O Celibato de Thalia
8 Capítulo 8
Limpe suas lágrimas. Entre na cabana sem que ninguém perceba nada. Esqueça o que o bamby disse. Essas eram as palavras que se passavam em minha mente.
Foi o que fiz, mas minha curta demora fora notada... assim como meus olhos vermelhos...
–Você est... — Nico me olhava com um grande ponto de interrogação pairando sobre sua cabeça.
Graças aos deuses ele não conseguiu organizar suas palavras a tempo em uma pergunta.
Olhando o ambiente em que me encontrava, fiquei maravilhado. Era bem maior do que aparentava ser. Um corredor de alguns metros levava até um trono feito de ramas prateadas que se posicionava no final da sala. Colunas brancas de três metros se encontravam com o teto pintado como a noite. Estrelas cintilantes forravam a escuridão ao redor da lua, pintada bem ao centro. Uma constelação ganhava maior destaque pelo tamanho de suas estrelas e por seu brilho intenso. Sem dúvidas era a constelação de Zöe Doce-Amarga, a caçadora que antecedera Thalia no posto de líder.
O chão era composto por mármore branco, tão polido quanto o do hall de entrada do Empire State. As paredes seguiam o mesmo padrão, porém, um tom mais escuro que os que se encontravam sobre nossos pés.
Em outras circunstâncias, seria um ótimo lugar para descansar com os amigos e até quem sabe bater um papo, entretanto a silhueta pálida que se encontrava sentada sobre os ramos, fazia esse pensamento logo se dispersar, como se nunca houvesse visitado sua mente.
Eu, Reyna e Nico, caminhávamos com passadas vagarosas. Sabíamos que não éramos tão bem-vindos ali. Thalia tomara nossa frente, corria de encontro a Ártemis.
–Minha senhora! — mesmo em sussurro, era possível notar a preocupação na voz de Thalia.
A filha de Zeus logo estava ao lado de sua senhora, segurando sua mão como se o simples pensamento de soltá-la, custasse sua vida.
Mesmo fraca, a deusa irradiava uma forte onda de poder. Funcionava como uma ventania em dias de tempestades, lhe obrigando a forçar os passos para que não acabasse sendo levado.
–Então são esses os campistas que lhe ajudarão minha líder? — a voz de Ártemis estava rouca e falha. Quando saiam, lhe pareciam causar dor.
A expressão de Thalia claramente tentava conter suas lágrimas que estavam prestes a cair.
Como resposta à deusa, ela assentiu com a cabeça
–Parece que mais uma vez precisaremos da ajuda de dois garotos não é minha caçadora? — o sorriso que lhe passou pelos lábios era quase imperceptível.
Thalia não deixou de sorrir.
–Talvez eles não sejam tão inúteis quanto julgamos não é? — retribui a menina.
Olhei para o lado tentando não prestar tanta atenção naquele momento entre as duas. Os olhos de Reyna estavam marejados, um rastro luminoso por seu rosto, dizia que ela já estava chorando também no passado.
–Devo concordar. Mas, são poucos os que ainda são assim. — um longo suspiro veio logo em seguida das palavras da deusa.
Ouvi passos apressados à minhas costas. Virei-me e contemplei outras duas caçadoras vindo até nós.
Sabia de como elas eram em relação aos garotos, portanto, dei alguns passos para o lado, me afastando do caminho pelo qual elas passariam. Nico fez o mesmo.
–Thalia, que bom que chegou. — uma menina de cabelos escuros como carvão se aproximou de sua líder, aflita.
–O que foi que houve Celia? Quando parti Ártemis ainda estava em boas condições. — perguntou Thalia.
A caçadora de nome Celia abaixou a cabeça e fitou o mármore branco.
Vendo a tristeza de sua soldada, Thalia pousou uma das mãos sobre as costas da menina.
–Taylor? — Thalia se dirigiu a segunda caçadora, que derramava um líquido dourado na boca de Ártemis.
Sem tirar o olhar de sua senhora, a menina de cabelos castanhos respondeu:
–Fomos atacadas por um grupo de quimeras. Parece que alguém reabriu as portas para os monstros. Tentamos falar com nossas irmãs que ficaram naquela entrada para o Tártaro, onde antes estávamos... sem sucesso.
–O taque foi tão forte assim? — Thalia direcionou o olhar para Ártemis.
Taylor já não estava mais ocupada com Ártemis quando respondeu.
–Não muito. O que deixou nossa senhora assim, foi ela ter usado seus poderes para restaurar a destruição em nosso acampamento. E preocupada com as outras, Ártemis ainda criou defesas ao redor de todos os acampamentos.
O néctar que a menina oferecera a deusa, começava a agir. Aos poucos o rosto de Ártemis se iluminava, não de forma pálida, mas jovem e prateado como o da lua. Seus cabelos vermelhos voltavam ao tom de fogo.
Ela se endireitou sobre seu trono.
–Eu queria poder dizer o contrário mas, precisamos achar o Arco-Lunar o mais rápido possível minha caçadora. — falou Ártemis para Thalia.
Dei um passo a frente. Enfim estávamos falando de algo em que eu estava incluído.
Os olhos de Ártemis se encontraram com os meus. Um estranho e repentino arrepio subiu por minha espinha.
Antes que ela o fizesse, desviei nossos olhares e fitei uma das colunas.
Thalia pareceu perceber que a deusa estava me encarando.
–Esse é o filho de Mórfeu do qual desconfiávamos. — além da deusa, agora eu também tinha de sustentar os olhares de Thalia.
Os olhos de Ártemis passaram para Nico. Diferente de quando me olhavam, os olhos da deusa agora estavam cintilando. Eu só não sabia o porquê.
–Sua irmã está muito orgulhosa de você menino... Acho que entendo o motivo. Sinto em não poder discutir isso com mais calma nesse momento, mas uma outra hora quem sabe... — a voz dela era serena e terna.
Nico mostrou desconforto com tais palavras. Desviou o olhar para diversos pontos da sala nos momentos seguintes.
–Eu... falei com Morfeu algumas horas atrás. Não sou a única quem precisa de ajuda. Ele está sendo chantageado, forçado a fazer coisas das quais não se agrada.
Pela primeira vez em muitos anos, eu realmente estava preocupado com meu pai, mesmo sem nunca tê-lo visto ou conversado com ele.
Quando eu precisava de ajuda em alguma coisa, algo para me decidir, eu ouvia sua voz me guiando dentro de minha cabeça.
Nesse momento eu sentia que era eu quem deveria interpretar tal papel.
Eu deveria ajudar meu pai, e guiá-lo a sair dessa situação.
–Meu pa... Morfeu também está precisando de ajuda? Como assim alguém o está chantageando?
Devo ter demonstrado mais preocupação do que desejei, pois senti a mão de Reyna repousar no meu ombro.
–Não se preocupe, vamos conseguir salvar todos. — falou a romana.
–Deve haver alguma coisa muito importante em jogo, para que fosse conseguido a ajuda de Morfeu. — manifestou-se Thalia.
Uma terrível dor abraçou meu coração. Senti minhas pernas falharem e me senti horrível por ter chegado a uma conclusão como aquela. Mas, creio que só podia ser ela a coisa mais importante para o deus do sonho. Não conhecia nada mais com que ele se importasse. Sim, reconheço que posso estar me precipitando já que nem mesmo eu o conheço...
–Acho que sei o que... ou melhor, quem é a peça que está fazendo Morfeu a agir de tal maneira.
Todos os olhos se direcionavam para mim. Aquilo fez minha insegurança aumentar ainda mais.
Baixei a cabeça e falei. Cada palavra causando uma dor pior que a anterior.
–Minha mãe. — suspirei.
Antes que qualquer um pensasse em debater, dizendo " Os deuses só ligam para eles mesmos, você está enganado!" , dei minha explicação.
–Sei que parecesse estranho eu pensar isso, mas, as poucas vezes que o vi em sonhos, ou ouvi minha mãe falando dele, percebi que ele realmente se importava com ela. Uma vez, ele até trocou de forma física para encontrá-la, pensou que assim não teria problema com Zeus. Claro que ele estava errado.
Um desconfortável silêncio seguiu-se pelo lugar.
–Você pode estar certo, temos que considerar todas as possibilidades em uma situação como essa. — falou Ártemis.
–E para onde devemos ir? Teremos que sair do estado? — perguntou Reyna.
Ártemis pareceu desconfortável com tal pergunta.
–Algum problema minha senhora? -
–Vai além disso filha de Belona. Vocês terão de partir para outro mundo, uma segunda dimensão... podemos chamar assim.
–O quê? — perguntamos os quatro em coro.
Sem dúvidas nenhuma, o arco era também uma importante parte do cérebro da deusa. Aquilo era completamente insano de se dizer.. ou não?
–Morfeu tem seu próprio mundo, sua própria realidade. Mundo dos Sonhos. Creio que esse nome já era de se esperar. — bufou Ártemis.
Apesar do nome "amistoso" eu tinha uma certa certeza, de que não eram com nossos sonhos que iríamos nos encontrar.
Fazia sentido agora o porque de meu pai ser o escolhido. Ele tinha seu próprio mundo, e deveria ser uma tarefa bem difícil se materializar para lá.
–Morfeu me contatou, justamente para me dizer aonde e como vocês faram para adentrar seu mundo. — Ártemis começou a explicar. — Existe uma porta, no fundo do lago deste parque. Já devo avisar que vocês precisaram passar pelos... guardas do local.
Torcia para que não fosse um lago fundo, pois eu era um desastre na natação.
–Realmente queria poder discutir mais coisas com vocês, e quem sabe até ajudar no que irão precisar, mas como vocês viram minha situação, não posso fazer mais nada, além de lhes dar essa informação.
–A Sr. Ártemis tem razão, melhor irmos logo. Já deve estar a noite, ninguém nos verá entrar no lago. — falou Reyna.
Concordei e me direcionei pra a saída.
Thalia estava poucos passos atrás de nós quando Ártemis a chamou.
–Thalia, preciso falar com você um instante. A sós. — a deusa olhou todos que não a interessavam na sala.
Abaixei a cabeça e deixei que os panos da entrada esbarrassem em meu rosto enquanto eu atravessava para a escuridão lá fora.
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