O Caminho da Andorinha

17 Uma Promessa Quebrada


Gwathel. Este foi o nome dado a Iorveth ao seu primeiro cavalo, um animal de cor caramelo que o elfo roubou de um dh’oine. Gwathel significava “primavera”, no Idioma Ancestral, tendo o elfo escolhido esse nome porque partiu das Montanhas Azuis naquela época do ano.

Aquele foi um dia de “primeiras vezes”. Foi a primeira vez que saqueou um comerciante, a primeira vez que matou um dh’oine e também a primeira vez que montou em um cavalo, pois não havia mais cavalos nas Montanhas Azuis há muito tempo. Sua primeira tentativa de montaria foi patética, embora Iorveth jamais tenha admitido ou comentado com alguém.

Sua parceria com Gwathel durou três meses. Escapando de mercenários contratados para mata-lo, fez o cavalo cavalgar em uma estrada de pedregulhos e o animal acabou por quebrar a pata, ao pisar em um buraco. Foi abandonado à própria sorte. Iorveth não queria se arriscar a ficar na estrada repleta de dh’oines.

Desde então, Iorveth jamais tivera um cavalo. Sua vida na floresta, junto aos Scoia’tael, tornava uma montaria dispensável, senão um estorvo. Tudo mudou quando o elfo passou a viver em Mahakam, indo viver com Saskia. As Montanhas de Mahakam eram extensas e se mostravam um desafio e tanto, até mesmo para um elfo em sua melhor forma. E em sua rotina de liderança, um cavalo se tornava necessário. Como se tivesse adivinhado sua história, Saskia lhe deu um de presente, da cor caramelo. A guerreira sugeriu-lhe alguns nomes dh’oines de que gostava, mas Iorveth já tinha o nome Gwathel na ponta da língua. Mas desta vez, o elfo prometeu ao cavalo que não cometeria o mesmo erro de sua juventude de abandoná-lo a própria sorte.

E Gwathel mostrou sua lealdade em pouco tempo. Obediente, vigilante e bem-treinado, o equino tornou-se um companheiro de Iorveth. Estava por perto, naquele mesmo bosque, ignorando os estalos amedrontadores de um linche nas profundezas apenas para esperar por Iorveth, no topo de uma árvore e camuflado entre as folhas, com o seu arco a postos. Com rápidos movimentos, o elfo disparou uma flecha e logo desceu da árvore, soltando um palavrão em seu idioma ancestral por ter visto que o alvo de sua flecha simplesmente estava vivo. Deveria mesmo ser um bruxo. Nesta hora, o elfo se irritou por não estar com sua unidade Scoia’tael por perto. Um bruxo conseguia se esquivar de uma ou duas flechas, mas não quinze, pensava Iorveth.

Montado em Gwathel, Iorveth galopava, dividindo suas atenções não apenas com a densa floresta em sua frente, mas com o pequeno vislumbre do céu que escapava das copas das árvores. Acima de si, Iorveth era capaz de ver Saskia, em sua forma draconiana, a voar pelos céus. Estava ferida, ou do contrário, seria impossível ser capaz de alcança-la. Outro palavrão se passou por sua mente. Aqueles bruxos quase a mataram. Malditos.

Iorveth sentiu seu coração disparado quando viu Saskia voar mais e mais baixo. Suas asas batiam devagar. Sem dúvida, estava ferida, gravemente ferida. O elfo forçou um pouco mais Gwathel, que logo protestou, pois já estavam galopando a uma boa velocidade. Sua apreensão se tornou difícil de conter quando o Dragão caiu dos céus, desnorteado. O estrondo do impacto contra o solo chegou a assustar o cavalo, fazendo-o relinchar. Iorveth não poderia culpa-lo, pois pôde sentir, levemente, o solo tremer debaixo das patas do animal, para não dizer do ruído estrondoso. Estando o animal calmo outra vez para prosseguir, Iorveth forçou-o mais um pouco, prometendo ao animal uma maçã bem doce como recompensa por seu esforço, assim que tudo estivesse terminado.

Desmontando de Gwathel, Iorveth correu para perto da cratera, formada pelo impacto da queda de Saskia. Parecia que um meteoro havia caído ali, horrorizou-se o elfo, com dificuldade para enxergar devido à poeira alta que encobria-lhe a visão. No centro da cratera, jazia uma inconsciente Saskia, já em sua forma humana. Por segundos, o ar faltou a Iorveth. Saskia estava salpicada de sangue. Sua armadura, que lhe era tão estimada, estava agora completamente arruinada, de um modo que nenhum ferreiro, nem mesmo o mais talentoso do Continente, poderia recuperar. O impacto da queda só serviu para agravar ainda mais os seus ferimentos.

Iorveth deslizou pela cratera. Por sorte, estava usando luvas, ou do contrário teria cortado seus dedos nas pedras sobressalentes. Sua primeira providência foi verificar se Saskia ainda estava viva. Recostando seu rosto a sua boca, o elfo não notou respiração. Ainda havia o pulso, ele pensou. Ao verificar, Iorveth soltou um suspiro aliviado. Ela estava viva, apesar de sua pulsação ser fraca. Muito fraca.

A armadura pesada de Saskia o atrapalhava a retirá-la dali com o necessário cuidado. Iorveth chegou a pensar em removê-la e descarta-la ali mesmo, mas sabia que a guerreira iria ficar furiosa com isso. Colocá-la em Gwathel foi outro desafio. O cavalo estava cansado pelos últimos dias, além do recente esforço, e certamente ficaria mais cansado com mais um a montar-lhe. Iorveth sabia disso. Estava muito longe de Mahakam para prosseguir viagem até lá em um animal cansado e estando Saskia tão ferida. Poderiam ir até uma cidade ou vilarejo das proximidades, mas dificilmente sem gerar suspeitas. Naquele momento, precisavam de uma pessoa de confiança, que pudesse ser discreta e ajudar Iorveth a tratar Saskia, pois por mais que fosse rápida sua capacidade de recuperação, ela precisava de cuidados.

E nenhum nome vinha à mente de Iorveth senão o de Turiel.

§§§§§§

—Ai!

Anais chupou seu dedo polegar. O gosto de seu sangue salpicou sua língua. Mais uma vez, havia se furado com a ponta da agulha. A jovem, então, voltou seus olhos para Turiel, que observava a cena com grande diversão, quase como se estivesse assistindo a uma peça de teatro cômica.

—Não levo jeito para isto. – suspirou a jovem, deixando a agulha e a linha de lado.

—Por isso disse que você estava jovem demais para casar. Mal sabe costurar uma roupa, que dirá cuidar de uma casa inteira, e sozinha. Vejo que minha decisão de acertar o seu casamento com Adal apenas depois de seu aniversário de dezoito anos foi mais do que acertada. Você não está pronta para isto.

Com o comentário de Turiel, Anais voltou seus olhos para as prateleiras. Lá estava o pesado livro “Linhagens e Dinastias Temerianas”. Intocável há dias, como jamais ficara naquela casa. Desde que Turiel o adquiriu, meses depois de Roche deixa-la sob seus cuidados, a menina era obrigada a estuda-lo, assim como os livros de Geografia. Mas nada a irritava mais do que as Regras de Etiqueta, que apesar de toda a estrutura arcaica que lhes rodeava, a elfa tentava ensiná-la com afinco.

Diante da perspectiva de casamento com Roderick, todo este conhecimento agora se tornaria inútil. Para cuidar de uma casa, ser uma boa esposa e mãe, Anais não precisava saber as famílias temerianas, quais os talheres certos para usar em um banquete ou o idioma nilfgaardiano para fins diplomáticos. A vida que se projetava diante de si era muito mais simples. No entanto, a jovem menina parecia ainda mais assustada do que se tivesse prestes a assumir o trono temeriano. Talvez porque ela não foi preparada para isso.

—Turiel? – perguntou Anais, de repente. A elfa estava ocupada, trançando coroas de flores artesanais que, em breve, adornariam a cerimônia de Melitele, mas voltou suas atenções à jovem.

—Sim?

—Quando você se casou, você gostava de Elendil?

Turiel sentiu-se sem ar com a menção rara de seu esposo. Anais jamais conversava sobre ele pois sabia que o assunto era doloroso para ela, mas a curiosidade certamente venceu sua cautela. Deixando as flores de lado, a elfa inalou profundamente.

—Sim. Eu era jovem, assim como ele. Nos conhecemos durante a Festa de Belleteyn, em Cidaris. Eu e meu pai estávamos por passagem por lá, quando um elfo esbarrou em mim e derrubou toda a minha bebida por meu vestido. Ele era um tanto atrapalhado, mas foi bastante gentil. Desde o momento em que pus os olhos nele, meu coração passou a bater mais acelerado. “É porque você está apaixonada”, explicou o meu pai. Então, foi tudo muito rápido. Nos casamos e construímos essa casa aqui em Lathlake, perto do laboratório do meu pai.

No mesmo instante, Anais baixou seus olhos.

—Tenho medo por não sentir o mesmo por Roderick.

—Eu compreendo. – admitiu Turiel. – Você é jovem demais para entender sobre seus sentimentos. Quando conheci Elendil, eu era mais velha do que você. Por isso, você irá esperar mais um pouco para tomar um passo tão definitivo. Sei que você acha Roderick um bom rapaz, que tem uma boa amizade por ele, mas isso não é o bastante para sustentar um casamento. É importante, mas não é o bastante.

—Quando falará com Adal? – perguntou Anais, curiosa. Turiel voltou suas atenções às coroas, trançando com destreza os arcos adornados.

—Durante a Festa de Melitele. Não vou marcar casamento, mas vou ao menos dar um indicativo de que você está... Pensando na proposta. Isso será o bastante para que ele não acerte nada com outras jovens.

Terminando uma das coroas de cor branca, subitamente a elfa a colocou sobre a cabeça de Anais, que riu de sua brincadeira.

—Bom... Além disso, Roderick verá você usando uma coroa branca na Festa, então saberá que você está pedindo a Melitele a graça de um bom casamento. Você jamais desfilou com as flores na cabeça porque não estava na idade para casar, mas agora... Bom, toda Lathlake saberá que está.

Anais assentiu. Sabia do costume da Festa de Melitele. As mulheres solteiras usavam coroas brancas para pedir por um bom casamento. Já casadas, as mulheres que usavam coroas vermelhas pediam à Melitele por prosperidade e felicidade. As mulheres casadas que usavam coroas azuis pediam por um filho. Nas cerimônias de casamento, os noivos usavam coroas com flores das cores brancas, vermelhas e azuis, simbolizando os estágios. Anais jamais desfilou com as flores, por ser considerada jovem demais para interceder pela Deusa da Fertilidade e Família. Mas agora, que havia atingido a maioridade, era necessário usar.

—Fico pensando o que Roche pensaria de tudo isso...

Turiel riu. – Ele a arrastaria pela orelha para fora do Templo de Melitele.

Anais riu levemente, imaginando a situação. Arrastar pela orelha seria algo brando até demais para suas reações.

—Não é exatamente disso que estou falando, Turiel.

A elfa voltou seus olhos a Anais mais uma vez. Ela sabia que aquela indagação não seria sobre Roche estar vivo ou não, mas sim o que sobre sua opinião quanto aos rumos que ela estava escolhendo para sua vida. Turiel não era a mais aficionada por política, muito menos alguém tão patriota como Roche, mas entendia a importância de Anais. Ela era a filha bastarda do último Rei legitimamente temeriano. Tecnicamente, estava fora da linha de sucessão temeriana, mas isso não a impedia de reivindicar o Trono, na falta de herdeiros.

—Antes de ir embora, cheguei a sugerir a Roche que ele permanecesse aqui conosco, que eu não precisava de uma Coroa e que aceitaria uma vida como camponesa. Ele me respondeu que eu seria muito egoísta se decidisse meu destino apenas pensando em meu bem-estar, quando eu poderia estar fazendo a diferença. Eu sei que eu era apenas uma menina de oito anos na época, mas... Eu só não quero que as pessoas morram por mim.

Uma pequena lágrima escorreu pelo rosto de Anais.

—O poder do Trono da Teméria levou o meu pai, levou o meu irmão e fez com que eu me separasse da minha mãe. Agora, ele também levou Roche. Olho para trás, para tudo que Roche passou desde o momento em que me salvou em Loc Moinne, e vejo toda a desgraça que ele enfrentou por tentar me proteger, ou melhor, por tentar reaver o que nem mesmo é meu por direito, teoricamente. Não quero que isso se repita novamente, mas... Ao mesmo tempo, sinto que estou desonrando todo o sacrifício que ele fez por mim, por desistir. Não sei o que pensar...

Turiel parecia compreender o conflito de Anais.

—Você é jovem. Tem apenas dezesseis anos. Se Vernon foi capaz de mover céus e terras para restaurar a Teméria, você também é capaz de fazer o mesmo para conseguir o Trono e fazer o que é certo e justo por seu povo. Com ou sem Vernon. Se ele pudesse opinar agora, diria para você não desistir. Eu sei porque está hesitando no casamento. Porque não foi para isto que você foi educada nos últimos oito anos. Você foi destinada à grandeza, Anais, quer você queira ou não. E a grandeza demanda sacrifícios.

A elfa deixou escapar um suspiro profundo.

—Está decidido. Não vou falar coisa alguma com Adal sobre casamento. Roderick não é o único homem do Continente. Se ele não quiser esperar, problema é dele. Haverá outros pretendentes tão bons quanto ele, caso você queira abdicar do Trono e realmente levar uma vida comum. Mas até lá, você não tomará nenhum passo definitivo. Entendeu?

Enxugando as lágrimas, Anais assentia quando alguém bateu à porta. Seus olhos voltaram da porta para Turiel, que suspirou pesadamente.

—Deve ser Ernest, querendo o extrato de ervas que me encomendou em Lathlake. – levantou-se a elfa, indo atender a porta.

Entretanto, a porta aberta não revelou o simples pastor de ovelhas de Lathlake, mas sim, duas pessoas que Turiel esperava jamais ver em sua vida. Seu assombro foi tão grande que ela deu dois passos para trás, profundamente consternada. Anais também se assustou. Apesar de todo o tipo de gente visitar Turiel à procura de seus elixires e extratos, a herbalista jamais recebeu duas pessoas cobertas de sangue dos pés à cabeça.

—Coloque-a na minha cama. – foi o que disse Turiel, passados alguns segundos de susto e consternação. Sem mais perguntas, aliviou-se Iorveth.

Carregando Saskia em seus braços, o elfo imediatamente seguiu para o quarto da herbalista, deixando Saskia com máximo de cuidado possível sobre a cama delicadamente arrumada de Turiel. Logo a herbalista apareceu, a passos apressados e o semblante sério, carregando uma caixa pesada de medicamentos. Levada pela curiosidade, Anais tentou acompanha-la até o quarto para entender o que estava acontecendo, mas tudo que recebeu foi a porta na cara, que por pouco quase não acertou o seu nariz. Um tanto ofendida, Anais não se deixou abater pela indelicadeza de Turiel, apoiando seu ouvido na porta, numa tentativa de entender o que diabos estava acontecendo. Não durou segundos, pois logo a porta se abriu de repente, o que quase a fez cair pateticamente no chão. Ignorando a reação da jovem, Turiel subiu em um banco e atirou sobre a mesa o pesado livro “Linhagens e Dinastias Temerianas”.

—Volte para aquela mesa e transcreva todas as últimas vinte gerações de cada Casa Temeriana e seus feitos na História.

Anais arregalou os olhos. Sabia que levaria um dia inteiro para isso.

—Se você não me obedecer, irei te deixar sem treinamento com espadas por um mês. Um mês, entendeu?

Foi o bastante para a jovem correr para a mesa, tentando se dedicar ao máximo à lição exigida por Turiel, apesar daquela porta fechada diante de si provocar perguntas e mais perguntas à sua mente. Afinal, quem era aquele elfo caolho, carregando uma mulher loira ferida em seus braços? Apesar de Turiel ajuda-los, havia um clima estranho entre os dois. Estava claro que se conheciam, mas eram realmente amigos?

O que quer que fosse, Anais sabia que Turiel não lhe diria. E agora, teria muito a perder se tentasse descobrir por si mesma. Definitivamente, era melhor escrever sobre cada família temeriana nos últimos séculos do que correr o risco de ficar sem seu treinamento matinal por um mês, algo que Turiel faria com gosto.

—Vamos lá. Casa de Reardon... – disse a jovem, abrindo o pesado livro.

§§§§§§§§§

Diante do último tilintar de aço da armadura de Saskia a cair sobre o chão, Turiel pôde ter total consciência do quão grave era o estado dela, apesar de seu olfato apurado lhe alertar sobre o forte cheiro de sangue fresco. Sem a armadura, era possível ter ideia da extensão de seus ferimentos. Cortes, alguns superficiais, outros profundos, feitos por um objeto cortante, certamente uma espada. Os cortes se estendiam pelos braços, torsos e costas. O mais sério estava em sua barriga.

—Ela perdeu um dedo. – surpreendeu-se Iorveth, enquanto Turiel retirava da cama as peças da danificada armadura de Saskia.

—Eu havia percebido quando ela chegou. – disse a elfa, pegando a mão direita de Saskia e olhando mais de perto o buraco formado pela ausência do dedo mindinho.

—O que há a ser feito quanto a isso? – perguntou o elfo. – Você sabe, o sangue dela, ele.... Tem propriedades poderosas de recuperação. Será que ela é capaz de.... Restaurar esse dedo?

Turiel negativou. – É verdade que ela consegue se curar em horas, mas reconstruir um membro perdido... Acho difícil, para ser honesta, mas não posso opinar com propriedade sobre isso. Apenas Saskia tem a dimensão do quão extenso é sua capacidade curativa. Agora, vamos nos dedicar a cuidar do que resta dela e deixar Saskia em plenas condições de curar a si mesmo.

Recorrendo a caixa, Turiel retirou alguns panos limpos e um pequeno frasco, com um líquido de cor azul. Após ser questionada sobre o conteúdo do frasco pelo curioso Iorveth, a herbalista explicou que aquilo servia para evitar infecções nos ferimentos. Logo que o pano encharcado pelo líquido atingiu uma ferida em sua barriga, Saskia se movimentou. Seu rosto se contorceu em dor.

—Não se preocupe, Iorveth. Isso é sinal de que está fazendo o efeito desejado. – observou Turiel. – “Tudo que arde, cura”, como já dizia o meu pai.

Sob estas palavras, Iorveth precisou ignorar as caretas formadas no rosto de Saskia. Era difícil conter seu nervosismo. Sim, Saskia já passou por muitas batalhas, adquiriu vários ferimentos, alguns dos quais a guerreira ainda ostentava em forma de cicatrizes em sua pele, algo que pouquíssimos, como Iorveth, tinham acesso. Mas a julgar pelas histórias que a guerreira lhe contara, ela jamais saíra com tamanha gravidade de uma batalha.

Com cuidado, Saskia teve seus ferimentos limpos. Alguns, mais profundos, precisaram ser costurados com pontos. Outros eram superficiais, recebendo apenas um curativo. Iorveth ajudou Turiel em sua tarefa, erguendo o corpo ainda inconsciente de Saskia para que a elfa desse atenção às suas costas, ou usando sua força para amarrar as faixas que agora, tomavam boa parte do torso de Saskia.

—Ela ainda está inconsciente. – comentou Iorveth, fitando Saskia deitada sobre a cama, enquanto Turiel lhe lançava uma coberta pesada.

—Será melhor para ela. Uma pessoa normal demoraria meses para se curar desses ferimentos, mas Saskia... Tenho certeza de que levará apenas alguns dias.

Iorveth puxou um pequeno banco, deixando-o recostado à cama. Uma cena bastante parecida com a que viveu anos atrás, naquela mesma casa. Com a diferença de que ele dividia o teto também com o Elendil e que não havia uma humana ali. E falando em humana...

—Vi que há uma dh’oine em sua casa.

Turiel suspirou. Sabia que a presença de Anais em sua casa não passaria despercebida. Não pelo grande desprezador da escória humana, ou dh’oine, o elfo líder dos Scoia’tael chamado Iorveth.

—Ela é de confiança.

—Nenhum dh’oine é de confiança. Muito me admira que ainda não saiba disso, a julgar por sua experiência de vida.

—Anya é especial.

—Especial, é mesmo? – debochou Iorveth.

Ah Iorveth, você não faz idéia do quanto ela é especial, pensou Turiel.

—Ela está sob minha tutela há alguns anos. É alguém de minha estreita confiança.

Alguns pensamentos mordazes se passavam por Iorveth. Turiel, a elfa Aen Seidhe, de sangue puro como ele, perdera seu único filho em um polgrom, e agora, dedicava-se a cuidar de uma dh’oine. Uma pertencente à raça que trabalhava, dia após dia, para destruir seu povo. Quanta ironia.

—Sei que não estou em condições de pedir coisa alguma...

—Que bom que reconhece. – adicionou Turiel, agora de braços cruzados.

—Mas peça para que essa dh’oine fique longe de Saskia. E de mim. Por favor.

Por favor. Uma palavra que ela não esperava ouvir de Iorveth. Assim como Vernon Roche, Iorveth tinha dificuldades em demonstrar humildade. Mas se era complicado entender as razões que levavam o temeriano a isto, sobre Iorveth já era uma questão diferente para Turiel. Ela conseguia compreender. Oriundo das Montanhas Azuis, assim como ela, Iorveth tinha um grande orgulho de sua linhagem Aen Seidhe “pura e imaculada”, livre do maldito sangue dh’oine. E gentileza também não foi necessária em sua dura vida de mortes e perdas em sua luta contra os humanos.

—Eu já faria isto, com ou sem seu pedido. Aliás, espero que você também fique longe dela. Não apenas por seu bem, mas também pelo bem de Saskia. – disse Turiel, saindo do quarto e deixando Iorveth às sós com Saskia.

Logo que Turiel abriu a porta, percebeu que Anais – ou Anya, como se lembrou internamente a elfa de chama-la na frente de estranhos – estava com seus olhos voltados para a porta. Logo que a herbalista se fez presente, a jovem disfarçou, voltando seus olhos rapidamente para os livros.

Com os olhos ainda focados, disfarçadamente, nas páginas dos livros, Anais percebeu uma cadeira se arrastando e a sombra de Turiel se projetando sobre seus estudos. A jovem permaneceria a continuar estudando, mas uma mão pálida e magricela de dedos finos a recostar em seu antebraço lhe dissuadiu disto.

—Não conte uma palavra. – começou a elfa – Não conte uma só palavra do que aconteceu aqui a alguém.

Anais assentiu com a cabeça, decidindo não encará-la nos olhos. Muitas perguntas se passavam em sua mente, a respeito daquele elfo acompanhado de uma mulher, mas a jovem sabia que Turiel não responderia suas perguntas.

—Anya. – pediu Turiel, cochichando em seu ouvido. – Não conte a ele quem é você. E especialmente, não o deixe saber que você conhece Vernon.

—Tudo bem. Eu faria isto de qualquer modo... – ela disse, dando de ombros.

—Ele é... Ele... – a elfa suspirou, tentando encontrar as palavras. – Não deixe que ele sequer suspeite sobre você. Iorveth pode ser muito observador e...

—Iorveth?! – questionou Anais. – Eu conheço esse nome de algum lugar...

—Ele é um Scoia’tael. – disse Turiel aos cochichos. Como ela esperava, Anais assombrou-se. Claro. Não eram necessárias maiores explicações sobre o porquê de esconder sua relação com Roche. Afinal, Anais já era madura o bastante para saber dos Listras Azuis e do papel de liderança assumido por Roche por tantos anos, sem mencionar os Scoia’tael, guerrilheiros inumanos que por décadas foram combatidos, se tornando uma pedra no sapato na maioria dos Reinos do Norte – e especialmente, da Teméria.

—Por que está abrigando um Scoia’tael? Você sempre se mostrou contra os métodos deles...

Turiel parecia resignada.

—E continuo sendo contra. Mas Iorveth, ele... Eu tenho uma dívida de gratidão para com ele. Uma dívida que considero eterna. Lembra-se do que te contei a respeito de meu marido, Elendil? Pois bem. Foi Iorveth quem o ajudou a escapar da prisão. Se não fosse por ele, eu jamais teria tido notícias de meu marido. Iorveth errou comigo uma vez, mas foi graças a ele que pude ter Elendil de volta, ainda que por pouco tempo.

Anais ainda tentava absorver todo o relato de Turiel. Há alguns anos, sabia que Turiel era uma viúva e que tinha perdido um filho pequeno, mas ela jamais soube de tantos detalhes. Seu desejo de perguntar mais esbarrava nas maneiras sempre discretas de Turiel. E agora, era um tanto chocante saber que a herbalista sentia-se em dívida com um Scoia’tael.

—Está bem. Vou tomar cuidado. Mais cuidado do que já tomo normalmente.

Turiel parecia satisfeita com a afirmação de Anya.

—Apenas cuidado não será o bastante. Iorveth deve permanecer aqui por pelo menos uns três dias, no máximo cinco, até que Saskia se recupere...

Anais arregalou seus olhos mais uma vez.

—Mas aquela mulher parecia estar quase morrendo!

—Eu sei, mas ele ficará aqui por pouco tempo, mesmo assim.

—Se for necessário, ela pode ficar aqui por mais tempo. Sei que pode parecer perigoso, mas... Não quero que ela morra por minha causa.

Turiel riu levemente. Anais e seu coração de ouro. Estava disposta a aceitar o perigo por alguém que desprezava monarcas. Não poderia haver nada mais irônico que isto.

—Infelizmente, a decisão não cabe a você, e sim, a Iorveth. Acredite, ele também está desconfortável com toda esta situação e não aceitará ficar por tanto tempo assim. Irá embora assim que puder. – disse a herbalista, dando um leve afago no ombro de Anya. – Continuando... Você terá de agir do modo que Iorveth espera de uma dh’oine. Terá de soar inofensiva, portanto, nada de treinamento com espada. E lembre-se: será apenas por alguns dias. Em breve, poderá voltar a treinar.

—Está bem, está bem. – disse a jovem, entristecida. – Vou agir como uma “camponesa comum”, que só sabe tricotar, varrer e cozinhar.

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A audição aguçada de Aen Seidhe permitiu a Iorveth apenas saber que Turiel já estava conversando com a beanna dh’oine, mas tudo que o elfo pôde ouvir foram meros sussurros. Turiel estava conversando praticamente em cochichos, e assim fazia a dh’oine, decerto porque já sabiam que ele era um Aen Seidhe puro, das Montanhas Azuis. Mas Iorveth não estava preocupado em saber que tipo de orientações Turiel estava passando aquela menina. Tudo que ele queria era ser deixado em paz por alguns dias. Ao menos, até que Saskia se restabelecesse e estivesse em condições de montar um cavalo novamente por alguns dias na estrada.

Estando com maior privacidade, Iorveth se aproximou de Saskia. Seu semblante agora estava sereno. Pegando em sua mão direita, enfaixada e tendo apenas quatro dedos, Iorveth recostou seus lábios às costas de suas mãos, tendo seu beijo atingido mais o curativo que sua pele.

—Sua dor logo irá passar, en'ca minne.