O Caminho Para Fora Da Tempestade
11 Capitulo 10: À Caminho do Confronto
Naquela mesma noite, no meio da madrugada, Luna se levantou silenciosamente para não acordar os outros. Ela se dirigiu até onde Lon estava dormindo, em um dos cantos da toca para onde Lon, durante a madrugada foi por causa do frio, pois ali era mais quente. Luna foi até ele e o cutucou chamando seu nome bem baixinho. Lon abriu os olhos lentamente e olhou para quem havia o acordado e com uma voz sonolenta perguntou:
–O que foi?
Luna respondeu:
–Lon, eu queria te perguntar uma coisa.
–O que?
–Seu amigo, Kai... Você sabe se ele... Se ele reparou em mim? Ele disse alguma coisa ou algo do tipo?
Lon franziu a sobrancelha e respondeu:
–Se ele reparou em você? Ele não tirou os olhos de você desde que te viu pela primeira vez! Você nem faz idéia. Ele ta amarradão em você!
Luna ficou surpresa com as palavras de Lon e com o jeito que ele falou. Ela então sorriu, porem evitou rir para não fazer barulho. Então ela sussurrou:
–Sério?
–Aham.
Confirmou Lon.
–Você ta gostando dele também, né?
Continuou ele. Luna se mostrou envergonhada, mas afirmou que sim e disse:
–Mas Lon, não conte nada pra ele sobre essa conversa, combinado?
–Ta bom. Combinado.
Prometeu ele.
–Certo. Pode voltar a dormir.
Falou Luna. Em seguida ela retornou ao seu lugar e se deitou novamente tão silenciosamente quanto quando se levantou.
Algumas poucas horas depois, ainda durante a madrugada, Kai também acordou. Ele se dirigiu até Lon e o acordou. Lon levantou a cabeça e viu que era Kai. Então Kai disse:
–Eu vim te perguntar uma coisa...
Lon o interrompeu:
–Vai me perguntar se eu acho que a Luna gostou de você?
–Como você sabia?!
Perguntou Kai surpreso.
–É porque ela veio até aqui e me perguntou a mesma coisa um tempinho atrás.
Esclareceu Lon.
–Sério?
–Aham.
Afirmou ele balançando a cabeça. Kai então perguntou:
–E o que você disse pra ela?
–Eu disse que não sabia de nada.
–Sei... Mas e então, acha que ela gosta de mim?
–Claro que sim. Notei que ela não parou de olhar pra você ontem à noite. Kai, acredite em mim. Ela ta na sua.
–Você acha mesmo?
Perguntou Kai com insegurança. Lon sorriu e disse:
–Kai, eu não acho... Eu tenho certeza! Mas agora eu é que tenho uma pergunta...
–O que?
Perguntou Kai.
–Eu posso dormir agora?!
–Claro. Boa noite.
Disse Kai sorrindo. Ele então voltou a dormir e Lon tentou fazer o mesmo. Antes de fechar os olhos, Lon suspirou e disse:
–Ah, eu sou demais.
Enquanto eles dormiam, Alpha e a alcatéia estavam se preparando para seguir viagem. Já haviam comido e descansado e agora iriam procurar os leopardos.
Alpha se pôs na dianteira e gritou:
–Em fila!
Todos obedeceram e formaram uma fila horizontal diante de Alpha. Ele então continuou:
–Vocês já devem saber que quando encontrarmos os leopardos das neves, irei tentar fazer o possível para só conversar com Naga e acabar de vez com essa rixa. Porem não acho que será tão fácil, pois Naga pode imediatamente ao nos ver identificar-nos como se estivéssemos atacando. Eu realmente não queria que vocês ficassem envolvidos em uma batalha como essa... Mas será inevitável... Acho que eu já disse isso. O que eu queria dizer é que eu não conseguiria sem vocês. Sem todos vocês ao meu lado eu não teria chegado tão longe. Acho que se eu ainda fosse o mesmo, eu teria medo de dizer.
Yazoo então disse:
–Saiba que nós também precisamos de você, Alpha. Você sempre foi nosso líder e sempre foi um bom líder.
Venon então berrou:
–Chega desse drama! Vamos logo caçar aqueles leopardos. E se eles quiserem briga, eu vou adorar chutar aqueles traseiros sarnentos!
Alpha passou os olhos pelos lobos na fila e então disse:
–Está certo. Partiremos em vinte minutos. Aproveitem esse tempo para beber água ou descansar mais um pouco se quiserem. Mesmo tendo deixado de uivar ontem à noite para ter mais tempo para dormir, ainda descasamos pouco comparado ao tempo que andamos, então acho que é mais que justo que descansem mais um pouco. Mas estejam prontos nesse tempo. Podem ir.
Alguns foram até o lago beber água, alguns voltaram a dormir, outros quiseram apenas dar uma volta.
Durante o tempo que esperou até que todos estivessem prontos, Alpha não conseguiu parar de pensar no dia em que Naga matou seus pais e se era realmente a coisa certa ir ao encontro dos leopardos e do próprio Naga para tentar acabar com a rixa. O seu reencontro com Naga sempre foi uma coisa que o assombrou, sempre pensava em como seria e o que faria quando acontecesse. E agora tinha decidido.
Depois de passados os vinte minutos, todos estavam de volta e prontos para partir. Ainda não havia amanhecido e estava ventando um pouco, mas isso não importava. Não para Alpha.
–Por que caminho vamos seguir, Alpha?
Perguntou um dos lobos. Alpha respondeu:
–Eu ia dizer isso agora. Não vamos atravessar a floresta dos uivos, pois nenhum de nós nunca esteve lá antes e está escuro. Nós provavelmente nos perderíamos. Portanto vamos por um outro caminho. A distancia é maior se comparado com a opção de atravessar a floresta, e pode ser difícil. Mas se não houver complicações vamos conseguir.
–E que caminho é esse?
Perguntou uma loba. Alpha explicou:
–Vamos ter que descer um penhasco mediano, de mais ou menos 15 metros, que não fica muito longe daqui e depois andar um pouco a pé e escalar ao chegar à outra encosta. Depois de subirmos estaremos ao lado da saída da floresta, creio eu. E em seguida teremos que localiza-los. Parece um caminho difícil, mas será ainda mais rápido que esperar amanhecer para tentar cruzar a floresta. Estão todos de acordo com esse caminho?
Todos responderam que sim.
–Então está decidido. Vamos.
Então eles partiram rumo ao penhasco que os levaria ao lar dos leopardos.
Passaram poucas horas tranqüilas de caminhada. Os ventos ficavam mais fortes conforme eles iam em direção á um lugar mais aberto, mas isso não dificultou o trajeto. O céu já estava começando a clarear, porem ainda era noite e o céu continuava estrelado.
Alpha olhou para esse céu e viu a lua, que já não mais estava no seu auge. Ele então parou de andar, o que fez com que o resto da alcatéia também parasse. Ele então disse:
–Eu sei que não deveria parar só pra dizer isso, mas... Sinto muito não termos podido uivar esta noite. Sei que isso significa muito pra muitos de vocês e também para a própria lua, que todos os meses nos da sua benção em troca de nossas lamentações. Mas quero que saibam que mesmo sem a benção da lua, se essa guerra realmente acontecer e se vidas forem perdidas quero que saibam que as mortes não terão sido em vão. Pois terá sido por uma grande causa. Mas não fiquem preocupados, pois me esforçarei ao máximo para que nenhum de vocês seja perdido e nem fique para trás.
–Mas e se perdermos a luta?
Perguntou um dos lobos. Alpha se aproximou do lobo com uma expressão séria e disse:
–Não pense desse jeito. Não viemos até aqui para sermos derrotados. Não viemos tão longe para desistirmos antes de tentar! Se essa guerra acontecer nós vamos vencer!
Depois dessa conversa eles retomaram o caminho e algum tempo depois chegaram ao penhasco que Alpha havia falado.
Alpha explicou como seria a descida e ordenou todos os lobos em uma fila única. As lobas e filhotes atrás e os demais na frente. Ele auxiliou os lobos para descerem um de cada vez. A descida não foi difícil. Não houve deslizamentos e o vento não estava mais tão forte ao ponto de causar complicações. Depois que todos os lobos desceram chegou a vez das lobas e seus filhotes. Elas foram uma de cada vez assim como os lobos e levaram os filhotes mais novos na boca. Os filhotes mais velhos acompanharam-nas e caso alguém caísse, os lobos que já haviam descido fariam o resgate. Quando todos chegaram lá em baixo, Alpha também desceu. Ele tomou a dianteira, se virou para os demais e disse:
–Bom trabalho. Correu tudo bem até aqui. Agora vamos seguir até a outra encosta.
Todos concordaram.
Eles seguiram em linha reta por alguns minutos, conversando para passar o tempo. Até que chegaram ao outro lado. Ao chegar perto, alguns dos lobos tentaram correr até lá, mas Alpha estendeu a pata sinalizando que não.
–Esperem.
Sussurrou ele num tom de desconfiança. Os outros lobos estranharam a desconfiança de Alpha. Ele permaneceu olhando para um único ponto. Então um dos filhotes percebeu e disse apontando:
–Olhem, ali tem uma caverna. Ali na encosta.
Outro lobo disse:
–Parece que é pra lá que Alpha está olhando... Alpha, o que foi?
Alpha se virou parcialmente para o lobo e ainda olhando para a caverna disse:
–Eu ouvi algo vindo de dentro daquela caverna. Acho que foi um rosnado. Acho que seja lá o que for que há lá dentro ouviu nossa aproximação e não gostou nada de estarmos aqui. Peço para que falem baixo.
Alguns ficaram amedrontados ao ouvir as palavras de Alpha.
Ele então começou a andar em direção à caverna lentamente. O filhote de antes perguntou com um sussurro:
–O que você vai fazer?
Alpha se virou enquanto andava e respondeu:
–Vou até lá e vou esclarecer que já estamos de saída. Não será bom para nós que aconteça nenhuma batalha desnecessária por conta de invasão de território.
Então Alpha foi até a caverna. Os lobos ficaram observando atentamente após Alpha adentrar a caverna. Houve um momento de silêncio e em seguida uma surpresa. De dentro da caverna se ouviu um rugido monstruoso e devastador. Todos deram um pulo para trás.
Segundos depois Alpha saiu de dentro da caverna correndo e gritou o mais alto que pôde:
–RECUEM!
Eles obedeceram sem hesitar e recuaram. Alpha chegou ao lugar onde os lobos estavam antes de recuarem e ficou de costas para eles, com a visão focada na entrada da caverna. E de lá saiu um enorme urso pardo cego de um olho que parecia furioso. Ele parou na entrada da caverna e rugiu. Em seguida gritou:
–Quem ousou invadir as minhas terras e me acordar durante a minha hibernação?!
Ele viu Alpha parado adiante, mas não viu os outros. Ele franziu a sobrancelha e rangeu os dentes.
–Ele é do tipo nervoso... Nem me ouviu quando tentei falar com ele. Quer partir para a violência...
Pensou Alpha.
Venon começou a andar na direção de Alpha sorrindo e alongando as patas. Alpha se virou e sinalizou com a cabeça que não era para ele se aproximar. Então disse:
–Peço que fiquem atentos e ao meu sinal quero que vocês o distraiam o máximo que puderem e o façam ficar parado pelo maior tempo que conseguirem. Eu tenho um plano.
Os lobos balançaram a cabeça afirmando. Venon então apontou para trás de Alpha.
Alpha virou a cabeça e em uma questão de milésimos de segundos ele saltou para o lado desviando de uma patada do urso. O urso então mandou uma torrente de patadas, mas Alpha foi rápido e desviou de todas.
–Vou te estraçalhar!
Gritou o urso pardo.
–Só porque acordei você? Me poupe.
Alpha continuou desviando dos golpes do urso enquanto recuava para a encosta e quando chegou lá, gritou:
–Lobos, agora!
A alcatéia correu para lá imediatamente e ao perceber isso o urso se virou e disse surpreso:
–O que?! Tem mais?
Alpha aproveitou a distração e pulou nas costas do urso, em seguida pulou na parede da encosta e se segurou com as garras.
–O mantenham parado!
Gritou Alpha. O urso notou a cilada e tentou correr, mas os lobos o seguraram, mordendo suas pernas e braços. Nesse momento Alpha pegou impulso pela encosta e saltou na direção do urso. Ele então ergueu sua pata no ar e quando se aproximou do urso o suficiente, deu-lhe uma patada que o atingiu certeiramente no olho e pousou em suas costas agarrando seu pescoço com uma mordida. O urso berrou, colocou as patas sobre o olho ferido e começou a se debater em pé tentando se livrar do lobo. Então Alpha ordenou:
–Agora afastem-se!
Os lobos obedeceram e recuaram. O urso logo parou de se mexer e desmaiou. Enquanto ele caia desacordado, Alpha saltou de cima dele de volta para o chão. Ele se juntou ao resto da alcatéia. Um dos lobos disse:
–Alpha, aquilo foi incrível!
–Realmente, foi uma ótima estratégia.
Comentou Yazoo.
–Eu não teria conseguido fazer aquilo sem a ajuda de vocês, parece que vocês não são tão inúteis afinal.
Falou Alpha.
–O que fazemos com o urso? Matamos?
Perguntou um dos lobos. Alpha respondeu:
–Não. Coloquem de volta na caverna... Deixem-no dormir. Não era isso que ele queria? Vamos subir a encosta do penhasco agora.
–Certo.
Alpha então explicou como seria a subida:
–Dessa vez vamos fazer o seguinte, eu vou subir na frente para ajudar os que forem subindo. Formem uma fila, agora as lobas e os filhotes vão primeiro para caso caírem vocês que estarão aqui em baixo possam ajudar.
Eles formaram a fila e aguardaram Alpha escalar, o que ele fez sem problemas. Poucos minutos depois todos já estavam lá em cima. Após o ultimo lobo terminar a escalada, Alpha fez uma checagem para certificar-se de que todos estavam bem, e sim, todos estavam. Alpha olhou para o céu e viu que o dia já havia clareado e que já era por volta de sete horas da manhã. Ele percebeu que a maioria dos lobos estavam ofegantes e então disse:
–Vamos parar aqui para descansar um pouco antes de continuarmos. Acho que vinte minutos estão de bom tamanho. Está bem?
Todos concordaram. Então assim eles fizeram.
Enquanto isso na floresta dois uivos, Angus acordou Kai e Lon para a partida. Os três então deixaram Luna dormindo e saíram. Cerca de uma hora depois, eles já se encontravam na saída da floresta. Angus parou entre duas árvores altas e disse:
–Aqui estamos.
–Sim.
Disse Lon sorrindo. E pulando para fora da floresta ele continuou:
–É tão bom sair desse lugar escuro e assustador...
–Lon, não exagere. Mas de qualquer forma, conseguimos. Cruzamos a floresta. Obrigado por tudo, Angus.
–Não precisam agradecer. É sempre bom ter visitas de vez em quando.
Disse Angus, com um meio sorriso no rosto.
–Bem, estamos indo. Mande um “tchau” para Luna por mim.
Falou Kai. Lon então disse:
–E por mim também.
–Está certo.
Os dois então se despediram e deixaram Angus para trás, voltando a seguir o seu caminho.
Lon se virou para Kai enquanto corriam e disse:
–Agora estamos bem perto!
–Sim, em breve os encontraremos.
Eles se viraram novamente e seguiram em frente.
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