O Conto da Flor Esqueleto
4 Capítulo 3
Quando eu tinha apenas cinco anos, a minha vida já era um completo inferno. Eu morava em uma casa acabada, praticamente desfeita. No inverno, o frio reinava, invadindo o nosso corpo até os osso.
As péssimas condições em que vivíamos tinham um responsável: meu pai. Ele passava o dia todo num bar, bebendo como se não houvesse amanhã. Quando voltava a casa à noite, batia em minha mãe e em mim. Toda a vila sabia da nossa situação, de tudo que nós pássavamos, mas ninguém ajudava. Nunca faziam nada, apenas ignoravam e seguiam com suas vidas.
Minha mãe era uma artesã. Ela tentava ganhar algum dinheiro vendendo objetos artesanais: bonecos, vasos, potes... tudo aquilo que conseguisse fazer. Era a única forma que conseguia alguma renda, mas mesmo assim nunca era suficiente, pois aquele bastardo roubava o dinheiro para passar o dia no bar.
Ela era uma mulher quente, confortável e carinhosa, de cabelos vermelho vivo que lhe proporcionavam uma aura quente e olhos azuis, profundos e calmos. Eu tive sorte quando herdei o cabelo vermelho dela, mas meus olhos... são da cor dos olhos daquele ser doentio. Eu odeio o vermelho de meus olhos.
Eu era muito jovem naquela época. Perguntava a minha mãe com a maior inocência "Por que não podemos fugir? Por que temos que aguentar tudo isso?". Quando eu fazia essas perguntas, a dor ficava nítida em seus olhos. "Kazuo, não posso fazer isso. Tenho receio que ele nos encontre, e então tudo seria pior para nós, para ti", foi o que ela me respondeu uma vez. Eu nunca mais toquei naquele assunto após ouvir isso.
Mas houve um certo dia que quebrou a rotina a qual estava habituado. Meu pai tinha voltado para casa mais cedo. Ele estava furioso, seu humor muito pior que o habitual. Lembro da minha mãe sussurrando-me para me esconder no armário e não sair enquanto não fosse seguro. Eu obedeci, e deixei que fosse enfrentar a fera, enquanto fiquei escondido no armário a tapar os ouvidos e conter o choro. Me odiava por não poder fazer nada por ela, odiava vê-la sofrer parar proteger-me, odiava que aquilo não pudesse acabar, que não pudessemos viver em paz, sem medo.
Antes que me desse conta, todo o barulho havia parado. Eu não conseguia ouvir nenhum dos dois, o que me fez pensar que ele tivesse ido longe demais naquela noite e tirado a vida dela. Mas então eu ouvi um som de passos. Não parecia com os passos de nenhum de meus pais, o que me deixou assustado pensando que um estranho havia invadido a casa e que eu seria sua próxima vítima.
Os passos se aproximaram do armário e a porta foi aberta lentamente, rangendo. Eu simplesmente tinha fechado os olhos, esperando meu destino. O rangido parou. Eu estava tremendo, mas nada havia acontecido. Abri os olhos e vi a pessoa à minha frente. Era um estranho, de cabelos azuis cativantes e olhos hipnotizantes de esmeralda.
– Não precisas ter medo, aquele homem não te volta a fazer mal. – a sua voz era gentil, não senti nenhuma hostilidade vinda dele – A tua mãe está à tua espera na sala, ela disse onde tu estavas.
O estranho tinha esticado a mão para me ajudar a sair do armário, e eu olhei desconfiado e hesitante, mas acabei por aceitar a sua ajuda. Ele não largou a minha mão até eu ter a minha mãe à vista.
Ela estava com alguns ferimentos e hematomas, mas felizmente estava viva. Corri para ela e simplesmente me perdi no abraço caloroso enquanto ela chorava e pedia desculpa por me ter feito passar por todo aquele inferno. O meu pai estava inconsciente no chão, e eu lamentei que ainda respirasse, mas ao menos não machucaria ninguém por algum tempo.
– Não quero apressar nada, mas tenhos que vos levar para um lugar seguro antes que ele acorde.
Enquanto estava no abraço da minha mãe, tinha esquecido a presença do estranho. Nós nos levantámos rapidamente e seguimos o homem na escuridão da noite. Durante todo o percurso, a minha mãe não largou minha mão uma única vez. Eu não me recordo de quanto tempo andamos, mas sei que na época pareceu ter passado horas quando finalmente alcançamos o destino.
Entramos numa casa quente e em boas condições. A casa era feita de madeira, tinha dois quartos confortáveis, uma sala aconchegante com uma lareira e uma cozinha bastante limpa. Pra falar a verdade, toda a casa estava limpa e com uma atmosfera calma.
– Aqui estarão a salvo, esta é a minha casa por favor sintam-se à vontade, amanhã irei arranjar mantimentos e roupas para os dois.
– Não sei como lhe agradecer por nos ajudar, mas não queremos abusar da sua gentileza.
– Por favor não neguem o que lhes ofereço, eu não vou pedir nada em troca, por isso apenas aceitem.
Parecia bom demais que tudo tivesse acabado, ninguém voltaria a bater em mim ou na minha mãe. Eu lembro que naquela altura apenas pensava ‘’se isto for um sonho, por favor deixa-me sonhar para sempre, eu simplesmente não quero acordar para um pesadelo’’
– C-como... soube de nós? – eu tinha me esforçado ao máximo para que a minha voz saísse firme, mas era apenas uma criança assustada.
– Eu estava de passagem na vossa aldeia quando reparei numa discussão à porta de um bar. O dono do estabelecimento e um outro indivíduo estavam a discutir com um homem podre de bêbado, provavelmente uma questão de dinheiro. Depois que o homem bêbado foi embora, os dois que ficaram comentaram que sentiam pena da esposa e do filho daquele ser, que mais dia ou menos dia acabariam mortos por causa dele.
Nesse momento o estranho fez uma pausa, e reparou no sofrimento que estava estampado na cara da minha mãe, misturado com um pouco de vergonha pelo fato de até mesmo um estranho ter conhecimento da nossa história.
– Quando os dois homens estavam prestes a entrar no bar, eu me aproximei deles e perguntei onde era o vosso lar. Quando cheguei ao pé da vossa casa a porta estava semi aberta e ouvi os gritos. Corri para dentro da vossa casa e deixei o ser inconsciente, o resto já sabem.
O silêncio reinou por momentos naquela sala, até que o dono da casa quebrou o ambiente pesado.
– Lamento a apresentação tardia, o meu nome é Nagito Kurosaki.
– Imagine, nós é que pedimos desculpa, eu sou Tsumigi Kurosawa e este é o meu filho Kazuo. Pedimos desculpa pelo incomodo.
– Não incomodam nada, vivo sozinho à tanto tempo que até é uma alegria para mim ter convidados.
Apartir daquele momento, passamos a viver naquela casa, numa aldeia que era longe o bastante para que aquele homem não nos encontrasse. Graças ao Nagito, minha mãe foi capaz de encontrar um trabalho decente, num ambiente confortável onde era bem vinda, e eu, eu era uma criança normal denovo, brincava com outras crianças e no final do dia eu ia para casa onde a minha mãe e o Nagito me recebiam de braços abertos. Eu era feliz. Aquele tempo da minha vida foi como um paraíso.
Foi uma questão de tempo até a minha mãe e o Nagito se apaixonarem um pelo outro, mas eu não me opunha nem tinha medo. Sabia que ele iria cuidar bem dela, eu estava grato a ele, ele era meu pai e meu herói.
Quando eu tinha seis anos, o fruto dessa relação nasceu: uma garota com o cabelo azul do Nagito e os olhos azuis da minha mãe entrou na minha vida. Chamaram-na Akira Kurosaki. Desde o momento que a vi, eu senti afeição e carinho por ela. Os olhos da minha mãe e o cabelo do meu novo pai, eu estava feliz por ter uma irmã mais nova que tinha parecenças com as duas pessoas que eu mais adorava.
Desde que ela nasceu fomos praticamente inseparáveis, brincávamos juntos quando eu não estava na escola, e quando eu estava, ela ia visitar-me muitas vezes, nós dormíamos na mesma cama e tomávamos até banho juntos. Ela era uma garota alegre e a sua alegria era contagiante.
Mas então, a desgraça voltou a cair sobre mim. Quando eu tinha onze anos e a Akira cinco, um grupo de bandidos invadiu a aldeia e muitas crianças foram raptadas. Eu estava na escola na altura e em um momento de pânico sobre o que poderia ter acontecido com minha irmãzinha, eu escapei e corri o mais rápido que pude para casa. A porta estava quebrada, a minha mãe chorava juntamente com o Nagito, que estava cheio de ferimentos. Ela tinha sido levada. O chão debaixo de mim tinha desabado naquele momento. Por que tinham de a levar? Por quê?
Todos os dias Nagito deixava a casa para procurar pistas acerca da minha irmã, mas sem sucesso. Tudo aconteceu rápido demais, e os culpados não deixaram nada para trás que os denunciasse.
Nunca esquecemos a Akira durante os anos que se passaram. A atmosfera foi ficando mais leve, mas nunca a esquecemos. Quando completei quinze anos, eu disse ao Nagito e à minha mãe que a encontraria, eu não iria desistir enquanto não encontrasse a minha irmã. Para isso tive que seguir uns caminhos obscuros. Acabei por me tornar um mercenário, matando em troca de dinheiro, estabelecendo relações no submundo, sem nunca deixar de procurá-la.
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