O Celibato de Thalia
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Devo ser franco, e admitir que uma centelha de esperança acendeu-se dentro de mim, e cheguei a penar que por um momento, Thalia desejava que podesse existir entre nós qualquer tipo de sentimento... amigável.
Obviamente eu estava errado!
Vejo esperança aonde não há e, creio eu, que esse seja meu defeito fatal. Uma caçadora, ser amistosa com um semideus? Qual é Théo, agora você sem sombras de dúvidas se superou! E mesmo que não fosse uma caçadora, a filha de Zeus é uma garota calculista com seus demais. Demorou que ela confiasse em Percy Jackson, por que comigo seria algo mais apressado?.
Não! Isso de novo não!
Pela segunda vez em menos de vinte e quatro horas isso acontecendo.
O que há de errado? Toda vez que se trata da opinião de Thalia, fico assim. Nervoso. Carregado de importância.
–Você está bem? — Nico estava à porta, com uma mochila jeans pendendo de um dos ombros.
Sem mover um músculo virei-me para o lado, onde um espelho arredondado se fixava na parede. Observei minha feição. Pequenas gotas de suor se manifestavam em minha testa.
Realmente. Havia algo errado. Me encontrava em tal situação por estar me importando com as palavras da caçadora. Só podia ser maldição! Deuses, por que pegaram tão pesado comigo?
–Estou? — corrigi-me no mesmo instante em que minha fala soou como interrogação. — Estou! — passei a manga do meu casaco listrado sobre a testa. — Argos já está esperando?
Nico observou-me. Com certeza vendo que algo a mais estava oculta nas gotas de suor que antes borrifavam em meu rosto.
–Está, — seus olhos se estreitaram enquanto ele arrumava o peso da mochila em seu ombro. — Thalia e Reyna também.
Balancei a cabeça e fui em sua direção para que fossemos de encontro aos outros.
–Vai deixar suas coisas? — ele mostrou a mochila de estampa militar ao pé de minha cama.
Parei. Fiquei ali por alguns segundos. As palavras do filho de Hades entraram por meus ouvidos sem passar informação alguma para meu consciente, que eu não saberia dizer aonde se encontrava nessas horas.
–Sua mochila! — gritou ele.
Dei um pulo com o tom alto de sua voz. Dessa vez recebi a ordem de imediato e apanhei minhas coisas.
–Agora vamos. — falei sem graça. — Thalia convocou Reyna? — tentei mudar o foco da conversa.
Ele pareceu perceber, entretanto continuou com a nova proposta de diálogo.
–Sim. Creio que Jason influenciou na escolha. Ou não, sei lá. Thalia é imprevisível. — comentou.
–De mais! — meu argumentou saiu mais alto do que formulei.
Nico achou graça, porém não demonstrou abertamente. Por dentro eu lhe agradecia por isso.
Argos esperava junto aos outros logo abaixo do pinheiro onde ficavam o Velocino e o dragão. Descemos a colina até a van do acampamento.
Reyna e Nico trocavam olhares significativos quando observavam Thalia e eu. Tentei não demonstrar nervosismo com isso.
Foi assim que se prosseguiu também, quando já estávamos dentro da condução.
Seguimos em silêncio.
Fomos despejados da van em frente ao Central Park. De acordo com Thalia, Ártemis nos encontraria ali.
–Você age rápido filha de Zeus. Entrou em contato com sua senhora logo depois de recebermos a profecia? — tentei quebrar o silêncio que ainda se mantinha entre nós.
Um curto sorriso passou por seu rosto.
–Sim. "A deusa da lua o caminho os dirá" , o último verso da profecia acabou se tornando nosso primeiro passo.
Concordei.
As folhas amareladas dançavam ao ritmo do vento gélido que corria por entre grandes e secos pedaços de madeira, que outrora foram belas e frondosas árvores. Eram poucos, mas ainda podia se esbarrar uma vez ou outra com crianças sendo levadas por seus cachorros. Segundos depois, pais atrapalhados passavam correndo atrás.
–Thalia, — chamou Nico. — onde estará Ártemis?
O impulso da pergunta, fez com que eu me prontificasse de fazer uma varredura geral até onde meus olhos permitiam.
–Não será difícil achar lady Ártemis, porém não será fácil também. — sua voz soava pacífica.
–Acho que sei quem nos dirá o caminho. — Reyna olhava para um agrupamento de árvores que brilhavam indiferentes das outras.
Estava agradecido por não termos que ter tido esforço algum. Começar uma missão com um jogo de esconde-esconde não seria muito encorajador.
–Impressão minha, ou aquelas árvores está brilhando? — comentei.
Ninguém concordou de imediato. Cheguei a pensar estar vendo coisas devido a alta carga de adrenalina que deveria estar fluindo por meu corpo.
–Estão... eu acho. — falou Nico.
O curioso, era que o brilho não emanava diretamente das árvores. Parecia vir de algo escondido por entre elas. Os feixes de luz que iluminavam um punhado de folhas, outrora sumiam, e vinham a iluminar um dos troncos poucos centímetros abaixo de onde antes estava.
–É o veado de minha senhora. — expressou-se Thalia.
Ela havia cheirado alguma droga alucinógena, só poderia ser. Não havia qualquer tipo de animal ali. Algo brilhava, mas não se mostrava. Pelo menos não para mim.
Olhei para Nico, sua face estava tão confusa quanto a minha. Cheguei a conclusão que ele também não enxergava animal algum.
–É lindo. — Reyna olhava impressionada. — Brilha como... como a própria lua.
Meus olhos iam da romana para a caçadora afim de ter respostas.
–Vocês só podem estar zoando né? Não há nada além das árvores! — exclamou Nico.
Thalia só então percebeu que não estávamos vendo a mesma coisa que ela e a filha de Belona. Sorriu com a situação.
–Ártemis o chama de Minguante. Somente caçadoras e garotas o podem ver. Quando ele se demonstra para alguma menina, é como um convite, para se juntar a caçada. — explicou ela.
Aquilo era fascinante. A curiosidade tomou conta de mim, quando olhei mais uma vez para os olhos cintilantes de Reyna então, como desejei poder vê-lo.
Um borrão negro passou por meu lado esbarrando em meu ombro. Nico havia ido para mais perto de sua namorada. Segurou uma de suas mãos e se colocou de frente para ela.
–Por Hades, não queira se juntar a caçada! — sua pele pálida, estava ainda mais branca que o habitual.
O desespero de meu amigo me divertiu. Comecei a rir. Thalia e Reyna fizeram o mesmo. Foi curto o prazo que Nico levou para perceber nossas ações e se constranger.
Lembrei-me de quando ele perdera sua irmã Bianca, para as caçadoras. Minha risada cessou com a mesma perspicácia que se iniciou. Coloquei-me em seu lugar e me vi chorando em pensar perder mais uma pessoa amada para as mesmas garotas anti-sexo.
–Devemos seguir o Bambi então? — falei tentando deixar o momento anterior para trás.
Thalia enrijeceu sua feição.
–Sim, ele nos levara até Ártemis. — terminando suas palavras, ela seguiu na frente atrás do animal de sua senhora.
Estava seguindo ela quando meus olhos se levantaram e eu pude ver o lindo animal que antes apenas as duas garotas podiam contemplar a beleza.
O animal tinha o pelo completamente branco. Um branco tão forte que doía os olhos. Seus olhos eram redondas bolas negras, profundas como a noite e perigosas como a escuridão. Seus chifres eram feitos de pura prata, isso podia-se notar de longe. Os cascos de suas delicadas patas, eram do mesmo material. Ao seu redor, uma névoa acinzentada tomava forma, aos poucos ficando mais intensiva até por fim pratear-se da mesma tonalidade que a lua.
Então é você quem será o responsável! É bom que não nos desaponte.
Tais palavras invadiram minha mente com tanta rapidez que me fez parar de caminhar.
–Théo? Cara, você está muito estranho hoje. — a voz de Nico soava longe, mas eu sabia que ele estava ao meu lado.
A noite me fitava com astúcia, como se eu fosse uma lebre inocente e ele o caçador feroz. Sua face sem expressão me aterrorizava, me dando motivos maiores para continuar ali parado.
Só então percebi.
O veado de Ártemis fora quem dissera em minha mente.
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