O Coração Quer O Que Ele Quer
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Nossa festa de comemoração não sairia se eu não intercedesse. Cada hora um dava uma ideia e depois de séculos ainda estávamos parados no mesmo lugar sem ter decidido nada. Foi então que eu dei a brilhante sugestão de fazermos uma social em minha casa e, graças ao senhor bom Deus, todos aceitaram.
A festa seria a noite, dando-nos tempo para arrumar e comprar tudo. Os garotos ficaram responsáveis pela comida e pela bebida, enquanto nós, garotas, ficamos por conta da decoração. E, por termos amigos músicos, Sol e Pedro fariam suas partes animando a social. Tudo combinado, agora eram mãos à obra. Mas antes, uma pessoa esperava por mim.
“Karina!” Meu pai estava uma pilha de nervos quando abri a porta de casa.
“Pai, eu passei!” Gritei e sorri.
Ele correra para me abraçar, e por mais que eu não estivesse acostumada com esse tipo de carinho vindo dele, deixei-me aproveitar o momento.
“Minha filha, eu tô tão orgulhoso de você!” Ele dizia com a voz embargada.
“Obrigada, pai.” Disse em um tom quase inaudível, logo me desmanchando em lágrimas, junto a ele.
Ficamos um bom tempo ali abraçados, apenas curtindo um momento “pai e filha”, que era raro já que sua atenção era basicamente toda para a filha predileta: Bianca. Mas eu não iria ficar com esse ciúmes – talvez fosse ciúmes mesmo — eu iria aproveitar.
Após essa cena, meu pai pediu para Beth que fizesse um almoço para comemorarmos, e que logo fora preparado. Eu, meu pai, Bianca e Beth – porque não fazíamos distinção, ela não era a empregada, ela era parte da nossa família – almoçamos juntos, num clima de paz e que ninguém iria estragar.
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PoV PEDRO
Estávamos num supermercado comprando algumas coisas para a social de daqui a pouco. Nós deveríamos ter ficado por conta da decoração, porque homem escolhendo as coisas nunca dá certo.
“Vamos levar só bebida alcóolica?” Eu perguntei segurando o carrinho com as compras enquanto Duca e Cobra o enchiam de cervejas e outras bebidas. “Melhor levar suco também, não é?”
“De raranja, pra mulher do Wallace. E não podemos esquecer o toddynho.” João disse mexendo no celular.
“Toddynho?” Perguntamos em uníssono.
“Pra criança que o Cobra pegou pra criar.” Todos riam enquanto João levava um peteleco de Cobra.
E foi assim até a hora do caixa, cada hora um tirando sarro da cara do outro. Terminamos as compras por volta das 17 horas, e antes de irmos para a casa da Karina, passamos na minha para que eu pegasse meu violão.
“Mal chegou e já vai sair, filho?” Minha mãe perguntara enquanto assistia a novela. “Vai aonde?”
“Numa social, dona Delma. Mas não preocupa que não chego tarde. Cedinho eu volto, ta?”
“Cedo que horas, filhão?” Agora era meu pai.
“Lá pras 6 da manhã.” Eles olharam-me assustados. “Vão dizer que 6 da manhã é tarde. Pra mim é cedo. Tarde é meia-noite.” Ri pegando meu violão. “É brincadeira, não demoro.” Dei um beijo em cada um, saindo de casa. Meu celular vibrara no momento em que adentrei o carro.
Vicky
Tem compromisso hoje? (17:15)
Eu
Tenho, pq? (17:16)
Vicky
Posso saber com quem? (17:16)
Eu
Com meus amigos. (17:17)
Vicky
Só não esquece a gravação do CD amanhã. Xoxo. (17:19)
Eu
Nunca esqueceria o dia que receberei minha carta de alforria. (17:21)
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PoV KARINA
Bianca, Lorena, Gabi, Babi, Sol e Mari foram as primeiras a se arrumarem para a social, deixando-me por último. Enquanto eu tomava meu banho, elas iam terminando a decoração e recebendo o pessoal. Não demorou muito para que eu ouvisse a galera na sala, e notasse a voz que disparava meu coração.
Diferente das outras vezes, demorei um pouco mais para me arrumar. Hoje eu sou obrigada a produzir-me, hoje eu mereço isso. Sequei o cabelo, coloquei um top cropped branco, uma saia longa bordô e uma rasteirinha. A maquiagem seria o passo mais difícil, mas resolvi fazer o que eu aprendi vendo a Bianca fazer. Delineador, rímel, blush e um gloss. Última olhada no espelho e lá vamos nós.
Ao chegar na sala, a música tocava animadamente em algum celular, enquanto Sol e Pedro ajeitavam-se num palco improvisado próximo a janela. Lancei um olhar para Pedro e ele retribuiu, sorrindo com os olhinhos fechados. A galera se cumprimentava e logo a dupla chamou nossa atenção para o palco.
“Boa noite, Brasil!” Todos riam enquanto a morena continuava. “Estamos aqui para comemorar a aprovação dos nossos amigos: Karina, Bárbara, Lorena e Cobra.”
“É isso mesmo, a gente tem um CD para gravar amanhã, mas abrimos uma brecha na agenda lotada.”
“E pra começar, eu preciso cantar uma música que significa muito para mim.” Sol olhara pra mim, e eu entendi qual seria a música. “Quero dedicar a todos vocês, não só aos que vão partir, mas a todos aqui presentes.”
Enquanto ela dizia aquilo fui até meu pai para abraça-lo. Espero que ele entenda a mensagem a seguir.
“Breakaway.” Eu e Sol dissemos ao mesmo tempo.
Pedro começara a tocar seu violão e todos os casais presentes abraçaram-se, o que parecia ser com o intuito de entenderem a letra da canção.
“Grew up in a small town
And when the rain would fall down
I'd just stare out my window.
Dreaming of what could be
And if I'd end up happy
I would pray.
Trying hard to reach out
But when I tried to speak out
Felt like no one could hear me.
Wanted to belong here
But something felt so wrong here
So I'd pray.
I could breakaway.
I'll spread my wings and I'll learn how to fly
I'll do what it takes, till I touch the sky
Make a wish, take a chance
Make a change and breakaway.
Out of the darkness and into the sun
But I won't forget all the ones that I love
I'll take a risk take a chance
Make a change and breakaway.
Wanna feel the warm breeze
Sleep under a palm tree
Feel the rush of the ocean.
Get onboard a fast train
Travel on a jetplane
Far away.
And breakaway.
I'll spread my wings and I'll learn how to fly
I'll do what it takes, till I touch the sky
Make a wish, take a chance
Make a change and breakaway.
Out of the darkness and into the sun
But I won't forget all the ones that I love
I gotta take a risk, take a chance
Make a change and breakaway.
Buildings with a hundred floors
Swinging with revolving doors
Maybe I don't know where they'll take me but
Gotta keep moving on, moving on
Fly away, breakaway.
I'll spread my wings and I'll learn how to fly
Though it's not easy to tell you goodbye
I gotta take a risk, take a chance
Make a change and breakaway.
Out of the darkness and into the sun
But I won't forget the place I come from
I gotta take a risk, take a chance
Make a change and breakaway
Breakaway
Breakaway.”
Breakaway – Kelly Clarkson
Na última nota era unânime o sentimento presente naquele local: amor. Amor de todos os tipos e formas, que dispensavam qualquer explicação.
“Eu te amo, minha filha.” Por isso eu não esperava, para ser sincera. “Pode parecer estranho dizer isso, não sou de expressar esse tipo de coisa, mas é sincero, K. Eu precisava te dizer isso. Você acha que existe algum tipo de preferência entre você e a Bianca, e não é verdade. Eu amo vocês igualmente, vocês são minhas filhas.” Seus olhos estavam marejados, assim como os meus.
“Pai...” Fui interrompida.
“Deixa eu terminar. Você pode contar comigo sempre, tá bom? Aconteça o que acontecer, eu vou sempre estar ao seu lado. Eu te amo demais, não se esqueça disso.”
“Eu também te amo, pai. Obrigada pelas palavras. Não sei usar bem as palavras, mas saiba que eu te amo e não é pouco, ok?”
Continuamos abraçados, talvez para assimilar o que acabara de acontecer, mas também para aproveitar o momento de carinho. Mas nosso momento fora cortado por alguém extremamente alterado.
“Parabéns, Karina.” Ele batia palmas, com uma cara irônica. “Você não ia me convidar pra festinha?”
Zé estava bêbado, esbarrava em alguns convidados enquanto caminhava até mim.
“O que você tá fazendo aqui?”
“Eu vim comemorar com você, o que mais estaria fazendo?” Ele apoiava-se em mim. “Se você não me convida, eu venho assim mesmo, por ser seu namorado.”
“Se eu não convidei é porque eu não quero você aqui.”
“Ei, gente.” Dandara aproximava-se. “É melhor vocês conversarem em particular. E os outros voltem a festejar, minha gente.”
Puxei Zé até meu quarto, trancando a porta enquanto ele se espojava em minha cama.
“Você vai deixar minha cama fedendo com esse teu cheiro.”
“Ué, amor. Quando o Pedro tava bêbado, duvido que ele não tenha deitado aqui.”
“Você atinge um nível de babaquice que eu nem acredito.”
“Não fala assim comigo, amor. Eu tô aqui pra gente comemorar.”
“Fala logo o que você quer.”
“Eu tenho uma surpresa pra você, mas a gente tem que ir buscar em outro lugar.”
“Se eu for, você me deixa em paz por hoje?”
“Deixo. Por hoje.”
Virei-me, buscando pela chave do carro e pela bolsa. Saímos do quarto, Zé um pouco mais equilibrado do que antes. Expliquei a Bianca que iria sair mas que logo estaria de volta, pedindo para que continuassem a festinha. Ao chegar no carro, Zé insistiu para dirigir, alegando que só ele sabia o caminho, apesar de bêbado. Aceitei, ainda que com medo de causar algum acidente. Antes o medo fosse só por isso.
O trajeto não fora demorado, chegamos no Flamengo e ele estacionara em frente a um hotel. Olhei para fora do carro, e um homem aproximava-se, anunciando que guardaria o carro. Zé apenas entregou-lhe a chave e seguiu até um balcão, fiz o mesmo.
“Boa noite, seu cartão está aqui, senhor. Boa noite!” A recepcionista entregou-lhe um cartão para, obviamente, destrancar um quarto. Entramos no elevador e paramos quando chegara o 8º andar. Zé guiou-me até o último quarto do corredor, destrancando-o e abrindo a porta.
“O que é...” Parei ao perceber uma mesa no centro do quarto, com velas acesas, dois pratos e um balde com gelo e champanhe, que deveriam ter colocado ali a poucos minutos.
“Nossa comemoração.” Disse puxando-me para dentro. “Mas primeiro, vamos animar isso aqui.” Enquanto eu deixava minha bolsa numa escrivaninha, Zé colocara XO na versão de John Mayer. Sorri para ele, voltando minha atenção para os detalhes do quarto. Ele enchia duas taças com champanhe e aproximava-se de mim. “Agora um brinde.”
“Zé, eu sou fraca pra bebida, mas vou brindar, porque hoje merece.”
Encostei meus lábios na taça, virando-a um pouco e sentindo algumas bolinhas. Olhei-o virando a taça, e resolvi fazer o mesmo. Uma tontura repentina aparecera, Zé percebera e encaminhou-me até a cama de casal do quarto.
“Você bebeu muito rápido e não tá acostumada.” Ele sentara ao meu lado, acariciando meus cabelos.
“Zé, to meio tonta.”
“Melhor você deitar aqui, daqui a pouco passa.” Fiz o que ele havia pedido, deitando e respirando calmamente. “Vou beber mais um pouco, porque hoje é dia de comemoração.”
Minha tontura não passava, o que tinha de errado com aquele champanhe? Zé continuava a beber, ele vai acabar passando mal, pensei. Tentei cochilar, na tentativa de diminuir a tontura. E quando estava quase conseguindo, percebo Zé deitado ao meu lado. Não fiz nenhum movimento, talvez ele durma e eu consiga ir embora mais cedo. Errado, ele não dormiria. Não agora.
“Dormindo igual a um anjo. Ótimo!” Sua voz mudara, o que ele estaria tramando?
Meu corpo enrijecera com seu toque, mas tentei controlar minha respiração. Começara pelo meu braço, passando pelo ombro e descendo até chegar em meus seios, massageando-os. Logo descia a mão, acarinhando minha barriga semi exposta pelo top. Mas daí ele não passaria, pois havia se afastado.
Aliviei-me por muito pouco tempo. Até sentir minha saia sendo levantada. Aquilo estava indo longe de mais.
“O que você pensa que tá fazendo?”
“Estou comemorando, amor. Deita ai, você vai gostar.” Disse malicioso, continuando a subir minha saia. Mas eu o segurei.
“Você é doente! Quem disse que eu quero? Você ia fazer isso comigo dormindo?”
“Cala a boca, Karina. Bebe mais um pouco e aproveita.”
“Você colocou o que na minha bebida?” Por mais que eu fosse fraca para bebida, aquela tontura repentina não fora normal. Tentava me afastar dele, em vão.
“Nada de mais!" Ria. "Agora vem aqui, que se não for por bem, vai ser por mal.”
Por mais que eu tentasse fugir, medir força com ele era estupidez, ele é de longe mais forte. Mas mesmo assim eu tentava, não iria fazer algo que não queria. Ele não estava nem aí para o que eu queria, então foi puxando minha saia com muito mais força, rasgando-a em algumas partes. Tentava gritar, mas meu grito fora abafado por sua mão em minha boca.
Ele estava por cima de mim, seu peso prendia-me no colchão e dificultava minha respiração. Aquilo estava sendo um pesadelo, eu só queria acordar daquilo. Mas eu estava mais acordada do que nunca, o medo consumia-me.
A mão de Zé agora dera lugar a sua boca, que pra mim era tão desprezível quanto. Eu tentava rejeitar seus lábios, mas quanto mais eu tentava mais ele aprofundava o beijo, machucando meus lábios e tirando até sangue. Logo sua mão voltara e sua boca descera até meu pescoço, dando-me chupões que deixariam marcas por dias.
Descendo um pouco mais, ele havia chegado novamente em meus seios, mas que estavam cobertos pelo top. Ele mordiscava por cima do pano, enquanto sua outra mão subia pela minha perna, arrepiando-me. Ao chegar no seu destino, tudo que eu pude fazer foi chorar. Não foi assim que eu imaginava minha primeira vez, aquilo estava sendo traumático, se assim posso dizer.
Eu chorava e rezava para que ele não avançasse o sinal. E foi em vão, seus dedos caminhavam pelo pedaço de renda que eu vestia. Meu choro aumentou e agora ele ria, o que irritara-me profundamente, isso não ficaria assim. E não ficou. Ele levantou uma parte da minha calcinha, dando passagem para seus dedos e uma força brotara em mim, e tudo que eu sei é que segundos depois eu atingia seu membro e ele rolava para o outro lado da cama.
“Sua vagabunda!” Ele gritava, segurando suas partes, enquanto eu corria para pegar meus pertences. “Isso não vai ficar assim!”
Saí correndo daquele quarto sem olhar para trás, e só quando cheguei no elevador foi que me dei conta do que havia acontecido. No espelho, percebi uma pessoa derrotada. Meus cabelos bagunçados, meu corpo suado, meus olhos vermelhos por causa do choro, meus lábios inchados e com um pouco de sangue, minha roupa rasgada... Aquilo era um pesadelo.
Cheguei na recepção, todos me olhavam incrédulos pela minha aparência.
“Moça, eu quero a chave do meu carro, por favor.” Minha voz era trêmula.
Todos agora tinham olhares de piedade sob mim e aquilo incomodava-me, não queria a pena de ninguém. Antes que eu pudesse dizer algo para os presentes, o rapaz que outrora guardara meu carro, aparecera com a chave e com o automóvel na porta do hotel.
“Obrigada.”
Corri para o carro, ligando-o e pisando fundo no acelerador, em poucos minutos eu estaria em casa. O problema seria explicar a todos o porquê do meu estado. Durante o trajeto eu tentava pensar na melhor maneira possível de dizer para meu pai que eu sofri uma tentativa de estupro. Ok, seria impossível.
Estacionei o carro em frente a nossa casa, as luzes já estavam apagadas. A festa acabara cedo demais pro meu gosto, sendo que eu não demorei mais de uma hora. Com cuidado, saí do carro e caminhei até a entrada. Ao abrir a porta, deparei-me com um abajur aceso e meu pai sentado no sofá com uma cara de poucos amigos. Engoli a seco.
“Pai? Cadê todo mundo?”
“A festa acabou, Karina.”
“Cedo, não acha?” Ele parecia nervoso agora. “O que foi, pai?”
“Que fotos são essas?” Disse apontando para um envelope em cima da mesa do centro.
Meu pesadelo estava apenas começando.
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