O Canto do Sabiá
3 Capítulo III

A viagem inicia seu segundo dia. Não há transporte para todos, alguns alternam entre o comboio e a viagem a pé. Ainda assim, todos os sinais de cansaço são dispensados. Seu Sebastião toma o cuidado de não exaurir seu povo, sua vantagem é a sua quantidade de combatentes, é seu dever cuidar deles, portanto abastece-os regularmente com água e ração proteica. Estão a poucas horas de Presidente Prudente, onde se abastecerão com suprimentos mato-grossenses.
Os sulistas se direcionam à cidade de Cascavel, onde terão suporte dos aliados Paraguai e Argentina e possuem vantagem geográfica. A viagem é calma e tranquila, possuem as mesmas preocupações dos rivais em relação à grande massa da tropa. Dos líderes farroupilhas, apenas Matheus acompanha os guerrilheiros. Lucia lidera outra topa para a cidade de Umuarama, por questões táticas. Marcos se aloca num quartel improvisado em Diamante D’Oeste para comandar as ações de uma distância segura.
O destino do Brasil está a seis horas de distância.
Coronel Oliveira acompanha cada respiração dos dois lados através de suas câmeras, que não estão mais limitadas à visão aérea. Os novos trajes desenvolvidos por seus cientistas contam com uma máscara de grafeno, uma folha de carbono mais leve que o ar e mais resistente que o aço, com nano transmissores. A mulher engole em seco e sente gosto de sangue na boca. Seu exército é treinado para apenas neutralizar qualquer um que desobedecer, mas todos sabem da possibilidade de não possuir uma escolha.
O traje preto se camufla das câmeras de baixa tecnologia mantidas pelos rebeldes e possui um leve efeito camaleão a olho nu. Não são enviados muitos, cem homens para cada polo da revolta. Crê-se que cada possua a potência de dez, se devidamente vestido. Se o plano principal da Coronel funcionar, entretanto, o combate corpo a corpo não será necessário.
Completa quarenta minutos desde que ela deu a ordem secreta. Cada militar possui contato direto com ela e com o resto do centro de controle e devem permanecer escondidos até que ela diga o contrário. General Alberto mantém-se calado, pensativo e afastado. Apesar de ser um superior, não é capacitado para comandar o ataque quem vêm sido vigiado há anos pela Coronel.
Um tímido biólogo com credencial extraordinária entra na sala de comando com pressa e timidez, sussurra duas palavras para a chefe e dá um passo para trás, aguardando resposta. Ela prende a respiração e volta a atenção aos seus monitores, com um ínfimo aceno de cabeça, a Coronel dá a ordem que termina a maio batalha realizada em solo brasileiro antes mesmo dela começar.
Os quatro polos estão numa distância aproximada de duas horas um do outro, o que facilita as coisas para a Coronel. Ela tem em seu controle trinta sabi-bôs do Projeto Pasárgada, um número pequeno se comparado ao projeto inicial, porém seus cientistas lhe garantem que é o suficiente para causar um pequeno estrago. Eles são dispostos de maneira proporcional à ameaça, sendo enviados dez para o grupo Cangaceiro e os outro vinte divididos entre os três Farroupilhas.
À véspera do ataque, instaura-se um silêncio. Os nordestinos e aliados param de se mover para um último momento de concentração, o momento aguardado pela líder paulista. Com os olhos fixos nas telas à sua frente, ela levanta a mão direita para o engenheiro, respira fundo outra vez, e dá o comando. O engenheiro digita rápidos códigos em seu tablet e leva um dramático segundo para enviar a ordem.
General Alberto se iguala ao resto dos Sargentos na sala. Não sabem o que esperar, nem mesmo o que está acontecendo. O projeto foi uma inciativa da própria Coronel, que reuniu os melhores de cada área para aprimorar um singelo sabiá numa máquina de guerra. Ou melhor, uma máquina de paz, capaz de evitar uma guerra. Seja lá o que é considerado paz nesses tempos.
Em quatro lugares diferentes, todos sob os olhos atentos de Coronel Oliveira, sabiás cortam o céu. Não poderiam ser mais simbólicos do que isso: São Paulo chegou. Ninguém nota a presença deles acima até que começam a cantar. O som é periódico e incialmente se mistura ao ambiente. Aumenta de maneira harmônica até um ou outro começar a olhar para cima.
Coronel Oliveira sente os ombros relaxarem ao ouvirem a melodia.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
As ondas sonoras são calibradas numa frequência acima da capacidade humana de escutar. Isto dá a impressão de que o canto se cessa abruptamente. Aqueles que o apreciavam olham outra vez para o céu, procurando os trovadores. Ainda leva algumas notas para que alcance a frequência exata. Frequência que, assim que atinge o tímpano transforma-se em vibrações que seguem pelo nervo auditivo até chegar ao córtex cerebral, onde paralisa a atividade motora.
O canto do sabiá faz os brasileiros, como um todo, pararem no tempo.
General Alberto se levanta incrédulo, limpa os olhos e se aproxima das telas, procurando algum defeito de transmissão. O engenheiro que acompanha Coronel Oliveira não consegue conter seu sorriso ao ver sucesso em seu projeto.
Coronel Oliveira, nascida e criada em São Paulo capital, vê a sua vida inteira passar em um segundo à sua frente. Seus finais de semana na praia tomam um grande espaço nas memórias. Quando se reunia com os primos à beira-mar. Lá via algumas pessoas fazendo oferendas à Iemanjá, várias gerações unidas jogando futebol, espirrando areia em tudo ao seu redor, casais casuais trocando olhares, desconhecidos se tornando melhores amigos. Armavam uma barraca e adormeciam ali mesmo. Seu despertador natural era o canto dos sabiás aprumados nas palmeiras litorâneas.
Não poderiam ser mais simbólicos do que isso: é hora de acordar.
— Podemos prender um país inteiro? – General Alberto pergunta num sussurro, ainda boquiaberto com o trabalho de sua subordinada.
Coronel Oliveira sorri genuinamente, como se esperasse por essa pergunta.
— Podemos mandar-lhes uma mensagem. Dizer que sua luta é inútil pois a guerra já foi decidida. O senhor quer ter a honra?
— Sinta-se à vontade. – Ele balbucia.
A mulher alarga o sorriso e afasta, fazendo sinal para o engenheiro iniciar a transmissão. Metade dos sabiás de cada grupo continuam com a alta frequência, apenas para deixá-los incapaz de qualquer ação, enquanto a outra parte projeta a imagem da militar paulista.
— Boa tarde. Sou Coronel Júlia Oliveira, membra do Conselho Extraordinário Brasileiro, convocado assim que duas regiões do país declararam guerra entre si. Nos últimos dois anos liderei o Controle do Sudeste, a partir de uma base militar, cientifica e tecnológica no oeste de São Paulo. Nós desenvolvemos armas que fazem isso que vocês têm nas mãos parecerem brinquedos do fundamental, portanto se, no momento em que recobrarem o controle de seu corpo, alguém tentar algum ato violento, será dizimado desta terra antes que tenha tempo de se arrepender. Não queremos machucar ninguém. Sulista, nordestino ou aliado. Não iremos propor nenhuma proposta, iremos institui-la e vocês irão aceitar.
Os líderes dos dois movimentos sentem suas entranhas queimarem de ódio.
— Vocês estão destruindo o Brasil, e nós gostamos muito do nosso país. Nossa terra é una, e assim continuará sendo. Uma nova Constituição foi redigida e será lida assim que eu terminar minha explicação. As principais mudanças são: instalação de um governo parlamentarista, autoridade legal dos estados em relação ao Governo Federal e destituição de salários para cargos políticos. Não vamos mais cometer os erros do passado e vamos tentar suprir as necessidades do norte e sul do país. As eleições para Parlamentares ocorrerão daqui a dois meses, os interessados em se eleger devem fazer sua propaganda neste período de tempo, lembrando que não haverá salário para políticos. Até lá, as regiões deverão recuar para suas casas e tratar de arrumar a bagunça que fizeram. Caso haja uma tentativa de uma nova revolta, nós ficaremos sabendo, e então – Faz sinal para uma Tenente dar a ordem para sus homens em campo.
Cem homens surgem do nada. O traje camuflado volta à original cor preta. O capuz cobre-lhe as cabeça, caindo sob os olhos, porém não tampa a visão, apenas a aguça. A máscara de grafeno no rosto é vista apenas nas partes do nariz e boca, por conta do capuz. Não se movem como soldados, e sim como cobras, caso estas andassem.
A visão, unida a frequência insana que continua revibrando nos ouvidos dos rebeldes, os apavora. É possível ver o terror nos olhos estáticos. Não porque temem quem serão confrontados, mas porque sabem que perderam, outra vez. Ao longo da história, inúmeras foram as vezes em que o Sudeste pisou nas outras regiões e as usou como escada, transformando sua pequena e rica região no único Brasil existente.
Quando a Corte se tornou o Rio de Janeiro e o Nordeste foi esquecido, quando os impostos para os charques rio-grandenses ficaram exorbitantes, quando a República Café-com-Leite vigorou. Sempre. Esta deveria ser diferente. Em conjunto, o “resto” do país havia destruído os três estados antes que eles pudessem atrapalhar suas ações. E lá está São Paulo estampado nos céus dizendo o que eles têm que fazer de modo a satisfazê-la.
— Creio que não será necessária uma demonstração de nossa força e que a cooperação será unanime. Afinal, somos irmãos. Paulistanos, cariocas, mineiros, nordestinos ou sulistas, somos todos brasileiros. E por mais que muita gente sinta falta de uma definição da identidade brasileira, eu tenho uma própria que me parece razoável. Será está a definição que nos sucedera a partir do glorioso dia de hoje, o dia de uma nova república. Brasileiro é aquele que forma o Brasil, Brasileiro é aquele que é formado pelo Brasil. Enquanto entregam suas armas e aguardam por novas instruções, reflitam sobre esta bela permeabilidade existencial entre nós e o nosso país.
A imagem some do céu e os pássaros param de cantar.
Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembléia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.
Coronel Oliveira dispensa qualquer comentário ou congratulação a ela direcionados. Ignoras as comemorações vitoriosas e planos políticos que chegam ao seu ouvido. Desvia de toda essa realidade e sai pelo quartel, cujo disfarce é um prédio abandonado. Sobe até o terraço, onde deixa uma risada escapar ao sentir a brisa em seu rosto. Nenhum sabiá canta em seus arredores, mas ela pode ouvi-los.
Tentaram tirar-lhe o seu país, transformá-la numa exilada. E lá está ela. De pé sobre a Terra das Palmeiras, onde possui uma vista privilegiada tanto de sua mata quanto de seus prédios e, se forçar um pouco a vista, até de seu mar. Todos os primores parecem estar ao seu redor, todos eles reunidos para celebrar a vitória Brasileira.
Júlia não pode dizer se é noite ou dia, o sol aquece sua pele e atravessa esta, chegando até seu coração, lembrando-a de que possui um. Ao mesmo tempo, o céu com mais estrelas do mundo as exibe com altivez, como que se soubesse que nenhum outro céu em nenhum outro país é capaz de reunir tantas estrelas de uma só vez.
As várzeas floridas e os bosques vividos reluzem em uma paleta de cores única. Júlia sob no parapeito de concreto para poder ver e sentir melhor. Sua última oração, ela se lembra, foi um sussurro de desespero, palavras roubadas de um autor esquecido, mas que compartilhava do mesmo sentimento que a mulher: Não permita Deus que eu morra, sem que eu volte para lá. A saudade que tanto exprimiu seu peito agora é liberta num brado que retumba pelas palmeiras e acorda os sabiás.
Os pássaros se reúnem ao redor dela e começam um canto antigo. Do do si do fa, fa fa mi la la. O tom crescente das notas a eleva nos ares. E quando o corpo de Júlia é solto no ar, a mulher tem uma última e privilegiada visão daquilo que ajudou a construir. Seu último desejo é atendido. A queda a liberta de uma canção de exílio que tocou em sua cabeça por dois anos.
Enquanto se despede do Brasil, ela tem um vislumbre do lugar que a aguarda.
Está indo para Pasárgada.
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