O Caminho Para Fora Da Tempestade

10 Capítulo 9: A Floresta dos Uivos


Kai e Lon haviam adentrado a floresta. Lon estava com pressa, pois queria chegar até Sam o mais rápido possível.

-Lon, espere!

Gritou Kai. Lon olhou para trás e disse:

-Não da, Kai, não temos tempo!

-Diga, pelo menos, o que houve. Você não explicou direito.

Lon então explicou:

-Depois que você foi caçar, eu resolvi entrar aqui na floresta. Fiquei curioso. Depois disso eu encontrei um amigo meu aqui e ele estava muito ferido... Ele disse que tinha um lobo aqui e que teve uma briga. Ele tentou parar a briga e acabou se machucando. Quando eu estava conversando com ele, ele estava tossindo e cuspindo sangue.

-Entendo... E onde ele está?

-Me siga!

Lon se virou e começou a correr novamente. Kai foi atrás dele. Logo chegaram ao lugar onde Sam estava deitado. Ele ainda estava lá, deitado, com sua pelagem coberta de sangue. Estava com os olhos fechados.

Lon se sentou à sua frente e gritou:

-Sam! Eu voltei!

Sam abriu lentamente os olhos e se espantou ao ver Kai se aproximando por trás de Lon. Ele gritou:

-Lon, um lobo! Atrás de você!

Ele tentou se levantar, mas a dor o impediu.

-Calma, não lembra do amigo que eu tinha falado? Então... Esse é Kai. Ele que me salvou e me ajudou a chegar até aqui.

Esclareceu Lon. Sam continuou espantado. Falou com a voz um tanto roca e fraca:

-Mas ele é...

Lon o interrompeu:

-Um lobo, eu sei, mas ele é legal. E é meu melhor amigo.

Assim que Kai chegou e se sentou ao lado de Lon, Sam olhou bem para seu rosto e perguntou:

-É verdade? Você o salvou?

-Sim, fui eu.

Respondeu Kai.

Sam então fez outra pergunta:

-Por quê?

-Porque era a coisa certa a se fazer.

Respondeu Kai.

-Então... Quer dizer que os lobos não são mais inimigos dos leopardos das neves?

Perguntou Sam confuso. Kai o corrigiu:

-Não é bem assim. Depois que eu salvei Lon, acabei sendo banido da minha alcateia por isso... Depois passei a ajudar Lon a procurar seu bando.

-Entendo... Você é estranho. Lon, fico feliz que não esteja sozinho.

Kai então perguntou:

-Como posso te ajudar?

-Você não precisa.

Respondeu Sam.

Lon ficou confuso e então falou:

-Mas Sam, você está ferido e...

Sam o interrompeu:

-Não há como me ajudar. Eu não tenho motivos para sair vivo deste lugar. Não me importo em morrer aqui. Não tenho arrependimentos. Desde que eu saiba que você está bem e que o resto do bando está seguro. Não me importo em morrer aqui.

Lon começou a chorar. Deitou-se ao lado de Sam e disse:

-Sam, você não pode morrer! Não pode! Você tem que ficar bom e ir com a gente procurar o resto do bando!

Sam colocou a pata sobre a cabeça de Lon e falou:

-Lon, seja forte. Sei que você vai conseguir encontrá-los. E enquanto a você, lobo, cuide dele.

-Pode deixar.

Disse Kai.

Lon olhou para Kai e gritou:

-Você não vai fazer nada?!

-Lon... Eu não posso fazer nada. Ele quer que seja assim.

-Mas...

Lon sentiu a pata de Sam o acariciar. Então Sam lhe disse:

-Eu não sei o que acontecerá no futuro. Mas me prometa que você vai superar tudo. E que vai chegar em casa à salvo. E que quando chegar lá, será forte para proteger a todos.

-Eu prometo.

Sam fechou seus olhos lentamente e sua respiração foi diminuindo cada vez mais, até que parou. Sam estava morto.

Os olhos de Lon se encheram de lágrimas. Ele deitou a cabeça sobre o ombro de Sam e chorou ali por muitos minutos, até a noite chegar, depois adormeceu. Kai estava sentado ao lado de Lon e tentava o consolar. Depois que Lon dormiu Kai o carregou até de baixo de uma das árvores e o soltou ali. Em seguida ele se deitou ao lado de Lon e também dormiu. Era uma noite estrelada, porém as altas árvores não permitiam essa visão.

Logo quando amanheceu, Lon acordou, levantou suavemente a cabeça, ainda sonolento, não viu nem Kai e nem o corpo de Sam ao olhar ao redor. Então Kai surgiu por entre as árvores e ao ver Lon se levantando correu até ele e disse:

-Que bom que já acordou! Quero te mostrar uma coisa.

Lon ficou curioso, mas não pôde deixar de perguntar:

-Kai, onde está o Sam?

-Vem comigo, você vai ver.

Disse Kai. Kai foi até o lado de fora da floresta, perto da margem do lago de antes e esperou por Lon, que estava logo atrás dele.

Quando Lon chegou, notou algo diferente na beira do lago. Havia algumas pedras brancas grandes empilhadas com um circulo formado por outras pedras menores em volta.

Kai direcionou o olhar para Lon, que ainda estava um tanto confuso e então disse:

-Eu... Fiz um tumulo pra ele. Espero que tenha gostado... Não ficou grande coisa, mas...

Lon o interrompeu com um sorriso no rosto:

-Não Kai, ficou muito bom! Obrigado por ter feito isso por ele.

Kai sorriu.

-Eu ia te chamar pra ajudar, mas você estava dormindo e eu não queria te acordar.

Disse ele. Lon respondeu:

-Tá tudo bem.

Kai então se aproximou da margem do lago e apanhou com a boca uma pedra perfeitamente redonda e com um tom azul bem claro e largou-a aos pés de Lon.

-Eu achei essa pedra enquanto pegava as outras que usei no tumulo e como essa é a mais bonita... Achei melhor que você a colocasse.

Lon pegou a pedra e a colocou entre as pedras grandes e brancas do centro do tumulo. Ela de destacou de uma forma muito bonita. E a luz do sol refletia sua cor azulada no chão próximo, causando um efeito.

-Ficou perfeito!

Exclamou Lon, muito contente.

-Lon, agora temos que ir. Você está pronto?

Disse Kai. Lon respondeu:

-Estou. Vamos!

Kai adentrou a floresta e Lon, antes de ir, olhou uma última vez para o tumulo de Sam e sussurrou, com uma expressão um tanto que triste:

-Adeus Sam.

Em seguida entrou na floresta e correu um pouco, para acompanhar Kai, que estava logo à frente.

Os dois andaram durante muitas horas na escuridão daquele enorme labirinto de árvores e não chegaram a lugar algum.

Lon, que estava feliz antes por saber que estavam perto de achar seu bando, estava agora muito desanimado e cansado.

Depois de mais alguns minutos os dois despencaram de cansaço no chão, ofegantes. Lon olhou para Kai. Com um meio sorriso, ele disse:

-Calma... A gente consegue...

Kai também levantou um meio sorriso.

Então Kai se levantou rapidamente e começou a olhar para os lados. Lon ficou confuso e perguntou:

-O que foi?

-Shh.

Sussurrou ele, pedindo para que Lon se calasse. Kai sussurrou novamente:

-Estou escutando algo.

Logo o som ficou mais alto. Era barulho de galhos se quebrando no chão. Eram, de fato, passos. Lon também começou a olhar ao redor, tentando descobrir de onde o som estava vindo, enquanto Kai se mantinha parado. Ele sabia que, seja lá o que for, estava indo em sua direção.

Kai se posicionou, pronto para atacar e se afastava lentamente para trás, de acordo com a aproximação dos passos.

De repente o barulho parou. Alguns instantes depois, um lobo pulou de dentro dos arbustos e aterrissou na frente de Kai. Lon deu um pulo para trás, devido à surpresa. Kai permaneceu imóvel, encarando o lobo, olhos nos olhos.

O lobo era grande e um pouco velho, pelagem cinza escura, estava um tanto sujo e com o corpo coberto de cicatrizes, algumas aparentemente recentes. Mas o que mais chamava atenção no lobo eram seus olhos, que eram bicolores. Um azul e um verde.

O estranho permaneceu olhando fixamente para eles.

Depois de alguns segundos de silêncio absoluto, O lobo disse:

-Já faz muito tempo desde que eu vi outro lobo andando por aqui...

Kai continuou calado e em sua posição de ataque. O lobo prosseguiu:

-O que fazem perambulando aqui pela floresta?

Kai respondeu-lhe com outra pergunta:

-Quem é você?

-Kai, ele deve ser o lobo que o Sam falou.

Sussurrou Lon. O lobo suspirou e disse:

-Eu que deveria fazer essa pergunta. Eu que moro aqui.

Kai perguntou:

-Onde está o restante?

O lobo respondeu:

-Não faço parte de uma alcateia, se é isso que insinua com essa pergunta.

-Então você vive aqui sozinho?

Questionou Kai. O lobo respondeu:

-Vivo nesta floresta com minha filha. A propósito, me chamo Angus.

Kai saiu de sua posição ofensiva e respondeu:

-Eu sou Kai e este atrás de mim é Lon, meu amigo.

Após a apresentação, Angus perguntou:

-Onde está o bando de vocês?

-Eu não pertenço mais a um bando. Estou ajudando Lon a encontrar o dele.

-Vocês estão perdidos, certo?

Perguntou Angus.

-Não.

-Sim.

Responderam Kai e Lon simultaneamente.

-Não estamos perdidos, Lon.

Exclamou Kai. Lon disse:

-Você sabe onde estamos e como sair daqui?

Kai olhou com desprezo para Lon e respondeu:

-Não...

-Então estamos perdidos! Por que você sempre faz isso?

Angus, que estava rindo da discussão dos dois, interrompeu:

-Para onde querem ir? Talvez eu possa ajudar.

-A gente veio de um lugar onde tinha um lago. Queremos atravessar a floresta, pra achar os leopardos que passaram por aqui antes.

Disse Lon.

-Entendo. Então você pertence àquele bando?

-Sim.

Respondeu Lon. Angus então falou:

-Um dos leopardos daquele bando se feriu ao tentar impedir que o líder lutasse comigo.

-Nós sabemos. Nos encontramos com ele aqui na floresta.

Disse Kai.

-E ele está bem?

Perguntou Angus.

-Ele morreu...

Respondeu Lon, num tom triste. Angus então disse:

-Entendo, tentei ajuda-lo, mas ele recusou minha ajuda.

-Ele... Ele não disse isso.

Falou Lon em voz baixa.

- Ele disse que já não tinha mais nada pra fazer, que já tinha vivido o bastante. Algo assim.

Continuou Angus.

-E então? Pode nos ajudar a cruzar a floresta?

Perguntou Kai.

- Eu conheço esse lugar muito bem e posso ajudar vocês nisso, mas agora já está anoitecendo. É melhor vocês dormirem comigo e com minha filha... Só por esta noite. De manhã, eu os levo até onde querem ir.

-O quê? Já está anoitecendo?! Andamos por tanto tempo assim, Kai?

Gritou Lon espantado. Kai então disse:

-Realmente a escuridão que é aqui nessa floresta nos fez perder a noção do tempo...

Angus sorriu e então continuou o que estava dizendo:

-Venham comigo até minha casa, vocês devem estar cansados e com fome. Cacei um servo algumas horas atrás e sobrou um pouco de carne, podem comer, quando chegarmos.

Kai então se lembrou de algo e gritou:

-Nossa! Eu tinha caçado um alce antes de entrarmos na floresta, mas com aquela confusão que aconteceu no lago... Acabei esquecendo totalmente. Acabamos andando essas horas todas sem comer nada.

-Kai, como você pôde ter esquecido?!

Disse Lon aborrecido. Kai se defendeu:

-Bem, você me arrastou pra essa floresta quando nos encontramos e depois encontramos com seu amigo Sam...

Angus então falou:

-Não se preocupem, vocês poderão matar a fome quando chegarmos. A propósito, hoje é noite de lua cheia.

Kai olhou para cima com a intenção de olhar o céu, mas não pôde ver nada alem dos galhos e folhas das árvores da floresta.

-Lua cheia? É verdade, eu perdi a noção dos dias. Pena que não da pra ver a lua daqui...

Disse ele. Angus riu e disse:

-Você vai se surpreender.

Kai estranhou o que Angus disse. Então perguntou:

-Como assim?

Angus se virou para os arbustos de onde havia saltado anteriormente e disse:

-Sigam-me, vocês vão entender a razão dessa floresta ser chamada “A floresta dos uivos”.

Angus saiu andando e Kai e Lon foram atrás dele. Enquanto andavam, Lon olhou para Kai, curioso e perguntou:

-Kai, o que tem a lua cheia?

Kai olhou para Lon, como se tivesse se lembrado de algo.

-Ah, é verdade. Você não sabe... Bem, as noites de lua cheia são muito especiais para os lobos.

Disse ele. Lon perguntou:

-Mas por quê?

-Vou explicar. Nas noites de lua cheia, os lobos costumam se reunir com seus companheiros e uivam juntos para a lua.

-E por que os lobos uivam pra lua?

-Com o tempo acumulamos pensamentos, tristezas, raiva, medo, dor e outros sentimentos negativos. Durante o auge da lua cheia, colocamos esses sentimentos pra fora em nossos uivos. É uma forma de nos libertar de tudo isso.

-Mas por que na lua cheia?

-Bem Lon, a lenda diz que esses sentimentos são levados até a lua com nossos uivos e isso é que alimenta o seu brilho. E que por retribuição ao que damos a ela, ela transforma todos aqueles sentimentos negativos em boas vibrações, que são passadas para nós através de sua luz, para nos ajudar.

Lon ficou maravilhado ouvindo o que Kai estava dizendo. E também se sentiu ansioso.

-Kai, eu posso uivar para a lua também?

Perguntou ele. Kai soltou um riso e então respondeu:

-Acho que leopardos não uivam, Lon.

-Mas eu queria uivar também...

Disse Lon, triste. Kai então pensou um pouco e teve uma idéia. Então ele disse:

-Lon, tem uma coisa que você pode fazer em vez de uivar.

Lon abriu um sorriso e perguntou, alegre:

-O quê?

-Você pode rugir. Rugir o mais alto que puder, colocando todas as suas emoções nesse rugido!

Kai viu o sorriso de Lon desaparecer.

-O que foi?

Perguntou Kai. Lon respondeu:

-É que... Eu ainda não sei rugir...

Kai então disse:

-Não se preocupe. Você vai conseguir! Confie em sí mesmo. E se não conseguir de primeira, tente de novo. Tenho certeza que você consegue.

-Você acha mesmo?

-Claro. Não se lembra de quando não sabia caçar? Você acreditou que conseguia e não desistiu. E no fim, você conseguiu. Eu não acho que você vai conseguir. Eu tenho certeza que vai!

Lon se animou novamente:

-Eu vou!

Gritou ele. Kai deu um tapinha nas costas de Lon e falou:

-É assim que se fala!

Angus, que estava ouvindo a conversa, sorriu.

Eles continuaram andando na floresta e logo chegaram ao pé de uma colina, que aparentemente, era muito alta.

Angus falou:

-Agora é só subir. Minha casa é lá em cima.

-Certo! Vamos subir logo então!

Gritou Lon, animado.

Então eles seguiram adiante. Enquanto subiam, as árvores iam ficando para trás. Até que se viram bem no alto. Era uma vista incrível da floresta. Dali podiam ver claramente o céu, que estava limpo, sem nuvem alguma. De fato, já estava anoitecendo, o sol estava terminando de se pôr e o céu já estava estrelado e a lua já estava começando a subir. Seria uma noite muito bonita, perfeita na verdade.

Próximo dali, havia algumas pedras bem grandes empilhadas de uma forma que formavam uma espécie de abrigo.

-É ali que você mora, Angus?

Perguntou Lon, apontando para o tal abrigo.

-Sim.

Respondeu ele.

Alguns instantes depois, enquanto os três se aproximavam, talvez por ouvir suas vozes, ou seus passos, saiu uma loba de dentro da casa. A loba se aproximou um pouco e parou diante dos três, sem dizer nada. Ficou olhando para Lon e Kai, que eram completos estranhos para ela. Ela tinha uma pelagem cinza escura, como a de Angus, porém bem cuidados, seus olhos eram bicolores, exatamente como os de Angus.

Angus se virou para Kai e Lon e disse:

-Essa é minha filha.

-Quem são esses dois?

Perguntou ela, confusa. Angus respondeu:

-Viajantes perdidos. Eles vão passar a noite conosco. Vou levá-los pra fora da floresta amanhã cedo.

-Certo...

Disse ela. Angus então perguntou:

-Não vai se apresentar?

-Oh. Desculpem-me... Olá. Me chamo Luna.

Lon se aproximou um pouco disse:

-Meu nome é Lon.

Kai se apresentou logo em seguida:

-Eu... Me chamo Kai... Muito... Prazer.

Lon olhou para Kai estranhando o modo como ele gaguejou ao falar. Kai desviou o olhar.

Angus então falou:

-Agora que já se conhecem, venham comer um pouco e ver onde vão passar a noite.

Ele seguiu até a toca e os outros estavam logo atrás. Luna estava na frente, seguido de Kai e de Lon.

Lon chamou a atenção de Kai, cutucando seu ombro. Kai se virou e disse:

-Hã? O que foi?

Lon abriu um sorriso e disse:

-Até que ela é bonitinha.

-O quê?!

Sussurrou Kai, tentando não gritar.

-Você ta gamadão nela, né?

Kai engasgou com a própria saliva ao ouvir aquilo. Lon continuou:

-Admita... Desde que ela apareceu você não para de olhar pra ela, sem falar do jeito estranho que você estava falando agora pouco...

-Cala a boca!

Gritou Kai um pouco alto demais.

Luna, que estava logo à frente, olhou para trás ao ouvir o grito. Kai disfarçou com um sorriso e ela se virou novamente.

Kai olhou para Lon, com uma expressão de raiva. Lon então disse:

-Kai, mudando de assunto, quando é que vamos uivar pra lua?

Kai olhou para o céu e respondeu:

-Quando a lua chegar ao auge.

-E isso vai demorar?

-Não muito.

-Quanto tempo?

-Algumas horas. Quando estiver na hora, eu te aviso, OK?

-OK.

Os dois então entraram na caverna, onde Luna e Angus estavam. Surpreenderam-se. O lugar era bem maior do que parecia pelo lado de fora, era abafado e nem tão pouco iluminado quanto se pensava que seria. O solo de dentro da toca era diferente do solo de fora dela. Por dentro, o solo era de uma terra fofa e de cor escura. E do lado de fora, era um gramado ralo, verde-claro, que iluminado pela luz do luar, era como esmeraldas.

-E então?

Perguntou Angus. Lon respondeu:

-Perfeito! Muito melhor do que qualquer lugar onde Kai e eu já dormimos até agora...

-Angus riu. Bem, vou trazer as sobras do servo para vocês comerem.

-Ótimo!

Gritou Lon.

Segundos depois, Angus apareceu com a carcaça. Kai e Lon comeram vorazmente. Depois de comer, Lon se deitou ao lado de Kai e Kai agradeceu pela comida.

-Eu nunca comi tanto na minha vida...

Disse Lon, com um suspiro.

-Agora que já estão satisfeitos... Que tal contarem mais sobre essa viagem de vocês?

Sugeriu Angus.

Kai abriu a boca para falar, mas antes que pudesse falar alguma coisa, Lon falou:

-Kai, calado. Você não sabe contar historias. Deixa que eu conto.

Kai suspirou.

Lon então contou tudo. Tudo, desde o momento em que conheceu Kai, até sua chegada na floresta dos uivos. Contou o que houve na antiga caverna da alcateia de Kai, o mal-entendido que ocorreu na toca das raposas, contou sobre a batalha na depressão vermelha, absolutamente tudo o que aconteceu na viagem. A historia deixou Angus e Luna muito impressionados e eles comentavam e faziam perguntas enquanto Lon falava.

De tempos em tempos Lon dava risadas enquanto contava a historia, pois observava que Kai olhava para Luna o tempo todo e que Luna fazia o mesmo e que quando seus olhares se encontravam os dois desviavam o olhar imediatamente.

Depois que Lon terminou de contar a historia, Kai sugeriu:

-Agora que já sabem sobre nós. Que tal vocês nos falarem de vocês?

-Certo. Vejo que passaram por muita coisa antes de chegarem aqui... Como vocês nos contaram a historia de vocês. Acho mais do que justo que eu conte a nossa.

Angus então começou a contar a história:

-Há muito tempo atrás, eu me mudei para cá com minha alcateia. Vivemos felizes aqui por um longo tempo... Foi aqui, exatamente nessa colina, numa noite como essa que eu conheci a mãe de Luna, Hikari.

Ficamos amigos e nos apaixonamos. Algum tempo depois, nasceu minha filha Luna e meu filho Solen.

-O que aconteceu com Hikari e com o Solen?

Perguntou Lon, intrigado. Angus se esforçou para responder, mas assim o fez:

-Algo muito ruim.

-Desculpe, acho que não deveríamos ter pedido pra falar sobre isso. Não precisa mais contar se não quiser se recordar de lembranças ruins.

Disse Kai, ao notar a tristeza nas palavras de Angus e que a historia não acabaria bem.

-Não... Eu vou continuar contando. Sabem, há lembranças, mesmo ruins, que não se deve tentar esquecer.

Então ele continuou:

-Numa noite quando Solen e Luna ainda eram filhotes, saíram escondidos. Pretendiam ir para fora da floresta, não sei fazer o quê...

-Foi o Solen que me arrastou com ele... Ele disse que ia me levar em um lugar... Mas não chegou a dizer aonde era.

Disse Luna, complementando a historia. Angus prosseguiu:

-Eu e Hikari acordamos de noite e não os vimos. Então fomos atrás dos dois. Mas quando os encontramos, eles saíram correndo, com medo de estarem encrencados por terem saído de noite. Os perseguimos por alguns minutos, até que saímos da floresta. Eu e Hikari os encurralamos na beira de um penhasco de onde já não podiam mais fugir. Luna disse “Ele me obrigou a vir. Eu não queria”. Hikari me pediu para voltar com Luna. Ela ia dar uma bronca em Solen por ter arrastado Luna de novo. Não era a primeira vez. Mas... Quando estava andando com Luna, voltando para a floresta, escutei um som de terra se rachando. Olhei para trás e, antes que meu rosto se virasse, eu já estava escutando o grito dos dois. Enquanto corria para a beira do penhasco escutei o barulho das rochas batendo no chão... Não aguentei quando olhei para baixo e vi o sangue escorrendo de baixo das pedras...

Angus tentou segurar as lágrimas, mas começou a chorar. Kai ficou pasmo com a historia de Angus. Lon também ficou chocado. Luna foi para perto de Angus, para tentar consolá-lo. Angus então respirou fundo e falou:

-Desculpem por isso... Vou terminar. Ainda falta dizer como separei-me de minha alcateia. Tempos depois do incidente, eu e Luna fizemos o possível para superarmos... Uns dois anos depois, a alcateia resolveu se mudar daqui. Ir para outro lugar. Mas eu não fui com eles. Não pude sair daqui. Esse é o lugar que me lembra deles... Então fiquei aqui e criei Luna sozinho. E estou aqui até hoje.

-E você sabe pra onde eles foram?

Perguntou Lon. Angus respondeu:

-Na verdade... Não.

-Mas você vai procurá-los um dia? Ou acha que eles um dia vão voltar?

-Não sei dizer. Talvez um dia nos encontremos novamente.

Haviam mais comentários e perguntas sobre a triste historia de Angus. Porém, todos evitaram tocar no assunto novamente.

Depois da conversa, todos ficaram calados. Talvez pensando. Alguns minutos depois, Lon adormeceu, ainda deitado ao lado de Kai. Permaneceram ali quietos por quase uma hora, até que Angus se levantou e se dirigiu para fora da toca. Ele olhou para o céu. Viu a majestosa lua brilhando em seu auge em meio às estrelas e disse:

-Está na hora.

Luna se levantou e se pôs para fora da toca junto de seu pai. Kai cutucou o ombro de Lon, para acordá-lo e quando seus olhos se abriram, Kai falou:

-Lon, levante, Está na hora.

Lon se levantou num salto, pois estava realmente ansioso. Os dois se juntaram à Luna e Angus do lado de fora da toca.

Lon ficou olhando para os lobos, esperando que um deles uivasse. Seria a primeira vez que veria. A primeira vez que presenciaria esse evento.

E depois de um momento de silêncio profundo sob a luz do luar, finalmente um uivo. O uivo de Angus. Seu uivo grave, porém suave ecoou no vasto céu da noite e por toda à floresta. Era como um canto, o ressoar de um desabafo.

Lon ficou realmente impressionado ao ouvir aquele uivo e mostrou isso claramente em sua expressão.

Acompanhando o uivo de Angus, Luna iniciou o seu. Era doce e ainda mais suave. Os dois uivos juntos se tornaram uma melodia. Uma melodia criada a partir de emoções coincidentes.

Em seguida, Kai se preparou, ergueu sua cabeça para a luz da lua e iniciou seu uivo, contendo todas as suas angústias. Seu uivo foi mais forte e Longo que os de Luna e Angus, porém nem tão grave quanto o de Angus e nem tão doce quanto o de Luna.

Assim que um uivo terminava, outro começava. Lon estava tão maravilhado com os uivos que ouviu, que temia falhar. Surgiu em seu rosto uma expressão de insegurança. Ao notar Lon sentado e quieto ao seu lado com aquela expressão, Kai parou seu uivo e se virou para ele:

-Vá em frente, Lon. Só falta você.

Disse Kai, sorrindo. Lon então disse:

-Mas... Eu não sei se eu consigo. Eu nunca consegui antes. E meu pai dizia que eu nunca iria.

-Lon, se ele disse isso, ele está errado. Não fique com medo. Você vai conseguir.

-Mas e se eu errar?

-Coloque todas as suas emoções nesse rugido e faça dele o seu melhor!

-Tá bem... Eu vou tentar...

Angus e Luna também pararam para ouvir o rugido de Lon.

Lon foi para mais perto da margem e olhou fixamente para a lua, Pensou em todas as coisas ruins que aconteceram e em tudo que ele queria se livrar, as coisas que o fizeram chorar, não só durante a viagem com Kai, mas também as coisas de outros momentos de sua vida. Então ele puxou o ar para os pulmões e tentou colocar tudo isso para fora. Porém tudo o que conseguiu, foi um rugido fraco e esganiçado, não diferente de nenhum outro rugido que já tentara.

Ele se encolheu de vergonha e olhou para Kai, com lágrimas nos olhos. Kai olhou para Lon, com um rosto sério e disse:

-Não desista, Lon! Tente de novo!

Lon se reergueu e pensou mais profundamente em tudo. Pensou no seu bando, no seu amigo Sam, que morrera a pouco, pensou em todas as dificuldades que passou ao lado de Kai e como queria orgulhá-lo. Então deixou sua insegurança de lado e pensou no que Kai acabou de lhe dizer “Faça dele o seu melhor”. Então Lon percebeu que não se tratava de dar um rugido perfeito, mas sim de dar seu melhor rugido entre todos e que mesmo que não obtivesse, de fato, um rugido, seria igualmente especial, pois carregaria consigo, suas emoções. Foi ai que ele decidiu tentar de novo.

Lon olhou para a lua novamente. Ainda mais focado que antes, fechou os olhos e sentiu o vento soprar em seu rosto. Sentiu-se feliz naquele momento e então puxou o ar e o soltou num rugido. E para a sua surpresa, o que saiu de sua garganta não foi simplesmente um rugido, mas sim “O rugido”. Foi alto e grandioso. Mais poderoso que qualquer rugido que qualquer outro leopardo de sua idade poderia conseguir.

Lon ficou extremamente feliz ao perceber que realmente conseguiu.

O som do rugido de Lon superou os uivos de Angus e Luna e até mesmo o de Kai. Durou poucos segundos, segundos que durariam para sempre dentro dele.

Um enorme sorriso surgiu no rosto de Lon. Angus e Luna parabenizaram-lhe pelo feito. Kai bagunçou o topo da cabeça de Lon com a pata, estendeu-a e disse:

-Toca aqui, amigão! foi incrível. Como se sente agora?

Lon bateu de volta e disse com satisfação:

-Me sinto ótimo. Com certeza esse foi o meu melhor. Obrigado, Kai!

-O rugido foi seu. Eu só o encorajei.

Falou Kai, sorrindo. O momento foi interrompido por Angus:

-E então, vamos dormir um pouco?

Kai respondeu:

-Tudo bem.

Ele chamou Lon e então todos entraram na toca e se puseram a dormir.