O Chapéu Nunca Erra

1 A visita inesperada


A última sexta-feira de Agosto estava tão quente em Londres, que até Leonel Greene quis sair de casa. O garoto, que raramente colocava os pés para fora da pequena casa, nas ruas de Harrow, dessa vez saíra para aproveitar o dia no parque mais próximo. Apesar de ser muito quieto, Leonel, com 11 anos, sempre teve a liberdade de sair para brincar ou fazer o que quisesse, uma vez que em quase todas as suas tardes, ficava sozinho em casa.

O parque atrás de sua casa ficava quase sempre desértico, e só se ouvia o ruído dos brinquedos rangendo metal contra metal. Dessa vez, assim como Leonel, todas as crianças quiseram sair para brincar nos antigos brinquedos ou se refrescar na pequena fonte do parque. A diferença era que as outras crianças iam acompanhadas de seus pais.

As mães que conheciam os Greene olhavam com desdém o garoto que vinha caminhando tranquilo sobre o sol de 38°C. A vizinhança enxergava a família com um bando de estranhos: o menino aparecera de um dia para o outro na família, depois que o Sr. e a Sra. Greene voltaram de uma viagem. Além disso, todos os dias os pais saíam e deixavam o menino sozinho, e só voltavam nas refeições.

Apesar de saber que todos o olhavam com pena e indiferença, Leonel amava a vida que tinha: as melhores partes do dia eram quando ele podia ficar sozinho, lendo enciclopédias, livros de fantasia, e ficções científicas. O garoto realmente via seus pais poucas vezes, mas, os Greene viviam felizes, e o filho gostava da relação que tinha com seus pais adotivos. Para ele, estava tudo em perfeito estado.

Leonel não gostou de ver o parque tão cheio de gente. Para ele, fazer amigos era algo quase impossível, sobretudo com as crianças vizinhas. O maior receio dos moradores do bairro eram seus próprios filhos: qualquer murmurinho que passava de boca em boca pelos adultos eram soltados pelos pequenos ingênuos, que não tinham vergonha de dizer o que escutavam de seus pais.

Pensou em dar meia volta e voltar para a enciclopédia sobre dinossauros voadores que lia em seu quarto, mas não quis abaixar a cabeça para as mães que o olhavam com repulsa.O brinquedo mais vazio era a velha gangorra de madeira, que havia apenas uma menininha de 4 anos brincando. Leonel, então se sentou na primeira gangorra, do lado direito, o mais longe possível da garota. Mesmo com no mínimo 5 metros de distância, a mãe da criança pediu para que ela saísse do brinquedo.

Leonel aguentou ficar ali por alguns minutos, sem se divertir. Mas tampouco queria ir embora. Alguns pais foram para suas casas com seus filhos, e Leonel comemorou cada vez que alguém saía do parque, as crianças chorando pois queriam ficar. Quando ainda havia uma dúzia de pessoas no parque, Leonel reconheceu a menina que sempre vira da janela de seu quarto, passando de bicicleta na porta de sua casa. Sua mãe uma vez discutira com a mãe da garota, que vivia há umas 3 ou 4 casas de distância. A criança era muito agitada, corria de brinquedo em brinquedo tão rápido, que Leonel ficou tonto só de olhar. A menina que não o havia visto antes, correu para sentar-se no balanço ao lado, dançando para frente e para trás, tão forte que fazia com que o balanço de Leonel também se movesse, obrigando o garoto a sair da posição de estátua em que estava há mais de meia hora.

A menina começou a brincar e correr ao redor de Leonel, dando risadas estridentes e gritando o nome da mãe. A mãe, uma mulher miúda e ossuda, que sempre usava saia, lia algo sentada em um banco do outro lado do parque, e ria junto com a filha, achando graça no que estava fazendo. A menina então soltou o que Leonel estava esperando sair de sua boca:

— Adotado! Adotado! — e ria tão forte que doía os ouvidos. — Seu esquisito! Esquisito!

A garota se afastou de Leonel e foi brincar no gira-gira, em frente o balanço, mas continuou a dizer, olhando para Leonel.

— Sem pai! Sem mãe! O que você está fazendo aqui? Porque você não vai fazer companhia para seus pais? No inferno! Vai embora, aberração! Adotado! Adotado! — a menina girava e voltava a cabeça para trás quando ficava de costas para Leonel. Não sairia dali só porque os outros querem que ele saia. Isso o manteve sentado até que só restou a menina e sua mãe.

Leonel, que estivera de cabeça baixa o tempo todo, olhou para o brinquedo, com os punhos cerrados, apertando as correntes que sustentavam o balanço. Já estava acostumado com esse tipo de coisa saindo das crianças do bairro, mas isso não o impediu de ficar vermelho de raiva.

Ele olhou para a menina com muito ódio, mas não soltou nem uma palavra. E continuaria calado. Ele sentiu toda a raiva sendo descontada em uma força que ele não entendia de onde saía. A menina, que ria alto enquanto girava, começou a girar cada vez mas rápido, e ela parecia se divertir, pois sua risada aumentava de acordo com a velocidade do gira-gira. A mãe se levantou, preocupada, quando voltou os olhos do jornal para a filha. A velocidade do gira-gira chegara no ponto em que a menina desaparecia, e só era possível ver um vulto quase transparente rodando no brinquedo. Nessa hora, a menina finalmente parou de rir. Ela já nem conseguia respirar.

Leonel se levantou e correu em direção a sua casa. No momento em que o garoto se levantou, de repente o brinquedo parou de rodar, em uma fração de milésimos de segundo, e a menina foi lançada no chão pela velocidade. A mãe correu em direção a menina, que rolou quase 5 metros no chão de areia, chorando.

— Seu anormal! Você vai pagar por isso, aberração! — Leonel escutou a mãe da menina gritando, quando ele já estava longe do parque.

Leonel chegou em casa correndo, bateu a porta e subiu as escadas direto para seu quarto, saltando 3 degraus de cada vez. Bateu, também, a porta do seu quarto, e se jogou na pequena cama. Precisava descontar o pouco de ódio que ainda restara. Ele gritou com a cara no travesseiro, e as lágrimas vieram inevitavelmente. Não de tristeza, mas de raiva. Por um momento, Leonel desejou nunca ter sido adotado, e ter morrido quando ainda bêbe, junto com seus pais. Estava farto de ser o garotinho esquisto.

O menino ficou ali, com a cara afundada no travesseiro por horas. Depois de um tempo, quando já estava mais calmo, pensando em tudo o que havia acontecido, uma dúvida veio a sua cabeça: como foi que ele fez o brinquedo acelerar com sua própria mente? Será que todos estavam realmente certos ao dizer que ele era uma aberração? Uma criança anormal?

Várias perguntas foram aparecendo em sua mente, e a pior sensação era pensar que ele não conseguia responder nenhuma delas.

Depois de horas deitado em sua cama, desejando adormecer-se, porém não conseguindo, devido ao turbilhões de pensamentos que passavam por sua cabeça, Leonel escutou o barulho de seus pais chegando do trabalho.

— Filho, trouxemos frango frito! — quase todas as sextas-feiras era dia de frango frito ou pizza, uma vez que era quando a Sra. Greene chegava quase desmaiando de cansaço, e tinha preguiça de cozinhar.

O garoto não estava nada disposto a ver a cara de seus pais, por isso demorou mais de 20 minutos para descer, quase obrigado pelo seu estômago, que roncava o tempo todo. Ele se juntou aos pais na mesa circular, do lado esquerdo da pequena cozinha.

— Mais um menino que você demorasse e já não ia sobrar mais nada! — disse o pai do garoto. — Como foi o seu dia filho? Saiu pra algum lugar?

— Quando é que eu saio de casa pai? No dia em que você me perguntar se saí de casa e eu disser que sim, pode chamar a polícia, pois é alguém se passando por mim.

Leonel não conseguia disfarçar o mau humor e o estresse.

— Ei, calma, garoto. Porque...

Leonel agradeceu o barulho da campainha por tocar bem no momento em que começaria a discutir com seus pais.

— Deve ser alguma entrega. — disse Madison. — Li que os correios agora estão trabalhando até tarde, são tantas encomendas...

— Eu atendo. — se ofereceu Leonel, querendo estar o mais longe possível de seus pais, para evitar qualquer tipo de conversa.

O menino abriu a porta, e definitivamente, não eram os correios. Ele deu de cara com uma senhora completamente estranha, magra, nariz pontudo. Ela usava uns óculos retangulares que Leonel nunca havia visto ninguém usar, um chapéu negro pontiagudo, que se curvava para o lado, e uma grande capa verde-esmeralda, que cobria todo o seu corpo, dos ombros aos pés.

A senhora sorriu ao ver o menino por cima dos pequenos óculos retangulares, fazendo com que as maças do rosto se sobressaíssem em seu rosto magro.

— Já era hora, não é mesmo, Sr. Greene?

Leonel tentou se lembrar de onde a conhecia, uma vez que ela sabia o seu nome. Nenhuma memória veio a sua mente.

— Professora Minerva McGonagall, transfiguração, escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.

O menino ficou perdido em todas as palavras que a senhora disse. No final da frase, ele se deu conta de que não havia entendido nenhuma delas.

A mulher estendeu a mão esquerda, e Leonel esperou que ela lhe desse um aperto de mão. No entanto, ela trazia algo em sua mão: uma carta feita com um envelope amarelado, selada com um selo vermelho.

— Chegou a sua vez de ir para Hogwarts, meu querido. Decidi trazer-lhe a sua carta eu mesma.

— De ir... para onde?!

— Você é um bruxo, Greene.

Leonel a olhou nos olhos, com cara de desentendido. Seu único impulso foi pegar a carta, e fechar a porta da casa na cara da mulher. Antes de fechar totalmente a porta, sentiu a necessidade de dizer somente um "Ok, obrigado". Quem em sã consciência acreditaria nessa maluquice?

— Quem era, filho? — A sra. Greene olhou para o pequeno corredor, checando porque o filho demorara tanto.

— N... Nada.

Madison levantou o centro das sobrancelhas e olhou para Leonel, depois para a porta. Ainda era possível.ver a sombra da mulher com seu chapéu de bruxo, do outro lado do vitral. A mãe do garoto foi até a maçaneta e abriu a porta novamente. A bruxa ainda estava de pé, no mesmo lugar.

— Com licença, Sra. Greene. Será que seria possível dar uma palavrinha com a senhora e seu marido? Ham, Prof. McGonagall. — dessa vez a bruxa estendera a mão.

— C... Claro, entre. — Madison e Leonel se olharam, com a mesma cara de desentendimento.

A senhora subiu os três degraus, até a porta, e entrou na casa dos Greene.

— Sente-se, senhora... — Madison olhou para Cade, e tentou explicar que não teve outra escolha, mexendo a boca sem deixar sair nenhum som. O seu marido limpou a boca com o guardanapo e se sentou na sofá, ao lado de sua esposa. A bruxa e Leonel se sentaram nas duas poltronas, de frente para a lareira.

"Sr. e Sra. Greene, trago um convite para o seu filho. Quero oferecer a Leonel uma vaga em minha escola. Achamos que ele tem as qualidades que procuramos. Bem, quero dizer que... o filho de vocês é um bruxo. Eu sei que é difícil de acreditar, mas é verdade. Leonel, no momento em que nasceu, teve seu nome registrado no livro de registro de Hogwarts. Além dos filhos de bruxos, há, também, trouxas, digo... não-bruxos, poucos, que demonstram domínio da magia quando nascem. Há onze anos atrás, foi anotado pela Pena da Aceitação, que Leonel era uma dessas crianças. Quando um bruxo completa 11 anos, ele recebe o convite para ir para Hogwarts, seu verdadeiro lar, onde poderá desenvolver todas as suas habilidades mágicas. Se aceitar o meu convite, Leonel, querido, já pode arrumar as suas malas. Suas aulas começam nos próximos dias. Mas antes, irei acompanhá-lo..."

Cade estava sem palavras, só conseguia escutar de boca aberta. Madison já não aguentava ouvir a senhora, que falava sem parar, e foi a primeira a interrompê-la.

— Ei, espera aí, você quer levar meu filho, para uma escola... de mágico?!?! É isso mesmo? Olha minha senhora, me desculpe mas não tenho tempo para uma brincadeira dessas, poderia por favor retirar-se da minha casa? Era só o que me faltava...

A mãe do garoto esperava que a bruxa a contestasse e tentaria convencê-la a levar o menino. No entanto, a bruxa, que se levantou alguns segundos depois de que Madison terminara a sua gritaria, dirigiu-se a porta de entrada, com uma expressão neutra no rosto. A Sra. Greene se apressou para abrir a porta para a senhora, mas antes de alcançar a maçaneta, uma varinha foi retirada das longas vestes e a bruxa a apontou para a fechadura.

— Alohomora. — a porta se abriu em um estalo.

Madison olhou para a fresta da porta que se abria, não acreditando no que via, e balançou a cabeça para os lados, forçando seu cérebro a voltar para a realidade e esquecer o que havia visto.

Cade e Leonel se levantaram da poltrona, mas ali ficaram, paralisado com toda aquela situação.

Antes de sair, a bruxa voltou o olhar para Leonel, com o largo sorriso que acentuava as maças do rosto, e lhe deu uma piscadela, antes de sair para a noite calorosa.

— Que tenham uma boa noite! — a bruxa voltou para olhar a porta, que mais uma vez fora fechada bem na sua frente.

Apesar de ter usado o feitiço de abertura como uma deixa para que os trouxas vissem que não estava mentindo, McGonagall não conseguiu que a família Greene visse a bruxa diminuir de tamanho em questão de segundos e se tranformar em uma bela gata, na calçada em frente a humilde casa.