O Corvo
1 O Forasteiro
Mesmo na total penumbra era possível ver o brilho sanguinário em seus olhos.
O cheiro de sangue e cadáveres impregnava o ar, o cheiro dos corpos em decomposição, deixados pela milícia no beco, podiam ser sentidos mesmo nas ruas principais.
O forasteiro sabia a regra, nada de pessoas na rua depois das oito horas da noite. Isso não lhe impediu de gritar e bater com um pedaço de pau nas barras de metal nas janelas das casas.
Não demorou nem cinco minutos para que sete soldados da milícia aparecessem.
— Alguém foi trocha o suficiente para provocar uma brisa? — Perguntou um deles. O sorriso maldoso era visível mesmo sobre o capacete de metal prateado.
O forasteiro não respondeu, simplesmente largou o pedaço de madeira no chão e correu em direção ao soldado mais forte desferindo-lhe um golpe no lado direito da cabeça. O golpe havia sido forte o suficiente para amassar o capacete de metal do soldado e arremessá-lo contra dois de seus colegas que logo se levantaram.
O ultimo soldado arremessou uma faca, a lâmina acinzentada reluzindo sobre a luz da lua passou a poucos centímetros do rosto do atacante.
Os dois guardas que haviam caído agora estavam de pé, cada um com um hematoma na testa por causa do impacto da queda.
Ainda havia seis vivos.
O primeiro deles deu dois socos, ambos no ar. O forasteiro havia ficado atrás dele e o empurrou para parede.
O segundo tomou um, dois, três socos na testa até ficar desnorteado e ser empurrado de encontro com o terceiro cravando por acidente a faca no vão da armadura do companheiro.
Os outros quatro não foram lá tão fáceis assim, mas em menos de cinco minutos o único que restava era o que havia caído desnorteado sobre o chão.
— Grite pelas ruas, até chegar aos ouvidos de vosso rei: “O corvo vem ai e com ele vem a morte”, grite tão alto que seus pulmões estourem e até que sua língua não possa mais ser movida: “O corvo vem ai e ele quer a cabeça do rei em suas garras”.
O corvo seguiu noite adentro cada vez mais profundo na podridão daquela pequena cidade. Por onde passava corpos vestindo armaduras prateadas ficavam. Os olhos do homem brilhavam a cada golpe, a cada gota de sangue derramada um sorriso se abria em seu rosto.
O sol despontava no horizonte, fazendo o sangue que cobria as ruas brilhar, quando o corvo olhou para trás e viu a sua trilha, a sua arte, a sua justiça e então imitou o pássaro que levava o nome.
A sua frente estava o seu único objetivo, com grandes portões de ferro formando o desenho de rosas, a mansão do rei.
O jardim de rosas, rubras como o sangue sobre aquele céu alaranjado.
— E então foi nisso em que se transformou? — Perguntou uma voz grave que parecia vir de todo o lugar ao mesmo tempo.
— Vocês me transformaram nisso, é sua culpa! — Gritou o forasteiro deixando toda a sua raiva escorrer por seus olhos em formas de duas enormes lágrimas frias.
— Se me odeia tanto assim, vamos, mate-me. — Disse o homem surgindo de trás das sombras dos pilares na sacada.
Uma coroa de prata com adornos de ouro estava sobre os cabelos alvos e escorridos que cobria grande parte um rosto velho.
Um sorriso de deleite surgiu entre os lábios do corvo.
— Qual seria o sentido de eu te matar? — Uma risada aguda perfurou o ar. — Se eu lhe matar serei visto como vilão e não como o herói que trouxe de volta a essa terra esperança através da morte.
O homem apontou para a rua principal cheia de corpos e sangue, onde o povo começava a sair.
— Eles vão lhe matar, de dento para fora.
O forasteiro deu meia volta.
Todas as pessoas das ruas viam suas roupas pretas manchadas com o vermelho do sangue agora pintava a cidade. Queria que lhe vissem e que soubessem que algo a partir dali seria diferente.
Fale com o autor