O Continente das Trevas
16 Ira Divina - Parte I
Notas iniciais
A forte energia que se espalhou pelo céu de Xênia tornou-se visível muito além, pelos Continentes, e a intensidade do tétrico poder que havia sido desperto espalhou-se parecendo aumentar o negror da noite que cobria o mundo.
Com os olhos fixos no Alto do Pico Delevon, Vikka sentiu um calafrio percorrer lhe o corpo. Estava junto de Keran e da oficial do GCA Pietra — sobrinha do Comandante Feryus, que viera acompanhando-os após a reunião com os Líderes Aliados, em Aton. E foi com grande pesar em sua alma que a Gram Maga viu que os seus piores temores haviam sido concretizados.
Desceu seus olhos para a imensidão da planície, onde há poucas horas havia deixado Narsha, juntamente de outros Oficiais, no Comando do monumental Exército que o Divino Imperador de Astrynat para ali havia enviado.
Uma raiva imensa envolveu a todo seu ser ao dar-se conta de que, em meio ao caos que se vislumbrava no campo de batalha — por entre espirais negras de fumaça que se erguiam ao alto, mesclados a gemidos de dor que eram trazidos pelo vento —, praticamente nada restara de tal Exército, a não ser por um mediano grupo, sob a mira da arma de atentos vigias, cativos à mercê de seu Inimigo.
— Maldita Narsha! Como pôde deixar isso acontecer?! — ela gritou e sua voz denotava ódio e desespero ao mesmo tempo.
— Realmente imperdoável. O Deus Atron ficará furioso ao saber disso! — rebateu Pietra, com um olhar severo.
Keran fitou-a, e tocou a mão da moça com afeto. Esta correspondeu ao toque do rapaz. E ambos trocaram um olhar significativo. A verdade era que a bela Oficial do GCA, cujos longos cabelos castanhos caíam em cascata até sua cintura, de tez clara e olhos de um tom violeta, e o jovem General do GCA eram há muito ligados afetivamente, e mantinham, secretamente, um envolvimento amoroso.
— Há de haver uma saída — ele disse. Seus olhos amendoados estavam imersos num brilho cinzento; os cabelos vermelhos, longos e lisos, esvoaçavam a favor do vento noturno daquelas terras áridas. E sua armadura, de grande imponência, e em tom de cobre, emitia um brilho fosco ao toque pálido do clarão da lua, que surgia tímida e desaprecia em seguida em meio ao negror que, de forma magnânima dominava a tudo, pelo poder do Deus recém-desperto.
— Sim. Há de haver... Maldição! Exatamente como eu havia previsto... O Selo foi rompido... Eu não devia ter me afastado nunca daqui! — disse Vikka realmente abalada. Um medo voraz a consumia. Sabia a crueldade do Deus Imperador e temia como ele reagiria sobre o ocorrido.
— Se os tolos da Grand Chase já lidaram com esses Deuses no passado e conseguiram vencê-los, por que nós não poderemos? — falou o General Keran com convicção.
— Você está certo. — retrucou Vikka, depois de um momento de reflexão. — Não vamos nos deixar derrotar assim. — Venham comigo, precisamos trazer Xênia de volta ao nosso controle de qualquer jeito!
A maca conduzindo a Oficial Narsha foi deitada próxima a em que Mari estava, e imediatamente, o Oficial Médico e seu assistente deram início ao atendimento. Mas as condições da Guerreira eram realmente preocupantes. Lothos e Elyedre fitavam o procedimento com expectativa e apreensão.
— Realmente espero que ela se recupere. Ela será de grande ajuda para que conheçamos melhor as táticas e motivações de nosso Inimigo. — disse Lothos com ar sério.
Elyedre a fitou, e se aproximou da maca onde o médico, com nervosismo, lutava para conter a hemorragia da moça.
— O golpe foi preciso e o corte profundo. Não sei se conseguiremos salvá-la. Estou tendo dificuldades em conter a hemorragia.
— Entendo. — disse Elyedre Khennyel tocando na mão de Narsha e segurando-a com força. Fechou seus olhos, e uma leve luz prateada a envolveu por uns segundos, bem como ao corpo da jovem que jazia agonizante — a qual não passou despercebida de sua Oficial Superior, embora o Oficial Médico, na ânsia de lutar pela vida de sua paciente, nada percebeu. A jovem, tinha a mente fixa no seu dever, e controlava aos próprios poderes, mantendo-os na sua totalidade ainda ocultos. Mesmo assim, os resultados se fizeram notórios quase que imediatamente e o Médico esboçou um ar mais relaxado.
— Consegui controlar a hemorragia. O estado dela ainda é grave, mas podemos ter esperança — disse ele.
— Uma boa notícia. — disse Lothos de modo formal ao Oficial Médico, mas seus olhos encontraram os de Elyedre e ela fez um leve movimento com a cabeça, que passou a sua Comandante a certeza de que Narsha sobreviveria.
Elyedre se afastou e aproximou-se da maca onde se encontrava Mari, e sentiu o coração doer ao vê-la naquele estado. Tinha-lhe um carinho muito especial e, embora ainda não tivessem tido a oportunidade de conversarem, sentia que esse dia se fazia próximo.
Lothos seguiu-a com os olhos. Sabia a verdade sobre Elyedre e sua relação com a antigo Reino Angelical de Elyos, bem como para com Calnat. Mas mantinha fielmente seu segredo guardando-o consigo, como prometera a jovem, há alguns anos.
No alto do Pico Delevon, os olhos negros de Ashiva agora fitavam com extrema seriedade a Thanatos, que, junto dos demais Deuses, estava posicionado entre ele e o casal de Magos caídos ao chão.
E foi com reverência que o Deus da Sintonia, bem como Periett, Zig, Juriore, Samsara e Gaia voltaram-se ao poderoso Deus ancestral. Embora todos, sem exceção dentre as poderosas Divindades, estivessem inquietos por vê-lo desperto de seu sono milenar — o qual, por intermédio deles próprios, num passado remoto, havia sido obtido com o sacrifício de suas vidas; de modo que eles, na essência primordial de luz que são como Divindades, após muitos séculos, recriaram novos corpos; e, assim tornaram à vida,
— Grande Ashiva, louvamos vosso retorno! — disse Thanatos, dirigindo-se ao Deus Ancestral na linguagem restrita dos Deuses, e este esboçou um sorriso sombrio.
— Retorno para o mundo do qual jamais deveria ter sido banido. — retrucou com rancor o Deus — E dispenso tua hipocrisia Thanatos. Aliás, de todos vocês! Vejo nos olhos de cada um que as palavras que proferem contradizem seus desejos! Afinal, foi por sua rebelião que fui Selado.
Thanatos recuou um passo, e os demais se entreolharam. Ashiva, encarou-o de perto.
— Seja como for — disse, por fim, com igual frieza —, estou de volta e assumirei o lugar que a mim cabe na hierarquia de Xênia.
— É teu por direito. — disse o Deus da Sintonia sem demonstrar abalo, mas por dentro corroía-se de fúria.
Ashiva desviou seu olhar para a bela Deusa Gaia e dela se aproximou, tocando-a com gentileza no rosto. Ela esquivou-se, constrangida, e Periett conteve-se para não avançar contra o Deus Governante. Que, altivo, afastou-se dela e encaminhou-se na direção de Ronan e Arme — a cuja luz prateada da joia de Nyattur envolvia-os — e pôde sentir o pulsar fraco de seus corações, que ainda insistiam em bater.
— Criaturas insolentes... Insistem em lutar por suas miseráveis vidas... Mas isto vai terminar agora! — rosnou o Deus entre dentes enquanto erguia seu punho; uma espécie de lança de energia se formou em suas mãos e ele a arremessou contra os jovens. Mas a força de outra grandiosa e Divina energia repeliu ao ataque do Deus, fazendo com que esta explodisse ao longe. Os olhos de Ashiva se voltaram para Thanatos, que, sem temor algum, se posicionou a frente dos jovens, e o fitava diretamente nos olhos.
— Não permitirei que os machuque! — falou, e sua voz saiu extremamente grave. Os longos cabelos prateados reluziam, e sua máscara realçava-se em seu rosto.
— Então te colocarás outra vez contra teu Senhor para defender seres insignificantes como estes?
— Devemos muito a eles. Não fosse pela coragem e valor desses seres e estaríamos eternamente presos no Selo das Trevas. E tu também continuarias em teu sono. Deverias reconhecer o mérito dos seres de nossa própria criação.
Ashiva estreitou os olhos e se aproximou de Thanatos, que não desviou seu olhar e nem intimidou-se.
— Pois nunca fui favorável à criação de ser algum. Nosso mundo era perfeito tendo apenas a nós — Deuses — o habitando. O caos devia ter permanecido imutável pelos tempos. E não fosse pela atitude desonrosa que tiveram e por vossa maldita rebelião isso jamais teria sido mudado.
— Pois a nosso ver o mundo se tornou verdadeiramente interessante com a criação de toda vida que hoje nele habita, e isso sim torna evidente a supremacia de um Deus — E agora, como Deus Governante, tu deverias compreender isso e alegrar-se com a grandiosidade que isso representa. — rebateu o Deus da Sintonia, com voz profundamente grave.
Ashiva gargalhou. — Alegrar-me com vosso erro? Em observar um mundo repleto de lutas e mentiras... De cobiça e de ódio? Esse é o mundo que esses seres imperfeitos que criaram trazem até nós!
A voz de Ashiva era solene e extremamente soturna.
— Vejam! Posso sentir o cheiro imundo do sangue dessas criaturas que macularam nosso Solo Sagrado, e mesmo assim vocês os defendem! Agem como tolos! O Caos original era a verdadeira beleza, assim como o vazio dele resultante.
Ouvindo-o, Zig e Periett franziram os cenhos, mas o demais se mantiveram apenas a fita-lo sem passarem evidentes emoções em seus semblantes.
— Isso não é verdade... Há muita bondade também entres os seres de nossa criação — rebateu Gaia, cujos longos cabelos louros reluziam na escuridão noturna.
— Mas o mal que habita seus corações impuros é ainda maior. — reiterou Ashiva fitando-a com um olhar cinzento. Embora passasse uma estranha gentileza no modo de dirigir-lhe as palavras.
— O bem e o mal são o equilíbrio necessário — disse, por fim, sabiamente o Deus da Luz — a cuja pele alva e os cabelos castanhos dourados faziam realçar seus olhos em tom caramelo.
— Por certo, ao vosso ver, então o verdadeiro tolo sou eu? E isso tudo? ... Esta profanação em nossas terras deve ser tolerada, presumo? E nós, Deuses, devemos simplesmente ficar a observar a baderna que esses malditos vermes ímpios — esquecidos de quem lhes sopraram à vida —, de forma desrespeitosa, trazem até nós, é isso? — ele vociferou de modo rude e com ar encolerizado. — Pois digo que não!!!
Uma aura vinho negra envolveu-o e seu poder pareceu estender-se ao infinito, onde fortes raios cortaram o céu sem nuvens. Sem fita-los, tornou a aproximar-se de Arme e Ronan — a quem parecia querer depositar a representação de toda sua repulsa pela Criação da Vida.
— Dê a eles uma chance! Não os julgue de maneira leviana! — suplicou a Deusa da Harmonia Juriore, e Thanatos o segurou pelo braço, impedindo-o de prosseguir.
— Este é o nosso desejo! Os olhos do Deus da Sintonia encontraram o negror dos olhos de Ashiva.
— Se é assim — disse o Deus Ancestral, após um momento de silêncio que pareceu durar séculos —, darei aos Seres de Vossa Criação uma chance. Recolher-me-ei ao meu Templo. E não me envolverei em nada que diga respeito a criaturas mundanas. Ficarei apenas as observando e um dia as colocarei à prova. E só então darei minha sentença. — havia uma ameaça velada nas palavras do Deus, e os demais Deuses perceberam isso. — E quando esse dia chegar nenhum de vocês poderá novamente se opor aos meus desígnio! Fui suficientemente claro?!
— Tem nossa palavra. — disse o Deus da Sintonia, e todos os Deuses — apesar de contrariados — ajoelharam-se diante do novo Deus Governante.
Ashiva, com um brilho arroxeado envolvendo seu corpo, aproximou-se de Ronan e Arme, no exato momento em que seus corações paravam de pulsar. E no rosto do Deus havia seriedade, porém, suas feições estavam menos austeras.
Ele se agachou, e tocou com sua mão direita na fronte de Arme e com a esquerda na de Ronan, que, diante do poder incomensurável do Deus, deixaram a fronteira do mundo dos mortos e encheram os pulmões com o ar frio da noite de Xênia. Despertaram.
O Deus se ergueu e os dois fitaram-no, mas este apenas observou-os em silêncio e, após um leve movimentar de cabeça para os demais Deuses, que o fitavam aliviados, caminhou até a beira do alto precipício que se estendia ao lado oeste do mesmo, e direcionou seu olhar para onde, ao longe, uma grandiosa bandeira do Império de Astrynat tremulava, e que dali era visível — apesar de parecer pequena devido à longa distância em que se encontrava.
Com ar sombrio, o Deus Ancestral apontou seu indicador direito em sua direção, e um feixe de luz vinho negro partiu como um raio transformando em chamas o símbolo profano deixado por Atron e que, atrevidamente, por longo tempo permaneceu no Alto do Sagrado Templo pertencente ao Deus da Sintonia.
Movimentou em seguida seu braço para um pouco mais ao sul, e um forte tremor fez-se sentir por toda Xênia — de modo que certo nervosismo espalhou-se as bases do Pico Delevon, entre os soldados e Oficiais de Vermécia.
Ronan e Arme se abraçaram, e os demais Deuses mantiveram-se em silêncio. O tremor ecoou por longos minutos até que cessou e, a trinta milhas do Sagrado Templo do Deus da Sintonia, ergueu-se todo negro, e imerso no breu da noite, o suntuoso e imponente Templo do Caos Eterno. Uma construção sombria, de ar ao mesmo tempo melancólico e assustador, que seria, a partir de então, a morada do Deus Ashiva — o Supremo Governante de Xênia.
O Deus Governante abriu suas longas asas, e nessa hora os Sete Demônios que pareciam, até então, paralisados — desde o aparecimento de seu Divino Mestre — movimentaram-se. Um clarão envolveu o topo do Pico Delevon, e a intensidade de sua luz ofuscou a visão do casal de Magos — porém, sem afetar em nada àqueles cujos olhos eram Divinos. E quando a luz perdeu sua força tanto Ashiva como os seus bestiais servos haviam dali desaparecido; e no Templo que imergira em seu nome luzes em tom vinho irradiaram-se por entre suas longas colunas, sob a forma de agulhas que erguiam--se ao alto.
Com o afastamento de Ashiva, a bela Deusa da Vida, Gaia, se aproximou de Arme e Ronan e, surpreendendo-os, ajudou-os a levantarem-se. Os demais Deuses permaneceram parados apenas observando.
E um pouco afastados, Dio, Rey e Zero — que haviam caído abismo abaixo devido ao poder do Deus ancestral Ashiva, e que haviam se salvado por um triz ao chocarem-se com uma saliência larga a uns metros abaixo no rochedo —, agora haviam regressado, e, com cautela, também fitavam a tudo em silêncio.
Havia serenidade no rosto de Gaia, embora a severidade habitual no rosto de Thanatos permanecesse.
Arme e Ronan esboçaram um sorriso de alívio.
— E Ashiva? — inquiriu Arme por fim, apreensiva pelo paradeiro do Deus tido como maligno.
— Ele recolheu-se ao seu Templo. Xênia agora possui um novo Deus Governante. — respondeu Thanatos, de modo frio — utilizando agora o Idioma Comum para que os jovens pudessem compreendê-lo.
— Deus Governante? — ela repetiu temerosa.
— Sim, o lugar que sempre pertenceu a ele. O lugar que sempre foi de meu pai. — concluiu o Deus da Sintonia, e ele pareceu ainda mais frio ao mencionar isso.
— Pai?! — tanto Arme quanto Ronan disseram ao mesmo tempo, surpresos. Mas não houve tempo para maiores explicações, pois Vikka — junto de Keran e Pietra ali surgiram trajando suas reluzentes armaduras de combate.
Vendo-os, Rey, Dio e Zero aproximaram-se de Ronan e Arme — que também adquiriram um ar combativo — apesar de estarem muito enfraquecidos ainda.
Diante dos recém-chegados, os Deuses adquiriram uma postura sombria e uma forte energia começou a irradiar no topo do Pico Delevon, de modo que labaredas cortaram os céus, mescladas a intensos raios luminosos.
E o Deus do Fogo Zig — cujo rosto moreno e os cabelos vermelho-alaranjados, eram um tanto espetados e muito curtos —, ostentando sua robustez e corpulência, deu um passo adiante e com o braço esquerdo bloqueou o avanço dos membros da Grand Chase.
— De agora em diante é conosco! — falou, e sua voz grave e gutural ecoou nas paredes rochosas do Pico.
— Afastem-se! — reforçou O Deus da Sintonia, olhando para os jovens com seriedade, fixando seu olhar mais demoradamente em Zero — que percebeu isso e não entendeu a razão da atitude do Deus. Thanatos, com olhos tomados de rancor e ódio voltou-se novamente para os Servos de Atron com sede de vingança.
Sentindo a intensidade da energia conflitiva que envolveu o Cume do Pico Delevon, os membros da Grand Chase ali presentes — atendendo ao desejo das Divindades — afastaram-se indo para a borda a oeste do mesmo, e ao abrigo de uma rocha larga que ia estreitando-se ao chegar à sua extremidade superior, como um dedo apontando o firmamento. Seriam, com certeza, expectadores de uma batalha épica.
— Criaturas malignas que ousaram profanar ao Solo Sagrado de Xênia, preparem-se para encontrar sua morte! — sentenciou Thanatos, e a maneira omina como pronunciou suas palavras provocou arrepios naqueles que as ouviram.
— Tenham cuidado — disse Vikka com apreensão, de modo que só seus companheiros pudessem ouvi-la —, estamos diante de um poder inimaginável, mas precisamos vencê-lo a qualquer custo. Precisamos trazer Xênia de volta ao Deus Atron.
Ouvindo-a, os demais assentiram com movimentos leves de cabeça. E se prepararam para o iminente combate.
A aura de Zig nesse momento expandiu-se ainda mais e chamas vermelhas envolveram o deus de modo intenso. E a energia emanada por seu corpo formou uma pressão tão grandiosa ao solo que ele se elevou ao alto. Sua túnica, em tom rubro, esvoaçando e seus olhos vertendo chamas. Ele deslizou, flutuando muito perto do chão, e em suas mãos os dois longos Sabres se materializaram totalmente circundados pelo fogo.
Ao ver que um dos Deuses havia tomado a iniciativa, Keran também se adiantou e partiu a fim de confrontar o mesmo. Contudo, Zig inclinou-se para a frente, movimentou suas pernas e disparou em grande velocidade para cima do General, e num giro rápido com seus Sabres formou ao chão uma pilastra de chamas, que se ergueu e envolveu Keran, arremessando-o para cima.
Pietra, vendo isso, voltou-se para o Deus empunhando sua longa espada, mas uma nuvem negra turvou sua visão, e ela olhou para frente e se viu presa entre trevas — sendo que nada além de Thanatos podia ser visualizado diante de si, de modo que não conseguia mais ver seus companheiros e nem aos demais deuses.
Uma sensação de sufocamento pareceu envolver lhe, mas ela reagiu com grande força, e utilizando seu próprio poder pôde reduzir o desconforto que tamanha sensação estava lhe causando. Viu então, com apreensão, o Deus da Sintonia materializar uma espécie de Cajado com um aspecto sombrio, com cuja cabeça de uma caveira ornava sua ponta.
— Todo aquele que ousa se levantar contra um Deus merece passar pelo sofrimento eterno, e garanto que nem a morte trará descanso a sua alma. — havia frieza na voz pesada do Deus e ela percebeu que ele a amaldiçoava. Um estranho medo percorreu seu corpo, mas ela tentou afastar a malévola sensação. “Meu Deus é Atron, não devo preocupar-me com maldições de um Deus medíocre como esse” — assim pensou, tentando confortar-se.
Uma sombra cobriu o rosto de Thanatos e ele movimentou o Cajado de modo que, do mesmo, duas gotas de um líquido negro pingaram ao chão e destas surgiram círculos, sendo que de um deles emergiu um Sataniel — criatura gigantesca e com cabeça e pés de bode e corpo humano, trajando apenas um cinturão que prendia um mediano tecido, que caía à frente e às costas de seu corpo, por entre suas pernas; e que empunhava um grandioso e pesado machado em uma de suas mãos.
Keran ainda estava caindo da grande altura que havia sido lançado por Zig, quando Samsara fez seu primeiro movimento, disparando na direção do Guerreiro. E a velocidade do Deus era tamanha que deformava o solo em que ele pisava, e por seu caminho gotículas de luz dourada se dispersavam e se aglutinavam — formando um plasma que deixava um rastro à sua passagem. Sua túnica dourada reluzia como o sol, irradiando forte luz em meio à escuridão noturna.
Samsara agarrou Keran antes mesmo que ele caísse, inclinou-se para frente e o arremessou contra o chão com imperiosa força, de modo que, com sua queda, uma cratera abriu-se ao solo; o Guerreiro com a violência do impacto quicou para cima e o Deus da Luz, usando sua grande velocidade, apareceu em baixo dele e lhe desferiu um chute fazendo-o voar de encontro às mesas rituais, que se partiram sob o impacto, assim como algumas rochas que deslizaram de uma parede rochosa próxima às mesmas.
Os membros da Grand Chase observavam a tudo, e sabiam que uma pessoa normal não sobreviveria a algo assim, mas dentre os escombros via-se que o General do GCA mexia-se. Dio tinha os olhos fixos nele e seu rosto demonstrava um ar de dúvida. Rey olhou para seu namorado e percebeu isso.
— Que foi Dio? — disse ela, tocando no rosto do rapaz.
— Nada não. — disse o Asmodiano, voltando seu olhar para ela, mas seu semblante manteve-se sério.
Gaia — encantadora em seu longo vestido feito em tecido muito leve e em tom verde, tinha os cabelos louros esvoaçados pelo vento e uma aura esverdeada a envolvia —, e com movimentos graciosos e grande leveza, levou sua mão à frente e fez materializar um Orbe — o qual começou a irradiar imensa luz, e do chão surgiram grossos cipós que, rastejantes e com surpreendente velocidade, partiram na direção de Vikka tentando envolve-la. Esta se esquivou sem muita dificuldade, apesar da quantidade de cipós aumentar a cada segundo.
Apercebendo-se disso, a Deusa da Vida parou os movimentos e fechou seu punho, erguendo-o para cima. Enormes troncos instantaneamente emergiram do chão cercando a Gram Maga completamente; a Deusa desceu seu punho e, concomitante ao seu gesto, os troncos tombaram violentamente contra Vikka. Mas esta — cujos longos cabelos ruivos também se deixavam conduzir pela força do vento, tendo um brilho opaco em seus olhos esmeralda — apenas bateu seu longo Cajado ao chão, e fios de energia translúcida surgiram e fatiaram todos os troncos — os quais caíram em pedaços ao solo. Gaia olhou-a, surpresa.
O Sataniel saltou contra Pietra — que erguendo sua espada posicionou-se para esperá-lo. E quando este desferiu seu ataque usando seu pesado machado, ela, segurando sua espada com apenas uma das mãos, empurrou o machado para cima. Sua espada envolveu-se por chamas de um tom cinza-azulado; ela girou o corpo e se abaixou, fez um movimento com a espada e de sua lâmina surgiu um fio de energia que se propagou até atingir as pernas do Sataniel, ferindo-as intensamente. Ele caiu de joelhos, e, com rapidez, a Guerreira do GCA correu em sua direção e transpassou-o com sua espada — do abdômen até sua cabeça. O sangue da criatura jorrou, e este caiu sem vida, desaparecendo em seguida, de modo que no local onde este estava apenas a poça escura de seu sangue permaneceu. Thanatos a fitou, e seu olhar esbanjava fúria.
Vikka apontou seu Cajado na direção de Gaia, um grande feixe luminoso se formou e viajou na direção da Deusa. Esta fechou os olhos e envolveu-se por sua energia. Uma parede de gelo surgiu, no entanto, erguendo-se diante da Deusa da Vida, recebendo o impacto do ataque da Gram Maga — explodindo sob seu impacto e fragmentando-se em flocos de neve. Gaia abriu os olhos e viu Juriore, com seus cabelos prateados — cortados em estilo Chanel — sendo acariciados pelo vento. A pele levemente acinzentada envolta por uma luz prateada e seus olhos de um tom violeta fixos na Guerreira Inimiga — cujo poder igualava-se a sua ousadia.
— Juriore! — sussurrou Gaia, e esta lançou lhe um olhar de esgueira.
— Deixe que eu cuide dela. Farei com que se arrependa de seu atrevimento por ousar enfrentar a um Deus! — falou a Deusa da Harmonia com determinação.
Dito isso, Juriore, envolta por sua Divinal Aura em tom azul prateado, fez surgir um círculo de magia sob seus pés, e a figura de uma grande Libra formou-se diante de si. E a Deusa apontou seu pequeno cetro congelado na direção de Vikka.
— Transformação da Morte! — disse, e sua voz parecia tão fria quanto o ar que invadiu a tudo repentinamente. A Libra se desequilibrou e pendeu para a esquerda; e observando a atitude da Deusa, a Gram Maga pôs-se a pronunciar palavras sombrias e antigas de uma magia proibida. Longas asas negras surgiram em suas costas e estas envolveram o corpo de Vikka protegendo-a. No mesmo instante, centenas de explosões de gelo cobriram onde a Guerreira GCA estava, destruindo tudo ao seu redor, numa onda fria e caótica, cujo impacto gelado esmigalhava tudo à sua volta. Foram longos minutos de explosões de gelo constantes até que, por fim, cessaram.
A Deusa admirava o resultado de seu ataque, uma grande nuvem de ar gelado e neve cobria a área onde a Feiticeira estava. Ela sorriu, e a nuvem começou a baixar lentamente, e dentre ela uma silhueta se revelou em meio à destruição à sua volta; o sorriso de Juriore foi sumindo dando lugar a uma expressão sombria; Vikka estava ereta, e nenhum ferimento se fazia visível em seu corpo. As asas que haviam surgido para defende-la haviam desaparecido, deixando para trás apenas uma nuvem de penas e plumas negras que ainda a circundavam. Seus cabelos estavam parcialmente cobertos por neve.
Vikka moveu novamente seu Cajado, e parte das penas e plumas que a cobriam começaram a brilhar, aglutinando-se, até adquirem o formato de flechas de luz — as quais foram direcionadas para a Deusa. Uma sensação de profunda fraqueza envolveu Juriore — à medida que Vikka pôs-se a pronunciar outro Feitiço das Sombras — e sua magia negra parecia que estava a extrair o poder Divino de Juriore. A Gram Maga, com frieza em seu olhar, movimentou seu braço direito e as flechas partiram para cima da Deusa da Harmonia, em incrível velocidade, deixando um rastro de energia escura à sua passagem. Juriore não tinha forças para desviar do ataque, fechou seus olhos e esperou, pelo que pensou, ser seu fim.
Continua...
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