O Coração Quer O Que Ele Quer
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Enquanto me arrumava para a formatura, liguei para Sol, na esperança de conseguir alguma informação, mas em vão, pois ela disse que não estava sabendo de nada. Desliguei e me apressei com a arrumação, estava atrasada e Zé me esperava na sala, onde conversava com o seu mestre, vulgo meu pai. Colocara um vestido preto com alguns detalhes em renda branca, uma sandália de salto preta, algo incomum para mim, que não estou acostumada com salto. Bianca me ajudara com a maquiagem, outra coisa que eu usava de vez em nunca, mas achei necessária, já que estou indo a uma festa. Terminei, dei uma última olhada no espelho, e confesso ter visto algo que me agradou.
Saí do quarto e meu pai parecia chocado com o que via, o que eu entendo, pois raramente eu me arrumava. Ele disse ter ficado feliz por aquilo, agradecera Zé pelo convite e fez suas recomendações, desde “não deixe a K beber muito” até “mate qualquer idiota que ouse se aproveitar dela”, digno de seu Gael. Dei um beijo nele e em Bianca, e saímos rumo à festa.
“K...” Zé quebrou o silêncio, fazendo com que minha atenção, que antes estava para o movimento na rua, passasse para ele. “Você tá muito bonita.” Sorriu gentil.
“Que isso, Zé. To normal, cara.” Não era normal um lutador da academia me achar bonita, eu pensava que era como um homem para eles. “Mas obrigada.” O silêncio fez-se novamente. E finalmente, chegamos.
Zé estacionou o carro, saímos e rumamos para dentro do salão. Assim que entramos, fiquei encantada com aquilo, imaginando quando e como seria a minha festa. A decoração era linda, flores por todos os lados, dando um aspecto de um castelo, e as luzes eram diferentes, dando um ar de mistério ao local.
Meu olhar voltou-se para o palco, onde Sol e a banda tocavam uma música do Skank, balada do amor inabalável, uma das minhas preferidas. Fui me aproximando e ali permaneci, com Zé no meu encalço. Ele logo se pronunciou, dizendo que ia pegar algo para bebermos. Após alguns minutos, sinto que alguém se aproximando.
“Linda música, não acha?” aquela voz não me era estranha.
“É sim.” Disse ainda com os olhos voltados para Pedro, que me encarava com um olhar triste.
“Sabia que é a minha música com o Pedro?” Não podia ser... “Quando fizemos um mês de namoro, ele a tocou pra mim.” Virei-me e vi quem eu não queria ter visto.
“Você...” Não podia ser verdade. Sua cara de cinismo me irritara.
“Vicky, prazer.” Sorrira, parecendo que estava gostando daquilo. “E você é Karina, suponho eu.” Ela realmente se divertia com aquilo. “Pedro me falou de você.” Ele falou de mim pra ela?
“E o que ele disse mesmo?” Precisava saber.
“Nada de mais, querida. Não se preocupe.” Sua cara de pau era desmedida. Ela estava a ponto de me tirar do sério, aquela salva vidas de aquário. Respirei fundo e voltei a atenção para a música.
“Mesmo que a gente se separe
Por uns tempos ou quando
Você quiser lembrar de mim
Toque a balada
Seja antes ou depois
Eterna Love Song de nós dois.”
Balada do Amor Inabalável – Skank
“Essa parte da música ele fez questão de reforçar no dia em que a tocou. Mesmo que a gente se separe... Um fofo né?” Ela não cansa não?
“Nossa, muito fofo mesmo. Shippo vocês, querida. Pedro e Vicky – pensei – Vidro! O fandom de vocês bombaria, pode ter certeza.” Terminei e sorri amarelo para a anãzinha. Ela parecia irritada depois do que eu dissera.
A música terminou e Sol desceu do palco, acredito que foi descansar. Foi então que Pedro tomou o posto de vocalista. Respirou antes de iniciar o discurso.
“Boa noite, galera! Meu nome é Pedro, sou o guitarrista da banda. A nossa vocalista teve que dar uma saidinha, mas a música não pode parar, não é mesmo?” Todos gritaram concordando “Então, eu vou cantar um pouquinho. Essa música é inédita, eu mesmo que a escrevi e espero que gostem.” O público pareceu não se importar com a troca de vocalista, e logo estavam ansiosos pela letra, assim como eu.
“Aposto que essa é a música que ele escreveu para mim!” Seguranças, alguém tira essa criança do meu lado, por favor? Nesse interim, Zé voltara com as bebidas. E eu ignorei a baixinha.
“Ela tá te atrapalhando, K?” Ele a olhava, de cima a baixo, enquanto me entregava as bebidas.
“Tem mais alguém aqui? Acho que não.” Dei uma risada, pegando a bebida. Acredito que nem isso sossegaria aquela garota. Foi então que Pedro iniciou a música, só que agora, tocava seu violão.
“Ontem te falei que você é tudo que eu mais quero
E o meu coração só tem lugar pra você, só você
Essa mistura louca de desejo
Me perco toda vez que eu te vejo
Eu sei
Sem você não tem rima a minha canção
Você inspira os meus sonhos
Eu venço a solidão.”
“Pedro é um lindo, olha essa letra...” A outra se pronunciou, com uma voz melada. Continuei prestando atenção na letra, ignorando-a mais uma vez.
“Toda vez que eu ouço a sua voz
Sinto o gosto do seu beijo
Quero ser seu mundo
Vem com tudo
Vem matar o meu desejo”
“Em suas músicas, ele sempre põe algo que lembre a mim. Ai como eu o amo! TE AMO, PEDRO!” A louca gritara, e assim como eu, Pedro a ignorou, me fazendo rir.
“Quero mergulhar no azul desse olhar
Poder navegar
Quero te dizer sem medo de amar
Eu quero você
Quero mergulhar no azul desse olhar
Poder navegar
Quero te dizer sem medo de amar
Eu quero você pra mim
Eu quero você pra mim”
E na última estrofe, eu paralisei.
“A menos que eu seja daltônica, acho que essa música não é pra você.” A encarei e pude ver sua feição de raiva ao perceber a cor da íris dos meus olhos. Ótimo, pensei.
Seu olhar ia de mim para Pedro, e eu deveria imaginar que ela não deixaria isso barato. Foi então que consegui, finalmente, saber o que queria.
“Que seja, queridinha. Mas sabendo das coisas, eu posso apostar que essa música não vira um hit.” Ela iniciou a sua destilação de veneno gratuita.
“O que você tá falando aí?” a encarei, com uma cara de poucos amigos.
“Pensei que o Pedrinho tivesse te contado. Eu falei com o meu pai e ele vai conseguir um contrato para a banda.” Então ela estava querendo mesmo se redimir. “Mas como nada vem fácil na vida, você já deve imaginar o que eu pedi em troca, não é?”
“Então foi por isso...” Pensei alto.
“A loirinha não é tão burra. Agora eles vão fazer sucesso e eu vou ter o Pedro só pra mim.” Finalizara e voltava a curtir a música. E eu fiquei paralisada, digerindo o que eu tanto quis saber.
“K, tá tudo bem contigo?” Zé tocou meu ombro. Engoli a seco, respirei fundo e virei-me para ele.
“Tá tudo ótimo, Zé. Vem, vamos dançar.” Superei aquilo o mais rápido possível, não ia dar a ela o gostinho de me ver abalada. Então, comecei a curtir a música com Zé.
Pedro terminara a música, que parecia ter tido uma boa aceitação da galera. Ele estava agradecendo ao público quando Vicky subiu no palco e o beijou. Aquilo me deixou balançada e eu estava prestes a cometer um homicídio, mas Zé chamou-me para conhecer uns amigos da faculdade. Eu agradeci-o, em pensamentos, por ter evitado uma tragédia. Um tempo depois, Sol estava de volta ao palco, ela percebera o que acontecera e depois de conversar algo com Pedro, foi até o microfone.
“Boa noite, Brasil! Meu nome é Sol e eu, como puderam perceber, sou a diva da banda.” Todos riram e ela continuou. “Agora vamos tocar uma música romântica, para os casais apaixonados da festa. Espero que gostem.” Finalizou e fora se sentar em um banquinho, que estava no palco. Parece que seria um dueto dela com Pedro. Agora fora Zé que me levara para a pista de dança. Ele se aproximou, grudando nossos corpos enquanto dançávamos juntos. A música começara, e pude escutar alguns gritinhos das garotas da festa. Pedro começou a cantar, sua voz era surpreendentemente linda, mas mesmo assim com um fundo de tristeza.
A letra parecia triste e, graças ao meu inglês intermediário, consegui traduzi-la enquanto dançava. Sol e Pedro passavam a letra um para o outro, de uma maneira mágica, parecia que estavam conversando enquanto cantavam. Durante a canção, Zé dizia uma ou duas coisas, que eu não entendi, mas sorri de volta, para não deixá-lo sem graça. E foi quando o refrão chegou, que entendi o ‘recado’.
“Hmm... too young, to dumb to realize (Pedro)
(Hmm... Jovem demais, burro demais para perceber)
That you should've bought me flowers and held my hand (Sol)
(Que você deveria ter me comprado flores e segurado minha mão)
Should've give you all my hours when I had the chance (Pedro)
(Devia ter lhe dar todo meu tempo, quando tive a oportunidade)
Take me to every party (Sol)
(Me levado para todas as festas)
Cause all I wanted to do was dance
(Porque tudo que eu queria fazer era dançar)
Now my baby is dancing, but she's dancing (Pedro)
(Agora meu amor está dançando, mas ela está dançando)
With another man...
(Com outro homem)"
When I Was Your Man — Bruno Mars
Na última nota olhei para o palco, Pedro tinha seu olhar focado em mim e em Zé, um olhar triste. Uma lágrima caiu e meu coração apertou. Vicky assumiu o seu lado, abraçando e olhando na mesma direção que ele. Voltei meu olhar para Zé, que sem mesmo qualquer ação minha, beijou meus lábios, selando assim, a música que acabaram de tocar.
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