O Convite

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O CONVITE – 1 MÊS DEPOIS

N/A: Flashbacks em itálico!

29 de novembro – apartamento da Rachel – fim da tarde

Rachel estava sentada no sofá, pernas cruzadas como índio e os roteiros de uma série de TV espalhados ao seu redor, Jessie roncava suavemente ao seu lado. Ela remove os óculos e aperta a ponte do nariz. Fazia duas semanas que ela havia ido ao oculista e era relativamente difícil se acostumar ao peso da armação dourada que ela havia escolhido. Não que ela fosse pesada, mas a diva nunca tinha tido dificuldades para enxergar antes e era estranho começar a usar óculos de uma hora para a outra, mesmo que fosse só para ler.

"Pronto, resolvido." Meg entra na sala batendo palmas. "Eu sabia que a Fox iria implicar com a decisão de anunciar a sua sexualidade, principalmente agora que a mídia está totalmente em cima de você, mas a ideia de deixar pequenos rumores vazarem é totalmente genial!" A assistente recolhe as folhas que estavam espalhadas e as coloca sobre a mesa de centro, sentando-se ao lado da morena e abrindo um notebook com um sorriso no rosto.

Rachel suspira e passa uma mão pelos cabelos, recolocando os óculos e voltando sua atenção para o texto. O papel era de uma professora de coral em uma serie adolescente, nada que ela achasse extremamente emocionante, mas a fazia lembrar do glee club. Por isso ela havia aceitado. O que a diva não esperava, era que sua correspondência quadriplicasse e que pessoas que mal reparavam nela antes começassem a apontá-la na rua, só por causa das fotos promocionais. Sem contar a correria por causa do American Idol. Deus! Pessoas aleatórias passavam por ela cantando, como se esperassem que seus super talentos pudessem ser descobertos dessa forma. Os paparazzi a encontravam em qualquer lugar, inclusiva naqueles que só Quinn parecia conhecer e elas não conseguiam mais sair para ter pequenos encontros secretos.

Rachel nunca imaginou que fosse se cansar de todo esse negócio de fama, mas era tão desagradável não poder andar de mãos dadas com sua namorada, ou beijá-la quando bem entendesse.

Meg abre uma pagina em seu computador e mostra para a cantora. "A aceitação do publico aos rumores tem sido realmente melhor do que eu esperava. Existem fóruns sobre isso na internet! E os que apóiam são muito maiores do que os que não apóiam..." Ela faz uma pausa e pensa um pouco em números. "Eu diria, 85% de aprovação."

A diva larga os roteiros e volta sua atenção para o que Meg está mostrando. Uma foto recente, daquela manhã, obviamente de uma câmera amadora, mostrava Quinn e ela, almoçando juntas. A mão da loira esta sobre a dela por cima da mesa e elas sorriam afetuosamente uma para a outra. Os comentários eram extremamente variados, desde 'elas são tão fofas juntas, não conseguem ficar sem se tocar!', até 'isso é tudo uma bobagem, elas são melhores amigas!'. Rachel sorri ao constatar que a quantidade de pessoas que concorda com a primeira afirmação é bem maior do que a da segunda.

Meg entra no youtube e digita 'Faberry é real!' no campo de pesquisa. A morna arqueia as sobrancelhas. Faberry é como o publico chama o casal. De certa forma combinava... Centenas de vídeos aparecem na tela e a assistente clica no mais recente, um vídeo de 30 segundos que mostra as duas se despedindo depois do almoço. Elas se abraçam e Rachel afasta alguns cabelos loiros da face de Quinn, antes de esticar um pouco o corpo e depositar um pequeno beijo inocente em sua bochecha.

Mais uma vez, a loira mostrou-lhe os comentários. Abaixo do vídeo, havia uma linha verde aonde se lia '23081 gostaram' e '17 não gostaram'. Meg sorri abertamente. "É oficial Rachel! Vocês tem a aceitação do publico! Agora nós só precisamos fazer a Fox ver isso e..."

O barulho de uma chave no corredor faz com que Jessie acorde abruptamente, levantando as orelhas. Ele corre até a porta abanando o rabo e segundos depois, Quinn entra no apartamento. "Oi amiguinho!" Ela o cumprimenta rapidamente antes de sorrir para as duas mulheres no sofá. Ela caminha devagar em direção a elas. "Oi Meg..." Acena a assistente social. "Rach..." A loira estende uma mão para sua namorada e a diva sorri, puxando-a para seu colo.

"Oi meu amor..." Rachel alcança a face da ex líder de torcida e a guia para baixo, unindo seus lábios. "Como foi a terapia?" Ela pergunta baixinho, com os olhos fechados e sem se afastar.

"Foi ótima..." Ela a beija de novo, muito suavemente. "Nem parece que já faz um mês..."

"Eu acho que você vai gostar dele Quinn..." Carol comenta do banco de trás do carro. Elas estavam indo para a primeira sessão de terapia com o psicólogo que Carol havia indicado. A psicóloga havia insistido em acompanhá-las na primeira visita, para ter certeza que tudo correria bem. "Ele é o melhor nessa área e só atende casos indicados pela policia. Nós estudamos juntos e ele abriu uma concessão para você..."

Quinn faz que sim com a cabeça. Ela não estava exatamente confortável com a ideia de ser atendida por um homem, não depois do que Michael havia feito com ela. Rachel, que dirigia sem realmente prestar atenção à estrada, aperta sua mão e sorri para ela através do espelho retrovisor.

"Ele é um pouco... er... estranho fisicamente, mas brilhante!" Comenta Carol. "Ah, e o sotaque espanhol é engraçado no começo, mas você vai se acostumar."

A loira faz uma careta. Ela confiava em Carol, mas a descrição a estava deixando um pouco nervosa. Rachel estacionou em frente a um prédio aonde se lia 'Clinica Psicológica – Dr. Carlos Guardia'.

"Está pronta?" Pergunta a diva, desligando o carro e se virando para encarar sua namorada. Hesitantemente, a loira faz um sinal afirmativo e elas saem do Fusion.

Depois do choque inicial da primeira consulta, Quinn realmente havia se acostumado com a aparência estranha e o sotaque forte do Dr. Guardia. A última coisa que ela esperava de um doutor em psicologia, era que ele fosse baixinho, – menor que Rachel – gordinho, meio calvo e usasse óculos grandes e antiquados. Sem comentar as roupas estranhas – não eram exatamente estranhas, mas nele, ficavam esquisitas. Ela literalmente sentiu vontade de rir quando o viu pela primeira vez. Ele parecia um cientista maluco saído de um filme dos anos 50.

Cinco minutos depois do começo da consulta, ela sabia que ele era o homem certo para atendê-la. Apesar de toda a estranheza de sua figura, ele era um homem realmente gentil e calmo. Ele parecia entender de verdade o que ela sentia, mesmo que obviamente nunca tivesse passado por aquilo e não estava nem um pouco impressionado pelo fato de ela ser gay e de sua namorada querer participar das sessões. Na verdade, ele até conversou em particular com Rachel naquele primeiro dia.

...

"Eu entendo que você queira protegê-la e ela está realmente fragilizada nesse momento, mas eventualmente, ela terá que vir sozinha..." Começou ele, cruzando as pernas e se reclinando na cadeira azul marinho.

Rachel sorri e faz que sim. "Eu sei. Mas não vou deixá-la, a menos que ela queira que eu fique longe." A morena imita a posição dele em sua própria poltrona azul.

"Eu acho bom que você a esteja acompanhando. Pessoas que passam pelo que a senhorita Fabray passou precisam desse tipo de apoio, precisam sentir-se amadas." Ele se levanta e caminha até uma prateleira cheia de livros. "E eu sinto uma profunda dor ao dizer que pessoas como você são raras, Srta. Berry." Ele corre os dedos pelas lombadas e ela aproveita para analisá-lo. "Normalmente, o parceiro da vitima é o primeiro a desaparecer, isso quando não é o próprio abusador."

Ela engole com dificuldade, pensando sobre o que ele fala. "Eu nunca poderia deixá-la, muito menos machucá-la." A morena aperta o apoio de braço da cadeira.

"Eu sei. O carinho entre vocês é perceptível." Ele se vira e lhe oferece um sorriso. " Você gosta de ler Rachel?" O homem puxa um livro da estante.

"Acho que sim... Quero dizer, eu não leio muito, Quinn ganha de mim nesse quesito, mas eu sempre tento ler alguma coisa, quando tenho tempo..."

Ele concorda e lhe estende um livro com a capa branca e a palavra Felicidade escrito em letras maiúsculas num tom laranja ao centro. Ela faz uma pequena careta.

"Não é um livro de auto-ajuda." Ele explica. "Eu não acredito que eles funcionem, a única forma de ajudar a si mesmo é através do autoconhecimento e não existe autoconhecimento sem a opinião externa de algum profissional. O inconsciente esconde muitas coisas que só são perceptíveis aos olhos dos outros."

Ela aceita o livro e folheia algumas paginas.

"É um estudo cientifico sobre a felicidade. Acho que vai lhe ajudar a entender os processos pelos quais Quinn irá passar durante o tratamento." Ele faz uma pausa e espera que ela levante os olhos antes de continuar. "Existe um nível 'normal' de felicidade para cada individuo, e esse livro mostra que, independente do que aconteça, seja uma coisa extremamente boa ou ruim, esse nível normal sempre se estabiliza. Claro que o tempo varia de pessoa para pessoa e algumas realmente não se recuperam nunca de eventos traumáticos. Mas a Srta Fabray é jovem e saudável, tanto física quanto mentalmente. Esse material lhe mostrará algumas das fases típicas da recuperação e como agir quando ela precisar de apoio."

Ele volta a sentar.

"Obrigada." Murmura a morena, piscando algumas vezes e prendendo uma mecha de cabelos castanhos atrás da orelha.

"Ela vai se recuperar Rachel. E eu posso afirmar que não vai demorar muito."

Já fazia uma semana que Rachel não a acompanhava. Desde que o assunto Beth havia surgido.

"Eu sei o quanto esse assunto é delicado para você, nós não precisamos..." Começa o Dr. Guardia, ao perceber aonde essa discussão está chegando.

"Não, tudo bem. Eu nunca falei sobre isso abertamente antes e acho que está na hora de falar..." Quinn o interrompe, mordendo o lábio e lançando um olhar para Rachel.

A diva não participava ativamente das seções, ela só ficava em silencio (o que era extremamente difícil as vezes), observando, tinham vezes em que ela segurava a mão da loira e outras em que elas se abraçavam e choravam juntas. Os únicos momentos em que ela havia falado, foram os que tratavam do presente, os que lidavam com a questão da sexualidade.

"Beth é sua filha, correto?"

"Sim."

"Ela nasceu quando você tinha 16 anos e foi adotada naquela época..." Ele lia as primeiras anotações que havia feito sobre Quinn, aquelas aonde ela falava de seu passado.

"Sim."

Carlos não perguntou mais nada, olhou nos olhos da loira e esperou que ela desenvolvesse.

"Eu... A principio eu não pretendia manter contato." Ela olha para Rachel mais uma vez e a morena sorri, lhe estendendo uma mão. "Eu conhecia a mulher para quem ela foi dada, Shelby. Ela é mãe da... mãe biológica..."

"Ela é minha mãe biológica." Intervém a cantora, levando a mão da loira aos lábios e beijando suavemente, incentivando-a a continuar.

Quinn limpa a garganta. O assunto Beth nunca falha em deixá-la desconfortável.

"Lima é uma cidade pequena e Shelby e Beth continuaram morando lá depois da adoção. Eu não pretendia conhecê-la, mas isso acabou sendo inevitável. Nós nos encontramos em um supermercado e a Srta Corcoran me convidou para o aniversario de um aninho da minha filha." Ela respira fundo.

"Antes de você continuar," Dr. Guardia se volta para Rachel. "Você mantém contato com a sua mãe?"

Rachel assente. "Nós nos encontramos uma vez por ano, na época do Natal."

"E eu presumo que você conheça a Beth?" Ele se reclina na poltrona e cruza os dedos.

"Sim. Ela é uma menina maravilhosa..." Sorri a morena. "Tão linda quanto a mãe e extremamente doce..."

Ele assente e se volta para Quinn, que agora tem os olhos marejados, e faz sinal para que ela continue.

"Eu fui para o aniversario, mesmo que não parecesse a coisa certa a fazer. Comecei a visitá-la uma vez por mês. Shelby dizia que não queria que eu cometesse o mesmo erro que ela cometeu." Agora é a vez dela de apertar a mão da diva. "Isso se seguiu até que eu entrei para a faculdade e me mudei para cá. Acabei me afastando um pouco, mas nunca deixei de vê-la em cada oportunidade que tive. Eu ia para Lima para ver minha filha, e não os meus pais. Eu nem chegava a vê-los."

"Mas..." Começa Rachel, sem entender. "Você disse que não falava mais com a Beth e ela nunca falou sobre você."

"Shelby casou há seis anos atrás. Com um homem viúvo, pai de dois filhos." Ela fala olhando para Rachel e a morena concorda, por que é verdade. "Desde então, eu nunca mais vi a minha filha. Ela pediu que eu me afastasse e eu fiz o que ela quis. Ver Beth nunca foi um direito meu."

"Claro que é um direito seu! A adoção é aberta e você pode vê-la quando quiser!" Exclama Rachel, sentindo um calor subir até seu rosto.

"Sim, mas Beth não é mais minha filha Rachel. Eu não posso ir contra o desejo da mãe dela." Uma lagrima pinga da ponta de seu nariz e a diva levanta imediatamente, sentando no braço da poltrona de Quinn e acariciando os cabelos loiros.

"Eu vou falar com a Shelby. Ela não pode fazer isso com a Beth, ela está cometendo o mesmo maldito erro! Será que ela não consegue aprender? Ela perdeu todas as chances comigo e ela sabe o quanto eu sofri em função disso!" Seu rosto está vermelho e seus dentes trincados. Ela tem sentido raiva demais ultimamente e isso não é muito saudável.

"Rach... Eu não..." A loira se solta do abraço.

"Eu não consigo acreditar! Eu não acredito que aquela mulher realmente seja minha mãe, eu nunca faria isso Quinn! Eu vou ligar para ela agora!" Ela solta a assistente social e tira um celular da bolsa.

"Senhorita Berry..." O terapeuta intervém. "Eu sei que esse assunto é delicado para você, mas eu acho que a escolha de ligar não compete só a você."

"Mas eu não acho que seja culpa da Shelby. Tenho certeza que quem proibiu os encontros foi Zachary. Eu nunca gostei dele, e os gêmeos são realmente demoníacos." Ela aperta o botão verde do aparelho, como se não tivesse ouvido ao psicólogo.

Quinn levanta da cadeira e para na frente da morena, segurando seus pulsos com delicadeza. "Rachel. Por favor, eu não quero que você ligue."

Uma voz masculina atende e Rachel estava prestes a falar quando seus olhos encontram os de Quinn e algo neles a faz baixar o telefone. Ela envolve sua namorada em um abraço e pede desculpas, ela não liga para Shelby naquele dia, mas promete para si mesma que vai fazer alguma coisa para mudar essa situação.

"Eu vou para o quarto tirar o casaco. Já tem alguma ideia para o jantar?" Quinn beija a ponta do nariz da morena e levanta de seu colo. Ela havia voltado para seu próprio apartamento para pegar mais coisas, porém, voltar a morar lá estava fora de questão.

"Na verdade sim." Responde a diva, levantando também. "Já que amanhã eu vou estar viajando, eu pensei em cozinhar alguma coisa especial e depois nós podemos..." Ela olha para Meg e sua face esquenta um pouco antes de continuar. "Eu queria me despedir de você..."

A loira volta para a sala, usando pantufas no lugar das botas e o casaco preto e comprido havia desaparecido, deixando a mostra o suéter rosa bebê e a básica branca. Ela estava totalmente adorável. "Parece perfeito..." Comenta ela, abraçando Rachel por trás e afastando os cabelos castanhos para depositar um beijo em seu pescoço.

Meg limpa a garganta enquanto junta as suas coisas. "Eu presumo que não esteja incluída nos planos..." Ela sorri.

"É, eu acho que não." Rachel aperta os olhos de forma brincalhona.

"Desculpa Meg..." Quinn suga o lobo da orelha da diva levemente. "Eu nunca gostei de dividir..."

Meg revira os olhos. Ela não pode negar que as duas mulheres a sua frente formam um casal muito adorável. Rachel vira o rosto e desliza seus lábios contra os de Quinn antes de se voltar para a assistente novamente.

"Te vejo amanhã a noite no aeroporto então?"

"Oito e meia. Não se atrase." A assistente abre a porta. "Divirtam-se crianças." Ela brinca antes de sair do apartamento.

"Tchau Meg." Fala Quinn, quando ouve o barulho da fechadura.

Rachel se vira em seus braços e segura sua face com a mão, acariciando sua bochecha com o polegar. "Eu vou sentir tanta saudade..."

A loira se inclina para a frente desliza o nariz contra o da morena, carinhosamente. "Eu odeio ter que te dar tchau..." Comenta ela, fechando os olhos.

Rachel se estica e seus lábios colidem em um beijo apaixonado. "Então vamos fazer essa noite durar para sempre..."

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