudar novamente a levantar, me conduzindo até o quarto.

– Você precisa dormir. Qualquer coisa... sabe onde me encontrar.

Me joguei na cama sem ao menos trocar de roupa, enquanto ouvia os passos de Ann se afastarem indo em direção à porta. Nem sei em que momento cai no sono, mas no meio da noite acordei com a cabeça pesada e girando. Tomei um analgésico, coloquei um pouco de café no fogo, e fui trocar de roupa. Eu teria que ir para delegacia, e faltavam poucas horas para o horário que eu costumava acordar, mas eu não me importava. Depois de beber quase a garrafa inteira de café, enquanto pensava no que faria dali pra frente, como iria encarar Ann quando fôssemos para a delegacia, e o que faria a respeito de Eren (já que não podia me afastar do meu irmão para sempre), decidi tomar um banho.

Continuei pensando em tudo enquanto sentia a água quente cair e escorrer pelo meu corpo. Comecei a lembrar de quando Eren ainda não sabia o que eu sentia por ele, quando eu me contentava apenas em estar ao seu lado, sendo seu irmão e protegendo-o, como éramos próximos, como ele me contava seus medos, suas preocupações... Quando menos percebi, eu estava sorrindo ao me lembrar dos momentos felizes em que vivi com ele, confusões em que precisei intervir por causa da cabeça quente dele, até mesmo a nossa primeira e única vez. Senti um arrepio ao lembrar como ele gemia e se agarrava a mim, seu cheiro, seu rosto corado, seu gosto...

Foi então que percebi que lembrar daquele momento me deixou excitado. As imagens começaram a voltar, os gemidos de Eren, o ranger da cama, a sensação de entrar nele, de senti-lo em meus braços. Eu não podia suportar aquelas lembranças, mas sempre ficava duro quando elas apareciam. Apoiei minha cabeça na parede e cai de joelhos no chão do banheiro, enquanto segurava meu membro e me masturbava. Eu precisava esquecer, precisava tirar aquela sensação e vontade de dentro de mim.

Mas foi então que a cena mudou. Não era mais Eren que gemia meu nome e agarrava-se a mim, mas sim Ann. Senti meu membro pulsar ao imaginar como seria se fosse com Ann, vendo-o ficar corado, tentando esconder o fato de estar gostando enquanto eu o penetrava. Aumentei o ritmo dos movimentos ao imaginar aquele corpo pequeno em meus braços, implorando por mais. Já estava ofegante quando finalmente cheguei ao orgasmo, deixando que a água do chuveiro levasse meu sêmen pelo ralo.

Eu não poderia tentar substituir Eren por Ann, não parecia justo, sem contar que eu nem sabia se ele gostava de alguém, se gostava de garotos ou algo assim. Notei que a única coisa que eu sabia dele era seu nome e que ele reagia melhor à bebida do que eu. Decidi que seguiria em frente e deixaria as coisas quietas, não falaria mais disso com Ann, e esperava que ele esquecesse o que eu tinha falado.

***

Depois de sair do banho e me enrolar na toalha, olhei para o relógio e percebi que já estava na hora que eu normalmente estaria acordando. Preparei meu almoço como sempre fazia, mas dessa vez não me policiei a respeito de preparar apenas para uma pessoa, cozinhando a quantidade que sempre fiz, o suficiente para duas marmitas. Eu não sabia onde Ann almoçava, mas provavelmente ele comia no restaurante em frente à delegacia, já que não o via durante o meio dia. Pensei que poderia agradecer a ele por ter me ouvido preparando o almoço dele, embora eu não soubesse do que ele gostava, mas o que valeria seria a intenção.

Terminei de me arrumar e saí. Depois de bater duas vezes na porta de Ann, olhei para o relógio e vi que ainda estava cedo. Eu já estava pensando em como pediria desculpas pelo fato de provavelmente tê-lo acordado, quando a porta abriu.

– Mikael? – Ele deu um sorriso fraco, o que fez meu coração se agitar, já que era muito raro de acontecer – Achei que depois de você ter ficado bêbado daquele jeito, acordaria tarde hoje. Estava pensando em bater na sua porta e te acordar.

– Acordei há umas duas horas... Desculpa, provavelmente te acordei, só queria te dar essa mar-

– Acordo mais ou menos esse horário, costumo demorar um pouco pra me arrumar. Estou acordado há uns dez minutos. Entre.

Ann ainda estava com as roupas com as quais havia dormido — uma camiseta e um short curto o suficiente para mostrar suas pernas definidas. Percebi isso pelo cabelo e rosto amassado e com marcas de travesseiro. Eu o tinha acordado, e ele mentia muito mal. Me amaldiçoei por isso.

– Você parece ter acordado agora – comecei enquanto o seguia pelo corredor em direção à sala – Eu queria agradecer por ter me escutado ontem, fiz isso para você – entreguei a marmita a ele, que a pegou e a olhou um pouco surpreso.

– Pra mim? Mas... por que?

– Sim. Não sei se você gosta disso, mas decidi arriscar. Se você não quiser, bem, não precisa comer, vou entender.

– Não... Não é isso... Eu apenas... não estou acostumado com isso. Ninguém nunca fez algo assim pra mim, não precisava. Muito gentil da sua parte.

– Você prepara sua comida?

– Eu tento, mas sempre sai horrível. Normalmente como algum lanche que compro na lanchonete perto da delegacia.

– Não deveria ficar comendo essas porcarias.

– Não faz mal, depois acabo me exercitando e compensando.

– Mas pode pegar alguma doença comendo fora.

– Nunca peguei nenhuma até agora – ele sorriu de novo. A cada vez que ele fazia isso, eu sentia algo estranho. Não era como os sorrisos de Eren que me fazia sorrir também, mas eles me atingiam de uma forma estranha. Por algum motivo senti meu rosto esquentar – Acho que não será isso que me matará, pode ficar despreocupado.

– Bem... – não sei porque eu estava com o coração acelerado – Se você quiser... posso fazer seu almoço daqui pra frente.

Ele olhou para mim com surpresa. Não sei pelo que ele passou, mas acho que gentileza e esse tipo de coisa não fizeram parte da sua infância e adolescência.

– Não quero que tenha trabalho por minha causa. Estou bem assim.

– Faço questão. Sempre cozinhei bastante, me acostumei a isso.

– Obrigado – ele enrubesceu, o que me fez corar também – você é a primeira pessoa que se preocupa assim comigo.

– Somos parceiros, não é? – forcei um sorriso alegre enquanto me perguntava o motivo de estar corado e com o coração acelerado – Precisamos cuidar um do outro.

– Cuidar... Sempre me virei sozinho, essa palavra até me parece estranha. Obrigado de novo, Mikael.

– Não é nada – Virei o rosto para não mostrar como aquilo estava me afetando – Acho que você tem que tomar banho, ou vamos nos atrasar.

– Tudo bem. Se quiser ir na frente, tudo bem.

– Vou esperar.

Sentei no sofá enquanto ele pegava parte da sua roupa perfeitamente dobrada e seguia para o banheiro. Quando finalmente saiu, usava apenas calças, deixando aparecer o peitoral definido e magro, além dos cabelos molhados. Mesmo menor, ele parecia mais forte que Eren. Percebi que eu sempre acabava comparando os dois, me senti mal por isso, mas era inevitável. Decidi me policiar mais, e evitar esse tipo de coisa.

– Sabe Mikael... – ele entrou no quarto e voltou com uma camisa azul bem passada – não quero te dar trabalho, então se você não se importar... pode me ensinar a cozinhar.

– Bem... – aquilo me pegou de surpresa — posso tentar...

– Hoje à noite saímos mais cedo, certo? Já que não tem quase nada pra fazer na delegacia essa semana.

– Sim, está quase tudo pronto pra festa nesse fim de semana. Então pode ser hoje? Mas te ensino com uma condição...

– Qual?

– Que você me ensine aqueles golpes diferentes que você sabe, aqueles que você usou daquela vez em que fomos atrás do suspeito de saber algo de Valentino. São diferentes de qualquer coisa que eu conheça, gostaria de aprender.

– Por mim tudo bem. Trato feito.

– Te ensino a cozinhar hoje e amanhã te ensino os golpes.

– Fechado –estendi a mão para Ann que a apertou veemente.

Ele olhou para mim com aqueles olhos azuis, que no começo eu achava sem emoção alguma, e percebi como nossa relação havia mudado. Antes apenas trocávamos poucas palavras, agora eu o ensinaria a cozinhar e ele retribuiria me ensinando alguns golpes. Infelizmente lembrei-me do meu devaneio enquanto tomava banho e senti meu rosto esquentar, como poderia encará-lo depois de ter me masturbado pensando nele?

– Acho melhor a gente se adiantar, ou vamos nos atrasar. Não falta muita coisa, mas ainda temos que ser pontuais.

– Tudo bem, vou só calçar meus sapatos – Ann entrou no quarto, e depois de alguns segundos voltou totalmente pronto e com a mochila nas costas – Vamos.

Depois de ajudar a trancar tudo, acompanhei Ann até a porta. Continuamos calados durante todo o caminho até a delegacia, mas graças a tudo que precisamos fazer durante o dia, acabamos nos falando bastante, mesmo sendo apenas a respeito do trabalho. Nossas roupas haviam chegado e entraríamos algumas horas antes na festa, já que seriamos garçons. Não era um trabalho difícil, mas nosso objetivo era conseguir o máximo de informações possível sem que nos descobrissem.

Ann parecia mais nervoso que o habitual, mesmo que eu também estivesse, ele parecia apreensivo, não com medo ou ansioso, mas era como se soubesse de algum perigo eminente e não quisesse contar. Tentei descobrir o que era durante o almoço, mas ele conseguiu sair do assunto,e acabamos conversando sobre temperos e comida. Pelo visto ele tinha gostado bastante do almoço que preparei para ele.

Quando finalmente a noite caiu, estávamos cansados e necessitando urgentemente de banho e comida quentes. Como sempre voltamos juntos para a pensão, e ao contrário do que imaginei, mesmo cansado Ann parecia animado com o fato de que eu o ensinaria a cozinhar. Faltavam apenas dois dias para a “Operação Festa Italiana” (já que Valentino é italiano), e o delegado Erwin decidiu nos deixar fazer o que quisermos, de preferência descansar, então poderíamos cozinhar a noite toda sem se preocupar com o fato de acordarmos cedo no outro dia.

– Se você não se importar, vou passar em casa e tomar um banho antes de começarmos – falou Ann enquanto tirava as chaves do bolso e abria sua porta.

– Por mim tudo bem, quando estiver pronto, só bater na porta lá em casa.

Continuei até meu quarto e decidi preparar tudo. Por alguma razão eu estava ansioso para a chegada de Ann, embora não conseguisse explicar o motivo. Tomei um banho rápido e verifiquei se tudo que precisava para cozinhar estava disponível na geladeira. Antes que eu pudesse reunir tudo, ouvi a campainha, indicando que Ann já havia chegado.

Abri a porta antes que ele tocasse uma segunda vez.

– Terminei. Trouxe algumas coisas que podem ser uteis – ele levantou um saco com alguns ingredientes – o que sobrou das minhas tentativas falhas de cozinhar.

– Você não deve ser tão ruim assim, só não teve a ajuda necessária – sorri, ele realmente parecia animado com aquilo – Entre.

– Espero que seja um bom professor – ele sorriu timidamente antes de passar por mim e entrar.

Depois de juntar todos os ingredientes, e ver que não tinha muita opção de fácil aprendizado para Ann, decidimos que o jantar da noite seria macarronada. Ficamos conversando enquanto a água para o macarrão esquentava.

– Vou colocar o macarrão na água, e você corta esses ingredientes para o molho. Primeiro você coloca a água no fogo e espera ferver antes de colocar o macarrão.

– Até aí eu sei, o problema é que meu macarrão fica meio grudento e vira uma pasta estranha.

– Você tem que observar o macarrão enquanto ele cozinha, também depende do tipo que você vai usar, se deixar passar do ponto, fica ruim. Vamos cortar essas coisas enquanto ele cozinha.

Cortamos os ingredientes do molho enquanto o macarrão cozinhava. Ann observava tudo atentamente e já podia quase prever o que eu faria antes que eu dissesse. Era fácil, e consegui dizer para ele qual o ponto certo para tirar o macarrão sem que ele ficasse ruim. No final desarrumamos a cozinha inteira, mas ele sempre limpava tudo que estávamos sujando, então antes de jantarmos, a cozinha estava em ordem.

Ficou mais gostoso do que eu esperava e Ann era um bom aluno, então assimilou rápido tudo que eu disse.

– Isso ficou — ele engoliu o pouco de macarronada que mastigava – ótimo.

– Realmente, acho que eu não conseguiria fazer algo tão bom sozinho. Você aprendeu rápido, Ann.

– Você que é um bom professor. Acho que não morro mais de fome, ou à base de lanches e comida congelada – Ann terminou seu jantar e tomou quase meia taça do vinho que havia trazido de uma vez só.

– Não seja modesto. Da ultima vez que tentei ensinar meu irmão a cozinhar, saiu um desastre, precisei refazer toda a comida sozinho – Levantei, recolhi os pratos da mesa, e fui em direção à cozinha.

Coloquei os pratos na pia e me virei pronto para pegar o resto que havia ficado na mesa, quando vi que Ann estava trazendo. Depois de colocar as taças e a vasilha grande de vidro onde estava a macarronada na pia, ele se virou e me encarou antes de perguntar:

– Você realmente quer superar e esquecer o que sente pelo seu irmão?

Senti como se tivesse levado um tapa. O loiro me olhava ansioso por uma resposta, seus olhos incrivelmente azuis e atentos estavam me deixando nervoso, além do fato de estarmos muito próximos um do outro, tanto que eu podia sentir o cheiro de sabonete vindo dele. Demorei apenas alguns segundos para responder:

– Sim.

– Então por que me compara com ele? Sinto muito Mikael, mas eu não sou o Eren.

– Eu sei.

Me senti envergonhado naquele momento, então ele percebeu que eu comparava os dois. Queria pedir desculpas a Ann, mas eu nem conseguia encará-lo.

– Eu posso ajudá-lo a esquecer seu irmão, mas não quero que me veja apenas como um substituto – ele passou o dedo em minha bochecha, tirando um pingo vermelho que provavelmente seria de molho, e o colocou na boca. Após chupá-lo, ele continuou – Quero que me veja como alguém diferente. Totalmente diferente. Desculpe, mas te ajudo a lavar a louça uma outra hora, boa noite.

Depois de me falar isso ele se virou e saiu, me deixando na cozinha e no apartamento sozinho com meus pensamentos. Me amaldiçoei por seu tão estúpido, por ser tão fraco para esquecer Eren, por não ser capaz de cortar isso de uma vez. Lavei a louça, tomei um banho e fui dormir, imaginando que talvez Ann não fosse aparecer para me ensinar os golpes que pedi.

***

Acordei com alguém batendo na porta.

Demorei alguns segundos para levantar, mesmo cambaleante, e ir até porta para abri-la. Encontrei Ann com um short, camiseta, e uma mochila no ombro.

– Achei que você já estivesse preparado para que eu te ensinasse os golpes.

– Não achei que viria.

– Por que não? Você fez sua parte no acordo, agora farei a minha.

Suspirei aliviado, ele não pretendia me afastar e ignorar no final de tudo.

– Desculpa, mas acordei agora, então você poderia esperar que eu me arrume?

– Claro.

Deixei que ele passasse por mim e o segui até a sala, onde o deixei e fui me arrumar. Alguns minutos depois estávamos saindo, indo em direção à delegacia, para usar a área reservada para exercícios físicos, onde tinha sacos de boxe, alteres, e um grande tapete para o treino de artes marciais.

Ao passarmos pelo primeiro andar da delegacia, encontramos apenas o delegado Erwin, que nos perguntou o que fazíamos ali, ao passo que respondemos que passaríamos o dia treinando, mesmo que ele tivesse nos mandado descansar. Ele apenas sorriu e nos pediu para não exagerar, antes de continuarmos nosso caminho e descermos as escadas para a área reservada.

– Você pelo menos tem um conhecimento básico de luta, certo? – perguntou Ann, que colocava a mochila que trouxera em cima de uns bancos no canto da sala.

– Claro, só não sei esses diferentes que você usa – repeti a ação dele, colocando a minha no lado da de Ann.

– Não vai ser tão difícil. Você vai pegar logo.

– Espero.

Colocamos nossas luvas e nos posicionamos para começar. Observei a forma como Ann ficava, parecia normal até ele atacar, e demonstrar que mesmo com aquele corpo pequeno, não deveria ser subestimado.

Demorei quase meia hora para começar a acompanhar o ritmo dele.

– Assim Mikael – ele se posicionou com as pernas separadas e demonstrou um golpe com uma delas – você chuta assim.

Consegui reproduzir, deixando-o satisfeito. Nem percebemos que o tempo estava passando rápido demais, e quando finalmente estávamos quase no mesmo ritmo, suávamos absurdamente, além de estarmos ofegantes. Mesmo que ele que estivesse me ensinando, após aprender alguns golpes eu já era capaz de lutar quase de igual para com ele. Consegui acertá-lo, derrubando no chão e em seguida imobilizando-o, ficando em cima dele.

– Você – ele estava ofegante e fez uma pausa antes de continuar – aprendeu rápido.

– Estamos... aqui... há uma hora, eu precisava aprender algo.

Eu também respirava com dificuldade, mas continuei observando os olhos profundos e azuis de Ann, que também me fitava de forma incisiva. Estávamos suados, cansados, mas de alguma forma os lábios dele me pareceram atraentes... até demais.

– Você é um bom professor, Ann.

– Você que aprende rápido, Mikael.

– Obrigado.

– Pelo que?

– Por não se afastar, e ser paciente comigo, mesmo depois de tudo que te contei.

– Não agradeça, eu não faria isso.

Eu não conseguia tirar os olhos dos lábios finos de Ann, durante muito tempo eu quis esquecer Eren, talvez finalmente pudesse fazê-lo. Decidi parar de procurar Eren em Ann, mas sim vê-lo de forma única, como ele havia pedido na noite anterior. Não sei o que deu em mim, mas quando percebi, já estava me aproximando, até que nossos lábios se juntassem.

Achei que ele me rejeitaria, mas o que aconteceu foi o contrário. Apoiei-me com os dois braços enquanto o beijava em uma mistura de suor, saliva e desejo. De alguma forma o lugar pareceu ficar mais quente de repente, principalmente depois dele puxar a gola da minha camiseta, me levando para mais perto de si. Quando finalmente o ar nos faltou, tentei me afastar, mas Ann agarrou meu cabelo e não deixou que o contato se quebrasse. Quando finalmente nossos lábios se separaram, estávamos mais ofegantes que antes.

– Achei que me rejeitaria – sussurrei.

– Nunca havia beijado alguém assim antes, não com algum tipo de sentimento envolvido.

– Você sente algo por mim?

– Não sei... Mas foi salgado.

– O que?

– Seu beijo.

– Estamos suados – sorri. Parecia trivial comentar algo assim, mas me fez sorrir.

– Precisamos de um banho.

– Sim. Aqui mesmo?

– Por mim tudo bem.

Levantei-me saindo de cima de Ann, antes de estender a mão e ajudá-lo a se levantar também. Seguimos até o banheiro, onde antes mesmo que estivéssemos despidos, estávamos nos beijando novamente. Ann tirou a camiseta e a jogou em algum lugar antes de ligar o chuveiro, o segui entrando na parte dos chuveiros apenas com o short.

Apoiei-me deixando-o entre meu corpo e a parede do banheiro, enquanto a água quente caia nos deixando mais molhados do que estávamos com o suor, fazendo com que tudo ficasse escorregadio e mais intenso na hora em que voltei a beijá-lo. Puxei-o para mais perto pela cintura, Ann retribuiu entrelaçando meu cabelo com os dedos.

– Não quero que pense que estou tentando achar o que perdi com Eren em você – falei quando finalmente paramos o beijo para recuperar o fôlego.

– Então finalmente percebeu que nunca serei igual a ele?

– Sim, me perdoe por ser tão estúpido. Mas... por que... você e eu...

– Não sei, mas essa é a primeira vez que sinto algo além de sentimentos negativos, a primeira vez que conheço alguém que é gentil sem querer algo em troca.

– O que quis dizer com “eu posso ajudá-lo a esquecer o Eren”?

– Você sabe muito bem o que quis dizer.

Ann me beijou novamente, antes que eu quebrasse o contato dos nossos lábios e passasse a beijar seu pescoço. Segurei o short dele e o empurrei para baixo junto com sua cueca, deixando completamente nu. O loiro suspirou quando segurei seu membro e passei a masturbá-lo enquanto voltava a beijá-lo.

–Não é justo que faça apenas em mim – começou ele.

– Só posso usar uma mão – respondi, deixando implícito o que eu queria que ele fizesse.

Ele sorriu e me ajudou a tirar o short, depois disso levou a mão desde meu baixo ventre, até meu membro já excitado, e então passou a masturbá-lo também. Ao contrário dos movimentos contínuos e rápidos que eu fazia para ele, Ann alternava de movimentos lentos e intensos, para rápidos, fazendo com que meu corpo estremecesse.

Eu não queria continuar apenas com aquilo, queria aprofundar as coisas, fazer com que ele me sentisse dentro dele, possui-lo de várias formas. Lembrei-me dos meus devaneios no banheiro e me perguntei se seria da forma que eu imaginava.

– Ann – diminui o ritmo dos movimentos – eu... quero entrar em você.

– Tudo bem.

Me surpreendi com a resposta dele, Ann era sempre tão calado e evasivo que quase não podia crer que eu estava ali, debaixo do chuveiro masturbando-o. Levantei a perna direita dele e me posicionei na sua entrada. Já que estávamos molhados, meu membro ficaria escorregadio o suficiente para não machucá-lo, de modo que o penetrei devagar, observando seu rosto se contrair e corar violentamente.

– Se quiser... a gente pode parar...

– Não, continue – respondeu ele mordendo o lábio inferior.

Continuei até que meu membro estivesse totalmente dentro dele, já podendo senti-lo pulsar totalmente ao meu redor. Comecei a me movimentar lentamente, até que Ann se acostumasse, não queria machucá-lo, ou ir apressar as coisas.

– Mi-Mikael... – sussurrou ele colocando os braços em meus ombros.

Pude perceber que Ann já começava a perder as forças e mal conseguia se apoiar no chão de piso escorregadio, então segurei sua outra perna da mesma forma com a qual prendia a outra, próximo ao meu corpo. Ann envolveu minha cintura com elas e me abraçou ainda mais, cravando as unhas em minhas costas, deixando marcas que ardiam quando a água caia, mas eu estava ocupado demais para perceber e reclamar da dor.

Pressionei-o ainda mais na parede do banheiro, sentindo seu membro endurecido em meu ventre e penetrando-o cada vez mais rápido e incisivamente. Estávamos ofegantes, eu não podia mais dizer se toda água que escorria do meu corpo era decorrente do chuveiro, ou do nosso suor que se misturava.

– Mikael... Eu... – Ann sussurrou entrelaçando os dedos em meu cabelo e puxando meu rosto para perto do seu.

– Eu também – respondi ofegante.

Senti quando ele chegou ao clímax, sujando meu ventre, enquanto eu jorrava dentro dele. Ficamos alguns segundos ainda naquela posição, até que eu soltasse suas pernas e esperasse até que ele estivesse apoiando-as firmemente no chão. Aquela vez tinha sido melhor do que a com o Eren, isso eu teria que admitir, mesmo prometendo parar de comparar os dois.

– Acho melhor tomarmos realmente o banho – parei um pouco para recuperar o fôlego – está tarde, amanhã começamos cedo.

– Sim... – ele estava tão ofegante quanto eu – tem razão.

Ann se virou e passou a se molhar veemente, enquanto eu procurava o sabão líquido que ficava por ali, e ligava o chuveiro mais próximo. Quando me virei para perguntar se ele tinha visto, percebi uma grande tatuagem de um dragão nas costas dele, nunca havia reparado em seu corpo dessa ângulo, por isso nunca tinha visto-a antes.

– É uma bela tatuagem – comentei.

– Obrigado – ele se virou e respondeu um pouco relutante.

– Não sabia que tinha tatuagens, tem só essa?

– Não, tenho duas.

– Qual a outra?

Ele se virou e me mostrou uma tatuagem de um lobo em sua perna, acho que no calor do momento não consegui vê-la.

– Muito bonitas, significam algo?

– Não – respondeu ele de forma seca, depois de pensar um pouco.

– Ah, ok.

Continuamos o banho e depois fomos para casa, o dia tinha passado rápido demais e já estava perto do anoitecer. Mesmo após tudo que aconteceu, continuamos calados, quebrando o silencio apenas na hora em que Ann se virou para se despedir de mim e entrar em seu apartamento.

– Bem... – Ann parecia meio distante — Amanhã começaremos cedo, então acho melhor comermos algo e descansar um pouco.

– Sim... nem percebi o tempo passar, nem comemos nada.

– Verdade. Bem... boa noite.

Não sei o que aconteceu, mas senti como se o muro que finalmente tinha se desfeito em mim e ele tivesse sido restaurado. Não posso dizer se foi porque perguntei sobre a tatuagem, ou se ele estava envergonhado depois de ter transado comigo, mas me senti mal. Sinceramente eu esperava que no outro dia as coisas estivessem voltado ao normal.

***

Quase não consegui dormir.

Depois de passar a noite toda me perguntando o que poderia ter feito de errado para irritar Ann, percebi que tinha dormido menos do que planejava, mas não sentia cansaço algum. Talvez o sexo no dia anterior com o Ann tenha me feito bem.

Arrumei-me como de costume, peguei minha arma e a roupa que usaria na festa, e segui em direção à delegacia, mas sem antes bater na porta de Ann, que já estava totalmente arrumado, e parecia estar melhor do que quando o deixei em casa.

– Bom dia – comecei.

– Bom dia. Hoje é o grande dia.

– Sim, espero que dê tudo certo.

– Eu também.

Após essa breve conversa, nos falamos ainda menos durante o dia. A delegacia estava em polvorosa por causa da operação, e todos nós estávamos verificando se tudo estava nos conformes. Quando chegou à tarde, nos arrumamos e saímos em direção à casa de Valentino, já que precisávamos chegar cedo, pois éramos garçons e tínhamos que ouvir e seguir as ordens que nos fossem dadas.

Não deixaram que parássemos um segundo, o que fez com que eu e Ann tivéssemos menos contato ainda. Eu planejava perguntar o motivo pelo qual ele pareceu meio para baixo no dia anterior, mas nem tive a oportunidade. Quando finalmente paramos para descansar, já era de noite, alguns minutos antes de começar a festa oficialmente, embora soubéssemos que o primeiro convidado normalmente chegava muito tempo depois e a festa só começasse realmente depois da meia noite.

– Estive te procurando por todo esse tempo, não consigo nem respirar direito – comecei, indo para um lugar mais vazio junto com Ann.

– Não nos deixam nem parar para descansar, antes de começar já estou exausto.

– Não sabia que nós é que tínhamos que montar toda a festa.

– Pois é.

– Mas enfim, já colocou o broxe? – perguntei, enquanto tirava do bolso um pequeno pacote com um broxe, que serviria como fone e câmera, para que pudessem ouvir e ver tudo no local onde estávamos, e um brinco de pressão, para que escutássemos as ordens e comandos do resto da equipe.

– Ainda não, me ajude a colocar.

Terminei de colocar tudo em mim e ajudei Ann a encaixar o broxe, já que ele parecia estar tendo uma certa dificuldade com ele.

– Tudo pronto, agora vamos logo antes que desconfiem de algo.

Quando finalmente achei que poderia ficar perto do meu parceiro, as ordens que recebi foram outras. Um homem alto, aparentando uns cinquenta anos e bem vestido interveio, ficando na nossa frente antes que pudéssemos entrar no salão principal.

– Você – ele apontou para mim – vá trocar de roupa. Ficará responsável por estacionar os carros.

– Mas eu não tenho outra roupa, e as ordens que eu recebi fo-

– Não quero saber que ordem você recebeu. Eu estou responsável por tudo aqui – ele mostrou um crachá onde dizia: “Organizador Geral de Eventos” – e você é mais bem apessoado que o estúpido que está lá fora. Sabe dirigir, certo?

– Sei.

– Então faça o que estou mandando. Siga aquela garota – o grandalhão acenou para uma garota baixinha de cabelos castanhos, pediu para ela me mostrar onde ficava o vestiário e continuou para mim: — e nem se atreva a bater, arranhar ou amassar o carro de um desses convidados. Entendeu bem?

– Sim, senhor.

– Já você – ele se dirigiu a Ann – pegue duas garrafas de champanhe e leve para a sala do lado a biblioteca.

Olhei para Ann relutante, mas o olhar dele me parecia tenso e um tanto com frio. Ele passou por mim sem dizer uma palavra, nem mesmo levantar o olhar do chão e seguiu até a cozinha, enquanto eu corria atrás da garota que me levou até o vestiário.

Troquei de roupa e fui para onde o grandalhão dissera. Era muito estranho o fato de terem me trocado de função logo agora, e mais estranho ainda, era o fato de que eu não conseguia contatar ninguém da equipe, inclusive Ann. Comecei a me preocupar, e depois de estacionar o carro de uma madame absurdamente magra e desengonçada, percebi que havia algo errado. Eu tinha que tirar essa história a limpo.

Pedi que o outro rapaz que estava estacionando os carros junto comigo para entregar as chaves, e subi as escadas que saiam do estacionamento subterrâneo, e iam parar depois do salão principal, quase me deixando perto da biblioteca.

Para minha surpresa não havia nada, nem ninguém na dita para onde mandaram Ann. Uma súbita sensação de pânico tomou conta de mim, e antes que eu pudesse perceber, estava correndo pelas escadas a procura de um sinal, enquanto a musica clássica e o som de conversas e risadas preenchia o lugar.

Quando finalmente cheguei ao jardim dos fundos da casa, ouvi vozes, então desacelerei os passos e me escondi atrás de um arbusto, de modo que não pudessem detectar nenhum ruído vindo da minha parte.

– Eles não encontrarão nada por aqui, tiramos todos os chefes a tempo – começou uma voz masculina meio rouca.

– Levamos eles para uma outra festa, em outro lugar – continuou uma nova voz – já podemos ir para lá? – o homem da voz fez uma pausa, talvez para esperar seja lá quem fosse responder, mas talvez essa pessoa tenha apenas acenado, já que não houve resposta audível – Então tudo bem. E o que fazemos com o policial que veio com o senhor?

– Não toquem nele, ou eu mato vocês.

Senti todo meu corpo gelar, não podia acreditar na voz que tinha respondido. Fiquei tão em choque que não consegui me mover enquanto ouvia alguns passos começarem a se afastar, percebi que se não fizesse nada, eles fugiriam.

Sai do meu esconderijo com arma em punho, apenas para encontrar Ann seguindo dois homens, um alto, moreno e magro, e um mais baixo, loiro e musculoso.

– ANN! – gritei, fazendo com que os três se virassem.

– Mikael? – ele fez uma pausa e apontou sua arma para mim.

Eu mal podia acreditar, ontem estávamos transando no chuveiro da delegacia, agora um apontava a arma para o outro.

– O que você pensa que está fazendo? – eu estava tão focado na traição de Ann, que mal percebi que os outros dois também apontavam suas armas para mim.

– Me perdoe, Mikael. Por favor, me perdoe – ele levantou a mão livre e acenou para que os outros dois seguissem em frente. Naquele momento nem tentei impedi-los, meu foco principal era meu ex parceiro, que havia traído não só a mim, como a equipe toda.

– Como você espera que eu te perdoe? Depois de descobrir QUE VOCÊ NOS TRAIU! – Cada palavra que eu dizia estava carregada de raiva, que eu não queria atirar nele, queria mesmo era bater nele com minhas próprias mãos.

– Eu precisei fazer isso.

– Precisou por quê? Te obrigaram.

– Quase isso – ele suspirou cansado, quando observei seu rosto, percebi que aquilo estava mortificando-o.

– Você entrou na delegacia para nos trair, não foi? Como pretende se salvar disso?

– Sim. Sinto muito, mas não pretendo deixar que você me prenda.

– Eu quero é te matar aqui e agora! Como pôde fazer isso com todos da delegacia? COMO PÔDE FAZER ISSO COMIGO?

– Não faça com que eu me sinta pior, eu realmente sinto muito, mas o que me une a Valentino, é mais forte.

– E por quê?

– Valentino é meu pai.

– Como assim seu pai? Então tudo que me disse, tudo que aconteceu entre a gente era mentira? É isso?

– Não,nem tudo, o que eu falei sobre o que sentia por você foi real, o que aconteceu ontem foi real.

– Não é o que parece! Vai ver nem seu nome deve ser Ann Leonhardt mesmo!

– Antonnie Leonhardt Valentino. Esse é meu nome completo. Ann é apenas um apelido, e Leonhardt é meu sobrenome por parte de mãe. Não posso evitar que fique com raiva de mim, se eu estivesse no seu lugar também ficaria, mas me perdoe. Eu juro que o que sinto por você é real, mas há coisas mais importantes e laços mais fortes do que uma paixão.

Senti meu coração vacilar quando ele falou isso, mesmo que eu estivesse com raiva dele, sei que Ann não teria coragem de atirar em mim, e nem eu nele, dessa forma já começava a imaginar que ficaríamos naquele impasse a noite toda quando ouvi três tiros, me fazendo lembrar de que o delegado Erwin ainda estava na festa.

Instintivamente me virei para onde veio os disparos, quebrando a atenção que eu prestava em Ann. Quando finalmente me virei para não deixá-lo fugir, ele não estava mais lá. Tentei correr atrás dele, mas quando o alcancei, ele já estava abrindo a porta de um carro preto, totalmente blindado.

As ultimas palavras que ouvi de Ann foram:

– Mi perdoni, amore mio.

E então o carro partiu, me deixando sozinho.

Notas finais
Ok, só gostaria de avisar que vem mais surpresa aí, agora poderemos ter um triângulo amoroso, ou quem sabe um quarteto... Espero ter tempo de escrever logo, já que até eu estou animada xD bjs e até a próxima :3