O Caminho Para Fora Da Tempestade

6 Capítulo 5: A Depressão Vermelha


Na manhã seguinte, Kai acordou bem cedo, caminhou um pouco e acordou Lon quando voltou.

–Bom dia.

Disse Kai.

–Bom dia...

Respondeu Lon. Ele parecia um pouco triste, Kai percebeu isso e perguntou:

–O que foi? Tem alguma coisa errada?

–Não... É que... Já faz algum tempo que a gente não come nada e... Estamos sobrevivendo comendo a neve no lugar de beber água... Tem um gosto horrível!

Kai já tinha a solução e então falou:

–Eu também acordei pensando nisso... Eu andei um pouco por ai depois que acordei. Eu achei uma lebre vagando não muito Longe daqui. Vamos procurá-la?

Lon se animou e disse:

–Vamos! Ai você pode pegar ela pra gente!

–Não, nada disso. Quem vai pega-la vai ser você.

Disse Kai. A alegria de Lon desapareceu. Ele disse:

–Mas Kai... Eu não sei caçar... Eu vou estragar tudo. Como da outra vez...

–Não pense assim. Dessa vez eu vou te ajudar. Acredite em sí mesmo. Você vai conseguir!

–Você acha mesmo?

Perguntou Lon meio inseguro.

–Claro que vai. Vem, vamos procurar a lebre.

Os dois andaram pelos arredores e após poucos minutos encontraram seu alvo, que não estava muito distante de onde eles estavam.

A lebre se localizava num lugar perfeito para uma caçada. Havia muitas pedras espalhadas pela neve, perfeitas para se esconder e ficar à espreita.

Kai chamou Lon para trás de uma pedra grande e o instruiu:

–Lon, faça silêncio absoluto. Ande bem devagar e com o corpo bem perto do chão. Use as pedras pra não ser percebido. Quando estiver bem perto do alvo fique em alerta e se notar que a presa desconfia de alguma coisa, fique parado e espere. Quando conseguir se aproximar o suficiente, corra e pule com as patas dianteiras bem abertas para a presa não ter para onde correr! Quando conseguir imobilizar a presa, morda o pescoço bem forte!

–Certo, entendi. E depois?

–Depois disso o serviço estará feito. Mas é preciso muita paciência e atenção. Não fique nervoso, faça tudo com calma e você vai conseguir.

–Ta bem! Vou conseguir!

Disse Lon decidido.

Lon começou a caçada. A lebre estava a mais ou menos cinco metros de distância e havia muitas pedras pelo caminho.

Lon, rastejando pela neve silenciosamente, se aproximava cada vez mais de seu alvo. Usava as pedras próximas para pequenas paradas para respirar fundo e se manter discreto. A lebre não suspeitava de nada, estava parada olhando para os lados, talvez pensando para onde ir. Lon se aproximou lentamente da presa pelas suas costas e logo se viu a menos de um metro do alvo. Nesse momento Lon correu e saltou em direção à lebre, que quando percebeu e olhou para trás, já era tarde de mais. Lon imobilizou o animal segurando suas patas com firmeza e em seguida abocanhou a garganta da pobre lebre indefesa.

Em seguida Lon pulou de alegria por ter conseguido e levou sua presa até onde Kai tinha ficado observando.

–Eu consegui, Kai! Eu o peguei!

Gritou Lon, feliz.

–Viu? Eu sabia que você conseguiria.

Falou Kai sorrindo.

–Eu nunca tinha conseguido caçar nada em toda a minha vida! Obrigado Kai!

Continuou o leopardo. Kai disse orgulhoso:

–Bom trabalho. Você foi ótimo.

–Vamos comer!

Gritou Lon.

Eles comeram rapidamente. A lebre não tinha muita carne, mas era o suficiente. Para Lon aquela refeição foi uma das melhores, não pela carne, mas por ter sido sua primeira caça bem sucedida. Ele estava realmente contente.

Depois que acabaram de comer, os dois descansaram um pouco e voltaram a caminhar pela direção que Arrow os instruiu. Após poucas horas de caminhada, os dois chegaram à parte do caminho onde já não havia neve. Chegaram onde o solo era rochoso, quente e escuro.

Após poucos minutos andando por ali, Lon pareceu realmente exausto e Kai também parecia cansado.

–Kai... Eu tô com sede... Aqui é muito quente...

Disse Lon ofegante. Kai falou:

–É, Lon... Eu também estou com sede... Por um lado aqui é muito quente... Mas por outro lado é um sinal de que não deve ter nevascas por aqui. E nem mesmo neve. Mas... Fique aqui. Vou ver se acho alguma água e volto logo.

–Tá bom...

Kai então correu pelos arredores do lugar procurando pela água. Por onde ele passava só via árvores secas e pedras. Porém depois de alguns poucos minutos ele encontrou varias poças grandes de água que vinham do subterrâneo, mas essa água era borbulhante e quente. Kai não tinha escolha, teria que ser aquela água. Kai voltou para buscar Lon.

Lon estava jogado no chão de barriga para cima e suspirando. Ao ver que Kai voltou, ele se levantou rapidamente e perguntou:

–Você achou?!

–Achei... Mas não fique muito feliz... É água quente...

Disse Kai não muito contente. Lon então disse bravo:

–Água quente?! Por que tudo nesse lugar precisa ser quente?

–Não fique assim... Se nós quisermos nos manter vivos nesse lugar, teremos que beber essa água. Mesmo quente... Vamos, vou te levar até a água e depois que bebermos vamos seguir em frente.

Lon aceitou. Em seguida os dois foram juntos até as poças. Kai bebeu um gole de cada vez e tentou não se importar com a temperatura.

–Vai Lon, beba... É necessário.

Disse Kai depois que terminou de beber.

Lon aproximou a boca da água lentamente, cheirou-a e deu um salto para trás.

–Nossa! Essa água tem um cheiro horrível!

Berrou ele.

–Prenda a respiração e mande pra dentro... Acredite, se não beber vai fazer falta mais tarde.

Falou Kai. Lon se aproximou novamente da poça e encarou a água fixamente.

–Eu não vou beber isso! Sem chance!

–Anda logo, Lon. O gosto não é tão ruim quanto o cheiro... E não era você quem estava reclamando de ter que comer neve no lugar de beber água?

Falou Kai, já sem paciência. Lon ficou sem graça e disse:

–É... Mas... Ah, tá bom... Eu bebo...

Lon prendeu a respiração e engoliu um gole da água morna. Lon se manteve calado e bebeu mais.

Kai estranhou que Lon permaneceu com o rosto enfiado na poça de água e perguntou:

–Lon? Você tá bem?

Lon se virou sorrindo e disse:

–Nossa. Kai! Essa água é boa!

Então ele de virou novamente e voltou a beber. Kai franziu as sobrancelhas estranhando a reação de Lon, pois ele mesmo havia odiado o gosto da água quente.

Após alguns minutos, Lon parou de beber a água e caiu sentado ao ir para perto de Kai.

–Eu tô cheio...

Disse ele com um suspiro.

–Então tá...

Falou Kai ainda estranhando a situação. Kai então disse:

–Bem... Agora vamos continuar andando...

–Tá bem.

Respondeu Lon.

Os dois andaram alguns poucos minutos e encontraram a descida que levava para dentro da grande depressão. Lon olhou para a depressão e viu a lava que saia das rachaduras nas paredes e no chão e então perguntou para Kai:

–Ei, o que é essa coisa brilhante?

Kai também não sabia responder, pois nunca tinha visto lava em sua vida. Então ele disse:

–Não sei... Mas seja lá o que for não toque. Pode ser perigoso.

–Tá bem.

Respondeu Lon.

–Venha, vamos descer. Teremos que atravessar esse lugar pra chegar às montanhas, eu acho.

Disse Kai.

Os dois desceram e começaram a andar pela depressão, que era ainda mais quente que lá em cima, onde estavam antes.

Kai seguiu andando em linha reta enquanto Lon corria pra lá e pra cá admirando as rochas e as paredes cheias da lava brilhante da qual havia gostado tanto de ver.

–Lon... Sei que você gostou desse lugar... Mas está quente. Pare de correr e ande perto de mim... A propósito, esse líquido brilhante é muito quente, pisei e me queimei. Tome cuidado pra não se queimar aí.

–Beleza! Tô indo...

Respondeu Lon, que foi para perto de Kai para acompanhá-lo.

Os dois seguiram em linha reta desviando da pouca lava que havia no chão e das pedras grandes. Após um tempo, já estavam perto da subida que os levaria para fora da depressão.

Na parte de cima de uma das encostas da depressão, estavam Venon e Yazoo. Venon ainda estava dormindo e Yazoo estava bem acordado e avistou Kai e Lon andando ali perto. Era a chance perfeita para dar início ao plano arquitetado por Yazoo.

–VENON!! ACORDA! SEU SER INÚTIL!!!

Gritou Yazoo dando uma patada no ombro dele. Venon acordou num pulo, olhando para os lados e perguntando:

–O quê? O quê?

–Eles estão logo ali em baixo. Está na hora! E mais uma coisa... Eu mandei você ficar acordado e vigiar. Mas nem pra isso você serve!

–Blá, blá, blá...

Sussurrou Venon. Então disse:

–Yazoo, por que está gritando comigo?!

–Aff! Além de inútil você também é cego?! Kai e o filhote de leopardo estão vindo. Está na hora de iniciar o plano.

Venon olhou para dentro da depressão e viu o lobo e o filhote andando bem próximos dali.

–Eu já posso descer e acabar com Kai?

Perguntou Venon excitado. Yazoo então explicou:

–Calma... Vamos esperar eles se aproximarem um pouco mais... Dessa distância poderia até dar certo, mas como você é vacilão, você estragaria tudo. Escute, quando eles estiverem exatamente aqui em baixo de nós, você desce correndo e acerta Kai. É fundamental que ele caia no chão para o plano seguir adiante. Eu desço em seguida e capturo o filhote. Caso você perca a luta com Kai, eu usarei o filhote como refém para impedir a sua morte e para fazer Kai se render. Faço uma oferta, a vida de Kai pela vida do leopardo. Eu tenho 100% de certeza que Kai toparia. Nesse caso, eu soltaria o filhote e o deixaria fugir e eu ou você mataria Kai facilmente. Em seguida a gente pegaria o filhote e o mataria também e missão cumprida. Simples assim. Alguma dúvida?

–Não...

Disse Venon.

–Ótimo.

Respondeu Yazoo.

–Yaz... Foi impressão minha ou você me chamou de vacilão?!

Yazoo passou a pata sobre o rosto impaciente e disse:

–Pare de bancar o idiota! Você entendeu ou não o plano?

–Bah! Eu entendi a droga do plano! Agora anda logo com isso por que eu quero bater logo em alguém!

Gritou Venon.

Yazoo olhou para a depressão e falou:

–Eles já estão perto o suficiente. Pode atacar Kai agora. Mas ainda tem uma coisa me preocupando...

–Bah! Fale logo o que é!

–Pode existir uma pequena chance... Bem pequena de que nenhum de nós consiga matar Kai...

–Que nada! Já falamos sobre isso. Agora eu vou atacá-lo! Esteja preparado pra sua parte.

Kai e Lon estavam passando bem em baixo de onde os dois estavam e estavam conversando, quando de repente surgiu Venon, do nada. Ele acertou uma patada no rosto de Kai. A patada o mandou para o chão. Lon ficou espantado. Kai levantou a cabeça e olhou quem foi o agressor. Ficou tão surpreso quanto Lon. Kai então disse:

– Venon? O que você...

Venon o interrompeu:

–Eu vim atrás de vocês pela ordem de Alpha! Para acabar com vocês!

–Lon, Corra! Fuja!

Lon ficou em pânico. Mas não hesitou em seguir a ordem de Kai e correr.

Porém, quando começou a correr, Yazoo surgiu e o pegou com a boca enquanto corria. Kai viu o que aconteceu e gritou:

–Yazoo?! Você também?! Solta ele! Agora!

Yazoo parou a alguns metros e se sentou, segurando Lon com as patas agora.

Kai se levantou e tentou correr até lá, mas foi surpreendido por mais um golpe de Venon, que derrubou Kai novamente.

–Onde pensa que vai?

Falou Venon, rindo.

Kai se levantou mais uma vez e gritou, nervoso:

–O que diabos vocês dois estão fazendo?!

–Já disse! São ordens de Alpha.

Disse Venon.

–Ordens de Alpha?!

Gritou Kai.

–Cale a boca e lute! Seu fracote!

Falou Venon, que mais uma vez tentou golpear Kai. Mas dessa vez Kai desviou da patada e acertou uma no rosto de Venon, porém, não foi muito efetivo. Venon sorriu e disse:

–Bem... Vamos brincar!

–Se é briga que vocês querem...

Disse Kai. Ele continuou:

–Não se preocupe Lon! Eu vou acabar com eles e vou te salvar! Eu te prometo!

–Não prometa coisas que não pode cumprir, Kai...

Falou Yazoo. Kai gritou:

–Por que não solta ele?! Deixe-o fora disso!

–Mas por quê? Ele faz parte do nosso plano para acabar com você!

Disse Venon, mas foi interrompido por Yazoo, que gritou:

–Cala essa boca seu idiota! Não conte o plano pra ele.

–Kai! Morrer foi escolha sua! Quando escolheu ele ao invés de nós!

Gritou Venon partindo para cima de Kai.

Kai desistiu de conversar e partiu para a briga também. Atacou Venon com arranhões que acertaram as costas do lobo. Venon foi se aproximando dando patadas em Kai, que tentava desviar de todas, enquanto recuava. Até que Venon o encurralou em uma das paredes da depressão.

–Acabou Kai... Você não tem pra onde correr.

Disse Venon, que pegou distância para dar o bote que poderia encerrar a luta. Kai olhou para os lados procurando uma saída, um jeito de escapar. E quando Venon saltou em sua direção, Kai pensou rápido e escorregou pelo chão abaixo de Venon, passando para trás dele. Venon atingiu a parede e caiu no chão. O Impacto provocou uma rachadura na parede por onde lava foi expelida e algumas gotas caíram sobre as costas de Venon, que gritou de dor. O grito de Venon, junto com o impacto na parede, fez com que o magma, que estava adormecido no subterrâneo, despertasse. O chão começou a tremer e as paredes e as rochas altas começaram a desmoronar, a lava começou a ser expelida do chão com uma pressão muito alta.

Venon se levantou meio zonzo, ele olhou ao redor e viu tudo o que estava acontecendo. Yazoo então gritou:

–Venon! Vamos sair daqui!

Os dois começaram a correr rapidamente para tentar escapar. Yazoo estava segurando Lon pela boca. Kai correu atrás deles.

Eles tentavam a todo custo desviar de todas as pedras e da lava que estavam caindo. Porém, Venon ainda estava cambaleante por causa da colisão com a parede e não estava conseguindo ver direito. Ele, por alguma razão, se jogou contra uma pedra que caia e ficou desacordado. A lava estava devorando o lugar e logo a depressão estaria coberta por ela. A lava estava quase alcançando o lugar onde Venon estava caído.

Os outros conseguiram sair de dentro da depressão a tempo. Mas Venon aparentemente não conseguiu.

Ao sair de lá, Yazoo soltou Lon e o segurou com as patas novamente. Yazoo olhou ao redor desesperadamente procurando por Venon. Mas não conseguia vê-lo em lugar nenhum.

Kai estava furioso e, mesmo cansado, gritou:

–Largue-o Yazoo!

O lobo não deu atenção à Kai. Só olhou para Kai e gritou:

–Cala a sua boca!

Yazoo se aproximou da descida que levava à depressão e procurou por Venon. Mas tudo que se via ali era magma. Yazoo, mesmo assim, gritava desesperadamente por seu amigo. Mas o magma já havia preenchido totalmente a depressão. Não tinha chances de Venon estar vivo.

–Por que eu não pensei nessa possibilidade?! Meus cálculos estavam falhos! Que droga! Eu sabia que aquele imbecil ia achar um jeito de ferrar tudo!

Gritou Yazoo nervoso e desesperado ao mesmo tempo.

Kai então gritou novamente:

–Yazoo! Largue ele!

Yazoo desistiu de procurar por Venon, decidiu deixar esse assunto para depois e continuar o plano sozinho.

–Não se aproxime Kai! Se chegar perto ou tentar alguma coisa... Eu jogo o leopardo na lava!

Gritou ele.

–Não faça isso! Eu vou acabar com você!

Yazoo colocou uma das garras sobre o pescoço de Lon e fez um pequeno corte que começou a sangrar. Lon deu um grito de dor.

–MALDITO!

Gritou Kai ao ver a cena.

–Eu já falei! Não se aproxime ou ele morre!

Kai não viu opção. E então perguntou:

–O que você quer?

–Faremos um trato.

Disse Yazoo

–Um trato?

Perguntou Kai.

–Sim, um acordo.

Explicou Yazoo. Kai gritou:

–Eu sei o que é um trato!

–Que bom pra você... Chega de papo! O trato é o seguinte. Sua vida pela dele!

Kai se mostrou nervoso. Lon então gritou:

–Kaaaai! Não!

–Calado!

Disse Yazoo, dando uma patada no rosto de Lon. Yazoo seguiu dizendo:

–E então? Aceita o acordo?

Kai tentou pensar em alguma coisa, mas nada vinha à sua mente. Nenhuma solução. Kai não teve escolha.

–Eu... Eu aceito o acordo...

–(Como planejado)...

Pensou Yazoo. Disse em seguida:

–Certo... Venha até aqui bem devagar e deite-se na minha frente com o rosto virado para o chão. Depois disso eu o solto.

Kai então parou e se deitou à frente de Yazoo e gritou:

–Pronto. Agora deixe ele ir!

–Está bem...

Yazoo soltou Lon, que caiu no chão assim que Yazoo o largou. Lon se levantou em seguida e tentou ir até onde Kai estava, mas Yazoo não permitiu que se aproximasse dele. Kai então disse:

–Lon... Parece que você terá que continuar sem mim... Eu... Não vou poder cumprir minha promessa...

Uma lágrima saiu dos olhos de Kai.

–Kai! Você não pode... Você não pode morrer aqui!

Gritou Lon chorando. Kai então disse:

–Lon, vá embora! Corra pra bem Longe... Se salve! Eu acredito em você e sei que você vai conseguir sozinho... Vai!

Lon então seguiu a ordem de Kai e saiu correndo para Longe. Yazoo observou Lon correndo até que ele sumiu da vista. Um sorriso maligno se abriu no rosto de Yazoo.

Agora ficaram Yazoo e Kai parados ali. Kai deitado aos pés de Yazoo e Yazoo em pé olhando-o fixamente.

Era o fim.