O Caminho de Volta Para Você
1 A Herdeira Perfeita
Às seis da manhã, a cidade ainda despertava.
As ruas estavam tranquilas, o trânsito era leve e os primeiros raios de sol começavam a refletir nos enormes prédios do centro financeiro.
Gabriela Lancaster já estava trabalhando.
Sentada em sua mesa no último andar do Grupo Lancaster, ela revisava relatórios enquanto uma caneca de café esfriava ao seu lado.
A maioria dos funcionários chegaria apenas dali a duas horas.
Mas Gabriela sempre gostou de chegar antes.
Gostava do silêncio.
Da organização.
Da sensação de estar preparada.
Ela passava os olhos por uma planilha quando ouviu duas batidas na porta de vidro.
— Entre.
A porta se abriu.
William Lancaster entrou sorrindo.
Mesmo aos cinquenta e poucos anos, seu pai mantinha a postura elegante e segura que havia transformado uma pequena empresa familiar em um dos maiores grupos empresariais do país.
— Eu sabia que encontraria você aqui.
Gabriela ergueu os olhos.
— Bom dia para você também.
— Você sabe que não precisa chegar tão cedo todos os dias.
— E perder a oportunidade de impressionar o CEO?
William soltou uma risada.
— Eu sou seu pai.
— E também meu chefe.
— Continua sendo injusto usar isso contra mim.
Ela sorriu.
William aproximou-se da mesa e observou os relatórios organizados.
Tudo impecável.
Como sempre.
— A reunião está só às nove.
— Eu sei.
— Então por que chegou às seis?
— Porque gosto de estar preparada.
— Você já está preparada para assumir essa empresa desde os dezessete anos.
Gabriela desviou os olhos.
Aquele assunto sempre aparecia.
Desde criança todos diziam a mesma coisa.
Que ela seria a sucessora perfeita.
Que estava pronta.
Que um dia ocuparia a cadeira do pai.
Mas às vezes aquilo parecia mais responsabilidade do que privilégio.
William observou a filha por alguns segundos.
— Gabi...
Ela levantou os olhos.
— Quando foi a última vez que você saiu com seus amigos?
A pergunta a pegou desprevenida.
— Eu...
Ela tentou lembrar.
Não conseguiu.
William arqueou uma sobrancelha.
— Exatamente.
— Pai...
— Estou falando sério.
— Eu saio.
— Reuniões não contam.
— Jantares de negócios também não?
— Muito menos.
Gabriela riu.
— Estou bem.
William sorriu.
Mas não parecia convencido.
— Só quero que você lembre que existe vida fora dessa empresa.
Ela assentiu.
Mesmo sabendo que provavelmente chegaria cedo novamente no dia seguinte.
Porque aquela era a vida que sempre conheceu.
E, sinceramente?
Ela gostava dela.
Horas depois, Gabriela atravessava o campus da universidade segurando livros e uma garrafa de água.
Apesar de trabalhar em tempo integral na empresa da família, fazia questão de concluir sua formação.
Seu pai sempre dizia que conhecimento era um investimento que ninguém poderia roubar.
Foi assim que ela chegou até uma mesa próxima ao jardim principal.
— Finalmente!
Gabriela sorriu ao ouvir a voz.
Melissa, sua melhor amiga, estava sentada ao lado de Lucas e Camila.
— Eu tenho aula, sabia?
— Mentira. Você mora naquela empresa.
Gabriela sentou-se.
— Que exagero.
— Seu pai sabe que você trabalha mais que os funcionários dele?
— Acho que fui eu quem contratou metade deles.
Todos riram.
Era fácil estar com eles.
Ali ninguém a tratava como a herdeira do Grupo Lancaster.
Era apenas Gabriela.
Durante o intervalo, o assunto inevitavelmente surgiu.
— Então é verdade? — perguntou Camila.
— O quê?
— Que você vai assumir tudo quando seu pai se aposentar?
Gabriela deu de ombros.
— Sempre foi o plano.
— E o que você quer?
Ela abriu a boca.
Depois fechou.
Porque aquela pergunta era mais difícil do que deveria.
O que ela queria?
Nunca havia parado para pensar.
Sempre soube o que precisava fazer.
Sempre soube o que era esperado dela.
Mas querer?
Era diferente.
— Eu nunca pensei nisso.
Melissa a encarou.
— Isso é preocupante.
Gabriela riu.
Mas a pergunta ficou em sua cabeça pelo resto do dia.
Naquela noite, a mansão Lancaster estava mais barulhenta do que o normal.
O que significava apenas uma coisa.
Beatriz tinha chegado.
A irmã entrou na sala de jantar quase vinte minutos atrasada.
Usando uma jaqueta de couro e um sorriso que já indicava problema.
— Boa noite, família.
William suspirou.
— Você sabe que existe horário para jantar?
— E você sabe que eu nunca sigo horários.
— Beatriz.
— O quê?
Gabriela escondeu um sorriso.
Aquela discussão acontecia pelo menos uma vez por semana.
Ethan observava tudo enquanto tentava não rir.
— Não incentiva — Gabriela sussurrou para o irmão.
— Eu não fiz nada.
— Sua cara está incentivando.
O garoto finalmente riu.
Eleanor, a mãe deles, balançou a cabeça.
— Um dia vocês vão me deixar maluca.
— Eu acho que a Bia chega lá primeiro — comentou Ethan.
— Ei!
A mesa explodiu em risadas.
Até William precisou esconder um sorriso.
Mais tarde, quando todos já estavam dispersos pela casa, Ethan apareceu carregando um caderno.
— Gabi...
Ela levantou os olhos do notebook.
— O que foi?
— Trabalho de matemática.
— Claro.
— Você é a melhor irmã do mundo.
— Eu sei.
— Modesta também.
Ela riu.
E passou a próxima hora ajudando o irmão.
Explicando exercícios.
Corrigindo contas.
Escutando reclamações dramáticas sobre frações.
Quando terminaram, Ethan fechou o caderno.
— Obrigado.
— Sempre.
— Quando eu crescer quero ser igual a você.
Gabriela sorriu.
Bagunçou os cabelos dele.
— Você vai ser muito melhor.
Do corredor, William observava a cena.
A filha sentada ao lado do irmão.
Os dois rindo.
Como faziam desde que Ethan era pequeno.
Eleanor aproximou-se silenciosamente.
— Ela se parece muito com você.
William sorriu.
Mas negou.
— Não.
— Não?
— Ela é melhor.
Eleanor segurou sua mão.
Orgulhosa.
Exatamente como ele.
Então o celular de William tocou.
Número desconhecido.
Ele atendeu distraidamente.
— Alô?
Do outro lado da linha houve silêncio por alguns segundos.
Depois uma voz masculina respondeu:
— Você tem uma família muito bonita, Sr. Lancaster.
William franziu a testa.
— Quem está falando?
— Seria uma pena se algo acontecesse com ela.
O sorriso desapareceu imediatamente.
O sangue gelou.
— O que você quer?
A ligação foi encerrada.
William permaneceu imóvel.
O telefone ainda junto ao ouvido.
Enquanto, do outro lado da casa, sua família continuava rindo sem imaginar que suas vidas estavam prestes a mudar para sempre.
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