O CONVITE – Crise I

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23 de outubro – sábado – apartamento da Quinn por volta das 7 horas da tarde.

"Michael... O que você está fazendo aqui?"

"Por que você está me evitando Quinn? Já faz uma semana que eu estou tentando falar com você." Ele se desencosta da parede e da um passo em sua direção.

A loira encolhe um pouco. Algo na expressão dele faz sua espinha gelar e ela se sente verdadeiramente desconfortável.

"O que você quer Michael?" Apesar da apreensão, ela se mantém firme e fixa seus olhos aos dele. Michael tinha olhos tão escuros quanto os de Rachel, mas eles não transmitiam o mesmo calor.

"Você não vai me convidar para entrar?" Ele da mais um passo e espia pela porta entreaberta. Jessie arranhava e latia com ferocidade e a loira fecha a porta, encostando-se nela e cruzando os braços.

"Não." Responde ela friamente. "Por que você veio até aqui?"

"Desde quando você tem um cachorro?"

"Você pode parar de me responder com perguntas?"

"Só quando você responder todas as minhas." Ele sorri cinicamente e ela suspira. "Você está linda..." Michael levanta uma mão e leva ao rosto de Quinn.

"Eu vou responder tudo o que você quiser," Ela segura o pulso dele com força e o afasta de si. "Mas não encoste em mim."

"Ok..." Ele coloca as mãos nos bolsos. "Eu só estava tentando ser amigável."

"Eu não quero a sua amizade."

"Não foi o que você disse quando terminamos..."

"Não ponha palavras na minha boca Michael." Ela se sente um pouco nauseada e grata ao apoio da porta em suas costas. Seus joelhos fraquejam sobre o olhar inquisidor de Michael, ela já o havia visto enfurecido algumas vezes e não era algo muito agradável. "Podemos ir direto ao ponto? Eu tenho compromisso para o jantar."

"Um encontro?" Ele pergunta, arqueando uma sobrancelha alaranjada.

"Não, eu vou jantar com o Kurt." Ela decide se abrir totalmente, quanto antes ele estiver satisfeito com suas respostas, melhor.

"Mas você está vendo alguém, não está?"

"Sim."

"Desde quando você tem um cachorro?" Ele pergunta novamente.

"Não é meu." Ela mantém suas respostas curtas e objetivas.

"É desse alguém que você está vendo?"

"Sim."

Ele faz que sim com a cabeça e mais uma vez o sorriso cínico aparece em seus lábios, fazendo o estomago de Quinn se contorcer. "Sabe Quinn, eu vou te contar uma historia engraçada..."

Ela se sente ainda mais desconfortável, não esperando que as perguntas parassem tão abruptamente.

"Você lembra da minha irmã?"

"Patricia..." Ela lembrava sim. Elas nunca se deram muito bem, não havia um motivo para isso, elas apenas não conseguiam se suportar. Patricia parecia querer encontrar todos os defeitos possíveis na loira e vivia fazendo comentários desagradáveis e de duplo sentido o tempo todo.

"E você lembra como Tom adora ir para esses clubes underground que tocam blues e outras coisas assim..."

Ela estava confusa com o propósito dessa conversa, mas assentiu para ele. Tom era marido de Patricia, ele era realmente simpático, totalmente o oposto da esposa. Às vezes ela se perguntava como os dois haviam acabado juntos, simplesmente não fazia sentido... Ela e Tom costumavam conversar bastante sobre musica e foi graças a ele que ela ficou sabendo sobre muitos dos lugares que freqüentava atualmente, inclusive o bar aonde havia levado Rachel na noite em que elas fizeram amor pela primeira vez.

De repente tudo faz sentido e ela arregala os olhos para o homem a sua frente.

"Tom levou minha irmã para um desses bares sábado passado e ela me ligou na manha de domingo com coisas realmente interessantes para contar..." Ele aperta os olhos. "Alguma ideia de onde eu quero chegar?"

Ela não responde. É tão típico de Michael! Era obvio que ele iria fazer um pequeno escândalo quando descobrisse a verdade sobre ela, mas Quinn não estava preparada pare enfrentar isso agora. Não quando Rachel estava longe, não quando fazia menos de um mês que ela havia saído do armário. Apesar de seu passado, ela não é um poço de segurança...

"Me diga que não é verdade Quinn. Diga que você não sabe do que eu estou falando..." Ele se aproxima dela novamente e a loira se encolhe mais uma vez. Ele era tão alto... "Sabe o que a minha irmã me disse, sabe?"

Ela simplesmente olha para ele, totalmente sem ação. O rosto de Michael começa a ficar vermelho e ela reconhece isso como um mau sinal.

"Ela disse que viu a minha ex namorada beijando uma outra mulher!" Ele ri, como se a ideia fosse totalmente impossível. "Claro que eu não acreditei nela. Eu tentei te ligar varias vezes, eu te mandei mensagens..." Ele tira uma mão do bolso e apóia na parede ao lado da cabeça da assistente social. "Por que não tem como Quinn Fabray ser lésbica, não a minha Quinn."

"Eu nunca fui sua Michael." Ela fala em voz baixa. Seu rosto estava tão próximo do dele que ela conseguia enxergar pequenas gotas de suor se formando em sua testa. Mais um mau sinal.

"Você não vai negar?"

Ela fecha os olhos. "Eu estou realmente feliz Michael..."

"Meu Deus!" Ele se afasta em um movimento brusco e da às costas para ela. Correndo os dedos pelos cabelos. "Você realmente está namorando uma mulher!"

Ela respira fundo e o ar atinge seus pulmões pela primeira vez desde que ele chegou até a sua porta, a sensação de alivio não dura muito, em um piscar de olhos ele está sobre ela novamente.

"Você não pode ser gay Quinn, eu ainda te amo..."

Ela parte os lábios para responder, mas é interrompida pela língua dele que invade a sua boca e penetra em sua garganta. Michael a empurra contra a parede e a beija agressivamente. Ela solta um som de surpresa e tenta lutar contra ele, sem muito sucesso.

"Você nunca vai sentir isso com uma mulher Quinn." Ele a beija de novo antes que ela possa fazer qualquer coisa, sua barba por fazer arranhando a pele delicada de seu rosto. Lagrimas começam a escorrer pela face da loira e ela se sente totalmente impotente sem poder fazer nada para se defender ou para defender seus sentimentos.

"Me larga!" Ela consegue se afastar por tempo suficiente para falar. "Eu amo a Rachel!"

"Então esse é o nome dela?" Ele pergunta, não esperando pela resposta e pressionando seus braços com ainda mais força contra a parede, assaltando sua boca mais uma vez.

O choro de Quinn se torna ainda mais intenso e agora ela sente uma dor física por causa o aperto que ele mantém contra ela.

"Por que você está chorando?"

"Você está me machucando." Ela sente um gosto de sangue no fundo da boca, mesmo que não haja sangue nenhum.

"Talvez você precise sentir dor." Ele morde o lábio dela com força e ela soluça com mais intensidade. "Talvez assim você perceba que esse sonho de amor idiota com outra mulher é totalmente ridículo! Você não pode ser gay Quinn. Eu vou consertar você..."

Ela morde a língua dele em uma tentativa desesperada, mas ele não se afasta, muito pelo contrario. Ela tenta gritar, mas os beijos dele a impedem de fazer qualquer coisa. Depois de alguns minutos, ela desiste, seu corpo totalmente sem forças e ela se deixa tocar, suas lagrimas continuam escorrendo silenciosamente enquanto as mãos dele levantam a bainha de seu vestido, seus dedos apertando suas coxas, deixando marcas vermelhas por onde passam. Ele deposita o peso do próprio corpo sobre ela e usa as mãos agora livres para abrir o cinto. Uma pequena parte do cérebro dela registra o que está prestes a acontecer, sentindo a ereção dele contra a lateral de seu corpo. "Eu vou te concertar Quinn... Eu vou..."

As mãos dele voltam para ela, e o tecido azul de seu vestido sobe até a cintura, a deixando totalmente exposta.

"Quinn?" Ela ouve uma voz relativamente familiar, mas não consegue registrar nada, seus sentidos estão entorpecidos. A pessoa grita algo incoerente. "Sai de cima dela!" Mais gritos e uma segunda voz se junta a primeira.

O aperto que Michael tinha sobre ela afrouxa e ela desliza pela parede, sentando no chão ao lado da porta de seu apartamento. Absolutamente nada faz sentido e ela olha para uma falha no piso de madeira. As vozes que ela ouvia começam a ficar distantes e de repente, tudo fica escuro...

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"S!" Brittany subiu as escadas correndo, procurando por sua esposa. Seu olhos cheios de água e sua voz aguda em desespero. "Santana!"

A latina encontra com sua esposa no meio do corredor. "O que foi?" Ela tinha uma mão sobre a barriga e seus cabelos estavam emaranhados, ela havia acabado de acordar de uma soneca. "Você se machucou?" Ela analisa Brittany dos pés a cabeça, procurando hematomas ou sangue.

"É a Q..." Ela chorar agora, mordendo o lábio. "Nós temos que ir pra lá agora S!" Ela envolve a latina em um abraço e enterra a cabeça no pescoço de Santana.

A morena morde o lábio e começa a acariciar os cabelos da loira, fazia muito tempo que ela não via Brittany tão agitada. A última vez foi depois da ultima tentativa de inseminação, quando ela perdeu o bebê. "O que houve B?"

A dançarina continua chorando e Santana a abraça da melhor forma possível com a barriga no meio. "Como eu vou poder ajudar se você não me contar o que aconteceu?" A escola de medicina a ensinou a manter a calma, inclusive nos momentos mais tumultuados. (claro que seus professores não haviam falado nada sobre hormônios da gravidez, mas ela estava indo bem mesmo assim.) "Britt?" Ela levanta o rosto de sua esposa com dois dedos e encontra seus olhos azuis, as lagrimas neles partem seu coração.

"Kurt ligou. Ela está machucada." Ela desvia os olhos. "Ele pediu para irmos para lá."

"Ele falou alguma outra coisa?" Pergunta Santana, se afastando, mas ainda segurando a mão de Brittany firmemente.

"Nã-não sei S, eu não ouvi mais nada depois da primeira frase." A loira abraça o próprio corpo enquanto a latina puxa os cabelos para trás, prendendo-os em um rabo de cavalo solto. "Você vai dirigir?" Ela pergunta quando Santana pega as chaves da BMW. Já faziam algumas semanas que a morena não dirigia por causa da barriga.

"Você não está em condições B." Ela estende a mão para ela. "Vamos?"

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Santana passa uma mão pelos cabelos de Quinn, ela estava sentada na cama, ao lado de sua amiga. A loira parecia dormir, mas a latina sabia que ela estava acordada e não queria abrir os olhos. Abrir os olhos significaria ter que lidar com todo mundo e a assistente social não tinha energia para isso. Ela deposita um beijo suave em sua têmpora. "Eu volto daqui a pouco está bem?" Sua voz é contida e amável, tão diferente do normal que Quinn se força a abrir os olhos, mas só um pouquinho. Ela concorda com a cabeça em um movimento quase imperceptível e uma pequena lagrima escorre até a ponta de seu nariz.

A latina traça o caminho da gota com as costas de sua mão e beija os cabelos de Quinn novamente antes de se levantar e caminhar até a porta do quarto, lançando um último olhar para sua amiga antes de sair.

"Ela já acordou?" Pergunta Kurt, levantando do sofá assim que vê a porta se abrir.

"Não." A morena caminha até eles e senta ao lado de Brittany, que repousa a cabeça em seu ombro. "O que aconteceu Kurt?" Ela apóia uma mão sobre a barriga enquanto aguarda pela resposta.

"Eu não sei exatamente." Ele olha para Natalie, que estava escorada no vão da porta que dava acesso a cozinha. "Eu cheguei aqui as sete e um pouquinho, nós havíamos combinado que eu viria buscá-la as sete, mas eu acabei me atrasando na redação da revista." Ele leva uma mão ao rosto e Santana consegue perceber o nervosismo nele. "Eu ia tocar o interfone quando vi que a porta do prédio estava encostada e resolvi entrar, a luz estava acesa e eu estranhei já que ela só se acende quando pessoas estão no hall..."

Brittany está tensa ao lado de Santana e a latina acaricia o braço de sua esposa, tentando mostrar que está tudo bem, mas na verdade, seu sangue ferve em ódio pelo cara que deixou sua amiga naquele estado. Em sua cabeça, ela planejava uma morte extremamente lenta e dolorosa para ele.

"Fiz a curva que da acesso a porta dela e me deparei com aquele monstro..." Os olhos dele estão fora de foco, como se ele estivesse revivendo a cena. "Ela estava contra a parede e eu não tinha certeza se era realmente Quinn, mas aqueles cabelos ruivos eram inconfundíveis." A raiva é perceptível em sua voz e ele fala com os dentes trincados. "Ele estava atacando ela, Santana. A saia dela estava quase na altura da cintura e o cinto da calça dele estava solto." Ele faz uma careta de nojo ao lembrar da expressão no rosto de Michael. "E pensar que eu simpatizava com ele..."

"O que mais?" A latina pergunta, sabendo que a historia não acabou.

"Eu gritei, eu peguei ele pela cintura e tentei tirar-lo de cima dela, mas aquele homem é muito maior do que eu. Então eu gritei mais alto..."

"E eu ouvi." Interrompe Natalie. "Eu ouvi os gritos e fui até o corredor. Ameacei chamar a policia e ele a soltou. Henry do andar de cima também desceu para ver o que estava acontecendo e quando Michael se recusou a sair..."

"Henry bateu nele." Kurt passa as mãos pelos cabelos bagunçados. "E o arrastou para fora do prédio."

"Nós fomos até Quinn e ela estava inconsciente. Acho que por causa do susto principalmente." Nat se desencosta da porta e senta-se na poltrona, ao lado de Jessie.

"Eu tentei acordá-la, mas ela não se movia e eu entrei em pânico."

"Henry voltou e a trouxe para dentro, ela acordou depois de alguns minutos."

"Ela levantou do sofá e foi correndo para o banheiro vomitar..." Kurt agora estava pálido.

"Eu a fiz tomar um copo da água, mas ela não falou absolutamente nada desde então. Acho que ela está em choque. Se o Kurt não tivesse chegado a tempo..." Natalie engole com dificuldade. "Ele poderia ter... Ela poderia ter sido..."

"Isso ainda conta como tentativa de estupro e nós vamos chamar a policia." Santana interrompe seriamente.

Kurt concorda com a cabeça antes de continuar. "Ela foi se deitar logo depois que tomou a água e não deu mais sinal de vida. Foi ai que eu te liguei. Eu acho que ela deveria ser examinada por um médico e eu sei o quanto ela odeia hospitais, mas vocês são melhores amigas..."

"Eu vou examiná-la daqui a pouco, ela precisa de tempo agora..." Santana aperta a mão de Brittany, que a essa altura voltou a chorar.

"Rachel já ligou seis vezes." Kurt fala, depois de alguns minutos de silencio. "Eu não sei o que dizer para ela."

"Não diga nada até que Quinn nos diga o que fazer. Rachel está viajando a trabalho e não seria prudente preocupá-la agora." Explica a latina, sabendo que há essa hora, Rachel provavelmente está subindo pelas paredes.

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"Quinn?" Santana afasta alguns fios loiros dos olhos da assistente social. "Eu sei que você está acordada..." Ela acaricia as costas de sua amiga e espera por uma resposta.

Muito lentamente, Quinn abre os olhos. Seu corpo inteiro dói e ela se sente totalmente envergonhada.

"Kurt me contou o que aconteceu."

A loira abraça o travesseiro e se encolhe ainda mais sob os lençóis.

"Eu sei que você não quer falar sobre isso, mas deixa eu te examinar."

Quinn não responde e Santana tenta de novo.

"Você tem três amigos extremamente preocupados na sala e uma namorada totalmente enlouquecida em Toronto. Todos querendo saber se você está bem Quinn, todos preocupados com você. Eu estou preocupada..."

"Vocês falaram para Rachel?" Ela pergunta em um sussurro, como se não tivesse forças para falar mais alto.

"Ainda não, mas pode ter certeza que eu vou se você não me deixar te examinar."

Quinn fecha os olhos com força e começa a chorar. A expressão da latina se suaviza e ela ascende o abajur na escrivaninha, iluminando um pouco o aposento. Ela volta a acariciar as costas da loira e sua voz é suave quando ela fala novamente. "Eu sei que foi horrível Q. Eu imagino que você esteja se sentindo suja e magoada e triste e enfurecida, tudo ao mesmo tempo. Eu sei que foi assustador e eu respeito isso, mas sentir pena de si mesma não vai melhorar nada." Ela ajuda Quinn a se sentar devagar, colocando um travesseiro para que ela se escore na cabeceira da cama. "A melhor coisa que você pode fazer agora é levantar, lavar o rosto e me deixar ver como você está. Aquele idiota pode ter te machucado e nós temos que tratar qualquer tipo de ferimento, inclusive os emocionais..."

A loira passa a mão pelo rosto e olha para Santana como se a estivesse vendo pela primeira vez. Ela não estava acostumada a receber esse tipo de tratamento da latina, mas a morena era ótima em surpreendê-la.

"Eu posso te abraçar?" Pergunta ela, parecendo tão frágil e vulnerável que o coração de Santana afunda no peito.

"Claro que sim..." Responde ela com um pequeno sorriso, ficando em pé e abrindo os braços. Quinn levanta e se acomoda nos braços da latina, descansando a cabeça em seu ombro e deixando as lagrimas correrem livremente, lágrimas de dor, ódio e gratidão. Valerie se move e a loira sente o chute contra o próprio abdômen, o movimento a faz sorrir um pouquinho. "Acho que ela também não gosta de ver a madrinha dela sofrendo assim..." Comenta Santana contra os cabelos dourados.

Quinn se afasta ao assimilar a frase e funga algumas vezes ao encontrar os olhos escuros e sorridentes com os seus. Seu lábio treme violentamente e ela chora ainda mais, abraçando Santana novamente. "Obrigada S... Eu nem sei..." Ela não consegue formar frases coerentes, a mistura de emoções é demais para ela.

Santana beija sua bochecha e acaricia seu pescoço, se afastando lentamente, mas mantendo uma mão em sua cintura. "Você não precisa dizer nada. Nós vamos para o banheiro, lavar esse rosto e você vai me deixar dar uma olhada em você, está bem?"

Quinn concorda com a cabeça e se deixa guiar para fora do quarto. A luz forte do corredor faz seus olhos arderem e ela vê seus amigos na sala, mas não fala nada, Santana a leva até a pia e segura seus cabelos para trás enquanto ela joga água pelo rosto. As marcas das lagrimas são evidentes e seus olhos estão vermelhos. Seus lábios estão inchados e ela pode ver a marca da mordida que Michael deu, bem como os arranhões que sua barba causou em sua pele. Ela sente vontade de vomitar novamente.

"A luz aqui é mais forte que no quarto, eu posso te examinar agora?" Pergunta a latina cautelosamente, alcançando a toalha de rosto para Quinn se secar.

A loira assente e espera instruções, desviando o olhar do espelho e se fixando na parede.

"Ok, eu vou precisar que você tire esse casaco e o vestido. Eu vou te ajudar, está bem?"

Quinn faz que sim novamente e a latina desliza o tecido branco de seu casaco para fora de seus braços, revelando marcas roxas na pele pálida. A loira vira de costas para Santana e puxa seu cabelo para frente, para que a outra possa abrir o zíper de seu vestido. O tecido azul bebê se amontoa aos seus pés e ela da um passo para o lado, pisando no tapete e se virando para encarar a medica. Seu rosto está livre de qualquer expressão.

Santana engole com dificuldade ao analisar o corpo de Quinn. Aquele filho da puta... Pensa ela antes de dar um passo a frente e pegar a mão da loira na sua. "Não vai doer, eu só vou olhar, está bem?"

Ela levanta o braço de sua amiga. O ante-braço e as mãos parecem livres de machucados, mas os ombros e a parte superior dos braços estão marcados pela forma de dedos em roxo, amarelo e azul. Agora é a vez de Santana sentir-se enjoada ao ver os sinais da violência nas coxas de Quinn, ela pode ver até onde as mãos dele haviam alcançado e o quão perto de um ela estava de ser abusada sexualmente. Ela morde o lábio e seus dedos percorrem os hematomas em seu quadril gentilmente. Quinn se encolhe ao sentir um pouco de dor.

"Você não tem nada quebrado, mas essas marcas vão demorar um pouco para sair... E vai doer, como qualquer batida." Ela anuncia, olhando nos olhos dourados e passando as mãos pelos cabelos loiros. "Como medica e como amiga Quinn, eu te aconselho a procurar a policia."

A loira desvia os olhos para o chão e Santana se apressa a levantar seu rosto novamente. "Esse cara tem sérios problemas Quinn. Ele não pode sair livre dessa. Ele te agrediu, te forçou a fazer coisas que você não queria fazer. Isso é violência domestica. Eu sei que você já acompanhou vários casos assim no seu trabalho."

"Ele descobriu sobre a Rachel." Murmura Quinn. "Foi por isso que ele veio até aqui. Ele disse que eu não podia ser gay e que ia me consertar..." Sua voz sai tremida e mais uma vez ela se entrega as lagrimas.

Santana a abraça, encostando a lateral de sua cabeça na dela. "Mais uma acusação para cima dele, você pode processá-lo por homofobia."

"Eu senti tanto medo S... e eu não pude fazer nada..." Soluça ela.

"Eu sei Q... mas agora já passou, está bem?" Ela beija a testa de sua amiga. "Eu vou pegar um pijama bem confortável para você e nós vamos ir para a sala, Ok? Brittany está horrivelmente preocupada com você..."

Quinn sorri um pouquinho e Santana a deixa sozinha por um momento. Tantas coisas invadem a cabeça da loira e ela sabe que San tem razão. Por mais orgulhosa que ela seja, Michael não pode sair impune.

E Rachel... O que eu vou dizer para Rachel?

A latina volta com uma calça de abrigo e uma das camisetas da universidade. Quinn se veste e joga o vestido e o casaco no lixo do banheiro. Ela não poderia usar aquilo nunca mais sem se sentir suja...

"Quinn!" Exclama Brittany, no momento em que a loira entra na sala. Ela pula do sofá e envolve sua amiga em um abraço. "Eu fiquei tão preocupada..."

"Está tudo bem agora B..." Quinn se deixa abraçar, abraços são realmente reconfortantes, é realmente bom saber que ela tem amigos com quem contar. Kurt e Natalie a abraçam também e Jessie vem deitar entre seus pés quando ela senta no sofá.

"O que você vai fazer agora Quinn?" Pergunta Kurt depois que Santana prescreveu alguns remédios e deu a receita para Natalie ir comprar, não era nada de mais, apenas uma pomada para os hematomas e um analgésico para a dor, mas a latina sabia que isso iria fazer muita diferença durante a recuperação. Mesmo que não houvesse remédio para apagar o acontecido da memória de sua amiga.

Quinn olha para Santana. "Eu quero ligar para a polícia e registrar a ocorrência. Ele não vai sair livre disso..."

A latina sorri para ela orgulhosamente e alcança o telefone. Quinn respira fundo e disca o numero. Ela sabia que seus amigos testemunhariam sem problemas. Durante o telefonema, que era extremamente burocrático, alguém bateu na porta. Henry, querendo ver como ela estava. Quinn ofereceu-lhe um pequeno sorriso e ele disse que já havia prestado queixa também, afinal, Michael havia tentado agredi-lo.

Natalie voltou com os remédios e Quinn foi para o quarto aplicar a pomada. Já passava da meia noite quando os dois vizinhos voltaram para seus respectivos apartamentos. Kurt também se despediu depois que Santana e Brittany se ofereceram para passar a noite. Era quase uma hora quando o celular de Quinn tocou. A foto de Rachel piscava na tela. A loira mordeu o lábio. Ela queria falar com a diva, mas não sabia exatamente o que dizer, ela não queria preocupá-la. Santana percebeu a hesitação nos olhos de sua amiga e tomou o aparelho de suas mãos, clicando no botão de atender.

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24 de outubro – Toronto – Grand Hotel – 1 da manhã.

Rachel andava de um lado para o outro pelo grande quarto, seu coração batia descompassadamente. Ela estava tentando falar com Quinn desde as sete da tarde e a loira simplesmente ignorava suas ligações. Ela estava preocupada. Algo tinha que ter acontecido, Quinn nunca a deixaria esperando dessa forma. Ela não conseguiu se concentrar no jantar com seus colegas de elenco, mal lembrava o nome deles. Dormir era simplesmente impossível e por mais que o bom senso lhe dissesse que nada havia acontecido, algo dentro dela gritava em alarme.

A pequena diva discou o numero que já sabia de cor mais uma vez e aguardou pacientemente enquanto chamava, não esperando que ninguém atendesse. Ela se surpreendeu quando a voz de Santana chegou aos seus ouvidos.

"Alô?"

"Santana?" Ela pergunta sem entender.

"Não, é o papai Noel! Claro que sou eu Berry!" Apesar das palavras relativamente cruéis, havia algo de diferente no tom da latina e isso a deixou ainda mais alarmada.

"Quinn está com você?"

"Sim."

"Posso falar com ela?" Ela pergunta com o coração na mão.

"Ela quer falar com você." Ela prende a respiração ao ouvir a voz de Quinn no fundo da linha. "Eu não sei o que dizer S..."

"O que aconteceu?" Pergunta ela imediatamente, sua voz se alterando um pouco.

"Ela não sabe se quer falar com você." Responde Santana.

"Eu ouvi isso, Santana! Eu quero saber por que ela não vai falar comigo." Rachel se senta na beira da cama e aperta o fone ao ouvido quando a latina se dirige a Quinn novamente.

"Você quer contar para ela?" "Eu não quero preocupá-la..." Santana suspira antes de responder. "Ela não quer te preocupar Berry."

"Tarde de mais! Eu já estou preocupada." Fala Rachel, começando a se irritar. Ela odeia não saber o que está acontecendo. "Me deixa falar com ela, por favor..."

"Eu não acho que seja uma boa ideia Rachel."

A cantora fica tensa ao ouvir o seu nome sendo dito pela latina. Algo muito ruim devia ter acontecido.

"Está bem." Ela desliga o aparelho sem esperar que Santana responda. Alguma coisa muito grave aconteceu e ela vai descobrir o que foi.

A morena se levanta e calça os sapatos, pegando a chave do quarto e atravessando o corredor para onde Meg estava dormindo. Ela bate na porta com determinação diversas vezes sem parar, até que a loira sonolenta a recebe em seu quarto com uma cara de confusão.

"Aconteceu alguma coisa Meg. Eu vou ter que voltar para Nova York, agora." Ela fala sem hesitar e o seu tom é o suficiente para acordar a assistente.

"Mas Rachel... E as fotos promocionais que estão agendadas para amanha..."

"Eu tenho certeza que você pode resolver isso. Diga aos produtores que eu tive uma emergência. Você não precisa voltar comigo." Ela faz um gesto com a mão. "Só ligue para o aeroporto e agende o próximo vôo para mim, você pode despachar a minha mala depois e não precisa ser primeira classe."

"Mas... Qual é a emergência?"

"Providencie transporte até lá também, por favor. Vou juntar minhas coisas e volto em dez minutos. Quero isso resolvido até lá." A morena da às costas e abre a porta do quarto novamente.

"Rachel..." Meg chama, mas não é ouvida. Ela observa sua chefe desaparecer pelo corredor antes de se apressar para fazer o que ela pediu."

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24 de outubro – NY – Apartamento da Quinn – 6:00 am

O som do interfone reverbera pelas paredes do apartamento silencioso, despertando Santana de seu sono leve. Ela olha para o lado e vê que Quinn também havia acordado. A expressão de pânico no rosto de sua amiga revela seus pensamentos e ela sabe o que a loira vai dizer antes mesmo que ela abra a boca.

"Michael..."

A latina coloca uma mão sobre seu ombro e aperta de leve. "A policia está atrás dele, ele não se atreveria a aparecer..."

"Mas quem então..." Quinn estava inquieta, os machucados em seu corpo haviam voltado a doer e a sensação de náusea se fazia presente mais uma vez.

"Fique aqui, eu vou atender." Ela levanta da cama e contorna o corpo de sua esposa que dormia profundamente no chão, em um saco de dormir.

Ela caminha rapidamente até a cozinha e tira o aparelho do gancho. "Alô?"

"Santana? Sou eu, Rachel." Responde a voz eletrônica.

"O que você está fazendo aqui Berry? Eu disse que ela não..."

"Exatamente por isso que eu vim. Me deixe entrar, está frio aqui fora."

Santana revira os olhos. Era obvio que Rachel faria algo assim, ela era Rachel Berry afinal... Ela aperta o botão prateado que abre a porta do prédio e se encaminha até a porta do apartamento, abrindo-a e esperando pela diva.

Rachel aparece em seu campo de visão, suas bochechas estavam rosadas por causa do frio matinal e ela tinha uma expressão de pura preocupação no rosto. "Onde está ela?" Pergunta a diva imediatamente.

"Bom dia pra você também Berry..." Diz ela, revirando os olhos. Ela estava aliviada por Rachel estar ali. Isso significava que a diva realmente se importava e faria qualquer coisa por Quinn. Não que ela fosse admitir isso, é claro.

"Santana..." Começa a cantora, sentindo-se realmente exausta.

"Espere aqui." A mulher grávida entra no corredor e Rachel faz o que ela pede.

Alguns minutos depois, a latina esta de volta, com Brittany ao seu lado. A dançarina sorri tristemente para Rachel e a abraça com força. "Que bom que você veio Rach..."

A morena retribui o abraço, sentindo-se levemente confusa.

"Você pode entrar agora..."

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Quinn estava sentada no meio da cama, abraçando os próprios joelhos e olhando para a porta em expectativa. A expressão no rosto da loira era de total vulnerabilidade e Rachel se apressou em juntar-se a ela, sentando ao seu lado e apoiando uma mão em seu ombro.

"Meu amor, o que aconteceu?" As mangas da camiseta da loira estavam levemente puxadas para cima devido a sua posição e a cantora enxergou os machucados. Imediatamente, seus dedos voaram para a pele de sua namorada, encostando nos hematomas suavemente. "Quinn..." A voz dela quebra conforme ela levanta o tecido e mais roxo vai se revelando.

"Rachel eu..." Ela não consegue falar, as palavras entalam em sua garganta e ela se vê tomada pelas lagrimas pela milésima vez. "Rachel..." Sussurra ela.

A morena decide que explicações podem esperar e fica de joelhos envolvendo Quinn em seus braços. "Shh... Está tudo bem meu amor... Eu estou aqui agora, eu te amo..." Ela sente o corpo da loira relaxar contra o seu e reforça o abraço, depositando um beijo em seu pescoço. "Você não precisa falar nada, está tudo bem..."

"Me desculpa Rachel..." Ela aperta a morena contra si, absorvendo cada milímetro dela.

"Shh..." Ela se movimenta de um lado para o outro, em uma tentativa de confortá-la. "Eu estou aqui agora..." O corpo da loira treme e a cantora beija a sua mandíbula. Ela começa a se afastar, mas Quinn a segura firmemente no lugar.

"Por favor, não vai embora..." Sua voz sai rouca e machucada e a morena se afasta um pouco mais antes de unir seus lábios delicadamente, transmitindo no beijo todo o amor que sentia, dizendo tudo o que Quinn precisava ouvir.

"Eu não vou a lugar algum, eu sempre vou estar ao seu lado, eu te amo..."

Quinn morde o lábio e enterra o rosto no peito de Rachel, concentrando-se nas batidas de seu coração. O ritmo constante parece acalmá-la e eventualmente, suas lagrimas cessam.

"Está tudo bem agora..." Reafirma a morena, acariciando suas costas.

"Fica comigo Rach..." Os olhos dourados procuram os de chocolate na semi-escuridão. "Por favor?"

Rachel assente e muda de posição, deitando-se de modo que a loira esteja com a cabeça apoiada em seu ombro. Seus dedos correm pelos cabelos dourados.

"Rachel, eu..."

"Shh..." Murmura a diva contra seu ouvido. "Você pode me contar depois. Dorme agora..." Ela beija seus lábios mais uma vez e começa a cantarolar baixinho, a loira sente sua consciência se esvaindo lentamente, a medida que Rachel vai lhe acalmando com sua voz.

Os olhos da diva caem sobre uma fresta da porta, por onde entra luz. Santana estava parada ali, observando as duas. A latina acena para ela, se despedindo e sorri em sinal de aprovação antes de apagar a luz do corredor e ir embora.

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