O Caminho das Estações
38 ∾ O diabo está bem ali nos detalhes, mas já não pode mais ferir você.
Notas iniciais
Primeiro veio o clarão, estendendo-se pelo horizonte e trazendo a alvorada de volta por alguns poucos instantes. Depois, o trovão. Tão longo, grave e pesado, que até o chão pareceu estremecer sob seus pés apressados. Quando olhou para cima, o céu estava coberto pela escuridão e não saberia dizer se era só a noite se aproximando ou uma tempestade.
Precisaria se apressar, caso não quisesse ser pega no meio da torrente desprevenida. Encontrava-se mais do que atrasada, considerando seu horário normal. Já passava das seis horas quando deixou o serviço aos tropeços enquanto enfiava seus objetos em sua pequena bolsa. Nos últimos dias, era comum que estendesse seu horário uma hora ou até duas e meia após o expediente. Ninguém o exigia, apenas o fazia para tentar garantir a contratação que parecia tão próxima, mas ainda tão difícil. Sabia que não ganharia nada a mais por ser apenas uma estagiária, só esperava que notassem seu esforço extra.
Ainda estava no centro da cidade, por mais que acelerasse os passos o máximo que podia. Suas pernas começavam a reclamar do excesso e sua respiração começava a faltar em seu peito. Fez uma nota mental de que precisava entrar em forma. Talvez quando fosse de fato contratada, iria a alguma academia ou até aprenderia algum esporte novo. Entretanto, se já tinha pouco tempo restante na sua semana sendo uma estagiária, imagine quando se tornar uma funcionária. Além do mais, Juno tinha há muito perdido a mão para esportes. Apesar de esguia, tornara-se desengonçada, fraca, com músculos moles e hábitos até sedentários. Pensar nisso a deixou desanimada.
Sentiu falta dos seus vinte anos, quando tudo era mais fácil. A vitalidade, o fôlego, os músculos e os sentimentos. Antes, quando saía de uma noite agitada na faculdade, conseguia ter ânimo para enfiar-se em uma festa qualquer, que duraria toda a madrugada, e no dia seguinte estaria pronta para enfrentar o mundo inteiro. Agora, no auge de seus vinte e oito anos, após um dia longo de serviço como aquele, tudo o que ela desejava era chegar em casa sem ser apanhada pela chuva. E tomar um banho... Como queria tomar um banho para afastar as dores nos ombros e o varrer o cansaço de sua cabeça.
O sol já se despedia no horizonte quando atravessou a cidade. A claridade do dia era apenas um rastro sobre as colinas junto com os últimos raios de sol. O céu escurecia cada vez mais, o azul noturno era parcialmente engolido pelo acinzentado das nuvens carregadas e, de forma frequente, raios cortavam pelo céu, atravessando as nuvens e anunciando-se com trovões. Não demorou muito para ser capaz de ver a lua apontando sobre sua cabeça.
Com a noite já se fazendo presente, a cidade começava a se recolher como se estivesse preso nos tempos antigos em que tudo se despedia junto com o sol. Talvez apenas por ser o meio da semana, os estabelecimentos já se encontravam fechando, os transeuntes adiantaram-se para suas casas depois do longo dia, o trânsito esvaziou por completo e um silêncio tomou conta das ruas. Era estranho como se fosse a única alma viva ziguezagueando por entre as vielas, ainda assim era bom. Apesar de sentir falta do calor humano, das vozes e do movimento cotidiano, Juno apreciava o silêncio. Era quando seus pensamentos deslizavam por dentro de sua mente, quase capazes de se projetarem diante de seus olhos.
Sob a forma conhecida de um homem, seus pensamentos eram turvos com sua presença e fazia o coração saltar, agitando todo o seu ser. Tantas coisas vinham em sua mente, todas as coisas que formavam aquela silhueta, com os cabelos cacheados, a barba espessa e a pele escura. Achava curioso, entretanto, como era capaz de se lembrar de momentos tão antigos com aquela forma e não o mais recente e último. Conseguia se lembrar dos momentos que viveram juntos, dos segredos que compartilharam e dos pecados que cometeram. Conseguia lembrar-se de sete anos atrás. E, no entanto, não conseguia lembrar da última vez que o encontrou e disse a ele a verdade.
Era como um sonho há muito perdido, desesperado no meio da noite, esquecido após o despertar. Sabia que havia acontecido, sentia isso em seus ossos, embora não se recordasse. Escutava o som da música agitada, das vozes irritadas, da discussão impensada. Sentia o medo da dúvida, a incerteza dos sentimentos e a pressão da verdade. Também sabia o que disse, mesmo não se lembrando de ter dito. Tudo era apenas como um sonho distante, quase como se não tivesse ocorrido de verdade. E se tivesse de dizer de novo, ele iria escutar?
— Juno.
A voz a fez parar, pegando-a de surpresa pelas costas. Parada no meio da faixa de pedestres, girou sobre os calcanhares apenas para ver a silhueta de seus pensamentos criando vida diante de seus olhos. Quase pareceu que seus pensamentos chegaram até ele como um chamado. Ou que o tivesse materializado ali, só para ela.
Nirav estava na calçada, com os cabelos bagunçados e semblante exasperado. Quando ela se virou em sua direção, ele pareceu aliviado, dobrando o corpo e pondo as mãos sobre os joelhos. Parecia ter corrido uma maratona apenas para encontrá-la. Ela não sabia o que dizer. Só percebia o coração aos saltos e um embrulho no estômago.
Ele se aproximou, aproveitando que ela permanecia imóvel, agarrada a tira de couro da bolsa procurando algum tipo de apoio. Estava tão comum, com uma blusa vermelha enlarguecida pelo tempo e calças de moletom preto. E o comum servia-lhe tão bem. Qualquer outro homem estaria vestido de forma semelhante, mas só ele parecia se destacar mesmo assim.
— Eu tentei procurar você em casa, mas sua tia disse que ainda estava no trabalho. — ele comentou, tentando parecer casual. — Pareceu surpresa em me ver.
— Ah.
Todas as palavras fugiram de sua mente e sentiu-se emudecer diante dele. Somente conseguia admirá-lo se aproximar, ignorando todo o resto a sua volta. Assim como a sua voz e suas palavras, o mundo todo deixava de existir quando ele se apresentava. Só havia ele.
Ele notou seu silêncio, abrindo um sorriso sem graça, sem saber reagir. Sentiu-se idiota, de volta aos seus vinte e um anos, quando o conheceu.
— Desculpe por ter sumido daquele jeito covarde. — ele disse-lhe, enfim, quebrando o silêncio. — Sem te dizer nada.
De repente, o sonho pareceu reavivar dentro de sua mente e já não era mais sonho. Era realidade. Aquela noite voltou aos seus pensamentos, vividas como se tivesse acontecido noite passada.
— Está tudo bem. — ela deu de ombros, esboçando um sorriso contido. — Se me lembro bem, fiz o mesmo com você. Estamos quites.
Recorreu ao humor para tentar aliviar a tensão do assunto que era trazido à tona uma outra vez. Todavia, ele permaneceu sério e meneou com a cabeça.
— Acho que eu estava em choque. — soou envergonhado, como se estivesse confessando uma falha.
— Por tudo o que te contei? — ela ergueu as sobrancelhas.
— Por saber da verdade esse tempo todo.
Ela soltou as mãos da alça da bolsa, tomando uma postura mais cordial, abandonando o nervosismo e se aproximando, deixando poucos metros ou quase nenhum a afastá-los.
Uma trovoada rugiu entre eles, que continuavam no meio da rua.
— No fundo, sinto que sempre o motivo de você ter partido. — Nirav prosseguiu. — Eu só fui cego o suficiente para não enxergar isso. Na verdade, acho que me forcei a ser cego pela raiva de ter me abandonado. E isso não é justo com você.
Juno sentiu a respiração falhar, apertando em sua garganta junto com as palavras que não conseguia dizer. Enquanto permaneceu muda, ele continuou a falar, impedindo que seu silêncio se tornasse ainda maior:
— Eu passei todo esse tempo tentando pensar em palavras que pudessem amenizar seu sofrimento. Eu queria ter algo para te dizer depois de tudo. Por isso desapareci feito um covarde, por não saber o que dizer a você. Eu queria poder te confortar de algum jeito, mas percebi que nada que eu tenha para dizer pode mudar o que aconteceu. Você passou por tudo isso sozinha e sem ninguém ao seu lado para te dizer palavras bonitas que pudessem te confortar. Todo esse tempo você não teve nada disso. Então, não há palavras que possam significar qualquer coisa, quando tudo o que você precisou era alguém, alguém que não esteve lá por você. Você nunca precisou de palavras, você só precisava de apoio. Você precisou de mim e eu não estava lá por você.
Lágrimas arderam em seus olhos, obrigando-a a afastar o olhar de Nirav. Seus lábios tremeram, fazendo com que tivesse de mordê-los, comprimi-los para controlar o pranto.
Ele estava certo. Quão mais fácil teria sido tê-lo ao seu lado quando tudo aconteceu? Quão menos doloroso teria sido suportar tudo quando não tinha mais nada? Quão mais rápido teriam sarado suas feridas? Tantas vezes pegou-se pensando assim, desejando ter ficado e enfrentado a situação de frente. Sempre soube que Nirav estaria ao seu lado, independente do que acontecesse. E ele já estava cansado de lhe dizer isso, de garantir as garantias que já venceram a validade. No entanto, a bem da verdade era que se tratava de uma batalha que sempre seria sua e apenas sua. Independente dele, sempre caberia a Juno enfrentar. E talvez ele ainda não compreendesse isso, como ela também continuava lutando para entender.
— Você não sabia. Não se culpe por não saber. Afinal, nunca contei a você. Você não tinha como adivinhar. — manteve o olhar distante e a voz baixa, balançando a cabeça.
— Eu sabia. Eu soube assim que vi você ao lado dele, que tinha algo errado. Eu soube quando você foi embora, eu devia saber. Você nunca me deixaria sem dizer adeus. — ele insistiu, respirando fundo. — Eu queria ter estado lá por você. Eu deveria ter colocado meu orgulho de lado e procurado por você. Mas eu não fiz nada disso. E aqui está você. Sobreviveu a tudo isso e eu não tenho ideia do que você passou.
Juno mirou o chão, sentindo as lágrimas cada vez mais pesadas, insuportáveis de controlar. Para sua surpresa, ele diminuiu ainda mais a distância e tomou seus ombros entre as mãos. Quando levou seu olhar marejado de encontro ao dele, notou que ele também tinha uma vermelhidão contida entre as pálpebras.
— O que estou tentando te dizer, Juno, é que nada disso é culpa sua. E eu não posso perdoar você, porque não há o que perdoar. Você não tem culpa pelo que sofreu.
Seu coração pareceu crescer de tamanho, grande demais para caber na cavidade peitoral. E batia tão forte que teve certeza de que Nirav podia escutar. Gostaria que pudesse mesmo, pois seu coração dizia o que ela não conseguia dizer com a boca.
— Eu sei que não estive lá por você antes, mas estou aqui agora. E você pode falar comigo ou não sobre tudo o que aconteceu, só saiba que eu estou aqui. Não para compensar nada, porque sei que o que já passou não tem mais volta. Eu vou estar com você porque nunca deixei de me importar.
Ele soltou seu queixo, pousando a mão sobre seu ombro. Seu rosto pareceu iluminado, embora ainda marcado com a presença das lágrimas. Sentiu como se um peso absurdo fosse retirado de seus ombros e dos dele também. Tantas coisas foram deixadas para trás naquele momento e quantas outras foram recuperadas. Sem que percebessem, abraçaram-se.
Os braços dele se envolveram em sua silhueta, segurando seu dorso e apoiando sua cabeça. Tinha o rosto contra o ombro dele, sentindo o calor da pele lhe preencher com conforto. O cheiro dele envolvia seu nariz, tão marcante que era quase palatável. Como era bom estar apertada em seu abraço uma outra vez, depois de pensar que nunca mais teria outra chance para senti-lo. Apertou os dedos contra a carne de suas costas, apertando-o contra si. Foi quando sentiu o coração dele tão acelerado quanto o seu, batendo de encontro ao seu colo. Fechou os olhos, desejando ficar presa em seus braços para sempre.
Porém, como uma ironia, a chuva os obrigou a se separarem. Com um clarão e uma grossa trovoada, constantes pingos despencaram de encontro aos dois, gelados e pesados. Em questão de segundos, a torrente já era concentrada o suficiente para encharcar os cabelos. Com uma risada, ela se afastou dele, sentindo as mãos ainda segurando seus braços.
— Acho melhor sair da chuva. — ele sugeriu, olhando para cima.
Tomou um instante antes de concordar, admirando os pingos que caíam sobre seu rosto. Umedeciam seus cabelos contra a testa, escorrendo por suas bochechas, entre seus lábios e desaparecendo em sua barba. Era difícil não se atrair.
— E do meio da rua. Seria muito anticlimático sofrer um acidente agora. — concluiu, arrancando um riso dele, ficando satisfeita por isso.
Nirav tomou sua mão na dele, puxando-lhe para se adiantar até uma calçada e se abrigar sob uma marquise. Seus dedos dançaram entre os deles, deliciando-se daquele pequeno momento. Ele não pareceu perceber.
Escondidos da chuva, encolhidos debaixo de uma laje qualquer de um estabelecimento qualquer, Juno sentiu-se de volta ao passado. Quando o olhou, ao seu lado, com a mão sobre a sua, tornou a ver o rapaz de antes tomando a garota de antes. Nenhum dia pareceu se passar desde então, percebeu.
Ele soltou-lhe, levando a mão até os cabelos úmidos, ajeitando entre os dedos. Juno obrigou-se a desviar o olhar, recolhendo seus infantis desejos perdidos num passado há muito enterrado. Seu olhar percorreu as ruas lavadas. A torrente continuava a cair, anunciada pelos relâmpagos e trovões que insistiam em preencher todo o cenário. Agora, as ruas estavam vazias como em uma cidade abandonada em que os dois eram os últimos residentes.
— É estranho ver essas ruas vazias. — ela comentou. — Parece que somos as únicas pessoas na cidade.
Nirav sorriu, olhando-a.
— Imagine ter uma cidade inteira só para você e poder fazer o que quiser. — seu tom divertido a fez lembrar de antigas conversas, cheias de fantasias juvenis e teorias da conspiração. — O que você faria?
— O eu não faria, você quer dizer. — ela respondeu com similar tom arteiro, admirando a expressão divertida dele.
Enquanto permaneceram ali a observar a chuva, ela sentiu o braço dele roçar no seu, sem saber dizer se era proposital ou mero acidente. As juntas de seus dedos esbarravam nas dele, quase como um afago, e as peles tão próximas a faziam arrepiar. Teve de convencer a si mesma de que era apenas o vento da chuva.
De repente, ela se afastou, deixando para trás o segredo daquele toque inocente. Encostou-se contra a parede, logo atrás, sentindo o olhar dele a acompanhar. Por fim, ajeitando a bolsa sobre o colo, sentou-se no chão, juntando os joelhos contra o corpo. Por um instante, manteve os olhos na chuva, respirando fundo, criando coragem.
— Já faz três anos que não vejo Nicholas. — revelou de súbito, erguendo o olhar do chão para Nirav, que permanecia de pé. — Mas por um bom tempo acreditei que não seria capaz de viver sem ele.
Sentindo o olhar dele sobre si, tornou a se manter pensativa. Por tanto tempo, por sete anos, permaneceu em total silêncio. Guardou para si todos os detalhes, ou a maior parte deles. Enquanto definhava sozinha, tentava encontrar o que fazer com cada parte de seu passado que guardou. E o tempo passou, diante de seus olhos, escorrendo entre seus dedos. Até sua mãe faleceu sem saber a verdade.
Agora, Nirav sentava ao seu lado. Seu corpo estava novamente próximo, assim como o braço que tornava a encostar no seu. Ele mantinha os olhos vidrados em seu rosto, não dizia nada, apenas olhava e esperava. Depois de sete anos, mais alguns minutos não faziam tanta diferença.
Juno o olhou de volta. Estava ao seu lado como disse que estaria. Despido de julgamentos, aberto ao acolhimento, esperando por ela. Era apenas Nirav. E ali, naquele momento, tendo-o ao seu lado, não teve medo de tocar na ferida. Sabia que não precisava fazer isso, ele não cobraria nada, não insistiria. Entretanto, sabia que estava segura com Nirav, portanto sua confissão também estava. Tocar na ferida junto dele não pareceu tão dolorido.
— Quando tudo aconteceu, naquela noite, ele tinha garantido que eu iria me arrepender por deixá-lo. Por isso, tentei continuar com o relacionamento, sabe, fazer ficar bem de um jeito ou de outro. Só que já não era mais suficiente. Quando ele percebeu que eu não o amava, que não necessitava dele, a raiva dele tomou conta. Ele me ridicularizava insinuando coisas sobre mim, inventando mentiras a cada sombra e me acusando por qualquer coisa. Para ele, eu me tornei a lembrança viva da derrota dele, o fracasso de ter sido traído.
— E mesmo assim, não foi capaz de deixar você ir? — Nirav perguntou, tentando manter a calma na voz.
— Se era ruim comigo, era pior sem mim. — ela deu de ombros, convencendo a si própria do que dizia. — Ele queria me punir, destruindo minha confiança até eu acreditar que tinha razão, afinal eu o traí. E eu acreditei, aceitei o meu papel na vida dele e aceitei ser punida. Só que abri mão de coisas demais para isso, até que ficou insuportável. Eu já não me reconhecia mais. Então decidi enfrentar a situação de frente. Pensei que pior do que estava não poderia ficar. Como eu estava enganada...
Juno deu um riso sarcástico, balançando a cabeça. Quando sentiu os olhos de Nirav notou a raiva cintilando neles como uma brasa acesa, prestes a se tornar uma fogueira. Também sentiu essa raiva, continuava a sentir dentro de si, mesmo agora depois de tantos anos.
— As coisas pioraram muito antes de melhorar. — prosseguiu, desviando o olhar para longe. — Ele me perseguia, fazia escândalos e criava tumultos no meio da rua, tentava me ameaçar e chantagear. Inventou boatos sobre mim que... Afetaram minha carreira e... — a voz faltou em sua garganta ao se lembrar de como fora demitida vezes e vezes por supostas tentativas de conseguir vantagem ao ter relações sexuais com funcionários de cargos mais altos. — Também foi atrás das pessoas que eu gostava para me atingir e garantir... garantir que eu ficasse isolada, sem ninguém.
“Você é incompetente o suficiente para conseguir o amor de alguém”, a voz sussurrou-lhe no ouvido, fazendo-a cair em silêncio absoluto.
A mão de Nirav tocou a sua, apertando-a. Apesar da raiva que sentia, seu toque era acolhedor. Só assim teve coragem de prosseguir, tendo os dedos dele entre os seus.
— Quantas vezes, saindo da faculdade, esbarrei com ele me esperando como se ainda fosse meu namorado. Outras em que ele me cercava no dia-a-dia, me importunava com mensagens e ligações. Ele... ele ia até meu apartamento, mesmo sem ser convidado e... — percebeu estar quase chorando com as lembranças de suas coisas sendo destruídas, arremessadas pelo chão, as roupas rasgadas, os gritos sufocados pelas paredes, as pequenas destruições que se tornavam cada vez mais opressoras. — Ele destruía minhas coisas, me encurralava, me xingava e tentava... você sabe.
— Não precisa dizer se não quiser. — Nirav apertou seus dedos, afagando-os com carinho.
Juno limpou o rosto com as costas da outra mão, recompondo-se.
— Ele sempre achava um jeito de se enfiar em alguma parte da minha vida e a destruía diante dos meus olhos.
— E nunca era o suficiente para ele, não é? — seu tom indicava certa identificação com suas palavras. Juno negou com a cabeça.
— Chegou ao ponto de eu encontrar com ele no hospital, várias vezes, sentado ao lado da minha mãe, segurando a mão dela...
Como todas aquelas vezes em que aprendeu a chorar em silêncio, também chorava agora. Lembrava-se de sua mãe perguntar sobre o relacionamento, tendo de fingir respostas convenientes para não contar a verdade. Por isso, precisava fingir normalidade ao vê-lo lá, insistindo em um conto de fadas arruinados para a mãe doente, o que só dava a Nicholas mais liberdade para impor seu controle sobre ela. Era quase como um consentimento para a tortura.
— Sabe o que é pior? Ele nunca ousou levantar a mão para mim, apesar de eu ver esse desejo explícito em seu rosto. — a raiva voltava a arder em seu interior. — Porque ele sabia que se encostasse em mim, eu poderia provar o monstro que era. Era mais fácil manter as aparências sem agressões, você sabe. Quem iria acreditar em mim? Ele era um ótimo partido com uma ótima condição financeira e uma vida invejável. Tinha me dado tudo do bom e do melhor, pagava minha faculdade e até ajudava com a minha mãe. E o que eu fiz? Eu o traí. Seria minha palavra contra a dele e a dele sempre venceria, porque ele tinha a narrativa perfeita.
Sentiu o vazio entre seus dedos. De repente, Nirav em seu absoluto silêncio, soltou a sua mão, recolhendo-as e apertando os próprios punhos.
— Uma pena que minhas mãos não podem alcançar ele agora... — murmurou, arrastando uma voz repleta de raiva. — Não sou capaz de dizer o que eu faria...
Juno pousou a mão sobre seu braço, abrandando a fúria que o consumia. Entendia o que sentia. E entendia tão bem que sabia que nada adiantava.
— Ele bem que merece, sei bem como merece. Mas odiaria ver você se arruinar por um homem assim.
— Sabe, é claro que sabe. Sabe melhor do que ninguém. — sua raiva se amenizou, conseguiu ver em seus olhos a fúria desvanecendo e voltando ao ser o que era, um profundo mar de ressentimento, como se doesse em cada parte dele. — É difícil passar por algo assim e conseguir escapar, sequer sobreviver... — havia perícia em sua fala, ele sabia o que dizia e, de certa forma, entendia. Juno pegou-se lembrando de sua mãe. Ele havia comentado algo do tipo, alguma vez.
Sua mão deslizou pelo braço dele, indo de encontro ao chão. Sentiu a poeira da calçada sujar sua mão, sem se incomodar.
— Demorei um tempo para descobrir que havia medidas que podiam me proteger. Por tanto tempo me senti fraca e impotente por acatar a isso, demorei a perceber que não era vergonha nenhuma pedir ajuda. — o olhar pendeu no horizonte, observando a chuva cair um pouco mais fraca, pensando nos dias antigos, em que não tinha Nirav ao seu lado, não tinha ninguém, e apesar disso, conseguiu dar um jeito de sobreviver. Estava ali agora, contando a ele. Coisa que jamais teria a chance se não tivesse sobrevivido. — E eu nunca pensei que o medo pudesse tomar tanto controle da minha vida. Houve noites que pensei que não sobreviveria para ver o dia seguinte. E cada dia que passava, eu temia não ser capaz de aguentar mais um. Eu tive que tomar tantas medidas cansativas para tentar me proteger, mesmo a luta parecendo tão distante de acabar e, de alguma forma, eu sentia que nunca iria vencer. E tinha tanto medo de não sobreviver.
— Está tudo bem se eu disser que estou orgulhoso por você? Porque eu estou orgulhoso demais por sobreviver. — quando se entreolharam, sorriram um ao outro. Juno agradeceu.
Nirav suspirou, permanecendo ao seu lado. Ambos, sentados como duas crianças brincando no meio da rua, vendo a chuva ceder aos poucos. Mais uma vez, as mãos estavam próximas, empurradas uma contra a outra, sujas com o pó do chão. O dedo indicador dele estava entre o seu anelar e médio, posicionado de forma quase proposital. Juno não ousou mexer a mão. Ali ficaram, com os dedos a se encostarem, admirando a chuva, em silêncio, contemplando a companhia um do outro. Sete anos, de repente, desapareceram, como se nunca tivesse existido.
Quando os trovões suavizaram e os pingos grossos diminuíram, Nirav foi o primeiro a se erguer, batendo as mãos na calça. Estendeu-lhe a mão direita depois, ajudando-a a se erguer. Juno imitou seus movimentos para se limpar.
— Acho que a chuva está dando uma trégua, mas não acho que vai diminuir muito mais do que isso. — esticou o braço para fora da marquise, sentindo os pingos gelados arrepiarem sua pele. — Acho que vou ter de enfrentar essa garoa, antes que volte a piorar.
— Eu acompanho você.
Surpresa, ela o olhou. Depois abanou as mãos.
— Não precisa, você já veio lá de casa e vai ter que fazer todo esse caminho de novo.
— Ainda é caminho para a minha casa também. — ele arqueou as sobrancelhas, fazendo-a sorrir. Era verdade, como poderia ter esquecido desse detalhe? — E andar sempre é bom.
— Desde que não se importe com a chuva.
Quando ele a conduziu para a chuva de novo, caminhando ao seu lado, Juno sustentou um sorriso tão genuíno que nem a enxurrada mais torrencial poderia apagá-lo. Nirav era duas cabeças mais alto, possuía os ombros largos e pernas compridas, ela precisava olhá-lo de baixo e não se importava, gostava de admirá-lo. Conforme ele a acompanhava para casa, como antes fizera outras vezes, era difícil desviar o olhar. Receava que, se piscasse, ele se perderia na garoa, revelando-se apenas uma projeção de seus desejos tão intensos, uma verdadeira miragem. No entanto, ele a acompanhou até a última curva. E Juno percebeu que chorava. Estava tudo bem chorar. A chuva que chovia estava ali para cobrir suas lágrimas, lágrimas de alívio.
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