O Conto de Farsas

5 O encontro às escuras


Notas iniciais
As coisas começam a ficar mais tensas

Após o baque da não aprovação, Marcelo resolveu sair com alguns ex-colegas de cursinho. Era carnaval e, mesmo não gostando de tais festas, julgou que seria bom sair e despairecer um pouco.

Era difícil, porém, ouvir os amigos falarem que estavam ansiosos para o início de suas aulas na faculdade; muitos ali nem ao menos passaram na federal, mas possuíam dinheiro o suficiente para pagar uma boa faculdade particular.

Marcelo, no entanto, estava decidido: iria retomar os estudos sozinho, uma vez que sua bolsa de estudos no cursinho não seria renovada.

Cabeça erguida, Marcelo.

O rapaz não tinha o hábito de beber. Seus colegas estavam comemorando, dançando, rindo em frente a um trio elétrico. Marcelo imaginou que tudo aquilo não passava de uma bobagem, que deveria estar em casa diante de uma apostila ou assistindo ao desfile das escolas de samba com os seus pais, que estavam de folga.

— Acho que já vou. – avisou ele, com dificuldades, em meio aquela música alta.

— Não está se sentindo bem, cara? – respondeu um dos colegas.

— Só vim pra ver vocês mesmo. Que bom que todos estão bem!

— Fica mais um pouco, Marcelo! – pediu uma colega. Ela havia tentado vestibular para engenharia civil e também não passara, mas suas aulas na particular já haviam começado.

O rapaz tinha um pouco de inveja dela e de todos os seus outros colegas.

— Eu realmente preciso ir! – insistiu e sorriu, sem graça, virando de costas e deixando o grupo de amigos, que se divertia cantando uma música de axé qualquer, segurando suas latinhas de cerveja.

Marcelo dos Santos andava desconcertado em meio aquela multidão no aterro da praia. Usava um short fino e um abadá; estava arrependido por ter gasto dinheiro com aquele traje. Na sua casa, todo centavo era bem-vindo, porém sua mãe insistiu que o garoto saísse.

Eu nem gosto de usar camisas sem mangas. E não gosto de carnaval. Mamãe insistiu e eu saí. Agora preciso voltar às minhas obrigações, pensava. Esbarrou em um cara que trocava beijos com outro rapaz. Olhou para aquela cena, sem graça, por alguns segundos e seguiu caminhando, passando pelos obstáculos. Retirou o par de chinelos dos pés e seguiu caminhando pela areia fofa até chegar à Avenida Beira-Mar.

⚓

Quando o celular de Patrícia vibrou, seu coração disparou. Seguia um pouco mais conformada quanto à maneira que seria a sua vida dali para frente e queria recomeçar aos poucos.

— Estou pronta. – disse ela, sorridente, ao telefone. Era a primeira vez que se arrumava como antigamente desde o incidente. Ela estava com a prótese e estava se sentindo linda, como se aquilo fosse um mísero detalhe.

Quando saiu do quarto, seu pai não pôde deixar de sorrir para ela. Estava ocupado ao telefone, tratando de negócios, de certa uma grande quantidade de doses de sêmen que venderia para algum empresário. Falava em inglês.

Horácio Barreto era um homem na casa dos sessenta anos, gordo, estatura baixa. Sempre estava de calça jeans, um cinto com uma fivela grande, camisa social e um grande chapéu.

Patrícia Barreto vivia com o pai em um bairro nobre de Fortaleza, numa grande casa, que mais parecia um palácio. Possuía vários quartos, uma grande sala de jantar com um lustre de cristal no teto, logo acima da mesa; um lindo jardim com piscina. Biblioteca, academia, sala de jogos, empregados para servir-lhes com toda pompa e circunstância... tudo o que o dinheiro poderia comprar.

Quando Horácio Barreto não estava cuidado de negócios na sua fazenda no interior, deixava tudo nas mãos do seu filho mais velho, Solano Barreto, que era médico veterinário recém-formado. O empresário sempre quis que Patrícia seguisse os seus passos e cursasse agronomia, porém a paixão pelo hipismo falou mais alto no coração da garota e ele sempre a apoiou.

Solano Barreto era o orgulho do pai. Aos trinta anos de idade era, naturalmente, o seu sucessor e tinha sua vida já traçada; vinha à cidade grande pelo menos uma vez por semana. Horácio sempre dizia que não se deveria deixar os animais a cargo dos funcionários da fazenda (ou peões), pois os negócios poderiam ir por água abaixo. Solano bem que sabia que os equinos são animais bastante sensíveis e qualquer falha de manejo poderia acarretar em prejuízos para os negócios da família.

Patrícia se sentou no grande sofá branco da sala de estar de sua casa. Não deixava de olhar o celular. Parecia ter quinze anos novamente.

— Posso saber aonde a senhorita vai?— Patrícia ouviu uma voz, vinda da escada que dava para o andar de cima do palacete. Alto, loiro, barba por fazer, um revólver em um coldre de couro preso à cintura. Vestia trajes exatamente iguais aos do pai.

— Solano! – Patrícia exclamou, surpresa. Esperou que o irmão descesse as escadas para lhe dar um abraço e um beijo no rosto. – Não sabia que estava na cidade!

— Bem... vim fazer uma visitinha. Mas penso que você tem um compromisso melhor.

— Pois sim... – afirmou a garota, um pouco sem graça – Mas quando você volta para o interior?

— Amanhã, bem cedo. Preciso fiscalizar o que os funcionários andam fazendo. Algumas éguas estão parindo e tenho que estar na fazenda para dar assistência. E você bem sabe como papai fica uma fera quando fico longe da fazenda por muito tempo.

— Ouvi meu nome? – Horácio pousou o telefone fixo em cima da mesa de centro da sala e fitou os dois filhos. Estava feliz por sua família estar ali, reunida. Sua falecida mulher ficaria feliz.

O celular tocou. Patrícia leu a mensagem e respirou fundo. Ele havia chegado. Estava esperando no carro, do lado de fora.

— Preciso ir. – a moça sorriu – Mas vê se aparece, Solano! Sei que os cavalinhos precisam de você, mas papai e eu ficamos morrendo de saudades.

Patrícia Barreto estalou um beijo no rosto do pai e outro no rosto do irmão, pegou sua bolsa e saiu, saltitante.

⚓

Havia um aplicativo novo na loja virtual dos smartphones, que os jovens estavam baixando e usando freneticamente em 2012. Se tratava do You’nMe (you and me). O ícone, sugestivo, era um coração vermelho com uma flecha nele atravessado. Nele, os pretendentes ou as pretendentes apareciam na tela principal, e o usuário os julgava, como um cardápio. Dois toques rápidos na tela significavam que o usuário gostou do pretendente e, então, o mesmo era notificado em seu smartphone. Caso contrário, bastava fazer um gesto na tela puxando com o dedo para baixo e o “cardápio” de pretendentes mostrava outra pessoa.

Marcelo assistia no sofá ao desfile das escolas de samba em um canal aberto enquanto sua mãe cochilava na poltrona da sala e seu pai roncava na rede. Pensou em acordá-los para que eles fossem para o quarto, mas achou melhor apenas desligar a televisão e se retirar.

Quando finalmente, devido a lentidão da internet, o You’nMe foi instalado no tão humilde celular de Marcelo, o rapaz acabou julgando negativamente a si mesmo. Suas aventuras amorosas nunca passaram de meros casinhos com garotas da escola e nunca chegavam a um namoro.

Acho que não preciso estar em um relacionamento. Devo me concentrar nos meus estudos, é isso.

Marcelo dos Santos desinstalou o aplicativo antes mesmo de criar um perfil, tomou uma apostila para si, deitou-se na cama e estudou geografia até pegar no sono.

⚓

Quando Patrícia Barreto entrou no Corolla preto de seu pretendente, olhou para o seu rosto e se sentiu desconfortável, diferentemente de como estava há poucos minutos. Retirou o celular da bolsa e abriu o aplicativo You’nMe. Olhou para a foto do perfil de “INÁCIO, 23”.

Não era a mesma pessoa que dirigia aquele carro.