O Caminho das Estações

9 ∾ Eu sou apenas um homem vazio rastejando esta noite.


Notas iniciais
Olá, novamente. Como estão? As coisas não parecem estar muito bem e agora estão prestes a piorar. Como diria minha avó, "nada é tão ruim que não possa piorar."

Do outro lado da cidade, próximo a um pequeno condomínio de universitários, um bar estava no ápice do seu agito, com um conjunto informal tocando música agitadas em um palco improvisado. Era um lugar apertado, voltado para um público mais jovem, com cores vibrantes que reluziam sob luzes coloridas e vendiam os mais diversos tipos de bebida.

A noite ainda se estendia, sem hora para acabar, quase de propósito. O tempo ruim também continuava e, apesar do bar estar aconchegante com o calor humano acumulado, o vento continuava a bagunçar o exterior, varrendo as ruas já vazias e batendo nas janelas fechadas das casas apagadas.

Enquanto as pessoas dançavam e andavam de um lado para o outro, se divertindo com seus sorrisos embriagados e conversas desconexas, Nirav não sabia o que estava fazendo no meio do tumulto. Estava barulhento demais, tumultuado demais. Não queria estar ali e também não queria estar em nenhum outro lugar. Portanto, não restava muitas opções.

Teria sido melhor se tivesse apenas seguido para casa depois de tudo o que aconteceu. Estaria escondido de si mesmo dentro das cobertas, tentando em vão agarrar qualquer fagulha de sono para adormecer e esquecer todo a bagunça em sua cabeça.

No entanto, a necessidade de fuga de suas próprias angústias o levou através das esquinas até aquele costumeiro bar, onde encontrou alguns conhecidos da faculdade e foi convencido ficar. Sequer tinha intimidade o suficiente com eles, apenas os conhecia de vista, mas ali, pelo menos, não estaria sozinho com seus sentimentos.

No início, pareceu funcionar. Conseguiu fugir do vazio que consumia cada parte do seu âmago. A cada gole de cerveja, seus pensamentos pareciam cada vez mais borrados até quase se dissiparem, sem nunca, de fato, desaparecerem. E não demorou muito até que a tentativa de escape causasse o efeito contrário. Logo, ele estava novamente perdido dentro de sua própria cabeça.

Seus olhos percorriam por todo o salão, observando todos as faces e corpos, tentando procurar por qualquer sinal da garota que desestabilizou cada parte de suas estruturas. Seria tão fácil encontrá-la no meio da bagunça, balançando o corpo de acordo com a música, rodopiando de abraço em abraço até parar no seu, dando aquela risada exagerada, exibindo todos seus dentes. Mas ela não estava lá e ele não sabia onde encontrá-la, além de dentro de si mesmo.

Apenas quando sua mão encontrou o celular dentro do bolso, Nirav conseguiu encontrar algum resquício de Juno. Lá estavam as mensagens dela que não conseguia responder.

"Você está bem?", ela perguntou, embora a resposta parecesse óbvia suficiente para que precisasse responder. E como, de fato, não respondeu, ela insistiu. "Nirav? Está tudo bem?"

Até mesmo aquelas mensagens não pareciam vir dela, pareciam falsas ou montadas. Era como se a garota que conheceu não existisse mais, desaparecendo sem vestígios e a única pista que tinha era de como ela estava longe, se afastando ao ir de encontro a outro corpo que não era o seu. E isso era torturante.

Era óbvio que sentia ciúmes, embora parecesse infantil. Afinal, o que faria com ciúmes? Qual utilidade aquilo teria, exceto torturar a si mesmo? Não conseguia cobrar nada de Juno, não tinha esse direito e, na verdade, sequer cogitava algo do tipo. Apesar disso, o que não daria para estar no lugar de Nicholas? Principalmente quando sabia o quão diferente ela estaria em seus braços do que como estava nos braços dele.

Novamente, tentando fugir de seus pensamentos, Nirav abandonou a garrafa de cerveja na mesa, assim como abandonou seus amigos, bêbados o suficiente para não notarem sua escapada, seguindo para o lado de fora, encontrando Florencia já adormecida.

O vento o acertou com tudo, bagunçando seus cabelos e sacudindo suas roupas. Ele não se prestou a proteger o rosto. Havia algo de reconfortante naquela ventania. Parecia ser a única parte do mundo capaz de entender o que estava sentindo e se simpatizar com isso.

Queria ter alguém com quem conversar — alguém além de Theo com suas verdades insensíveis. Contar como se sentia perdido e, ao mesmo tempo, preso em um beco sem saída. Talvez até encontrar alguma saída para esse beco em que se enfiou. Porém, por estar sem ninguém, sua cabeça girava em torno de fantasmas, tentando descobrir o que eles teriam a aconselhar.

Seu pai não teria nada a dizer, senão as costumeiras palavras rudes, afinal, era tudo o que ele sabia fazer. De sua boca só sairia o som do ranger de dentes, sempre irritado e impaciente. Em seu pai não encontraria nada, mesmo se pudesse reencontrá-lo. Não haveria sequer compaixão, muito menos compreensão. Como August poderia compreender algo como o amor quando tudo o que conhecia era desprezo?

Mesmo assim, Nirav ainda se perguntava se algum dia seu pai teria realmente amado sua mãe. Houve algum momento em que August olhou para Adhira e encontrou em seu olhar o mesmo brilho que Nirav encontrava nos olhos de Juno? Se sim, o que deu tão errado para terminar de um jeito tão trágico? E, se não, o que os manteve por tanto tempo juntos?

Sem respostas, o fantasma de seu pai transformou–se em Leo. Um fantasma sem rosto, que trazia memórias fragmentadas e borradas, mais próximo do que August. O rosto nulo que um dia representou seu melhor amigo era mais simples de transmitir conforto e compreensão do que o de seu próprio pai. Ainda assim, mesmo sabendo que Leo seria o único capaz de compreendê-lo, nada de bom poderia sair dele.

Em Leo não havia limites. Como também não havia nada no mundo capaz de impedi–lo em suas vontades. Nirav o invejava um pouco. Por muito tempo, desejou ser como ele, inspirado por impulsos. Sabia que se fosse como Leo, seria capaz de lidar com a situação sem medo das consequências. E do que adiantaria? No fim da noite, estaria no mesmo lugar, perdido pelo mesmo motivo.

Por isso, questionava-se o que Leo faria em seu lugar. Por mais que julgasse conhecê-lo, não parecia tão óbvio. Nirav não se lembrava de Leo tão apaixonado por alguém, sempre parecia livre dessas amarras. Talvez porque soubesse que o amor seria capaz de controlá-lo. E ele odiava ser controlado por qualquer coisa além de seus impulsos.

Nirav até conseguia se recordar de algumas garotas, já tão apagadas quanto a sua memória de Leo. Houve poucas delas, e nenhuma pareceu suportar tempo suficiente. Sempre terminava em gritos e tapas. Elas partiam aos prantos e Leo permanecia sem se afetar, quase como se estivesse acostumado.

No fim, eram apenas fantasmas. Não serviam para nada, além de lembranças e possibilidades inutilizadas, perdidas no tempo. De nada adiantava questioná-los, pois sabia que eram perguntas sem respostas. De nada servia apontar os problemas deles para tentar solucionar os seus.

No entanto, por que aqueles amores, mesmo já enterrados pelo tempo, tão conturbados e problemáticos pareciam mais fáceis do que o sentimento entre ele e Juno?

Cansado do ciclo vicioso de seus pensamentos, que sempre retornavam ao mesmo ponto de onde partiam, Nirav esfregou as mãos em seu rosto, tentando apagar tais devaneios. Sequer estava bêbado para recorrer a mortos e desaparecidos numa tentativa vã de se entender. Era só um tolo em uma situação lamentável.

Um suspiro pesaroso escapou de seus lábios, quando sua cabeça pareceu começar a doer. Talvez fosse a chance de se retirar, procurar abrigo em casa e, quem sabe, se permitir chorar. Talvez fosse tudo o que precisava. Parar de desviar o olhar, ter coragem de encarar a verdade e chorar por isso. Talvez fosse o suficiente.

Olhando uma última vez para dentro do bar, Nirav procurou seus colegas. Eles estavam dispersos dentro da bagunça, tão absortos em suas diversões que não notariam se ele partisse sem se despedir. Por um momento, contemplando seus sorrisos e brincadeiras enquanto dançavam ao som daquele conjunto tão desafinado quanto cansado, Nirav quase os invejou.

— Nirav?! — a voz feminina veio por trás, mas ele não pareceu escutar direito na primeira vez. — Nirav!

Como uma sacudida para acordar, ele percebeu que alguém o chamava. Melhor, uma garota. Ele conhecia aquela voz feminina, apesar de não ser de quem esperava. E quando se voltou a pessoa, desejou encontrar Juno.

— Lou. — seu olhar viciado procurava ao redor dela qualquer resquício da presença de Juno. — Está com as meninas?

— Com outras, no caso. — ela deu um sorriso torto, que o fez pensar que estava alterada e o copo com um drinque colorido em sua mão também a entregava. — Está sozinho?

— Estou com alguns colegas da faculdade. — apontou para dentro do bar, sem indicar ninguém em específico.

— Não esperava te encontrar aqui.

Nirav anuiu, concordando com a cabeça. Seus dedos voltaram a encontrar seus cabelos, ajeitando-os.

— Sendo sincero, não sei bem o que estou fazendo aqui, mas também não queria ir parar casa.

— O que está acontecendo? Você está bem? — observou o semblante dela assumir um tom de preocupação.

Ele suspirou, encostando-se na parede exterior do bar. Seus olhos percorreram a rua vazia, exceto por eles dois e algumas outras pessoas que saíam do estabelecimento.

— Não se preocupe, está tudo nos conformes. — mentiu, mantendo um sorriso no rosto na tentativa de convencê-la.

— Você sumiu depois do que aconteceu.

Lou se aproximou, ignorando a bebida que tinha em mãos. Seus cabelos ruivos dançavam no vento, embolando um fio no outro. Nirav retirou o olhar dela, pensando no que havia acontecido.

Ainda se lembrava do rosto aturdido de Juno, vendo-o confrontar Nicholas por qualquer coisa que ele tinha dito. Agora quase parecia besteira, mas quando se lembrava do silêncio e distância excessiva de Juno, a raiva voltava a arder em seu peito.

Aquela garota não era Juno, era apenas uma versão do que Nicholas havia criado dela. A Juno que conhecia estaria dentro daquele bar, dançando com um sorriso no rosto, emanando aquela luz tão radiante quanto o sol. E essa imagem era tão vívida que Nirav teve de olhar novamente para dentro, só para ter certeza de que ela não estava mesmo lá.

— Eu fiquei envergonhado por ter agido de forma tão estúpida.

— Bem, realmente foi estranho. — Lou franziu o cenho, ponderando por um instante. — Eu não deveria falar nada, mas... — ela suspirou, balançando a cabeça. — As meninas chegaram a desconfiar de que você estava com ciúmes da Juno.

Nirav não conseguiu olhá-la diante da constatação óbvia. E ainda havia algo a mais no seu tom de voz, como se Lou se recusasse a acreditar naquela suposição, lutando contra a mínima concepção dessa ideia. Queria ter dito a verdade, por mais que ela parecesse incapaz de lidar com isso. Em vez disso, apenas disse:

— Eu não culpo vocês, foi uma reação bem estranha mesmo.

Sabia que não era o suficiente para fugir da situação. Lou não o estava interrogando, embora sua entonação indicasse uma procura por respostas. Nirav não podia dar-lhe a verdade, portanto, precisava pensar em uma desculpa antes que fosse tarde.

— Eu não estava muito bem. — respondeu, tentando se lembrar do que Theo havia usado de desculpas no meio da confusão. — Minha mãe teve problemas com a família do meu avô e é provável que não consiga vir para minha formatura. E não foi só isso... — de repente, o fantasma de seu pai surgiu outra vez em sua mente. — Algo no jeito de Nicholas falar me lembrou o modo como meu pai falava, então eu lembrei de algumas outras coisas e não consegui me controlar. Foi completamente impensado, eu só...

Não conseguia encontrar sentido em nenhuma de suas palavras, apesar de não serem totalmente mentira, só estarem em contextos diferentes. De qualquer forma, ficou aliviado quando Lou pareceu comprar aquela desculpa esfarrapada.

— Nossa, eu não imaginava... — ela encostou na mesma parede, olhando-o com algum tipo de remorso.

— Claro que não, nem tinha como, não é mesmo? — ele arqueou as sobrancelhas. — Eu não deveria ter agido daquela forma. Desculpe ter feito vocês passarem por essa situação.

De imediato, ela tomou sua mão na dela, apertando-a com firmeza.

— Não, não peça desculpas! Foi apenas um mal entendido, essas coisas acontecem... — disse, envolvendo os dedos nos dele. — As meninas vão entender que não foi nada demais. Não faz sentido você ter ciúmes da Juno, vocês são só amigos.

Nirav respirou fundo antes de responder.

— Sim, somos só amigos. — mentiu, torcendo para ela não notar o vacilo de sua voz.

Lou revirou os olhos, balançando os ombros.

— Óbvio, duh! — ela deu uma risada, desmanchando o clima daquela conversa. Nirav acabou por rir junto com ela, concordando com a cabeça.

Ele estava preparando para se afastar, quando sentiu a mão dela apertando a sua. Havia se esquecido de que ela a estava segurando.

— O que acha de tomar algo?

Nirav hesitou. Não queria estragar a diversão de Lou com seu humor taciturno.

— Eu não estou muito bom para beber hoje, Lou...

— Ah, por favor! — ela apertou sua mão. — Deixe de coisa, vamos aproveitar! Tenho certeza de que vai se sentir melhor!

Respirando fundo e dando-se por vencido, Nirav acabou aceitando.

Trocando o vento frio pelo calor interior do bar, Nirav imaginou que horas seriam, sem coragem de olhar o celular e ver as mensagens de Juno. Enquanto era puxado por Lou até o balcão, questionava-se se não deveria ter insistido em ir embora.

A banda parecia exausta, embora as pessoas se recusassem a dar alguma trégua para os músicos. Continuavam gritando sugestões para as próximas músicas, pulando de um lado para o outro, dançando com vários outros pares ao mesmo tempo, sem deixar os copos esvaziarem.

De volta àquela agitação, Nirav continuou a se sentir deslocado. Ao seu lado, encostada no balcão, Lou exibia um sorriso empolgado. O drinque que ela havia ordenado era mais doce do que Nirav gostaria, mesmo assim bebeu de uma só vez, contendo uma careta no final.

— Esse é por nós! — ela brindou, depois de saborear o seu próprio. Parecia acostumada com o sabor. — Nós nunca saímos juntos, não é?

— Não, acho que não. — respondeu, apoiando os braços no balcão, ao lado dela. — Nossa primeira vez bebendo juntos.

Lou sorriu ao pedir mais um drinque, sendo obrigada a esperar um bom tempo para ter atenção entre os tantos outros clientes. Nesse meio tempo, Nirav decidiu que também tomaria outro.

— Minha nossa, o que tem nessa bebida? — sua garganta queimava após cada gole e o sabor só parecia piorar.

— Não vai querer saber. — ela riu, bebendo como se fosse água.

Nirav a observou, então pegou o copo de sua mão, trazendo-o até seu nariz para cheirá-lo.

— Não é possível, o seu tem de estar diferente do meu! — reclamou, fazendo-a rir. Convicto de que estava certo, roubou um gole para logo perceber de que não havia diferença. — Minha nossa, como você consegue beber isso, Lou?

— Não imaginei que fosse fraco desse jeito.

Ele devolveu o copo dela, que logo pediu mais outro. Mesmo sem ter certeza se deveria tomar outro, Nirav tornou a acompanhá-la.

Enquanto investiam em mais bebidas, o bar parecia ficar ainda mais barulhento. Apesar da noite avançar madrugada adentro, as pessoas não pareciam se importar com o dia seguinte e a música continuava em alto e bom som, assim como os gritos e risadas.

Nirav já havia perdido a noção de quantos drinques havia tomado, quando percorreu o olhar pelo estabelecimento, tentando procurar qualquer rosto conhecido dos seus colegas de faculdade. Sentia-se um pouco tonto, mais do que gostaria e, por isso, decidiu que não beberia mais.

Pela primeira vez naquela noite, sua cabeça parecia conturbada apenas pela quantidade de álcool que havia ingerido. Sua mente não se prendia a nada, flutuando de tópico em tópico sem realmente pensar em nada.

Seus olhos percorriam ao redor, confusos pelas luzes coloridas. Não conseguia enxergar muito mais do que a pessoa que estava ao seu lado, erguendo mais um copo em direção a boca.

— Eu sei que você não quer falar sobre isso, mas... — ela limpou o canto da boca com o dorso da mão. — Como está a sua vida? Eu sinto que você não fala muito sobre si mesmo, está sempre tão quieto e reservado.

— Nossa, como chegamos a esse ponto? — ele perguntou mais para si mesmo do que para ela, percebendo o quão alterado estavam. — Você não quer saber disso, não tenho nada a comentar. Não tem nada além de bagunça. É mais complicado do que eu gostaria.

Ela o encarou com uma careta, nada satisfeita com aquela resposta. Sem estar a vontade de falar sobre sua vida, antes que ela tornasse a abrir a boca, ele emendou:

— Estamos a noite toda falando sobre mim! Por que não fala sobre você? O que tem feito? Aliás, o que veio fazer aqui essa noite?

— O que faço sempre... — ela revirou os olhos, terminando o conteúdo do copo. — Estou caçando!

Nirav deu uma risada, meneando a cabeça.

— Caçando? O que isso significa?

— Diferente de vocês, que tem uma facilidade ridícula para encontrar relações amorosas, eu estou aqui fora todas as noites, aberta para todo tipo de possibilidade e nada nunca acontece! — ela bufou, irritada. — Eu tenho um azar ridículo no amor...

Ele a fitou, trocando a risada por um sorriso compreensivo.

— Não deveria pensar assim. As coisas acontecem quando têm de acontecer. — conforme as palavras saiam de sua boca, sua mente retornou a Juno, como se nunca tivesse a colocado em segundo plano. — Pode estar mais perto do que você imagina e quando você menos esperar...

De repente, Louise roubou-lhe um beijo.

Um beijo atrapalhado, com gosto estranho do drinque, que ele não soube como reagir. Os lábios dela eram famintos, apressados e um tanto quanto desastrados, talvez pelo álcool. Foi um beijo esquisito, sem encaixe ou harmonia, mesmo assim, ele não a interrompeu.

— Desculpe... — ela murmurou, envergonhada, depois de se afastar.

Eles se entreolharam um instante. Sem saber o que dizer ou fazer, Nirav procurou n olhar de Lou o mesmo brilho que encontrava no de Juno. Não havia nada naqueles olhos, apenas seu próprio reflexo.

— Por quê? — ele perguntou, sem saber bem sobre o que estava perguntando.

— Bem, você nunca reparou em mim antes. — ela suspirou, tocando seu rosto com a ponta dos dedos, deslizando-os por sua barba. — Não desse jeito, mas...

Novamente, ela o beijou. E mesmo sabendo que estava cometendo um erro, Nirav retribuiu.

Talvez fosse a necessidade de mascarar o que estava sentindo. Talvez um jeito de fugir de alguma suspeita. Ele não sabia dizer o que o motivou a aceitar aquele beijo. De qualquer forma, não colocaria a culpa na sua embriaguez, muito menos na dela.

Poderia tentar dizer que bagunça dentro de si era a verdadeira culpada. E que toda a dor e a raiva que o consumiam eram como combustível de algum tipo de vingança. Entretanto, no fundo, sabia que o verdadeiro culpado era si mesmo, procurando encontrar Juno nos lábios de outra pessoa, na tentativa de preencher o vazio que ardia em seu peito.

Cada vez que os lábios se chocavam, Nirav insistia em buscar por Juno naquele beijo desconexo, até notar que não havia nada. Não conseguia sentir nada quando beijava Lou, além do próprio desespero. E toda vez que ela o olhava, sentia-se cruel por insistir naquela vã projeção.

Ela o olhava com prazer, tentando saciar um desejo que ele não conseguia retribuir, mas tentava compensar de alguma forma. Talvez, por isso, quando ela o chamou para dançar, ele aceitou contra sua própria vontade.

Não podia fingir que não entendia o peso de suas atitudes e o que poderia causar, porém estava dormente, agindo no automático. Embora fosse errado, estava correspondendo só por ser tudo o que conseguia fazer, já que havia perdido a coragem de voltar atrás.

Nesse momento, sentiu-se como seus fantasmas. Como Leo, reagindo a um impulso para tentar camuflar o vão aberto na alma. Como August, sendo irresponsável em seus comportamentos. Como seus fantasmas, Nirav encontrava-se cometendo um erro atrás do outro, sem saber o que deveria fazer, por estar perdido em outra pessoa, incapaz de se reencontrar.

Sentia falta de Juno, então tentava desesperadamente encontrá-la de qualquer jeito. Queria sentir o cheiro de seu corpo, saborear o gosto de sua boca, tocar a sua pele e estar entre seus braços. Queria tanto amá-la que a procurava em outras pessoas.

Naquela pista de dança, dentro de todo o tumulto e barulho, entre todas as pessoas, cegado pela luz vibrante, Nirav continuava a procurar por Juno. Quando fechava os olhos, imaginava que envolvia o corpo dela ao ritmo da música de encontro ao seu. Era capaz de escutar o som da sua risada ou o timbre de sua voz.

Como se estivesse em um sonho, o rosto de Juno se projetava diante de sua visão. Ela estava tão bela, com os cabelos soltos, balançando em volta de rosto suado. Sua pele brilhava, cintilando sob as luzes. Ela parecia ofegante com o peitoral subindo e descendo, tentando estabilizar a respiração após a dança. E o brilho em seu olhar era radiante como o sol em um dia de verão.

No entanto, quando retornava à realidade, encarava a farsa que havia criado. Não havia Juno, apenas Lou. Seu toque era frio. Seus beijos eram vazios. Ela não era radiante como o sol. Não havia nenhum brilho em seu olhar. Não o fazia sentir como se estivesse segurando uma tempestade iminente, na verdade, não o fazia sentir nada. E ela não tinha culpa. Lou só não era Juno.

Aos poucos, Nirav começava a perceber que nada daquilo era bom. O gosto em sua boca era amargo e a sua garganta arranhava. Tudo começava a ruir, mas já era tarde demais.

Deveria pedir desculpas a Lou e ir embora, porém não fez nada disso. Tudo o que conseguiu fazer foi permanecer ao seu lado, tentando compensar algo como um bom amigo. E era tudo o que conseguia fazer, pois era incapaz de corrigir o erro sem ter de contar a verdade.

Porque a verdade pertencia somente a Nirav e a Juno. Era dolorosa demais para ser dita em voz alta. E a verdade poderia destruir tudo.

Notas finais
Se o capítulo anterior foi difícil de escrever, esse foi quase uma tortura! Eu não consigo nem ficar com raiva dele, assim como não consigo ficar com raiva da Juno, mas é complicado que eles estejam tão bagunçados que tudo o que conseguem fazer é bagunçarem ainda mais. Enfim, espero que tenham gostado.