O Caos dos calados

4 Uma xará como cupido


Notas iniciais
Gente, meu forninho só cai com vocês, sério! Muito obrigada pelos comentários e espero que venham cada vez mais!

A tão esperada sexta-feira chegou. Para Clarice, seria apenas uma sexta-feira a qual ela comeria comida boa e compraria alguns livros. Para Karina, um passeio que serviria para firmar sua amizade com Clarice.

Saíram da escola e foram à parada esperar o ônibus para o shopping.

– Esse sol de uma e meia misturado com a fome é o cúmulo — Karina tentava puxar assunto.

– Só estou pensando naquela comida maravilhosa. Depois quero tomar sorvete.

– Eu também vou. Você tem dinheiro para cinema?

– Depende dos livros que vou comprar.

– Poderíamos assistir a algum filme antes de irmos à livraria.

– Karina, minha prioridade é a livraria. A pior coisa do mundo é entrar numa livraria e não ter dinheiro.

O ônibus chegou e as meninas entraram. Clarice colocou o fone de ouvido e começou a escutar Natasha — Capital Inicial. Karina pegou seu livro e começou a ler.

Clarice pensava o quanto estava sendo desagradável para Karina andar com ela. Não se achava uma pessoa legal. Karina era uma menina comunicativa e ela, não tinha muito assunto e na maioria das vezes era ríspida. Depois ficou com a consciência limpa, se Karina não estivesse gostando, não passaria a semana sentando com ela e Diogo, tampouco estariam indo ao shopping juntas.

Karina realmente não estava dando muita importância. Na verdade, gostava da companhia de Clarice, já que a menina era na dela e sempre respondia quando puxava assunto. A personalidade de Clarice também a agradava muito, nos poucos discursos que fazia, era perceptível que tinha uma opinião forte.

Quando chegaram ao shopping, dirigiram-se à praça de alimentação para almoçar.

– O que vai comer? — Karina perguntou.

– Vou comer um peixe grelhado. E você?

– Acho que vou comer isso também.

Sentaram-se à mesa e começaram a comer. Karina olhou para Clarice dando um sorriso malicioso e perguntou:

– Qual menino da sala você achou mais bonito?

– Cara, eu acho que nenhum... Nem reparei muito, sabe?

– Você tá de olho no Diogo?

– O Diogo tem namorada, Karina! Que doença!

– E daí? Vocês até que combinam.

– Não, eu não estou interessada no Diogo. Mas me diga você, está interessada em alguém?

– Interessada não seria a palavra, mas se o Vinícius pedisse para ficar comigo...

Clarice deu um sorriso amarelo. Vinícius era realmente bonito. Moreno, alto, corpo atlético... Mas pelo pouco que pode perceber, chegou à conclusão de que Vinícius era apenas beleza e nada mais.

– Clarice, não quero que pense que estou te subestimando, mas eu gostaria de fazer uma pergunta.

– Faça.

– Você já beijou alguém?

– Karina, você pensa que eu sou de ferro? — ao contrário do que Karina pensava, Clarice levou na brincadeira.

– Ai, que bom que você não é assexual.

– Assexual não seria a palavra, e mesmo que fosse, não vejo nenhum problema na assexualidade... Digamos que eu sou demissexual.

– Você sente atração pela Demi Lovato? — Karina perguntou com brincadeira.

Clarice revirou os olhos.

– Claro que não! Demissexual quer dizer que eu só sinto atração por alguém que eu realmente ame, que eu realmente sinta algum tipo de afeto e me identifique intelectualmente ou psicologicamente.

– Ai, que fofo. Clarice resolveu esperar — disse em tom de ironia.

– Acho que o almoço vai esfriar — comentou, tentando mudar de assunto.

Ao mesmo tempo em que estava envergonhada, Clarice estava feliz por ter explicado sua orientação sexual a Karina e esta ter acatado com compreensão. Nunca se abrira daquela forma para alguém. Karina também estava bastante feliz, para ela, o papo com Clarice fora bastante proveitoso e aos poucos, conheceria a nova amiga.

Acabaram o almoço e foram à sorveteria. Duas casquinhas de baunilha. Sentaram-se em um banco e tomaram seu sorvete.

– O sorvete da sorveteria deste shopping é o melhor que eu já tomei! — Clarice comentou.

– Lá perto da minha casa tem outra sorveteria, o nome é Ice eu te pego.

– Mentira! — Clarice caiu na gargalhada.

– Sério! E você precisa experimentar aquele sorvete.

– Tudo bem, qualquer dia eu vou à sua casa e tomamos o sorvete na tal Ice eu te pego.

– Pode ir esse final de semana. Se você quiser, passo na sua casa e falo com sua mãe.

– Meus pais podem deixar, eles gostam quando eu faço amizade. Você sabe que eu não sou muito de falar.

Acabaram o sorvete e dirigiram-se à livraria. Karina foi direto à prateleira dos livros da saga As Crônicas de Gelo e Fogo. Tinha dinheiro para comprar dois, mas queria ir ao cinema.

– Clarice, nós vamos ao cinema? — falou um pouco alto para que ela escutasse do outro lado da livraria.

Clarice também estava indecisa. Não queria desagradar sua amiga, mas tinha dois livros que gostaria de comprar. De qualquer forma, depois voltaria lá e compraria.

– Vamos — respondeu.

Olhava os dois livros. Em uma mão, tinha Os Miseráveis, na outra, A Hora da Estrela.

– Já sabe qual vai levar?

Clarice virou-se e viu Álvaro, cumprimentou timidamente.

– Oi, professor! Ainda não sei...

– Desculpe, você faz que ano?

– O terceiro.

– Ah, então realmente sou seu professor. Qual é mesmo seu nome?

– Clarice.

– Você pode levar o livro da sua xará, eu tenho Os Miseráveis e na minha casa só está ocupando espaço. Se quiser, te dou. Sei o quanto é ruim ter dois livros para comprar e não ter dinheiro. Passava por isso demais em minha adolescência.

Karina olhou pasma, não acreditou quando viu o maior carrasco da escola conversando alegremente com uma aluna.

– Não sei se devo aceitar, professor... É seu livro! O senhor realmente quer me dar?

– Eu faço questão! Um presente meu para você. Só preciso marcar um dia, pode ser aqui, para eu lhe entregar.

– Por que não na escola?

– Não gosto que me vejam conversando com alunos na escola... Principalmente meninas. As pessoas são muito maldosas, entende?

– Entendo... Pode ser amanhã?

– Amanhã às 18:00. Pode ser? Darei aula numa escola aqui perto, aí passo aqui e te entrego o livro.

– Pode sim.

– Não vai me fazer dar viagem perdida?

– Desconfio de que o senhor é que vai.

– Não, não! Coloco até o lembrete no meu celular.

– Então... Até amanhã.

Álvaro saiu da livraria e Karina ainda estava de boca aberta.

– Leve esses seus pensamentos maliciosos para longe de mim!

– Amiga, ele quer te comer.

– Eu desconfiaria de qualquer professor, menos do Álvaro. Ele só vai me dar um livro.

– Ele vai ter dar um livro? Pois quer te comer mesmo!

– Não, não! Ai, Karina, para com isso! Vamos comprar o livro e assistir a um filme.

Enquanto dirigiam-se ao cinema, Karina queria mais detalhes.

– Quando ele vai te entregar esse livro?

– Amanhã.

– Quero vir também.

– Tudo bem, quer mesmo que eu vá passar o final de semana na sua casa?

– Com certeza!

Assistiram a uma comédia romântica, Karina dava gargalhadas, Clarice apenas achava entediante.

Álvaro terminou de dar as aulas do dia e, apesar de cansado, chegou em casa e procurou pelo livro. Encontrou. Estava um pouco velho e até pensou em comprar um novo para Clarice, mas desistiu.

"Aquela menina tá 'pegando é o boi.'"

O que ele não sabia era que Clarice gostava de livros velhos. Quanto mais velho, melhor. Mas com o tempo ele conheceria as peculiaridades de nossa mocinha.

Notas finais
Espero que tenham gostado e... Seu comentário é meu salário!