O Celibato de Thalia
7 Capítulo 7
Notas iniciais
O veado adentrou por meio às árvores com agilidade tamanha. Saltava sobre montes de folhas amarelas e vermelhas que protuberavam o chão em amontoados quase secos. Seu corpo reluzia quando os poucos raios de sol que invadiam sorrateiros entre os galhos quase vazios, refletiam em seu pelo lunar.
Tivemos que andar um pouco mais rápido, para não perdê-lo de vista.
–Agora entendo porque ele é tão difícil de ser pego! — exclamou Thalia atônita. Por motivo desconhecido — ou não — ela não estava ofegante.
Nico, Reyna e eu por outro lado...
–Então é verdade? Ártemis o escolheu por ser o animal que mais lhe custou tempo em uma caçada? — perguntou Reyna, já sabendo da resposta que teria.
Thalia sorriu por sobre o ombro.
–Não pensei que os romanos conheciam tão bem o lado grego da força. — brincou.
A romana alterou o olhar para seu namorado. Deduzi que fora Nico quem lhe contara sobre tal fato.
Thalia se esquivava de galhos, saltava pedras, desviava de árvores com tamanha perspicácia que comecei a formular uma tese de que se não seria possível que seus profundos olhos azuis funcionassem como um monitor de "aviso prévio" para obstáculos.
Enquanto ela se saía ótimo com suas esquivas, eu pelo contrário estava quase dilacerado. Meu rosto tinha cortes de galhos, minhas calças sujas das vezes que caí por tropeçar em pedras, meus sapatos lavados em folhas podres.
*talvez eu tenha exagerado um pouco*
Trombei em Thalia bruscamente, meu nariz bateu em sua coluna. Senti uma ardência subir até minha testa. Pensei em espirrar. Alarme falso.
A caçadora apenas bufou.
Esfregava meu nariz com toda delicadeza em quanto ouvia o trio debater.
–Perdemos ele? — perguntou Nico, seus pulmões suplicando por oxigênio.
Todos ficaram em silêncio de repente, até mesmo suas ofegâncias haviam diminuído. Estava com a cabeça quase entre as pernas quando só então percebi tal clima. Levantei o olhar do chão para eles, a fim de entender.
A mão direita de Thalia estava erguida na altura de seu rosto. Sua cabeça vasculhava cada canto e brecha entre as árvores e seus galhos retorcidos.
–Respondendo sua pergunta Nico, sim acho que o perdemos — sussurrei como resposta.
Minha voz não incomodou a filha de Zeus. Ela estava mesmo concentrada até o limite da vegetação.
Olhei ao redor e só então percebi que havíamos adentrado profundamente entre os despidos troncos. Era impossível ver ou ouvir qualquer tipo de vestígio das pessoas que estariam passeando pelas calçadas do Central Park.
Uma mancha prateada entre as folhas douradas, chamou minha atenção.
–Talvez esteja olhando do ponto de vista errado Thalia — falei enquanto observava fixamente o animal que parecia esperar até que tivesse nossa atenção novamente.
Os passos de Thalia sobre as folhas era quase inaudível, somente no silêncio da natureza era mesmo possível ouvi-los.
Estávamos os quatro lado a lado, esperando até que um de nós soubesse o que fazer.
–Então? Fazemos algum sinal para que ele veja que nós o vimos? — sugeriu Nico.
O animal sem dúvidas o ouviu, pois no mesmo instante, nos olhou com olhos cintilantes, em seguida, com uma calma inimaginável, passou por entre duas árvores que mais pareciam um arco de grossos cipós.
Não nos preocupamos em correr, seguimos com calma, sem expressar qualquer movimento que pudesse ser intendido como brusco aos olhos do veado.
O ato seguinte, me fez crer que animais também têm um limite de paciência. Vendo nossa vagarosa astúcia, o veado chacoalhou as orelhas e bufou, em seguida, trotou ao redor de si, erguendo a cabeça ao ar como se farejasse algo.
Apertamos o passo e em alguns segundo a frente, nos vimos frente a frente com aquela belíssimo criatura.
De perto, seu brilho era diminuto, entretanto, ainda perceptível. Ele deveria ter se mostrado aos olhos de Nico também, que estava impressionado, porém, desejava muito que uma razoável distância continuasse existindo entre eles.
–Pensei que nenhum de vocês olharia para a direção certa. — questionou o veado em minha mente.
Dessa vez, pude prestar mais atenção em sua voz. Era feminina, doce, mas ao mesmo tempo rude e autoritária, transmitindo sensação de poder. Embargado nisso tudo, havia um Q de sedutor em sua voz.
Deuses, de alguma forma é errado achar a voz de um animal, ainda mais um sagrado... sedutora?
Não pude deixar de me questionar a respeito disso.
–Creio que não, herdeiro dos sonhos. Fico lisonjeada pelas características que atribuístes à minha voz. — a cabeça do animal estava inclinada para o lado, seus olhos estudavam-me, assim como... Assim como fazia Thalia.
–Pode não invadir meus pensamentos novamente? — infelizmente minhas palavras saíram em voz alta.
Os três me olharam confusos. A boca de Thalia estava abrindo-se e creio que, por sua feição, em protesto, quando o veado bufou novamente. Dessa vez, ele estava alguns passos a nossa frente.
Com a mesma velocidade que a dúvida fora plantado na cabeça deles, a mesma se fora.
As árvores além do arco, eram diferente das outras. Pareciam cobertas de neve, mas não era gelo aquilo. O chão estava forrado por um fino véu de fumaça — a névoa — impedindo que o tapete de folhas amarelas que forrava o chão fosse notado. O ar era fresco, não como os que ventava nas ruas de Long Island, era mais para uma brisa do mar, sem o oceano e os resquícios de água.
–Ártemis é quem está fazendo isso? — perguntou Reyna enquanto levava uma de suas mãos a imensidão branca que se prendia no lugar das folhas.
Os olhos de Thalia transbordavam tristeza.
–Sim, mas não se enganem, apesar de lindo, isso não é um bom sinal. Essa imensidão branca, deveria ser neve, porém, minha Senhora não tem poderes o bastante para tal feito. A névoa não deveria cobrir apenas o chão, deveria estar por todo o ar... e invisível aos olhos de todos.
Engoli em seco e seguimos em silêncio, tendo como GPS, um Bambi com voz persuasiva.
O cenário permanecera o mesmo até chegarmos na tenda de setin prateada aramada abaixo de uma grande arvore com cristais de gelo que a qualquer momento poderiam despencar sobre os aposentos da deusa. Creio que a deusa da lua ainda tenha poderes suficiente para evitar que isso aconteça.
Sobre a entrada da tenda, um anel preteado rodeava o desenho de uma lua minguante que quando olhado de modo adequado, se transformava em um arco com uma flecha estrelada, pronta para ser lançada.
Thalia correu para dentro do lugar, onde esperava encontrar sua patrona. Fomos a seu encalce.
Antes que eu passasse pelos panos que caiam em cascatas sobre a passagem para dentro da tenda, o veado colocou-se em meu caminho. Suas palavras soaram como um último pedido.
–Protege-a com sua vida, mas não morra. Ela não suportaria perder um segundo amor para a morte novamente.
Não fazia qualquer ideia do que aquele majestoso animal queria dizer com suas palavras, mas percebi tarde de mais quando um par de lágrimas escorreu de meus olhos.
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