O Caminho Para Fora Da Tempestade

8 Capítulo 7: Os Dois Lados e o Guardião


No dia seguinte Lon foi o primeiro a acordar. Ele estava muito empolgado, pois estavam muito perto de encontrar seu bando. Estava ansioso também para poder comer uma boa refeição e beber água de verdade.

Lon sacudiu Kai pelo ombro para acordá-lo. Kai abriu os olhos lentamente e disse:

–Argh... O que foi?

–Acorda! Vamos voltar a andar!

Gritou Lon alegre.

Kai se levantou e se alongou.

–Ai... Eu tô todo dolorido...

Disse Kai passando a pata sobre as costas. Kai seguiu perguntando:

–Lon, como está seu pescoço?

Lon passou a pata sobre a ferida e respondeu:

–Tá tudo bem. Não tá mais doendo. Mas e então? Vamos logo! As montanhas estão ali, bem pertinho! Vai ser só passar por elas e pronto!

–Acho que não vai ser simples assim...

–Por que não, Kai?

–É que... Mesmo aqui não tendo mais nevascas, com certeza se tentarmos escalar as montanhas vai ser muito difícil e a altitude fará com que a gente tenha dificuldade pra respirar e provavelmente lá em cima é muito frio... Quando chegarmos lá, teremos que pensar em como vamos atravessar. E mesmo que a gente chegue ao outro lado, não sabemos onde exatamente os leopardos estão.

Lon se desanimou um pouco ouvindo aquilo. Então disse:

–Mas ficando parados aqui, nós não vamos chegar nunca! Vamos ir até lá o mais rápido possível e quando chegarmos lá, pensaremos em como faremos pra conseguir atravessar.

–Certo. Então vamos.

Eles então caminharam em direção às montanhas durante varias horas. Lon continuava alegre mesmo sabendo que teriam dificuldade em achar o seu bando. Ele andava saltitando e cantando completamente desafinado, deixando Kai irritado.

Ele repetia o mesmo verso desde horas atrás e às vezes errava a letra e começava de novo e isso já estava deixando Kai louco. Kai tentou ignorar, mas não resistiu.

–Lon... Pare de cantar...

Pediu Kai. Lon parou no meio do verso e choramingou:

–Aaaah Kai. Então o que eu vou ficar fazendo?

–Não sei... Mas essa música já está ficando irritante. Não pode só andar quieto como sempre fez?

–Tá bom...

Continuaram seguindo por mais algum tempo, até que chegaram aos pés de uma das varias montanhas naquela grande cordilheira.

Os dois ficaram maravilhados contemplando as montanhas que eram grandiosas e bonitas, iluminadas pelos raios de sol. Seus picos nevados tocavam as nuvens.

Lon então disse:

–É bonito! Não é?

–Sim. Realmente são muito bonitas. Muito mais do que eu imaginava.

Respondeu Kai, ainda admirando a paisagem. Ele então disse:

–Bem... Lon, fique aqui. Eu vou procurar se tem algum jeito fácil de passar por essas montanhas sem precisar escalar.

–Eu posso explorar por aqui enquanto isso?

Perguntou Lon. Kai respondeu:

–Pode. Mas não vá muito Longe. Já volto.

Então Kai foi atrás de um caminho e Lon foi explorar o lugar, como havia dito.

O lugar por onde eles passavam, tinha um gramado ralo e era coberto por neve em alguns pontos. Haviam arbustos e algumas árvores.

Enquanto Lon explorava, ele avistou na base de uma das montanhas, um buraco com uma árvore em frente. Ele ficou curioso e foi até lá para ver melhor.

Quando chegou até lá, viu que não era um buraco. Tratava-se de uma caverna, talvez um túnel e aquela era a entrada. Lon decidiu chegar mais perto da entrada e enfiar a cabeça lá dentro para ver até onde ia. Mas quando se aproximou, escutou um barulho vindo de entre as folhas da árvore que estava logo atrás dele. Lon se assustou e virou-se rapidamente. Perguntou:

–Quem está ai?

Uma coruja branca saiu do meio das folhas da árvore e foi até a ponta de um dos galhos. Ele disse:

–Você quer atravessar?

Lon então respondeu:

–Não... Eu só queria saber pra onde esse túnel vai...

–Para o outro lado.

Disse a coruja.

Lon deu um pulo de alegria.

–Esse túnel leva pro outro lado da montanha?!

Perguntou Lon. A coruja torceu o pescoço e repetiu:

–Para o outro lado.

Lon então falou:

–Espere senhor. Vou trazer meu amigo!

Lon então correu para encontrar Kai. A coruja permaneceu olhando para Lon enquanto ele corria.

Kai havia procurado um caminho durante, aproximadamente, trinta minutos, mas não encontrou nada. Estava voltando ao encontro de Lon quando deu de cara com ele.

–Kai! Kai!

Gritou Lon ao parar na frente de Kai, ofegante.

–O que foi?

Perguntou Kai. Lon parou pra respirar e respondeu em seguida:

–Eu achei um jeito de atravessar!

–Mesmo?! Como?

Perguntou Kai. Lon respondeu:

–Sim! Tem um túnel ali na frente. Eu achei enquanto explorava. Podemos passar por ele e chegar até o outro lado!

Kai estranhou o que Lon estava dizendo e então perguntou;

–E como sabe que o túnel passa através das montanhas?

Lon explicou:

–Na frente do túnel tem uma coruja. Ela me disse que o túnel leva até o outro lado. Vem comigo! Te levo até lá.

Lon correu em direção à entrada do túnel e Kai o seguiu. Logo estavam lá.

Quando chegaram, Kai observou a entrada e olhou ao redor.

–Onde está a tal coruja que você tinha dito?

Perguntou ele. Lon respondeu:

–Na árvore.

Kai olhou para os galhos da árvore, mas não viu ninguém.

–Não tem ninguém ali.

Disse ele. Lon estranhou.

–Mas ele estava ali!

–Que seja... Você tem certeza que o túnel leva pro outro lado?

Perguntou Kai inseguro.

–Sim.

–Então vamos entrar... Afinal, não tem outro jeito...

Kai se aproximou da entrada e quando o fez, a coruja branca de antes surgiu no mesmo galho da árvore e lhe chamou a atenção;

–Você pretende atravessar?

Perguntou a coruja.

Kai olhou para trás e viu a coruja parada em cima do galho na árvore. Era branca e com olhos grandes e amarelos. Ele repetiu:

–Você pretende atravessar?

Kai pensou um pouco e respondeu:

–Sim, nós queremos.

–Vocês não podem.

Disse a coruja.

–Por que não?!

Gritou Lon. A coruja então disse:

–Vocês terão que passar pelo teste.

–Teste? Que teste? E quem é você?

Perguntou Kai.

–Eu sou Ein. O guardião do túnel que liga os dois lados.

–Dois lados?

Perguntou Kai curioso. A coruja então explicou:

–Sim, os dois lados. O lado em que o inverno é eterno e que o frio gélido e as tempestades habitam. Um lado que há tempos era completamente equilibrado e que foi consumido quase completamente, perdendo sua vida. E o outro lado. O lado das planícies e vales verdes. Onde há florestas e a vida reina e o sol brilha num céu azul. Nessa hora em que este lado está tão próximo do fim, os que vivem neste lado decidem passar para o outro lado. Nem todos conseguem encontrar o caminho. E nem todos os que encontram são dignos de atravessar. Mas este lado não ficará assim para sempre. Este lado voltará a ser como antes. Um dia.

–E o que temos que fazer para podermos ir pra este “outro lado”?

Perguntou Kai.

–Só podem atravessar aqueles que sabem o que querem. Aqueles que merecem.

Respondeu a coruja.

–E como sabemos se merecemos ou não?

Perguntou Lon

–Vocês serão testados.

Disse a coruja. Ein continuou:

– “Destinos precisam estar entrelaçados entre um lado e outro”. “Compartilhar o mesmo futuro, mesmo que por passados diferentes”

–O quê?!

Perguntaram os dois. A coruja continuou:

–Passados diferentes. Um só futuro. Vidas interligadas por um destino para que um futuro aconteça. Um lado pede pelo necessário que vem do outro.

–Você não diz coisa com coisa.

Falou Lon.

–Por que vocês querem passar para o outro lado?

Perguntou Ein. Kai começou a falar:

–Nós...

Ein interrompeu-o:

–“Nós” não. “Eu”.

Kai então começou novamente:

–Eu...

A coruja o interrompeu novamente:

–Deixe-me ajudar. Por que você quer ir ao outro lado?

–Para ajudar meu amigo a encontrar seu bando.

–E o que você pretende fazer depois de conseguir isso?

–Eu... Eu não sei.

–Seu caminho só vai se iluminar se a névoa se dissipar.

–Eu não tenho mais um bando. Ajudar Lon é meu único objetivo.

–E você não tem sonhos próprios?

Kai pensou por um instante e respondeu:

–Eu quero viver. E quero um motivo pra continuar vivendo.

–E você acha que encontrará isso do outro lado?

–Não sei. Mas só vou saber se eu for até lá. Sei que eu prometi que ajudaria Lon a achar seu bando e eu vou fazer isso!

–Ajudar a realizar os objetivos dos outros é uma coisa boa, mas você nunca deve se esquecer de si próprio.

Após dizer isso, Ein se virou para Lon e perguntou:

–Enquanto a você? O que espera encontrar do outro lado?

–Minha família.

Respondeu Lon. Ein fez outra pergunta:

–Por quê?

–Eles acham que eu morri. Eu sinto falta de todos e quero achá-los! Quero que todos nós vivamos juntos de novo.

–E enquanto ao seu amigo? O que será dele quando você completar esse objetivo?

–Eu quero que seja feliz. Que faça as pazes com o bando dele ou que viva comigo e os outros leopardos. Não quero que ele fique sozinho.

–E acha que ele será feliz assim?

–Acho que sim. Nos tornamos muito amigos e eu nunca quero perdê-lo. O que eu mais quero é que os leopardos e os lobos fiquem amigos e que eu e o Kai possamos ficar sempre juntos. Eu farei qualquer coisa pra ajudar ele.

Os olhos de Kai se encheram de lágrimas ao ouvir as palavras de Lon. Ele sabia que os leopardos não permitiriam um lobo vivendo entre eles e que provavelmente nunca poderia fazer as pazes com Alpha. Não sabia o que seria de sí mesmo no futuro.

Ein ficou calado por uns instantes e em seguida decidiu:

–Vocês dois podem passar.

Lon ficou feliz ao ouvir aquilo. Correu até Kai e viu as lágrimas em seus olhos. Perguntou:

–Kai, o que foi?

–Não foi nada... Vamos logo. Vamos atravessar esse túnel.

–Certo! Mas Kai... Nem sabemos se os leopardos puderam atravessar. E se eles nem tiverem conseguido?

Disse Lon preocupado. Ein falou:

–Se o destino quiser, vocês os encontrarão. Tomem cuidado dentro do túnel. Pode ser difícil chegar até o outro lado.

Os dois ouviram o que Ein disse, mas não estavam olhando para ele. Quando Lon se virou para agradecer Ein não estava mais lá.

–Pra onde ele foi?! Kai, ele sumiu! Pra onde ele foi?

Gritou Lon espantado. Kai olhou ao redor e então falou:

–Não importa. Podemos passar, então vamos logo!

–Certo!

Então os dois entraram no túnel, que era escuro a ponto de não se poder ver absolutamente nada. Porém, era uma linha reta sem bifurcações e sem desvios. Kai e Lon puderam seguir tranquilamente por dentro do túnel.

Enquanto isso a alcateia de Alpha estava a caminho desse mesmo túnel. Todos os lobos admiravam aquela vista das montanhas, mas Alpha ia direto para a entrada da caverna, pois já sabia pra onde ir e não queria perder tempo com nada.

–Venham todos. O caminho é por aqui.

Disse ele. Uma das lobas que estava realmente encantada com o lugar perguntou:

–Você sempre vinha aqui, Alpha?

Ao ouvir a pergunta, Alpha teve muitas lembranças. Olhou ao redor e sorriu vendo que o lugar continuava sendo o que era antes. Um sorriso que logo se perdeu em seu sentimento de ódio. Ele respondeu:

–Sim, eu vinha. Agora vamos continuar andando.

Alpha seguiu para o túnel e todos o seguiram comentando sobre a paisagem. Alguns minutos depois, estavam diante da entrada.

Alpha se aproximou da entrada sem se preocupar com nada, mas quando se viu perto de entrar, escutou uma voz gritando:

–Pare! Você não pode passar!

Todos se viraram rapidamente para a árvore ao lado da entrada do túnel. A voz era Ein. A coruja desceu do galho da árvore, pousou na frente de Alpha e disse mais uma vez:

–Você não pode entrar!

–Saia da minha frente!

Gritou ele. Ein olhou o rosto de Alpha com uma impressão de que já havia o visto antes. Perguntou:

–Quem é você?

Alpha suspirou e disse:

–Não tenho tempo pra isso e não estou a fim de conversar. Poupe-me da sua filosofia barata... Isso me enchia muito quando eu vinha aqui com meu pai.

Ein imediatamente se lembrou de quem ele era:

–Me lembrei de você. Você é o filho de Azel. Alpha... Lembro-me de você... Claro que quando te vi pela ultima vez você era apenas um filhote. Como vai o seu pai?

–Cale a boca e me deixe passar.

Disse Alpha, perdendo a paciência. Ein continuou:

–Azel sempre ia com você ao outro lado. Lembro que sempre que eu perguntava o que esperava encontrar do outro lado você sempre respondia “Meu lugar favorito”. Na volta vocês sempre paravam aqui e você me contava tudo o que fizeram... Pergunto-me por que pararam de vir. Onde está seu pai?

–Meu pai morreu há muito tempo. Agora saia logo da frente por que tenho assuntos pra resolver do outro lado.

Ein ficou chocado com o que Alpha disse.

–Azel morreu?! Mas o que houve? O destino é mesmo incerto.

Alpha não queria falar sobre isso. Mas se viu obrigado. Então explicou o do jeito mais simples possível:

–Uma emboscada. Houve uma luta entre os lobos e os leopardos das neves e todos os lobos morreram. Foi isso. Eu vou matar aquele que o matou. Já sabe o que quero fazer do outro lado. Agora seja útil e me diga se um lobo entrou ai com um filhote de leopardo.

A coruja não entendia direito o que tinha acontecido. Permaneceu olhando a expressão fria de Alpha.

–Responda!

Berrou Alpha. Ein respondeu:

– Mas por que quer saber isso?

–Aquele lobo era parte da alcateia. Agora é um traidor e agora eu vou matá-lo.

–Então tudo o que quer é vingança?

–Vingança não é o que eu quero. Isso é só justiça.

A coruja viu através dos olhos de Alpha e pôde ver as lembranças que chegaram à sua mente. Pôde ver claramente todo o passado. Era um poder que somente o guardião podia usar. Um poder que o ajudava a julgar quem podia ou não atravessar. Vendo aquelas cenas, Ein disse:

–Alpha, você está perdido em suas próprias recordações! Você culpa os outros pelo que você mesmo fez parte. Não deixe que o ódio te consuma. Você está perdido. Mas pode achar a saída, se quiser. O que realmente aconteceu naquele dia? E por que aconteceu?

Alpha pensou em muitas coisas ao mesmo tempo. Seus olhos se reviraram de um lado a outro. E então ele gritou. Toda a alcateia via aquela cena e não compreendia o que estava havendo. Alpha berrou:

–Isso é assunto meu! Pare de achar que entende o que eu sinto! Você não sabe de nada! Só eu posso resolver isso! Você pensa que entende, mas não entende!

Ein falou:

–Quem não entende é você. Ou melhor, você não quer entender, pois já se convenceu de que a vingança vai resolver seus problemas. Não lembra do que seu pai dizia sobre a vingança? Você está perdido. Pra achar a saída... Conte pra todos o que omitiu até agora.

Alpha arregalou os olhos e berrou:

–Como você sabe dessas coisas?! Cale a boca e saia da frente, ou eu... Ou eu...

–Você me mata? Escute o que vou te dizer. Derramar sangue não serve pra limpar manchas que foram deixadas pelo passado. Só as aumenta. Mas se tem certeza do que quer... Pode passar. Sei que você vai enxergar. Seu pai lhe deu esse nome, pois tinha certeza que você se tornaria um grande líder.

Ein se retirou e deixou que os lobos adentrassem o túnel.

Alpha chamou todos e entrou na frente. Em seguida os outros entraram também. Todos estavam confusos sobre o que Ein disse. Afinal ninguém sabia o que houve de fato naquele dia.

Mas aquelas palavras tocaram Alpha profundamente. Alpha não sabia o que pensar, mas ao refletir um pouco, enxergou que todas as coisas que decidiu até agora não estavam certas. A verdade estava prestes a ser revelada.