O Circuito Do Rio
3 Capítulo II - Preparação
Notas iniciais
Boa leitura!
Capítulo II
Preparação
Richard nos avisou que teríamos apenas 2 horas para nos preparar para o 1º Portão. O mais chocante para todos foi que não voltaríamos até aquele prédio enquanto quinze de nós não tivessem ido embora. Todos descobriram que se quiséssemos continuar no jogo teríamos de formar alianças, não importando se iríamos desfazê-las logo depois De certa quantidade portões.
Depois do fim da reunião todos ficamos encarando uns aos outros para imaginar quem seria a melhor aposta. A garota ruiva da cadeira sete olhou a todos nós com um sorriso e se manifestou.
- Vamos começar as apresentações? – Ela disse. Então, vendo que ninguém reagiu ao seu entusiasmo suspirou. – Tudo bem, eu começo. Chamo-me Beetee Santana e tenho 17 anos. Minha especialidade é a história de todas as coisas, acho que isso pode ser útil na competição, contanto que tenhamos provas de conhecimento. E antes que perguntem: sim, Beetee é um nome que pode ser usado com mulheres. Quem é o próximo? – Todos a encararam com expressões estranhas, como se estivessem dizendo “Quem chamou essa maluca aqui?” Me sentindo mal pela garota comecei a me apresentar.
- Me chamo Deena Fraga e tenho 14 anos. Não tenho uma “especialidade”, sei cozinhar, sei história, tenho um físico razoável e conheço bastante sobre a tecnologia antiga. Como parece que vamos… viver na floresta, acho que pode ser útil minha habilidade com as propriedades das plantas. – Olhei para os lados, todos estavam com expressões de avaliação. Vi um garoto, dono da cadeira número 1 e percebi que ele estava com o olhar longe, na rua. – Ei, você, da 1. – O menino olhou para mim. – Sua vez. – Ele soltou um suspiro e começou a falar, sua voz era rouca e firme, como se ele falasse pouco, mas o pouco que falava era de extrema importância.
- Me chamo Alex Ramiro, 19 anos, mexo com tecnologia. Só sei isso, lidar com máquinas. – Ele olhou para a senhora na minha frente e deu a vez para ela.
- Obrigada filho, me chamo Gabriela Rezende e tenho 74 anos. Digamos que conheço um pouco mais de história que vocês, jovens, e que tenho boas histórias para contar. Mas sei também cozinhar e me virar na floresta. – Ela sorriu amigavelmente e passou a bola para a garota da 16 e eu vi a minha imagem de garota simpática e inteligente ir pelo ralo.
- Samantha Davis. Tenho 24 anos e sei muito sobre defesa e ataque. Sou do Comitê da Paz e me asseguro de que os criminosos cumpram pelos seus crimes. – Ela não me pareceu ser muito… Pacífica. Mas ninguém teria coragem de se opor a alguém que é membro do Comitê da Paz, que seria o equivalente a polícia, FBI, CIA e exército, tudo em um mesmo grupo de indivíduos designados a nos proteger de quem descumpre a lei, que não são poucos. – 12.
E assim ficamos por mais 40 minutos gastos de nossas 2 horas. Mas foram muito bem gastos. Descobri que muitas pessoas tinham… ‘Potencial’, mas quem tinha a menor numeração era sempre o melhor. Alex era provavelmente muito forte, mas ele não falou muito, analisava cada um de nós e eu o peguei olhando fixamente para mim, tentando descobrir se eu seria útil ou poderia ser descartada. Não sei ao certo em que ponto da conversa fomos para a sala, mas lá pudemos ver realmente quem seria os clãs. Fiquei em um canto afastado com Beetee, que se mostrou uma pessoa especialmente agradável e inteligente, enquanto eu me senti inútil em relação a ela. O que alguém de fora poderia notar seria a atenção exagerada que Alex recebia, ele se mostrava duro na queda, e não aceitava proposta alguma de se sentar em um sofá ou poltrona, sabia que aceitando o assento estaria aceitando, indiretamente, entrar para um grupo.
- Acho que não devemos chamar ele. – Beetee me pegou de surpresa quando disse aquilo.
- Se não chamarmos, ele vai para outro grupo. – Ela negou com a cabeça e falou algo que eu vou levar para a vida toda.
- Deixa o rio correr seu curso, se ele encontrar uma pedra ele vira, se não, ele vai reto. – A olhei com uma interrogação no rosto. – Ele vai vir, todos aqueles grupos são pedras, se ele for puro como a água, vai virar o curso ou passar por cima, mas ele não vai parar lá, não mesmo.
Eu comecei a ficar com medo de Beetee a partir daquele dia, quando, depois de alguns minutos, Alex veio na nossa direção e bufando se sentou no chão ao nosso lado.
- Eles parecem animais! Isso estava ficando insuportável! Então, como vai indo o plano de vocês? – Eu e Beetee nos encaramos e tivemos uma conversa silenciosa, ela vitoriosa por ter acertado e eu assustada por ela ter adivinhado o que o garoto faria.
- Na verdade, estamos só conversando. Nada de planos ou coisas do tipo.
- Estão pensando que isso é uma brincadeira? – Ele suspirou e massageou a testa. – Tudo bem, vamos criar um plano. Primeiro preparamos as malas, coloquem o máximo de comida possível e roupas quentes. Também coloquem eletrônicos nos bolsos exteriores e várias baterias extras, já que não vamos poder carregar nada em tomadas. Se possível, nada de sapatos. Provavelmente os portões não vão durar mais do que algumas horas.
- E que motivos teríamos para confiar em você? Só sabemos seu nome. – Beetee disse e fiquei espantada com sua coragem, ele estava sendo extremamente generoso se juntando a nós. Afinal, se ele quisesse dar meia volta e se juntar a alguém mais forte não teríamos chances, mas deixei o rio seguir seu curso e não a repreendi.
Minha surpresa foi quando Alex sorriu e se aproximou de nós duas para sussurrar, de forma que mais ninguém pudesse ouvir.
- Vão ter que correr o risco se não quiserem que eu vá para os outros clãs. – Ele sorriu para nós e Beetee sorriu de volta, senti como se estivesse por fora de uma conversa e sorri fracamente. – Acho que devíamos chamar aqueles dois que ainda estão na Sala de Reuniões. Se entrarmos lá, além de ser mais privado, teremos Giulia e Jimmy no nosso grupo. Eles seriam de extrema importância. – Ambas concordamos e fomos até a Sala de Reuniões, onde depois de uma longa conversa onde Giulia e Jimmy se apresentaram, descobrimos várias de suas qualidades e habilidades. Eles realmente pareciam ser muito importantes: inteligentes e fortes.
Quando percebemos que faltava pouco mais de 50 minutos para o início oficial do Circuito voltamos para um para nossas suítes para nos prepararmos e combinamos de nos encontrar no corredor, eu era a única que ficava do lado esquerdo, sendo assim, caminhei sozinha até a porta onde entrei e comecei a preparar minha mochila para os primeiros portões.
Alex aconselhou que fossem leves, mas recheadas. Que não faltasse nada e, ao mesmo tempo, não fosse cansativa de ser carregada. Coloquei tudo que pude lá dentro e depois de ver que estava pesada de mais decidi tirar praticamente todos os eletrônicos, deixando apenas o aparelho do meu irmão e outro, que estava em meu quarto, onde arquivei vários livros, músicas, filmes e jogos antigos, onde eu poderia estudar.
Beetee falou que tinha informações de fontes seguras de que várias provas de conhecimento iriam ser feitas e rapidamente liguei isso com o conselho da mulher que me inscreveu no Circuito: “Não exercite somente o corpo”. Ainda não tinha me esquecido do seu sussurro e sua piscadela.
Fechei o zíper da minha mochila e saí do meu quarto, dando uma última olhada. Eu tinha tomado banho, provavelmente o único em algum tempo, mas com os macacões que eles nos deram para o uso durante o Circuito eu não iria sofrer frio ou calor, assim não iria suar, ou necessitar, realmente, de um banho. A roupa térmica era somente uma. Provavelmente para mostrar que não haveria necessidade de uma troca de roupas. Quando a coloquei, logo após o banho, senti que era extremamente confortável, como uma segunda pele em uma temperatura mais que agradável.
Depois de sair do quarto pude ver, na frente do aro que separava a recepção dos quartos do corredor, Beetee conversando animadamente com Giulia Serra, uma garota de 16 anos que era incrivelmente rápida com cálculos matemáticos e enigmas e charadas. Elas aparentemente estavam conversando sobre criptografia, mas não prestei muita atenção. Nesse momento a porta 6 bateu e de lá saiu um garoto alto e musculoso, Jimmy Okoshi.
- E então, só falta o garoto-zumbi, onde ele está? – Giulia repreendeu Jim por chamar o 1º escolhido por um apelido tão “inadequado”. Logo depois disso A porta 1, na extremidade do corredor, se abriu e de lá saiu Alex com sua mochila pendurada em um ombro e cinco pares de óculos com lentes pequenas do lado direito, e do lado esquerdo somente o suporte. Pude ver que em sua cintura estavam cinco saquinhos, onde mais aparelhos se encontravam.
- Se o “garoto-zumbi” sou eu, estava terminando de configurar um desses para sua cabeça gigantesca. – Os dois sorriram cúmplices e Alex foi indo de pessoa por pessoa e entregando-nos um par de óculos e algumas coisas de sua bolsinha.
- O que é isso? – Giulia parecia bem ocupada tentando examinar um fone de ouvido da cor da pele com microfone embutido. Beetee se apressou em respondê-la.
- É um óculos de realidade aumentada. Foi patenteado pelo Google no século XXI, em 2012. Algo parecido foi citado em “Jogador Nº1”, um livro de Ernest Cline. Bem apropriado para a sua posição, Alex. E isso, – Ela tirou o fone de sua mão e encaixou na haste dos óculos. – fica aqui, e é um fone com microfone embutido, para facilitar o contato entre quem usa. – Beetee olhou para ele com uma cara de interrogação. – Como conseguiu? Pensei que a Legião tinha acesso restrito a esse tipo de equipamento. – Alex sorriu e nos surpreendeu com poucas palavras.
- Ela tem. Eu fiz esses. – Todos soltamos uma exclamação, não era qualquer um que conseguiria construir algo do tipo em tão pouco tempo, muito menos cinco.
Caminhamos lado a lado até a recepção onde nos entregaram algo extremamente estranho. Enquanto examinávamos os presentes entramos no elevador que nos levava para o primeiro andar. Todos nós recebemos algo, mas era um objeto diferente para cada um.
O de Alex foi um cubo mágico, popular nos anos 80, de acordo com Beetee, era um desafio puramente matemático. Mas ela riu dizendo que para Alex, seria praticamente impossível de se resolver, sendo que o dele era um cubo especial, chamado de ‘A Vingança de Rubik’.
- Esse cubo é especial, feito de 4x4x4, com seis cores diferentes. Dizem que Rubik fez para se ‘vingar’ e desafiar todos aqueles que tinham conseguido resolver o clássico Cubo Mágico.
- Mas, como eu resolvo… Isso? – Beetee sorriu para ele antes de acabar com suas esperanças.
- Eu não sei, mas vai ter mais trabalho do que para hackear o sistema interno do Governo, pode acreditar.
Beetee, por sua vez, ganhou um emaranhado de metais de todos os tamanhos e cores, que segundo ela era um ‘quebra-cabeça de metal’, onde o objetivo era desenganchar as peças para obter uma coleção de metais soltos.
Giulia foi presenteada com uma caixa de madeira, que ela estava medindo e calculando a um bom tempo, sem ter progresso de como abri-la.
- E isso, o que é? – Jimmy estava sacudindo uma bola de metal forrada de borracha que, como se podia ouvir, tinha algo dentro, mas aparentemente não tinha como abrir.
- Ah, minha avó tinha uma dessas! – Eu disse e peguei a bolinha da mão dele. – Se chama ‘Enigma do Palhaço’. Eu nunca consegui resolver, mas ela me mostrou várias vezes. Em algum lugar da bolinha têm um furo praticamente invisível ao olho nu. Se você acha o furinho, me mostre que eu te ajudo a resolver.
E eu, bem, eu recebi um objeto de plástico com diversas letras formando um quadrado perfeito. Era um quadrado de 7×7 com letras repetidas, mas que não formavam ordem alguma.
E G T D A I A E E A N C P R R R R A O R D F A F T O A M T O N H A E I Q A E R R C E U C I A E O L- Me deixa ver o seu! – Entreguei o plástico para Beetee que analisou cada letra.
- Isso parece um trabalho para a Super Calculadora! – Ela disse e nós rimos quando, resmungando, Giulia pegou o meu presente e observou com brilho de entusiasmo nos olhos.
- É um Quadrado Mágico! 7×7! Dificílimo!
- Consegue me ensinar? – Perguntei esperançosa, se era um desafio matemático, Giulia tiraria de letra.
- Não acho provável… Eu não acreditava que algo tão simples iria ser importante, então simplesmente ignorei as fórmulas, mas, se te ajudar, eu só sei que as retas verticais e horizontais, além, é claro, das diagonais tem que dar 175, nem mais nem menos. Exato.
- Você não pode, sei lá, simplesmente fazer por mim? – Ela sorriu misteriosa e me respondeu com a voz estranhamente calma.
- Se eu fizer, o desafio será meu, não seu. E ele foi dado a você por uma razão. Pode ser que se resolvermos os presentes uns dos outros teremos punições, e ninguém aqui quer ser punido.
Assenti e então caminhamos em direção ao início da maior ponte do mundo, totalmente cercada por uma floresta flutuante que atravessava o Rio, juntamente com a superfície de cimento. Na base de lá muitas pessoas esperavam em frente a um grande palanque, montado especialmente para a ocasião. Uma cerca elétrica, que ficava com a altura de dois homens, impedia que os jogadores fossem agredidos pelos manifestantes e pessoas desesperadas pelas vagas, já esgotadas.
Inconscientemente todos abaixamos nossas cabeças e andamos em direção ao palanque, onde alguns dos jogadores já estavam posicionados nas 28 cadeiras. Outros chegaram logo depois de nós e então, o Sr. Simpson começou a cerimônia.
- Bem vindos, todos, ao 1º Circuito do Rio. Espero que não seja o último. – Ele deu uma piscadinha para a platéia que não interpretou aquilo como um bom sinal e recuou assustada. – Daremos início à primeira parte desse jogo, que terá o dever de eliminar três de nossos valentes competidores, infelizmente. Mas a questão é que esses competidores devem ganhar uma corrida até o próximo portão, toda a competição será transmitida ao vivo no canal oficial do Governo. Boa sorte aos competidores e boa diversão a todos os telespectadores. E minha frase de efeito: Não exercitem somente o corpo.
As palavras de Richard me lembraram da mulher que me inscreveu no concurso, o que me fez procurá-la em meio a multidão, encontrei-a logo na frente, sorrindo para mim. Sorri de volta.
Nos levantamos, e cada um com sua equipe foi caminhando lentamente. Então chegamos no portão, onde o Sr. Simpson já nos esperava.
- Que bom que chegaram! Espero que estejam prontos! Este é o primeiro portão, vocês terão de dormir nessa floresta ao lado da ponte, não se preocupem, quem chegar antes nos portões irá ganhar mais comida e outros presentinhos.
- Outros… Presentinhos? – Uma garota ao fundo perguntou
- Só espero que se divirtam. – Ele sorriu enigmático, como sempre, e então o portão se abriu.
Notas finais
@LuisaDruzik
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Eu comecei hoje, tipo, agora, a escrever o 2º volume e quem sabe vocês não gostam, hein?
Alguns spoilers: O próximo volume se chamará Os Segredos da Legião e será um volume de explicação, didático, digamos. Nele nós veremos alguns testes que o ganhador do Circuito passará e algumas explicações e questões novas sobre o último volume, A Guerra da Água.
E antes que alguém pergunte o que deverá shippar:
Giulia e Jimmy (acho que sempre esteve óbvio...)
E Deena e... Bem, vocês verão...
Lembrem-se de visitar o blog, lá sempre terá um capítulo a mais que aqui, ou seja, estou postando o 2 aqui enquanto lá já tem o 3!
Beijos, Luísa.
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