Notas iniciais
Tive uma festa de aniversário semana passada e não pude postar e essa semana tive que ajudar minha mãe no trabalho, então, só deu pra postar agora, vou postar o V e o VI pra compensar e fechar a conta.

Capítulo V

Descobertas

Acordei com o som de um alarme discreto e a vibração que ele fazia em contato com a pele da minha cintura. Tirei o aparelho que meu irmão havia me dado da bolsa e cliquei no botão para atender.

- Deena! Quanta saudade! – Esfreguei meus olhos meio sonolenta e sorri.

- Eu também. Como vão todos aí? – Ele sorriu triste e jurei ver uma lágrima escorrendo pelo seu rosto.

- Bem... – Falou com a voz tropeçando. – Já comeu o chocolate que a vovó fez para você? – Perguntou sorrindo e já não segurando as lágrimas.

- Não... Derek, o que aconteceu? – Falei franzindo as sobrancelhas e querendo estar lá para abraçá-lo.

- Nada, maninha. – Ele desviou o olhar e enxugou as lágrimas que insistiam em rolar pelo seu rosto.

- Você está chorando. Sabe que pode me contar, não sabe? – Insisti.

- Só estou... Emocionado. Você chegou até aí, quem diria, pequena? – Ele sorriu e mordeu o lábio inferior em meio a um sorriso. Sorri, feliz por ele estar tão abalado pelo meu avanço.

- Pois é! Agora, com o acesso à internet vamos resolver os enigmas mais rápido! – Disse, agora animada. – Aposto que Alex já está terminando o seu Cubo Má... – Nesse momento escuto um estrondo no quarto ao lado e me despeço as pressas de meu irmão, indo ver o que aconteceu.

Abro a porta, que estava somente encostada, e entro, vendo Beetee sentada no chão massageando sua coxa.

- Beetee, tudo bem? – Ela olha pra mim, repentinamente surpresa.

- Nem te vi entrar, Deena! Sim, estou bem. – Ela olha pro topo de uma escada ao seu lado, que ia até o alto da parede forrada inteiramente por estantes de três ou quatro metros cheias de livros. O cômodo inteiro era assim, o que me dava a impressão de que estava presa. Em uma das prateleiras vários computadores ficavam em suportes especialmente feitos para isso e ligados a uma tomada.

Beetee levantou e deslizou a prateleira para fora, os aparelhos levantaram da mesa, não literalmente, mas se ergueram por conta de suportes que se dobravam quando tinham que voltar para o armário. Todos eles ficavam estrategicamente localizados em uma meia-lua, para que o controlador ficasse de frente para todos ao mesmo tempo. Beetee abriu um armário na outra extremidade da sala e tirou outros eletrônicos com estranhos suportes arredondados e os colocou sobre as telas dos que já estavam na mesa, eles se juntaram num conjunto assustador de 18 telas umas sobre as outras, todas com tela sensível ao toque e um teclado gigantesco sobre a mesa, com botões para menu, direcionar a páginas específicas na internet e outras coisas que eu nem mesmo sabia que era possível um computador ter.

- Por que eu não tenho isso? – Perguntei sem perceber.

- Cada um tem em seu quarto o que mais combina consigo. – Ela olhou para mim. – Você deve ter alguns eletrônicos, provavelmente carregados de músicas e vídeos. Talvez uns três armários de livros, baixos. – Ela me analisou de cima a baixo. – Aposto que tem uma estante inteira de comidas caseiras. – Olhei para ela surpresa.

- Como sabe disso tudo? – Falei assustada.

- Você nem saberia como procurar um livro num cômodo como esse! – Riu ela. Não me ocupei em me sentir ofendida, sorri. Era verdade. Eu não saberia nem encontrar a porta! Sentei ao seu lado em frente as telas e logo Alex entrou no cômodo, com Giulia e Jim.

- Ah, Deena, que bom que está aí! Não vamos precisar buscá-la. – Eles fecharam a porta e foram até o nosso lado, quando Giu começou a explicar.

- Alex está com o Quadrado Mágico feito, só falta girar uma linha. – Ele nos mostrou e percebi o que estava falando. O cubo inteiro estava montado, somente uma linha estava fora do lugar. Com apenas um giro seria resolvido.

- “Hora de girar em reta”, era isso que o seu desafio dizia. Eu só girei em reta, não sempre, mas na maioria das vezes, nunca pra trás, sempre pra frente. – Disse Alex. – Ele foi se resolvendo quase que sozinho!

- Então, termine logo com isso! – Disse Jim impaciente. Alex assentiu e girou a última vez. Os quadrados que estavam no meio de cada face entraram no cubo, e os que estavam nos vértices saíram, o resto caiu como se nunca tivessem estado juntos. E no meio, ligando tudo tinha um pedaço circular, um suporte para uma bola, com os quatro cubinhos ligados por uma haste de metal no suporte e os cubos do meio por outras hastes. Jimmy puxou o seu Enigma do Palhaço do bolso da calça e encaixou-o no suporte, que tinha um alfinete no fundo. A bola imediatamente explodiu, como eu sabia que faria, e a esfera de metal foi revelada, mostrando um número: 50. Puxei-a até que saísse do suporte e caminhei até uma porta na sala que só poderia ser o banheiro. Entrei com todos atrás de mim, até aquele momento não tínhamos falado nada.

- Tem algum termômetro, água e um aquecedor aqui? – Perguntei abrindo os armários.

- Água, termômetro e aquecedor? Serve o chuveiro? – Ela me mostrou como ligar e me mostrou um visor que mostrava a temperatura que estava a água. Também me contou que aquilo fora inventado no século XX, XXI, nada muito tecnológico.

Apertei no botão de temperatura até chegar em 50º, pedi para que abrissem todas as janelas e coisas do tipo e joguei a bola dentro da banheira com a água fervendo. Esperei um pouco e com um cabide e uma toalha dobrada consegui resgatá-la. Ali estava brilhando as palavras:

Separe as chaves, para abrir o 8º portão.

- Que maravilha, o que isso significa? – Falou Giulia.

- Só vamos descobrir depois de diminuir a temperatura. – Falei, logo antes de colocar o chuveiro a -50º, e jogar a esfera como tinha feito antes. Dessa vez as palavras eram:

E não esqueça: Ainda há lugares abaixo do chão.

- Isso ajuda muito... – Resmungou Alex. Virei-me para encará-lo e respondê-lo. – Que tal uma reunião?

****

Todos nos sentamos em uma mesa baixa com almofadas no chão do quarto, pegamos o desafio e colocamos sobre a mesa, aquilo parecia mais confuso a cada segundo. Beetee colocou um eletrônico sobre a mesa e começou a digitar vários possíveis nomes para o objeto. Até que colocou “Puzzle Metálico” e achou alguns brinquedos semelhantes.

Mostrou-nos uma foto que se parecia muito com o que tínhamos em nossas mãos, mas esse não tinha nome somente a imagem. Decepcionamos-nos, pois também não encontramos tutorial algum de como se montar.

- Ótimo! O que fazemos agora? – Falou Jimmy, ranzinza. Tentei pensar em algo para fazer, mas Giulia foi mais rápida.

- Talvez se entendêssemos a lógica desse jogo, conseguiríamos resolvê-lo. Poderíamos só pesquisar um passo a passo de um modelo mais simples e acompanhar, tentando resolver esse. – Como sempre, Giulia nos deu uma solução simples e lógica, e fomos atrás. Beetee pesquisou por “Metal Puzzle” em um popular site de vídeos e nos mostrou alguns, sem resultado.

- Alguma coisa tem que funcionar! – Falou Alex nervoso por nada dar certo. Quem sabe se outra equipe já não teria resolvido o desafio e estava a caminho do nono portão? Nós não poderíamos perder, estávamos tão perto, tão bem na competição! Levantei, com uma onda de otimismo e comecei a dar ordens, coisa que nunca tinha feito em minha vida, a não ser no dia em que disse “chega!”.

- Sem desânimo! Temos que conseguir, somos a equipe número 1, lembram-se? – Eles olharam pra mim como se eu fosse maluca, já esperava essa reação. Deveria ser algo bizarro: Uma garota com 1,65 metros de altura, afro-americana, magricela e com a voz fininha dando ordens.

- Denna está certa, devemos ter mais otimismo! – Falou Beetee já nos colocando para fora do quarto. — Vamos ver mais alguns vídeos, cada um em seu quarto, amanhã falamos o que descobrimos, e enquanto eu vejo vou tentar mexer aqui e tentar resolver pelo menos uma parte do puzzle.

Todos concordamos e a deixamos sozinha, me despedi dos meus colegas e fui até o meu quarto comer algo antes de voltar ao trabalho.

****

Sentei-me na cama e voltei a ver os vídeos. Acho que, na verdade, a intenção de Beetee era não nos deixar contaminarmos uns com o desânimo dos outros.

Desisti de ver algo que parecia ser inútil e deitei olhando para o teto. Tudo o que tinha se passado, tudo que eu tinha vivido desde o início do Circuito... Quanto tempo se fora? Valera à pena? Se eu saísse de mãos abanando, de que adiantara tanto esforço?

- Deus! Que pensamentos pessimistas, Deena! – Censurei-me antes de começar a rir de minha idiotice. Eu estava indo bem! Mais que bem, estava ganhando!

Olhei para a parede do meu quarto, lotada de livros que eu nunca conseguiria ler. Decidi que iria ler mais sobre enigmas, não necessariamente sobre o próprio puzzle, mas qualquer outro que pudesse aparecer entre nós e o 10º portão. Fui até a prateleira e pela primeira vez notei um controle grudado na escada. Fui até ele e digitei “enigmas”. Praticamente uma estante inteira brilhou e eu só tive um pensamento: Seria uma tarde muito, muito longa.

****

- Deena, Deena! A Beetee cons... – Giulia deu um pulo para trás ao ver em que situação me encontrava, tinha pelo menos 15 aparelhos abertos nas notas onde eu escrevia tudo que achava interessante, várias pilhas de livros ao meu redor, que eu saberia diferenciar em até mil anos e um pacote muito grande de cereais açucarados. Reconheço que o açúcar no meu sangue me deixou também com uma aparência um tanto bizarra, com os olhos esbugalhados e o cabelo desgrenhado, que era castanho e vinha até um pouco acima da barra da minha calça, cheio de molinhas.

Giulia me ignorou por um instante para olhar a sua volta. Olhei também, prestando mais atenção nos detalhes. As paredes, que quase não apareciam, eram claras, uma cor neutra, mas não branca.

O cômodo era muito grande, grande mesmo. Quando eu falo isso você se pega pensando na sala de sua escola, ou talvez em uma quadra de futebol, coisa que queria ter tido a oportunidade de ver. Nem um nem outro.

O quarto tinha uma altura realmente grande, em torno dos 3 metros, 3,5 metros... No teto a iluminação era algo que só quem vivia no século XXIII entenderia, o teto era realmente de vidro, mas um vidro desenhado, grosso e que não deixava sua vista doer se olhasse diretamente. Apenas uma fonte de luz pequena iluminava tudo aquilo, e era a coisa mais pré-histórica e útil que a humanidade já teve conhecimento: o fogo.

O sistema daquele teto era altamente simples, fácil, útil e o melhor: fácil e barato de se manter.

Foi inventado por um jovem vindo da África, ele desenvolveu o projeto muito tempo atrás, ainda no século XXII. Fez uma casa de madeira, pequena, do tamanho de uma casa de bonecas. A escolha do material foi justamente para mostrar que o projeto era seguro, e que a residência não iria pegar fogo. Colocou então um teto de vidro, uma caixa de vidro, na verdade. O teto, que na verdade era um sob-teto, era uma caixa retangular e fina, feita de um vidro grosso e resistente. Dentro da caixa era colocado papel e ateado fogo, o papel ficava para cima do fogo por um sistema quase ilógico da mais clássica experiência de todos os tempos, aquele tipo de experiência que se aprende no primeiro dia de uma aula de ciências no século XXI.

Esse sistema foi inventado um pouco antes, e mostrava que com um pouco de óleo de cozinha e água qualquer coisa dentro de um espaço fechado poderia flutuar, aí vem a pergunta: Mas, precisando de água, como o fogo continuava a funcionar?

Aí que vinha a magia da coisa: ninguém sabe.

Depois de se pincelar o interior da caixa, parte de cima com óleo de cozinha e parte de baixo com água, que sempre tinha que ficar com uma metida de água até a metade do recipiente, colocava o papel grudado no óleo e se jogava fogo.

Um site tentou explicar: O óleo que era colocado sobre a água formava uma camada protetora que não deixava nada encostar na água, por isso ela deveria ser colocada antes que o óleo, e o óleo deveria cobrir todo o interior, como se fosse uma capa. A água ficava na parte inferior e o óleo flutuava acima do líquido. O papel era grudado na parte superior da caixa e o fogo ateado nele, o óleo e a água serviam para propagar a luz por todo o cômodo e o jovem ficou mais que rico, vendendo seu projeto por todo o mundo.

Foi aí que a África se levantou tanto que ficou mais rica que a Europa. O garoto, patriota, colocou o projeto no nome do governo da África do Sul, salvando o país de uma crise de fome, alimentando milhões e salvando vidas. Concorreu a presidência, foi o presidente mais novo do mundo, não somente no momento, mas em toda a história da democracia, com apenas 21 anos. Depois de assumir a presidência começaram as mudanças radicais, que agradaram a quase todos.

Políticos corruptos, policiais corruptos, júris corruptos, juízes corruptos, qualquer pessoa que roubasse o patrimônio público. Todos entraram na dança. Ele investigou, foi atrás, e sempre que tinha alguma aparição pública dizia “Meu mandato não acabou, e enquanto não acabar, eu acabo com todos que acabam com o país.”, o povo adorava. Foi eleito três vezes seguidas, e nesse meio tempo a África já dava um salto econômico absurdo, inimaginável. A diferença social já quase não mais existia, e Wendy, o presidente mais jovem do mundo, também não abusava de seu poder para ser o mais rico.

Ele tinha um celular moderno, uma casa bonita, mas também abriu um programa virtual para que qualquer um que tivesse acesso a internet, o que significava praticamente 90% da população depois que ele disponibilizou isso, a toda a sua conta bancária. Você poderia ver o que ele comprou, vendeu, gastou, estava devendo, tudo. Transferências, doações, absolutamente tudo que ele fizesse com o seu dinheiro estava computado ali.

Lealdade ao país, honestidade, perseverança. Wendy era o maior exemplo que o mundo poderia ter, e apenas com 38 anos, faleceu.

Assassinado.

Cruelmente assassinado.

Foi uma guerra insana depois do ocorrido, todos contra todos, tudo que ele lutou para construir sendo destruído por quem mais o apoiava, e no fim, uma mulher tomou o poder, não qualquer mulher, sua irmã, a vice-presidente. Wendy sempre tomou muito cuidado com quem colocava em cargos próximos ao seu, e a irmã era a única pessoa da família, quem ele mais amava. Não tinha mulher e filhos, então a colocou na vice-presidência. Ela continuou o trabalho, agora com mais cuidado que o irmão, e até hoje o poder da África do Sul está em boas mãos, que cuidam do país com tanto amor que ele não para de crescer, ao contrário da Europa, que não para de descer.

Giulia finalmente olhou para mim e sorrindo, disse.

- Beetee conseguiu. E foi a primeira.

Notas finais
Aproveitem o próximo, já está no blog também, mandem comentários lá para em saber como vocês preferem ler!