O Caos dos calados
5 À Clarice...
Notas iniciais
Como combinado, Clarice foi dormir na casa de Karina. Chegaram do shopping e Karina falou com dona Joana, que permitiu que a filha passasse o final de semana na casa da amiga.
Os pais de Karina eram separados e ela morava com a mãe e o irmão mais novo, seu pai morava na Argentina. Chegaram às quatro da tarde, sua mãe ainda estava no trabalho e o irmão, na escola.
– Todos os dias são assim. Eu gosto de ficar sozinha em casa, minha mãe sai do trabalho às seis e pega meu irmão na escola. Ele faz o nono ano.
– Eu também adoro ficar sozinha em casa, mas isso não acontece muito, já que minha mãe não trabalha.
– Clarice, você já sabe a roupa que vai usar no seu encontro?
– Karina, pare de dizer que será um encontro! Ele só vai me entregar um livro e pronto!
– Ainda não engoli essa história de livro.
– Pois eu sim.
– Quem puxou assunto? Você ou ele?
– Ele chegou falando comigo por trás. Nem sabia que eu era aluna dele, acho que ele só tomou liberdade porque viu a farda do colégio.
– Então ele puxou assunto. Tá vendo?
– Isso não quer dizer nada.
– Tá bom, tá bom. Quer comer alguma coisa?
– Não...
– Então vamos assistir a um filme.
Sociedade dos Poetas Mortos foi o filme escolhido. Karina se interessou pelo filme e de vez em quando soltava um comentário.
– Esse filme só tem ator bonito.
Clarice ouvia e revirava os olhos.
Quando o filme estava próximo do fim, a mãe de Karina chegou e olhou para Clarice.
– Que menina linda! Filha, você não me avisou que traria visita.
– Nem eu sabia, mãe.
– Já comeram?
– A Clarice não quis comer nada.
A mãe de Karina chamava-se Denise. Cuidava dos filhos com muito carinho e fazia de tudo para não depender da pensão do ex-marido, usando-a apenas para o lazer dos filhos. Com muito trabalho, conseguiu comprar uma casa em um bom bairro e colocar as crianças em uma escola particular.
Fez uma pizza caseira e chamou as meninas para a mesa.
– Está gostando, Clarice? — Denise perguntou.
– A pizza está ótima. Não precisava disso, eu não queria dar trabalho.
– Trabalho nenhum! Você é nossa convidada.
Após o lanche, Clarice e Karina foram para o quarto e não saíram mais de lá. Por incrível que pareça, Clarice não dormiu à noite. De repente era mesmo um encontro, como Karina dizia. Não! Não devia pensar aquele tipo de coisa! Álvaro era apenas um bom professor que lhe daria um livro velho porque estava apenas acumulando poeira em seu armário.
Álvaro acordou de madrugada, quatro da manhã para ser exato. Dirigiu-se à cozinha para tomar um copo d'água e viu o livro junto de suas coisas. Já tinha deixado-o lá para não esquecer. Como estava sem sono, pegou uma caneta, o livro e resolveu fazer uma dedicatória.
– Para minha querida aluna, com carinho... Não! Ela vai achar que eu estou dando em cima dela.
Pensou em várias dedicatórias, mas terminou optando por uma bem mais singelo. Não estava interessado em Clarice! Claro que não! Apesar de ser uma menina muito bonita, a última coisa que pensaria era em algum envolvimento amoroso.
À Clarice,
Em incentivo pela leitura, repasso este livro.
Álvaro.
O relógio marcava dez para as cinco quando Álvaro deitou-se novamente. Acordaria às cinco e meia, portanto, tinha quarenta minutos para dormir mais um pouco. Não conseguiu. A perna balançava e ele pensava em várias coisas. Será que ela realmente iria? Nem combinaram o local! De qualquer forma, esperaria na porta da livraria.
Pensamentos desse tipo também torturaram Clarice a noite inteira. Não combinaram nada! Como se encontrariam naquele shopping enorme? De qualquer forma, esperaria na porta da livraria.
Álvaro levantou-se da cama e foi para o chuveiro. Lavava o rosto e pensava no quanto aquele dia seria longo. Alguma coisa em Clarice o instigava e se não tivesse aula para dar até as dez da noite, chamaria a menina para assistir a um filme. Claro que tudo de forma muito amigável.
A manhã de Clarice correu bem monótona. Às duas da tarde, Karina insistiu para que fossem ao salão de beleza e mesmo a contragosto, Clarice foi. Gostou do resultado. Karina queria arrumar sua amiga porque, em sua cabeça, aquele seria um grande encontro.
A mãe de Karina as deixou de carro no shopping e falou:
– Quando vocês estiverem saindo, me liguem que eu venho buscar vocês.
O relógio marcava cinco para as seis. Álvaro já estaria lá? Claro que não! Era ocupado demais para ser tão pontual. Quem deveria chegar adiantada era ela, afinal de contas, ela estava ganhando o livro. Era de interesse dela.
Karina chamou Clarice para assistir a um filme.
– Não estou com muita vontade de assistir filme. Assistimos tantos filmes ontem...
– Algum problema se eu for sem você?
– Nenhum.
– E o que você vai fazer enquanto eu estiver assistindo?
– Eu fico andando por aqui ou como alguma coisa.
– Pois se você me dá licença, vou comprar logo a entrada, porque a sessão começa daqui a dez minutos.
Clarice ficou esperando Álvaro na porta da livraria e seu coração bateu acelerado quando o viu chegar. Ele também sentiu o mesmo ao vê-la na porta da livraria.
– Olá, Clarice.
– Oi, professor.
– Aqui está seu livro.
O telefone de Álvaro tocou. Era o dono do cursinho o qual ele daria aula naquele momento avisando que os alunos haviam sido liberados e que ele não precisava dar aula.
– Parece que meu dia acabou mais cedo — comentou.
– Então... Muito obrigada pelo livro.
– O que vai fazer agora?
– Nada, estou esperando minha amiga sair da sala do cinema.
– Quer assistir a um filme?
– Não, não... Assim, quando o filme dela acabar, ela vai achar estranho eu não estar esperando.
– Então quer fazer um lanche?
– Pode ser.
Dirigiram-se à praça de alimentação e Álvaro puxava assunto com ela.
– Já sabe qual profissão quer seguir? — perguntou.
– Bom, em termos de profissão, quero ser escritora. Já o curso pelo qual eu me interesso é Letras.
– Um ótimo curso. Não sei se você sabe, mas a Universidade Estadual estará organizando um vestibular no mês de julho para os cursos de licenciatura.
– Sério, professor? Quero prestar o exame!
– Vá em frente! Você tem muito potencial.
Acabaram o lanche conversando banalidades e despediram-se. Álvaro tentava tirar Clarice dos seus pensamentos. A conversa fora muito boa, mas jamais poderia passar daquilo. Temia estar se interessando pela garota. Imaginem só! Um homem daquela idade interessado por uma menina de dezessete anos.
Clarice também relutava contra o que poderia estar sentindo. Seria um enorme desgosto para seus pais saberem que ela estava apaixonada por um professor. Já sabia o que faria: trataria com indiferença, como sempre o tratou.
Uma pena que, sempre que abrisse o livro, lembraria do nosso mocinho.
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