Depois do reencontro na floresta, Akira não estava totalmente em si. Nunca lhe tinha ocorrido que iria reencontrar o seu irmão pouco tempo depois de ter conseguido a sua liberdade. Na verdade, ela nem sabia se o queria reencontrar ao todo, não era mais aquela garotinha inocente que ele tanto adorava e estimava. Ela foi forçada a mudar, o que passou durante esses anos todos a levou a isso, e tinha medo do que se tornou, tinha medo de como a sua família iria reagir ao ver que aquela garotinha havia desaparecido completamente.

Kazuo notou o choque que sua irmã estava a passar e agarrou na mão dela sem dar-lhe chance de protestar, guiando-a para a sua casa, onde poderia relaxar um pouco e recompor-se.

A casa ficava fora da pequena cidade, não muito longe devido a necessidade de arranjar mantimentos, mas o suficiente para garantir privacidade e manter olhares curiosos longe. A habitação não era grande, mas tinha as dimensões perfeitas para uma pessoa morar sozinha nos cômodos pequenos.

Depois de entrarem na casa, Kazuo guiou Akira até um sofá no qual pudesse sentar-se, sem largar a sua mão dando-lhe tempo para reorganizar as suas ideias. Um bom tempo se passou com os dois mergulhados num silêncio profundo, até que Akira quebrou a atmosfera e voltou a si.

– E-eu... eu tenho que ir... – as palavras ficavam presas na garganta, a sua voz saia muito baixa, parecendo um murmúrio.

A garota tinha levantado-se do sofá e já se dirigia na direção da porta, mas antes que pudesse dar um único passo que fosse, Kazuo puxou-a para o seu abraço apertado. Akira sentiu um leve tremor vindo do corpo de seu irmão. Debateu-se durante alguns minutos mas, decidiu declarar derrota, ficando quieta na prisão feita pelos braços de Kazuo.

– Desde que foste levada, não houve um único dia em que eu, a mãe e o pai não pensássemos em ti. Por onde andavas, o que estarias a fazer, como estarias a viver... — Kazuo fazia um esforço enorme mantendo a sua voz controlada para não assustar a sua irmã, ou até mesmo para conter as suas emoções no meio da explicação – o pai saía todos os dias à procura de informações sobre ti sabias? – nesse momento ele sentiu Akira tremendo, sendo sacudida por alguns soluços – Quando eu fiz 15 anos decidi partir à tua procura, fazendo o que estava ao meu alcance. Algumas vezes, fiz até mesmo mais do que eu podia... mas finalmente... finalmente encontrei-te, mesmo que me odeies, eu não vou te deixar ir. Não te vou perder de vista de novo.

O choro da garota, que antes era silencioso, estava agora bem audível. Kazuo apenas a abraçava de modo a confortar a ela e a si mesmo. Pareceu uma eternidade até a garota libertar toda a sua angústia e dor que guardou por tantos anos, mas Kazuo esperou pacientemente pela libertação do peso que a sua irmãzinha carregava. Quando o choro de Akira acalmou, ela foi capaz de dar a sua palavra, ainda que numa voz chorosa.

– Eu tinha medo que notasses que não sou mais aquela pessoa que tu estimavas, que ficasses desiludido, desapontado e que virasses as costas por não veres em mim o que vias antes.

– Idiota, não importa o quanto mudes, nunca deixarás de ser a minha irmãzinha.

Permaneceram no mesmo lugar até que os ânimos se acalmaram. Minutos depois, Akira estava completamente calma, saindo do abraço do seu irmão e ficando frente a frente com ele. Quando Kazuo se levantou, ela pode reparar o quão alto ele estava e o quanto havia amadurecido, percebendo que ele também já não era o mesmo.

Kazuo reparou nas transformações físicas que a sua irmã havia passado. Ela havia deixado de ser uma garotinha, era agora uma adulta formada. Passaram quinze anos separados. Depois de um período tão longo, era mais fácil verem-se como um homem e uma mulher estranhos um ao outro do que como irmãos.

– Eu sei o que vai na tua mente agora, mas eu não posso voltar para casa. Seria melhor se me deixasses sozinha durante algum tempo. – enquanto Akira falava, escondia o rosto atrás do cabelo, para não ficar cara a cara com o irmão.

– Me nego a aceitar isso, não ouviste o que disse à pouco? Definitivamente me nego!

– Não tens escolha nesta matéria! – a sua voz não era mais tremula nem chorosa, havia determinação e raiva que também se refletiam em seus olhos, agora descobertos. – Não tens voto na matéria, talvez um dia eu vá para casa, mas eu não vou voltar lá agora. Há assuntos que não posso deixar por resolver.

A mudança de atitude repentina de Akira, deixou Kazuo sem palavras, precisando de alguns minutos para se recompor.

– Tem a ver com as pessoas que te levaram...?

A jovem limitou-se a acenar, e Kazuo sentou-se novamente no sofá, respirando fundo.

– Quero saber tudo o que aconteceu, o que te fizeram e o por que fizeram. Não te deixarei ir para essa luta sozinha. Lutaremos os dois e no final iremos retornar aos dias antigos.

Hesitante concordou, não queria arrastar o seu irmão para a sua luta mas não pode negar a verdade, provavelmente sozinha não iria conseguir nem queria ficar longe dele denovo. Sentou-se junto a Kazuo e respirou fundo antes de começar a mergulhar nas memórias que tanto queria esquecer.

‘’Depois que fomos levados, viajamos durante horas, todas as crianças naquela jaula ambulante eram praticamente da mesma idade. O pó do terreno seco se embrenhava entre as falhas da carroça e invadia todo o local tornando insuportável para respirar. Durante a viagem toda nem uma gota de água nos foi dada.

Ao alcançarmos o destino, os brutamontes colocaram um saco em nossas cabeça, não conseguia sentir mais o terreno seco que provocara o pó durante a viagem, em vez disso sentia ervas e grama.

Depois, fomos guiados para uma escadaria. Descemos e atravessamos vários corredores, sons estranhos nos rodeavam juntamente com o choramingar de algumas das crianças, incluindo o meu.

Pelo barulho da porta, suponho que fomos postas em uma cela grande, enquanto discutiam o que iriam fazer conosco, mas não tiraram os sacos de nossas cabeças. Depois da breve discussão o grupo foi separado em dois.

Não sei o que aconteceu com o outro grupo, mas eu e os outros que restaram fomos lançados novamente em celas, desta vez individuais. Quando nos tiraram os sacos da cabeça pude ver o ambiente que me rodeava: uma cela fria de pedra com barras de metal, cheia de mofo e insetos, mobiliada com uma única cama quase a cair aos pedaços e um sítio para as necessidades.

Naquela altura eu não sabia o que esperar, o medo e o terror invadiam-me. Enquanto não me buscaram, eu limitei-me a ficar encolhida num canto a tremer e a chorar tal como todas as crianças do corredor.

O som de passos cessou o choro, os homens abriram as celas das crianças recém capturadas, incluindo a minha, e arrastaram-nos para uma série de salas, que mais tarde descobri serem iguais.

O que havia ali provocou um calafrio pela espinha abaixo. A sala tinha uma cadeira esquisita com tiras de couro e estava cheia de instrumentos, líquidos estranhos, agulhas e uma fonte de luz que quase nos cegava. Nessa sala, eles praticavam atos desumanos a pequenas crianças, conduzindo experiências, injetando substâncias em nós, fazendo operações em condições deploráveis, muitas das vezes estando a pessoa acordada sentindo cada coisa que faziam ao seu corpo.

É claro, eu não fui exceção. Descobri, da pior maneira possível, que quanto mais tentássemos lutar, pior seriam as experiências, pior seria a comida que receberíamos -se é que podíamos chamar aquilo comida. Todas essas coisas juntas fizeram com que em algum momento eu simplesmente desistisse de resistir.

Aquele local simplesmente nos rouba a vida... faz com que passemos a ser marionetes sem alma que tem cada movimento controlado. Eles já nos tinham marcado psicologicamente, dominavam a nossa mente.

Os primeiros anos em que passei lá, foi como cobaia para experiências, mas ao atingir certa idade outra fase começou. Eu e os outros fomos obrigados a participar em treinos físicos e de combate, incluindo técnicas de assassinato.

Eu descobri que eles queriam criar um exército pessoal a partir do zero, a ideia deles era moldar crianças para os seus motivos, o seu motivo era derrubar a Família Real, queriam implementar a República tal como nos outros países. Eu descobri através de dois homens falando, sem terem notado minha presença. Fiquei com raiva mas tinha demasiado medo para tentar algo. Aqueles vermes já tinham deixado uma marca em mim.

Durante anos sofri os treinos, as experiências, as condições deploráveis e a comida intragável, fui perdendo as emoções, parte da minha humanidade e a esperança de sair dali. Imaginei que não havia como as coisas ficarem piores, mas certo dia, quando eu tinha 16 anos, expandiam-se os horizontes daquele inferno.

Devido às mudanças que sofria devido à puberdade acabei atrair a atenção de um dos homens que realizava experiências em mim, e esse homem... passou a ir à minha cela com frequência para... para se satisfazer... deixando-me depois, num choro silencioso. Por mais cansada que estivesse, eu simplesmente não conseguia dormir, a minha mente andava irrequieta, pesadelos invadiam-me mesmo que estivesse acordada e algumas vezes era visitada por alucinações. Todas essas noites de pouco sono deixaram marcas nos meus olhos.

Essas visitas duraram até ao dia que finalmente tinha conseguido a minha liberdade novamente. Desde que as visitas noturnas começaram, a minha motivação para sair dali tinha retornado. Não queria ser mais a marionete de alguém ou ser apenas um objeto a ser usado, por isso fui fazendo pesquisa no local onde estávamos a ser feitos prisioneiros, tentando não levantar suspeitas.

Aprendi com a minha audição e às vezes ao meu olfato para conseguir pistas sobre os locais onde a minha visão não alcançava, como por exemplo o eco dos túneis seria útil a traçar um mapa dos caminhos mais usados e quão longos eram, e o cheiro que os homens traziam consigo quando voltavam do lado de fora iria dar a noção de onde estariam situados em relação ao mundo exterior, recorrendo também às memórias de quando fora levada.

Aos meus 20 anos de idade, finalmente fui capaz de ser livre.’’

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.