O Coven dos Espíritos
3 Deuses e Monstros
Notas iniciais
1962
Estavam os dois numa cama de algum hotel que Jenn não decorara o nome. Os lençóis de cetim branco os cobriam, enquanto ela ficava com sua cabeça pousada no peitoral de Nico.
Fechou seus olhos, querendo ter mais tempo. Daqui a algumas horas, os dois teriam que sair, um depois do outro, esperando cinco minutos de intervalo. Essa vida era muito complicada para uma pessoa como Jenn. Uma pessoa livre. Colocou-se de pé, para se arrumar. Suas mãos eram automáticas para prender a cascata enorme de cabelos louros platinados. Para Nico, era ouro líquido que escorregavam de suas mãos enquanto ele mexia no cabelo dela.
Nico lhe pegou com suas fortes mãos e a derrubou na cama, a abraçando novamente.
— Para quê tanta pressa, Jenn. Temos a noite inteira. Minha família está numa missão caçando os Delacourt e sua família está fazendo o Ritual do Esquecimento naquela vila.
— Talvez eu possa ajudar no Ritual.
— Você já ajudou muito apagando um incêndio com a mão para toda a vila ver. Agora sua família está cuidando disso. — Nico falou, olhando para a inquieta Jenn, em seus braços.
— Nico, tinham crianças lá dentro. Por que você e minha família ainda brigam comigo por causa disso?
— Você quase foi linchada. Esse é o motivo. Você sabe como são as pessoas. Como é...
— A sua família?
— Hum.
— Nico, no dia que sua família me pegar, vai ser o dia em que o ano irá ter 367 dias, me escutou? Não vai ser fácil.
— Jenn você confia demais nos seus poderes, sabia?
— É assim que funciona quando você desperta o Espírito, você sente que pode fazer tudo.
Nico riu e falou: — Basicamente, você pode. O Espírito derrota os outros elementos, evoca e invoca entidades, cria e descria feitiços, sem contar a grande quantidade representativa que ele tem.
— É tão legal quando você faz seu dever de casa — Jenn riu e o beijou por um tempo.
— Mas não é por isso que eu falo para ter descrição. Eu conheço você e conheço minha família. Sei que nunca te pegariam. Mas eu sei que eles usam as pessoas que você ama para te atingir e você não pode proteger a todos, sabe disso né?
— Ser uma bruxa de dezessete anos e ter um caso com um caçador de dezessete é muita responsabilidade, eu sei. Mas o sangue vem primeiro, já conversamos sobre isso. Nunca vou trair minha família e eu quero que você nunca traia a sua, entendeu? Só chegue perto de mim para eu poder ler seus pensamentos antes de matar alguém próximo a mim — riu na última frase. — Sacrifícios devem ser feitos.
— Cala a boca e vamos aproveitar nossa última noite, vai. — Ele sorriu e a beijou.
Numa terra de deuses e monstros, nós somos os anjos que se sacrificam todo dia. Só que ele é da família dos monstros, pensava Jenn, enquanto o beijava.
===
Hugh riu da cara assustada que Stephen formou na mesma hora em que ele falou a frase.
— Não é nada, Steph. Calma. Aposto que você fez alguma coisa para ficar assim tão assustado hein, o que é? Soltou uns nudes e agora tem gente querendo postar no Facebook? — Hugh riu mais ainda, entrando no quarto de Stephen e sentando na cadeira da escrivaninha.
Stephen relaxou e somente falou: — Não, eu não fiz nada. E eu não mando nudes, Hugh, isso tem a sua cara.
Os dois gargalharam da última frase que Stephen falara e começaram a conversar, falando de assuntos aleatórios, de como estava sendo o primeiro ano de faculdade para Hugh, pois ele já tinha dezoito e como estava sendo o segundo ano do Ensino Médio para Stephen, que iria fazer dezesseis.
— Cara, mas tipo, sem querer falar nada, o que você tá fazendo aqui? Você nunca vem aqui.
— Nico, o nosso avô, me convidou. Ele vai jantar aqui, para que seu pai o convidou. Sua mãe que deve estar feliz hein — os dois riram. Kourtney não suportava Nico, na verdade, quase ninguém o suportava além de seus filhos. Ele era bruto, tudo devia ser de seu jeito e somente ele estava certo, com todos seus conceitos de século XX.
— Deve estar sendo um saco viver com Nico. Seus pais disseram como vai ficar isso?
— Ah eu nem vejo muito ele. Nos fins de semana, em que eu não estou na faculdade, eu vou para alguma festa ou saio com meus amigos. Mas como a NYU deu uma semana vaga por causa de um negócio lá difícil de explicar estou tendo que aguentar ele essa semana. Meus pais deram meu quarto pra ele, acredita? Tenho que dormir no quarto de visita. Falando em NYU, eu vi sua prima, a... qual é o nome dela mesmo?
— Tenho várias, mas todas moram aqui, então deve ser a Nylie.
— Então, eu a vi naquela escola particular que tem no centro de Manhattan. Fui fazer um trabalho de pesquisa para diferenciar os alunos de escola particular de escola pública.
— Hum, falou com ela?
— Não consegui, tive que terminar o trabalho. Só reparei que ela não tem nenhum amigo e que a bunda dela tá enorme a cada ano.
Stephen riu e falou: — Pelo que eu sei ela enfrentou a Queen Bee da escola e acabou no chão. Ela me contou meio por cima, sabe. Cara, até esqueci-me de perguntar, você tá aí, o que quer dizer que Nico já chegou?
— Já. Na verdade, eu vim te chamar. A janta vai ficar quase pronta e Nico quer todos na mesa.
— Porra nenhuma. Diz para ele que eu vou dormir. O que é verdade. — Stephen disse e se deitou na cama mais uma vez.
Hugh levantou uma sobrancelha, pois sabia que uma pessoa como Stephen nunca dormiria às sete horas da noite. Ainda mais numa sexta. Falou, com a face séria:
— Você sabe como Nico consegue ser chato. Vamos lá, levanta. Tu tens todo tempo do mundo para assistir seu Game of Thrones — Hugh riu.
— Bom, a nova temporada nem saiu ainda, então... — Stephen se levantou, revirando os olhos.
Andaram até a cozinha, passando primeiro pelo enorme corredor da casa de Stephen, que tinha quadros e mais quadros pintados a mão. Do outro lado do corredor tinha a porta para o quarto de sua irmã e subindo as escadas tinha o quarto de seus pais que era três vezes maior que o seu e mais uma sacada bem grande. A sala de TV era um único cômodo unido com a sala de jantar e sala de estar. A cozinha ficava numa porta ao lado da sala de jantar.
Os dois contornaram a mesa de vidro de oito cadeiras e entraram na cozinha, onde Nico esperava Stephen. Kourtney estava tirando a carne assada do forno, como uma expressão fechada.
— Como está crescido, Stephen. — Disse, olhando-o de baixo para cima — Tem quanto de altura?
— Um e oitenta e nove.
— Não puxou para a família Andrad, pelo visto — riu, fazendo piada, pois a família Andrad toda era praticamente meio baixa.
— É não. — Falou Kourtney, entrando na conversa — Nem sei para quem Stephen puxou. As pessoas da família Bittencourt não são muito altas também, Nico.
— Hum, vai saber Kourtney. A carne está pronta?
— Sim, só falta o macarrão.
— Massa e carne vermelha numa noite? Vai deixar seus filhos gordos.
— Vou deixá-los bem alimentados, Nico.
Kane entrou na cozinha bem quando saiam raios dos olhos de Kourtney e ele falou, quebrando o gelo:
— Bom o que importa é a qualidade da comida. E o amor que Kourtney põe nela, não é meu amor?
— Na verdade, é sal mesmo.
Nico saiu da cozinha, decepcionado. A campainha tocou bem na hora e Stephen dando graças a Deus pela distração daquele momento constrangedor, foi atender. Na porta, havia uma mulher vestida totalmente de preto, com um chapéu. Quando tirou o chapéu, revelou ser uma visita que Stephen jamais acreditaria.
— Vovó! — disse a abraçando. Sua avó por parte de mãe estava ali, Jenn. Os cabelos louros dela em cascata sem nenhum fio branco pareciam ter saídos de um mundo dos sonhos para Stephen. Fazia muito tempo que não via sua avó. Por parte de que ela estava sempre viajando e por parte de que sua mãe era preguiçosa para dirigir até a outra ponta da Nova York.
— Oi querido, eu vim ver vocês. Sua mãe está?
— Está, entre, entre.
Jenn entrou, com seus saltos altos (e pretos) fazendo eco na madeira do carpete. Deixou seu chapéu em cima da mesa e tirou suas luvas. Era bem cara de sua avó andar totalmente sofisticada e nunca sair do salto ou de suas roupas extravagantes e luxuosas da coleção que ela comprava em cada viagem que fazia.
— Filha? — primeiro Kourtney não acreditara no que estava acontecendo. Depois de cumprimentos e tudo isso, Nico chegara à cozinha, perguntando porque estava demorando tanto.
— Estava no banheiro e quando volto a comida ainda não tá na mesa Kourtney? Oh — disse assim que levantou a cabeça e viu que Jenn estava ali.
— Você conhece a minha avó? — perguntou Stephen.
— Pelo o amor de Deus Steph, me chame de Jenn. Avó é coisa de velha. E sim, eu e Nico nos conhecemos, nós estudávamos na mesma escola quando éramos jovens.
— E mesmo ainda se reconheceram? — perguntou Laura, que chegara da faculdade e ouvira tudo.
— Jenn não mudou muito. Os anos tem sido bons a ela. Já eu... estou velho, não? — disse Nico. Com muita humildade, pensou Hugh. Para um homem de setenta anos, ele estava bem.
— Vamos todos jantar. Fica para o jantar, mãe?
— Claro Kourtney. Eu ajudo a colocar a mesa.
Todos à mesa, Laura os fez orar, todos, sem exceção. Stephen simplesmente fechou os olhos e fingiu. Não duvidou que todos além de Laura estivessem fazendo o mesmo. Sabia que Jenn estava, pois ouvia ela ao seu lado pegar a taça de vinho e beber.
Depois de alguns segundos, balbuciou um amém e começara a comer. Sua mãe tinha caprichado, tinha que admitir. Mesmo a comida estando muito boa, Nico ainda achava um modo de criticar.
— Ela colocou muito tempero nessa carne, não acha Kane?
— Sim, um pouco.
— Seu paladar ficou exigente não é Nico, não é o mesmo que comia bacon de sobremesa. — Jenn falara e Stephen, assim como Hugh, sentado ao lado de Laura, os dois não se aguentaram e riram baixo, cobrindo a boca com a mão.
— Agora tenho pressão para controlar, Jenn.
Nico deu um sorriso sem graça, pensando o quanto estava querendo fugir dali. Sentia a magia daquela mulher do outro lado da mesa, como se fosse algo que pudesse pular dela. Uma energia pesada. Magia representativa, ele descobriu. Essa vaca está me controlando facilmente, para eu não contar para Laura, Stephen e Hugh o destino deles. Droga.
Jenn leu a mente de Nico bem nesse pensamento e riu, para si. Sabia que essa batalha tinha ganhado. Ponto para os deuses, não é?
===
Num hospital público qualquer de Manhattan, Nylie e sua mãe esperavam sentadas num sofá branco encardido. Nylie olhava a sua volta só conseguia pensar no quanto odiava hospitais, com todas as pessoas doentes e sem esperança, toda doença espalhada por todo canto.
As paredes brancas e encardidas, com marcas de mãos que provavelmente deviam estar mortas ou sem esperanças, como todos. Ou mãos de pessoas que simplesmente tiveram uma gripe.
O banheiro cheirando a vômito era o pior para Nylie. Mas ela nunca soubera como a sala de espera podia ser torturante para todos e para ela. Esperando uma notícia, esperando uma chamada, esperando alguma coisa que os alegrasse. Mas também esperando o pior. Realmente, o nome daquela salinha fedida com um balcão que uma mulher claramente assistia Verdades Secretas num site fora escolhido bem. Sala de espera. E que espera. Nylie não aguentava mais, queria sair dali, mas seu senso dizia que não. Sua culpa também. Ela não havia feito nada, mas ver os olhos da diretora explodirem a sua frente realmente era muito louco.
E um pouco traumatizada. O arrependimento a corroia enquanto sua mãe só ficava calada, metralhando um casal de lésbicas. As duas seguravam a mão uma da outra, enquanto a que parecia ser mais menina estava pálida e com olheiras recentes. Nylie as olhou também, imaginando qual seria sua história. As duas pareciam terem sofrido tanto.
Desviou o olhar para não parecer igual a sua mãe, meio louca.
Um médico veio quase se misturando a parede, com suas vestes brancas e sua pele totalmente pálida. O cabelo grisalho não ajudava, tinha que admitir. Ele era o que estava operando a diretora. Nylie se levantou, rapidamente.
— A sra. Robin Parks não aguentou a cirurgia e faleceu, sinto muito. Aparentemente por algum motivo que não sabemos, seu sangue nos olhos esquentou tanto a ponto de ferver, o que fez eles explodirem, como você descreveu. Ela não chegou a morrer naquela hora, mas seu destino estava escrito. Teve várias paradas cardíacas, seu sangue basicamente secou em várias áreas do corpo, dificultou ser O negativo, pois nosso estoque está bem pobre.
— Cadê a família dela?
— Ela não tem ninguém. Nem número de emergência ela tem.
Nylie suspirou. Sua mãe se levantou e a chamou para ir embora, dizendo para ela que não tinha nada que podia fazer.
Nylie, colocando a culpa no choque e no trauma começou a chorar descontroladamente e pensou em que os médicos não fizeram nada além de prolongar o sofrimento da diretora. A diretora que ela não sabia o nome até o próprio médico falar. Chorou mais ainda em pensar nisso.
===
John corria rapidamente pela avenida, mesmo já sendo de noite. Os carros passavam rapidamente, basicamente jogando o gás carbônico na sua cara de quem estava correndo por ali. John se impressionou com a quantidade de gente que corria de noite.
Ele próprio só corria de manhã, uma hora antes de ir para escola. Correra este dia de noite para se aliviar. Aliviar a culpa que não sabia do quê, aliviar o estresse. Esquecer todas as perguntas dos médicos e policiais. O caso de Nicole era um mistério, ninguém sabia direito o que tinha acontecido com ela. E por isso, não foram nem um pouco discretos ao fazer perguntas totalmente indecentes ou que deixaram John de cabeça quente.
Não se atrevia a fechar seus olhos por mais de dois segundos desde o acontecido. Toda vez que fechava, vinha Nicole se engasgando com a própria em sua mente, como num paraíso negro, para lembrá-lo do quanto tinha desprezado aquela menina ingênua e meio burra. Tecnicamente não era culpa de ela ter sido tão grudenta ou idiota. Ou irritante.
Talvez existisse alguém para ela e isso não teria acontecido se John não tivesse a dispensado assim que percebeu que Nicole não era para ele. Maldita preguiça e maldito sexo bom.
Corria cada vez mais rápido, não se permitindo pensar nisso. Ligou o foda-se e pensou nas provas de habilidade que sua escola iria exigir na próxima semana. Tomara que eles adiem, afinal, alguém morreu, pensou.
Pensou estar indo mais rápido que todos por estar acelerando tanto, mas sua teoria provou-se errada quando uma loira absolutamente linda o ultrapassou. Ela corria rapidamente, mas seus passos eram leves como uma pena. Pensou em como ela era intrigante. E rápida.
===
Camile Knoux estava em seu quarto. Sentada a sua cama, com a nuca encostada na cabeceira da cama, fechou os olhos e pensou nele de novo. Quando um policial deu a notícia ela quase não acreditou. Finn era tão novo, tão jovem. E era seu primeiro amor. Talvez o segundo, se ela contar Stephen. Mas se ela contar que ela quase arruinou a vida do próprio, diria que seu primeiro amor não acabou bem.
Lenços umedecidos para secar as lágrimas não saiam de seus dedos, pois suas lágrimas não paravam de descer. Sentiu mais chegando, automaticamente, e subiu sua mão com lenços para secar. Quando o lenço encostou sua pele, não encontrou pele, somente água. Saiu encharcado, como se não existisse nada ali além de água.
Colocou seus dedos sob sua bochecha e eles afundaram. Ela tirou rapidamente com medo. Colocou de novo, lentamente, para verificar. Dessa vez, tinha pele. Levantou-se da cama e se olhou no espelho, vendo sua face normal, avermelhada com seus olhos um pouco inchados. Percebeu que depois do evento estranho do lenço, ela não conseguia mais chorar.
Foi dormir, pensando ser sono. Não era.
===
Em sua cama, Stephen se perguntava o porquê da conversa que ele e seu avô tiveram na mesa.
Nico lhe perguntara: — Stephen, você conhece um garoto chamado Finn Donovan?
— Conheço, por quê?
— Ah nada. Soube que ele morreu e ele era da sua escola. Vocês dois eram amigos?
Stephen balançou a cabeça negativamente e completou: — Definitivamente não.
Laura riu, quase querendo contar o que houve na Hawlock Green, Stephen a olhou com um olhar severo.
Nico continuou, sério. — Conhece alguém que não gosta dele?
Eu, Stephen pensou, mas não falou. — Não, eu não conheço. Não me meto nesses assuntos escolares, vovô.
Hugh riu no mesmo momento que Stephen falara vovô. Toda vez que algum primo Andrad se dirigia a Nico como vovô era um código para dizer que estava mentindo. Era quase como que uma tradição que Hugh conhecia muito bem, pois já tinha pronunciado vovô várias e várias vezes.
Jenn percebera o quanto Nico estava sério, achou estranho. Leu a mente dele e percebeu que algo havia errado com aquele corpo do menino Donovan. E percebeu que Nico estava certo. Os Soqencourt eram muito inteligentes para matar um adolescente qualquer, ainda mais um filho de quimera. Os Delacourt estavam totalmente escondidos e os Van der Court queriam viver em paz, longe de magia ou qualquer guerra com os Andrad. Só podiam ser os Bittencourt.
Isso significava... Leu a mente de Stephen e pensou no mesmo instante: Isso não é bom. Já? O Coven deles logo vai se atrair.
Fale com o autor