– Então... Acho que não entendi. Aconteceu o quê exatamente, pro seu melhor amigo, que você conhece desde a infância, te odiar tanto? – perguntou-me Lilly, amarrando os cabelos loiros, quando sentamos na fonte de água que ficava no meio do shopping.

– Você vai me fazer falar sobre isso mesmo, né? – resmunguei, guardando no bolso uma embalagem do sonho de valsa que tínhamos acabado de dividir.

– Uhum, uhum, você vai falar sim, queira ou não, porque está comigo. Quando tô curiosa sobre um fato arranco confissões até das pedras que testemunharam ele. Bobão. Principalmente se é essa a razão de você estar aqui, e eu ter te trazido de carro. Anda, anda, seje hômi, desembucha, bote pra fora...

– Eu...

– ...as palavras. Mantenha esse zíper levantado, hômi! – brincou ela, sorrindo e apertando os olhos verdes pra mim – Sério, fala.

– Beijei a ex-namorada dele... – suspirei – Você sabe como isso é complicado.

– Hm. E...?

– “E...” o quê? Foi isso. Bom... Ele tava junto no dia, era um encontro de amigos. E eu... Ok, eu não só beijei, eu também... Menti pra ele. Quando eu e ela nos afastamos pra longe do pessoal, eu disse que só ia pedir pra ela um conselho sobre um assunto.

– E ele caiu nessa? Que desatento, zente.

– Ele era meu melhor amigo. Não ia esperar isso de mim, né – falei com remorso.

– Tá... Hm... Duas coisas que eu não entendo... Primeiro, ele é idiota demais por ainda se importar. Gente, ele tem que ter um pouco mais de amor próprio, pelo amor de Deus! Ela é EX! E, segundo... Você... Eu ia te defender, mas agora que você falou em mentira, fica difícil. Sabe, ele era o seu melhor amigo e tal...

– Sei que me aproveitei da confiança dele. Mas... Eu não ia ter coragem de falar pra ele ali, na hora! E não é como se eu fosse esconder isso dele pra sempre. Bem... Claro que eu pensei nisso. Seria seguro, afinal. Mas... Não sou “forte” o suficiente pra carregar uma mentira dessas pro resto da vida, eu ia contar. Menti só pra ganhar tempo.

– Sei... Mas não é bem isso o que eu quis reprimir... Quero dizer, é uma amizade! De mais de dez anos! Sabe como isso é raro? Sabe quantas pessoas iam desejar isso, ter alguém com quem se sintam extremamente à vontade pra falar sobre tudo, pra serem elas mesmas, pra não ter que fingir algo que não são... Por mais que você se sinta sozinho, você sabe que sempre vai ter aquela pessoa, mesmo longe... Você trocou tudo isso por uma... Vagina, cara. Uma vagina. Vagina você encontra em qualquer lugar. Você pode pagar, se quiser, sabia? Qual era a diferença? A dela era rosada, algo assim?

– Não... sei. E... Não sei pra onde você tá querendo levar essa conversa, mas foi só um beijo. Aliás... Um beijo surpresa.

– Hã?

– Um beijo... Surpresa. Beijo roubado.

– Seu... Safadão! – disse ela, batendo nas minhas costas – Mas cê sabe que por sorte não levou um tapa na cara, né?

– Aham... – olhei pro rosto risonho e macio de Lilly e me bateu uma dose de curiosidade – O que você faria? Se um cara te beijasse assim.

– Não sei. Se fosse um desconhecido, ia... Bater nele, acho. Mas se fosse um amigo, acho que eu ia levar mais de boa.

– Se fosse alguém por quem você não sentisse nada? – perguntei, triste.

– Ih... Não foi correspondido?

– Responde.

– Olha... Eu... Não sei... Eu provavelmente ia ficar pensando muito nisso. Tipo, 24 horas. Eu me conheço, sei que isso ia martelar muito a minha cabeça.

– Mesmo que fosse alguém por quem você não sentisse nada?

– Mesmo assim.

– Hm...

– Mas, me conta... Não estou entendendo... Que mentira você contou pro cara lá pra levar ela pro cantinho? E, se foi surpresa... Você enganou ela também?

– Eu tinha organizado o encontro, chamei uma galera. Eu... Gosto dela , já faz um tempo. Chamei ela pra gente se divertir, e aproveitar para que eu pudesse, sei lá, ao menos dizer. Não era pra ele estar junto.

– Ih! O bom e velho empaca-foda...

– É...

– E então?

– Olha... Eu sabia que se eu não fizesse algo naquele dia, iria me arrepender pro resto da vida. Sabe aquele negócio de: “melhor fazer algo e se arrepender do que se arrepender por não ter feito algo”? Eu tava nessa vibe... Eu preferia qualquer resposta, menos resposta nenhuma. Ela terminou com o Lucas há quase dois anos, foi depois do término que eu a conheci, eles dois continuam muito amigos até hoje, e desde aquela época eu... Sentia algo. Queria ela.

– Nossa, é pior do que eu pensava – disse-me Lilly, fincando os olhos profundamente verdes nos meus e me olhando como se eu fosse um doente.

– E sabe o pior? Eu já tinha até falado isso pra ela, há uns meses. Sabe, numa conversa, falei que era afim dela quando a conheci. Ela me disse que, se eu tivesse pedido na época, a gente ia sair.

– Hm... Acredito nela.

– Então, no encontro... Eu disse pro Lucas que tinha voltado a ficar afim da Isabelle. Isabelle é a irmã dela. Minha... Ex. Falei pro Lucas que ia levar a Louise pra conversarmos a sós sobre isso. Pra eu perguntar a ela se tinha alguma chance.

– HÃ? O QUÊ? SUA O QUÊ?

– Minha ex. A irmã mais nova dela... É... Minha ex. Mais ou menos ex, na verdade.

– Como assim...?

– Eu só conheci a Louise quando ela terminou com o Lucas, num evento de animê. Sabe... Ele é um cara que tem ciúme de mostrar a namorada pros amigos. Eu vi a Louise, e, nossa. Que gata. Se você ver, não acredita. A pele dela, tão... Branca. E os lábios... Nossa, o formato dos lábios, cara... E o cabelo preto, repicado... O nariz tão fininho... Os olhos bem pretos, e bem grandes, gigaaantes...

– Tá bom, tá bom. Prossiga, homem. Se bem que, com olhos desse tamanho, parece mais um monstro, hein... E a irmã?

– Eu não podia dar em cima da Louise. Ia arrasar o Lucas.

– Claaaro, melhor puxar a potranca pro cantinho e tascar um beijo nela com ele perto, nééé?

– Deixa eu terminar? Eu... Dei em cima da irmã dela. Ela não sabia beijar, hahah. Tive que ensinar. A gente se babou muito. Mas... Saímos por uns 3 meses, não durou muito. Não sei se dá pra chamar de "ex", né? Por isso falei "mais ou menos ex".

– Deixa eu adivinhar... Você ficou com ela porque queria se sentir mais perto da Louise. Se sim, isso na verdade é uma das coisas mais tristes que eu já vi um amigo ou amiga fazer, mas...

– Pensei muito nisso, ultimamente. Acho que, talvez sim. Eu falava muito na Louise quando estávamos juntos, tanto que ela reclamava disso às vezes. Uma vez, eu... — lembrei disso e ri um pouco, me achando ridículo — Cheguei a esperar quase uma hora na porta de um teatro, só pra poder vê-la. Sabe... E se eu estivesse, na verdade, esperando pela Louise e não por ela? Penso muito nisso. E, sinceramente, só me faz me sentir pior. Mas não lembro de esse ser meu motivador principal... Realmente curti a Isabelle.

– Então a resposta é "não"?

– Não.

– A resposta é "não"? Ou você disse "não" pro meu "não"? — perguntou Lilly, confusa.

– Eu... Hã? Sei lá... — rimos juntos, como dois otários — Só disse que realmente curti a Isabelle. Não acho que fiquei com uma só pra estar perto da outra... Ou pelo menos — suspirei — não quero achar...

– Ela é... Tão bonita quanto a Louise? – perguntou Lilly, desviando o olhar.

– Haha. Tem amigo meu que diz que é mais, até. As diferenças... As duas são bem magras, mas ela é um pouco mais alta, enquanto a Louise é baixinha... O cabelo preto era bem longo, e não é repicado nas pontas como o da Louise. Mas eu gostava dele longo... Recentemente eu a vi de novo e o cabelo estava curto... Acho que perdeu a graça, pra mim. Bem... Os olhos eram verdes. Ela usava um aparelho, que eu achava lindo até. Hahah, e ela tinha umas olheiras escuras que tentava esconder com maquiagem quando tava comigo, mas que eu via nas fotos. Por causa delas ela era bem parecida com um panda. Ela também tinha... Hã... – me encabulei pra falar – Um pouco mais de peito. A Louise não tem quase peito nenhum. Mas eu acho muito sexy peitos pequenos, pode me julgar por isso. E... A pele dela era muito mais branca. Muito mais. Tipo, enquanto as pontas dos cotovelos da Louise são um pouquinho amarronzadas, as delas eram... Rosadas.

– Cara, você tem uma tara por pele branca, hein.

– Não tenho vergonha de admitir isso... Curto meninas com peles pálidas mesmo. Tipo, não vem me dizer que é racismo, é só uma preferência. Assim como tem mulher que prefere homem bronzeado, ou as que só querem homens mais altos do que elas, e tal. E acho lindas muitas meninas de pele escura também.

– Naaah, eu entendi, relaxa. Mas então... A desculpa que você deu pro Lucas foi dizer que ia conversar sobre a Isabelle. Que você tinha voltado a ficar encantadinho pelos cotovelos rosados dela.

– Foi. Disse pra Louise que queria conversar, nos afastamos e a gente se sentou... – olhei ao redor – nessa mesma fonte. Daí pedi uns conselhos sobre umas coisas. A gente costuma aconselhar um ao outro pelo facebook. E então, disse que ia fazer uma brincadeira e ela topou, pedi pra ela fechar os olhos, e... Smack. Beijei.

– Seu filho de uma puta.

– Foi... Tão mal assim?

– Brincadeira. Seu safado, hahah. Mas e então, qual foi a reação dela??

– Sabe que... Não foi exatamente boa, mas pra quem esperava um tapa, um sorriso foi muito... Surpreendente.

– Sorriso?!

– De primeira ela falou “Por que você fez isso??”... Daí percebi que ela tava sorrindo. Tá certo que ela manteve um braço levantado pra me separar dela por um tempo, mas depois abaixou. Mas eu vi... Ela ficou sorrindo.

– Sorriu! Então... Então... Quer dizer que ela não se importou nem ficou com raiva de você... Talvez ela até gostou... Um pouquinho. E depois?

– Foi isso. Ela ficou me pedindo o motivo. Tipo, o motivo de eu ter feito aquilo. Mas eu não queria falar ali, na cara... Eu não tinha estrutura pra isso... Não pra levar um fora...

– Talvez nem levasse!

– Não... Era certo que não ia dar certo. Confia em mim, eu sei. Então... Então eu só disse que fiz porque quis. Não dei motivo. Depois de ela insistir um pouco, eu disse que era melhor a gente voltar pra livraria, que era onde estava o Lucas e o resto do pessoal. A gente foi, conversando. E... Nossa... Acho que nunca fiquei tão feliz por causa de uma menina... Ficava na minha cabeça “Eu beijei a Louise... Eu beijei a Louise... E ela... Sorriu” – fiquei sorrindo pra Lilly como um idiota – E ela... Ficou estranha o resto do passeio. Ela é cheia de TOCs, sabe? Então... Dá pra perceber quando ela não tá à vontade numa situação, é muito claro.

– E quando o Lucas falou contigo, você mentiu.

– Foi fácil. Eu disse que não tinha chance, que a Louise falou que a Isabelle não gostava de mim. Ele disse que já previa, que era melhor eu nem tentar. E... Ele até tinha motivos pra acreditar nessa mentira... Antes desse encontro, ele foi convidado pra festa de niver da Isabelle, e eu liguei pra ele lá, perguntando sobre ela... Mas só porque tinha um cara amigo dela que eu achava que estava afim da Louise, e eu queria saber se estava rolando algo, se estivesse o Lucas diria. Daí pro Lucas não desconfiar que eu tava de olho na Louise, eu fiquei demonstrando raiva por ele ter sido convidado pela Isabelle e eu não. Por causa disso, ele diz que eu tenho inveja dele, por eu, além de ter beijado a Louise “à força”, não ter sido chamado pro aniversário. Mas... Não me importo com esse aniversário. Não faria sentido eu estar nesse aniversário. Tipo, eu queria desmentir isso, mas isso seria admitir outra mentira. Não tinha coragem pra isso ainda.

– Você foi um ótimo mentiroso. Planejou muito bem, muito mesmo. E... Sobre o que ele disse de “à força”...

– Acha que foi “à força”?

– Não... Beijo roubado acontece muito. Tem até aquela música do SandyJúnior (beeem antiga!).

– Dig Dig Joy, Dig Joy não-sei-o-que-lá...

– Aham. E... “À força” ia ser se você encostasse ela na parede e segurasse os braços, olhasse fundo nos olhos dela... Ri, ri, até que tem muita mulher que curte ser pegue à força assim. Lógico que não por qualquer babaca. Mas, sobre o que ele disse de “inveja”... Não acho que é inveja... Você pode ser só um tarado.

– Hm?

– É, pensa bem... As duas meninas mais lindas dessa cidade, segundo a opinião do amante de cotovelos cor de rosa aqui... Você pegou uma, e depois a outra. Provou dos lábios das duas. O Lucas que deve estar com inveja disso, hahahah. Mas você provou. Pode se lembrar quando quiser. Dos lábios... Do cheiro delas... Do hálito...

– Ei! Primeiro, eu não disse que são as mais lindas dessa cidade... Não mesmo... E segundo, não... Não acho que seja esse o caso...

– Como não? Se imagina de noite, você deitado, sem nada pra fazer, porta do quarto fechada, daí de repente você tem uma... “Armada de barraca”, hahah... Quanto "material" com elas duas deve ter na sua mente pra você se divertir, hein?

– Lilly! – falei, envergonhado, fincando os olhos no chão.

– Calma, to brincando, hahah. Mas você é homem, tem necessidades. Tudo bem. Se você se masturbar muito, eu acho que entendo, mesmo considerando desnecessário... Você perdeu um amigo porque queria a garota, e não está com ela. Deve estar muito triste. Pessoas tristes, elas... Se masturbam mesmo que isso não resolva nada.

– Não estou me masturbando loucamente, e não foi tão triste no começo. Eu realmente não tava me importando... Achei que perder ele ia valer à pena, se fosse pra fazer aquilo. Achei que eu não tinha o direito de deixar uma amizade interferir em algo que parecia ser tão bom, pra mim e pra ela, se ela correspondesse.

– Olha...

– Foi um erro... – falei, olhando nos olhos da Lilly, não querendo passar uma impressão errada de quem não estava arrependido — O pior erro.

– Eu sei disso. Eu sei que foi um erro – disse ela, carinhosamente, passando a mão no meu rosto – Eu sei, tá? Relaxa.

– Sabe?

– Uhum. Como ser humano, você tem o direito de ter pensado dessa forma pelo menos uma vez na vida. Pelo pouco que conheço de você, você ainda é... Eu não diria imaturo, mas não sabe de muita coisa. Não vivenciou muita coisa. Você ficou jogando videogame até os 18, CARA! Só agora que começou a sair de casa, a lidar com pessoas. Situações difíceis assim vão se repetir. E... Pra gente valorizar certas coisas, a gente precisa perdê-las primeiro. Se tudo der errado... Pelo menos esse aprendizado fica, ok?

– Hoje eu sei... – falei, quase chorando – Que foi um erro. Eu... Olho em volta, e vejo o que perdi com isso... E me sinto... A pior pessoa do mundo. A mais... Nojenta. O quanto eu devo ter decepcionado ele? Não valeu à pena. De jeito nenhum. Ainda mais porque, de certa forma... Perdi ela também.

– Hm? Achei que tinha ficado de boa com ela.

– Quando o Lucas descobriu... Ele enfiou todo o tipo de merda a meu respeito na cabeça dela. Ela não deixou de falar comigo... Mas me confessou que se sente meio desconfortável, nessa situação. Que não sabe o que fazer. É claro que o Lucas ganha a preferência dela inevitavelmente, eles são muito amigos, têm muita intimidade.

– Hm, muito?

– Muito, desde que terminaram. O Lucas gosta dela até hoje... Ele alimenta esperança de poder voltar, mesmo ela tendo recusado os pedidos de volta dele. E mesmo assim, mesmo sabendo disso, eu...

– Você fez muita merda. Mas... Gostar da Louise não é um erro, fica de boa.

– Parafraseando “Eu, meu irmão, e nossa namorada”?

– Tava até achando que esse filme foi que te motivou, tô certa?

– Há! – sorri – Tá sim. A diferença... É que no filme ela já estava apaixonada por ele... – meu sorriso ficou melancólico e Lilly percebeu. E, de repente, como que por impulso, ela se inclinou pra frente, e me beijou.

– Lilly? O... O quê...?

– E aí, é bom? Isso é um beijo roubado – ela me abraçou, sorrindo, e falou no meu ouvido – Vai dar tudo certo, tá bom? Você nunca está sem nada, não enquanto tiver a si mesmo. Se valorize, saiba quem você é. Enquanto você souber perfeitamente quem você é, o que você quer da vida, as coisas que você quer fazer... Nada nesse mundo pode te derrubar.

– Talvez eu... Não saiba ainda.

– Se você ainda não souber, descubra – disse, ainda sorrindo – por agora, você deve ter muitas dúvidas, sobre muita coisa, mas... Ache as respostas, ok? Concentre tudo o que puder pra achá-las... E quando você achar... Tanta, mas tanta coisa vai ficar clara pra você... Você vai entender coisas estranhas, das quais agora só tem uma vaga ideia, como... Como o amor. Sua vida vai começar. Ache elas. Não deixe mais os adultos te dizerem o que fazer, esse tempo já passou. Me promete... Que quando você achar as respostas... Você vai fazer tudo, tá? Tudo – ela estava chorando um pouco. Acho que eu também.

– Prometo – gaguejei.

– Preciso ir embora, já. Bom encontro com seu amigo. Tente ser sincero, só. Com você mesmo e com ele. O resultado não importa.

– Tá – gaguejei.

– Fica bem, taradinho por cotovelos cor de rosa.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!