Amanheceu. Os lobos se reuniram na entrada da caverna do lado de dentro, todos estavam lá. Alpha, o líder da alcateia, estava em pé na rocha de sempre. Estavam falando com Kai, perguntavam se ele tinha certeza do que estava para fazer. Kai afirmou que sim e então se dirigiu para fora da caverna. A nevasca estava forte.

Alpha desceu da rocha e foi até Kai.

–Boa sorte... Tente voltar rápido.

Disse ele. Kai sorriu e falou:

–Eu vou voltar, confiem em mim!

Então Kai partiu. A tempestade parecia não o incomodar. Kai corria rapidamente sem se preocupar com nada além de completar sua missão. A vida de seu bando dependia disso.

Kai parava de tempos em tempos e olhava ao redor para ver se via algo, porém tudo o que via era neve, branco em todos os horizontes. Mas ele não parou, continuou em frente. Quando percebeu, já estava bem Longe do ponto de partida e a tempestade estava ainda pior que antes.

–Droga! Estou andando há um bom tempo e até agora nada além de neve! Espero que todos estejam bem... Eles ainda tinham comida para passar o dia... E por mais difícil que esteja minha situação agora... Não posso parar! Continuarei em frente!

Kai voltou a correr por entre os ventos gélidos da tempestade furiosa.

Depois de algum tempo Kai já não estava agüentando mais. Passou a noite em claro. Ele não tinha comido nada já fazia muito tempo. Kai não parou. Andou por mais algum tempo até que se deparou com uma parede colossal, a encosta de um penhasco. Não se podia ver o topo. Kai estava lá em baixo e pensando em para onde iria. Poderia voltar, ou tentar andar seguindo a encosta à procura de um caminho para seguir em frente.

–Argh! Mas que droga! Que coisa! Não vou voltar... O jeito vai ser seguir adiante.

Gritou ele.

Kai perdeu o ânimo. Andando cansado e com fome. Mas quando estava prestes a cair viu um vulto enterrado na neve logo adiante. Pensou que poderia ser o cadáver de algum animal do qual poderia se alimentar.

Ele correu até lá e desenterrou o que quer que fosse.

–Hã? Isso é... Um... Um filhote de leopardo das neves.

Era pequeno, acinzentado e com algumas pintas negras pelo corpo.

Kai estava com água na boca.

–Eu não sei o que este filhote estava fazendo aqui sozinho, mas... Preciso recuperar minhas forças.

Kai então decidiu abocanhar o leopardo morto. Porém, quando seus dentes tocaram a carne do filhote, Kai sentiu algo. Era a respiração dele. Ele estava vivo. Kai ficou surpreso e desapontado ao mesmo tempo.

Kai decidiu deixa-lo para trás e continuar sua missão, mas sentiu remorso ao começar a andar.

–Os lobos e os leopardos das neves são inimigos desde muito tempo... Eu deveria deixar ele aí... Mas... É só um filhote... Não posso deixar ele para morrer.

Kai pegou o filhote com a boca e procurou leva-lo para um lugar onde a nevasca não os atingisse. Ele então correu pela encosta do penhasco até que encontrou uma rocha grande no chão onde ele podia entrar em baixo, não era um abrigo de fato, mas servia.

Kai ficou em pé observando o leopardo deitado no chão. Kai estava pensando. Não tinha tempo a perder e os outros lobos estavam esperando por ele.

Algum tempo depois o leopardo acordou. Levantou a cabeça e olhou ao redor com seus olhos azuis ainda entreabertos. Ainda zonzo ele disse:

–Hã? Onde eu tô?

Ele se levantou num pulo e olhando para Kai se posicionou em posição de ataque.

–Quem é você?! E o que você vai fazer comigo?

–Calma. Eu acabei de te salvar... Você estava morrendo ali fora.

O leopardo se afastou de ré até tocar a parede do lugar onde estavam em baixo.

–O que está fazendo?

Perguntou Kai estranhando os movimentos do filhote.

–Meu pai disse pra eu nunca confiar em lobo nenhum! E pra eu não dar as costas pra eles!

Kai, então, virou às costas para o filhote e começou a andar para fora do abrigo.

–OK então... Estou indo embora, tenho uma missão para cumprir. Boa sorte pra você.

Falou Kai. O leopardo deixou sua posição ofensiva e se aproximou de Kai num pulo e então gritou:

–Espera! Você vai me deixar aqui sozinho???

–Ué, você não disse que não confia em mim?

–Aaaaaah me leva com você... Por favor, me ajuda.

Kai franziu a sobrancelha, se virou para o leopardo e falou:

–Vem... Mas não me atrase.

–Yeah!

Gritou o leopardo, sorrindo.

A tempestade diminuiu e os dois começaram a andar. Até que Kai parou e começou a pensar em para onde iria.

–Ei lobo, pra onde nós estamos indo? E que missão que você tem que cumprir?

–Olha... Os outros lobos de onde eu moro estão numa situação horrível. Não há comida e nem água... Todas as manadas das quais nos alimentávamos morreram ou se afastaram. Minha missão é achar um lugar para onde possamos viver. Fui mandado para achar esse lugar. Um lugar sem tempestades.

–Se é isso, eu tenho a solução! Meu bando estava na mesma situação que o seu. Estávamos todos indo para além das montanhas. Lá não tem tempestades.

–Verdade?! E onde essas montanhas ficam?

–Bem... Pelo que me disseram antes de eu me separar do meu bando... Fica

Meio Longe daqui...

–Longe quanto?

–Muito...

–Hm... Você iria comigo até a minha alcateia? Falo para eles sobre esse tal lugar depois das montanhas e podemos ir todos juntos. Mas... Você sabe como chegar lá?

–Er... Eu nunca fui pra lá antes... Mas são montanhas, não deve ser difícil de achar elas.

Kai olhou para o leopardo com uma expressão de “quase felicidade” então perguntou:

–Mas você sabe pelo menos para qual direção vocês estavam indo?

–Sim! Isso eu sei... Mas lobo... Você acha que quando chegarmos lá, vamos encontrar o meu bando?

O leopardo parecia triste. Kai desviou o olhar e disse:

–Eu não sei... Mas eu vou te ajudar a achar eles, eu PROMETO!

Kai estava decidido.

–Então vamos logo!

Gritou o filhote.

–Espere garoto... Esqueci de perguntar... Como exatamente você se separou do seu bando? Você consegue se lembrar?

–Hm... Eu estava andando junto com minha mãe e meu pai... Estava muito forte a nevasca naquela hora e eu não podia ver nada... Eu acho que tropecei e caí lá de cima desse desfiladeiro e desmaiei. Minha mãe tentou me segurar, mas não deu. Quando acordei eu estava com você... Nem sei quanto tempo fiquei desmaiado lá.

–Entendo... Essas nevascas só estão trazendo problemas para todos... Esse lugar não era assim... Era um lugar tão bom para se viver antes... Mas chega de conversa, vamos continuar andando. Fique perto de mim.

O leopardo então olhou para Kai enquanto andavam e perguntou:

–Ei lobo. Qual é o seu nome?

–Me chamo Kai.

Respondeu Kai ainda olhando para frente.

–O meu é Lon. Ei Kai, você ta com fome?

Kai queria dizer que não tinham tempo, mas não pôde mentir. Seu estômago estava dizendo o contrário.

–Eu... Pra falar a verdade... Estou sim.

–Eu também estou... Sabe, eu e os outros estávamos trazendo comida pra viajem. Alguns alces... E um pedaço acabou caindo lá de cima do penhasco também durante um vento forte... Não foi muito depois da hora em que eu caí. Talvez a gente encontre esse pedaço enterrado na neve logo em frente.

E depois de alguns minutos Kai de fato sentiu o cheiro da carne e achou o pedaço de baixo da neve e o desenterrou.

–Eu não senti o cheiro dessa carne aqui antes...

Disse Kai estranhando que não tinha farejado a carne quando passou por ali anteriormente.

–Você deve ter sentido agora porque estava concentrado em achar... Antes você tava concentrado em outra coisa e por isso não percebeu.

–É, deve ser isso. De qualquer forma obrigado por avisar sobre a comida. Vai ser bom comermos antes de partir.

Então os dois comeram o pedaço da carne, que estava completamente conservado pela neve. Não levaram muitos minutos para terminarem de comer e voltarem a caminhar.

Enquanto andavam Kai sorriu para Lon e disse:

–Obrigado de novo. E pensar que eu estava quase comendo você quando o encontrei.

Lon se engasgou com o pedaço de carne que ainda estava mastigando.

–É sério?!

–É sim. Você teve sorte de eu perceber que você estava vivo.

–Kai, você acha que os outros lobos vão gostar de mim? Estou com medo.

Kai ficou um pouco inquieto com a pergunta.

–Não se preocupe com isso. Não importa se eles gostem ou não de você. Não deixarei que façam nada com você. E nós vamos achar sua família, certo?

–Siiim!

No fundo Kai sabia que os outros lobos não iam gostar nada de ver que ele levou um leopardo para a alcateia. Afinal, já foi dito que os lobos e os leopardos das neves não se dão muito bem.

Então os dois caminharam até o anoitecer e Lon, exausto, falou:

–Kai... Eu tô cansado... Podemos dormir um pouco?

–Cansado? É, eu também estou... Vem, vamos achar um lugar pra dormir. De manhã a gente anda o resto do caminho.

–Haha! Beleza!

Gritou Lon contente.

Alguns poucos minutos depois, encontraram em baixo de uma árvore uma rocha grande e plana coberta com um pouco de neve. Kai retirou a neve de cima da rocha e disse:

–Acho que aqui está bom. Embaixo dessa árvore ficaremos protegidos da neve da noite pelo menos um pouco.

Kai se deitou em cima da rocha e chamou Lon, que se deitou ao seu lado em seguida.

Kai fechou os olhos e disse:

–Boa noite.

Lon ficou olhando fixamente para o Kai. Parecia estar querendo dizer algo, mas também não queria perturbar o lobo. Então Lon cutucou o ombro de Kai, que abriu os olhos, levantou o rosto e perguntou:

–Hã? O que foi?

–Kai... Você podia contar uma história pra mim? Antes de dormir?

Kai arregalou os olhos surpreso.

–O quê?! Você ta brincando, né?

Disse ele com um tom impaciente.

–Aaaaah, por favor. Minha mãe conta histórias pra mim todas as noites...

Falou Lon, com um rosto triste. Kai não teve a mínima chance.

Então Kai falou:

–Você vai me obrigar, não é?

–Por favor.

Repetiu Lon.

Kai suspirou e disse:

–Mas depois disso você vai dormir, não vai?

–Vou, eu prometo.

–Então ta. Eu conto.

Lon sorriu e se aproximou mais de Kai, então perguntou:

–Sobre o que vai ser a história?

Kai pensou um pouco, coçou a garganta e então começou:

–Era uma vez... Um filhote de leopardo... Ele estava andando... Andando... E estava de noite, e frio... Ele estava procurando alguma coisa... Mas não sabia pra onde ir...

Kai parou de repente e ficou olhando ao redor. Lon ficou encarando ele até que perguntou:

–E o que acontece depois?

Kai pensou um pouco mais e disse:

–Er... Não faço a mínima idéia...

Lon continuou o encarando. E então deduziu:

–Você não é muito bom em inventar histórias, né?

–É, parece que não...

Falou Kai rindo.

–Aaah, Kai, você não tem nenhuma história de verdade não?

–Ah! Vai dormir.

Gritou Kai.

–Ta bom... Nunca mais te peço isso...

Lon ajeitou-se e logo os dois caíram no sono.

Durante aquela noite só nevou levemente, mas já era de se esperar mais tempestades no dia seguinte.