Na manhã seguinte, Kai levantou cedo e acordou Lon, que ainda sonolento, perguntou:

–Hã? Que foi?

–Levanta, vamos andando.

Disse Kai, empurrando Lon com a pata.

–Agora? Mas o sol nem saiu ainda... Me deixe dormir.

Falou Lon, empurrando a pata de Kai e se encolhendo.

–Nada disso! Anda logo, levanta. Temos que começar a andar cedo pra chegarmos mais rápido.

Lon permaneceu calado.

–Lon, se mova!

Gritou Kai, já perdendo a paciência.

Lon continuou dormindo. Kai, já sem paciência, pegou o filhote com a boca e o sacudiu um pouco e depois o soltou no chão. Lon gritou assustado:

–AAAAI! Kai, por que você fez isso?!

–Você não queria levantar...

Lon deu uma patada no ombro de Kai e falou rindo:

–Eu já tava levantando... Seu idiota.

Kai riu.

Em seguida Kai perguntou:

–Você sabe pra onde ir à partir desse ponto, certo?

Lon olhou ao redor e logo respondeu, apontando para o norte:

–Sei! É pra lá.

–Então vamos logo.

Os dois começaram a andar. Os lugares por onde passavam até ali, tinham sempre a mesma paisagem branca. Neve em todas as direções, alguns pinheiros cobertos de neve e geleiras distantes.

Depois de quarenta e cinco minutos caminhando, Lon parou de repente. Kai, que não havia reparado, notou que ele não estava ao seu lado e olhou para trás. O viu sentado a uns três metros de distância. Ele foi até onde Lon estava e perguntou:

–O que foi? Por que parou?

Lon olhou para Kai com uma expressão sonolenta e disse ofegante:

–É que eu... Tô cansado...

–Cansado? Não temos tempo pra isso. Anda! Temos que continuar.

Falou Kai, um pouco nervoso.

Lon fez a mesma carinha que usou para forçar Kai a lhe contar uma história noites atrás.

–Vamos! Dá tempo pra descansar um pouquinho? Por favoooor.

Kai se rendeu mais uma vez.

–Tudo bem... Mas só cinco minutos!

–Valeu!

Gritou Lon alegre, dando um pulo que fez Kai arregalar os olhos.

Lon se sentou novamente e ficou olhando para o céu. Parecia estar pensando em algo.

Cinco minutos depois, Lon estava deitado e cochilando. Kai o cutucou com a pata e o levantou com a boca, pois tinha certeza de que se não fizesse isso Lon ficaria deitado ali para sempre.

–Podemos ir agora?

Perguntou Kai. Lon se alongou e respondeu:

–Sim. Agora podemos.

Os dois começaram a andar. E alguns poucos minutos depois, começou a nevar. Depois de mais alguns minutos, aquilo se tornou uma tempestade.

A tempestade não dificultou muito a caminhada, pois ainda não estava muito forte. Porém, logo Kai e o Lon se depararam com uma fissura colossal. Kai mandou o leopardo ficar parado ali e se aproximou da borda da fissura, olhou para baixo. Era impossível de se ver o fundo, ainda mais com a nevasca atrapalhando a visão. A tempestade piorou com um vento forte e Kai voltou logo para perto de Lon.

Kai parecia bravo, começou a falar:

–E agora? Como vamos atravessar isso?! É culpa sua Lon! Se não tivéssemos parado pra você descansar, teríamos chegado aqui antes de começar a tempestade e poderíamos procurar um jeito de atravessar. Você só atrasou as coisas... Como vamos passar pro outro lado dessa coisa?!

–Já terminou?

Perguntou Lon. Kai olhou para ele e então Lon disse:

–Tem uma ponte logo ali na frente...

Lon apontou para a tal ponte, que estava a poucos metros de onde eles estavam.

Eles foram até lá. A ponte era de pedra e havia se formado naturalmente. Era grossa e estava coberta de neve. Parecia seguro atravessar.

Lon começou a andar em direção à ponte, mas foi puxado de volta por Kai.

–Não vá tão rápido. Pode ser perigoso.

Disse ele. Lon retrucou:

–Mas se quisermos chegar rápido, vamos ter que passar por aqui.

Então Kai disse:

–Você tem razão... E se os leopardos conseguiram, vamos conseguir também.

Kai andou até a ponte e, sobre ela, começou a andar lentamente e com calma.

–Anda rápido!

Gritou Lon, que tentou passar correndo na frente de Kai, porém Kai o parou pisando em sua calda. Lon gritou:

–Ai! Por que fez isso?

–Calma apressado. Fique atrás de mim e ande BEM devagar.

–Ta...

Quando deram os primeiros passos em cima da ponte, Kai alertou:

–Não olhe pra baixo.

–Ta tudo bem... Eu não tenho medo de altura...

Eles continuaram andando. Um passo de cada vez. A ponte era comprida, ainda não estavam nem na metade do caminho, mas nesse momento houve um imprevisto.

Escutaram um estalo bem alto.

Lon se recolheu pra ainda mais perto de Kai e gritou:

–O que foi isso?!

–Eu não sei.

Disse Kai olhando para os lados. Kai não viu nada fora do normal.

Então houve mais um estalo ainda mais Longo e alto que o anterior.

–Kai! Eu tô com medo! O que ta acontecendo?!

Kai continuou em alerta olhando para os lados. Houve mais estalos, dessa vez o intervalo de tempo entre eles diminuiu e o som ficou um pouco mais baixo.

Logo Kai percebeu o que estava acontecendo. Ele gritou:

–LON, CORRE!!!

–Hã? O quê?

Lon estava confuso. Kai gritou:

–A ponte! Está rachando! Vai desabar! CORRE!!!

Eles tentaram correr, mas sem sucesso. Pedaços da ponte começaram a cair enquanto corriam e logo a ponte inteira foi a baixo. E Kai e Lon caíram junto com ela.

Lon estava realmente assustado e gritando por Kai. Mas Kai havia desmaiado durante a queda. Logo estavam no chão junto com os pedregulhos da ponte.

Alguns instantes depois, Kai se levantou zonzo, abriu os olhos e cambaleante olhou à sua volta à procura de Lon, mas não o encontrava.

Então o ouviu gritar:

–Kaaai! Onde você ta? Kaaaaai!

Kai seguiu os gritos de Lon e foi levado à uma parede de pedras empilhadas, resultado do desabamento. Era impossível escalar a parede ou remover as pedras. E Lon estava do outro lado.

Lon gritou outra vez:

–Kaaaaai!

–Lon! Calma, eu estou aqui.

–Kai, onde a gente ta?

Perguntou Lon.

–A gente caiu lá de cima... Esse lugar parece uma espécie de... Parece que estamos em algum tipo de caverna subterrânea, tem muitos túneis por aqui.

–Sim, aqui também tem um montão... Mas como a gente vai sair daqui?

–Lon, fique ai. Eu vou até ai te buscar e depois vamos procurar uma saída.

–Ta bom!

Kai escolheu um dos túneis aleatoriamente e entrou correndo, procurando um caminho para chegar até Lon. Estava escuro lá dentro.

O túnel levou Kai a uma rede de túneis interligados. Era como um labirinto. Tinha vários túneis, bifurcações e becos sem saída.

Kai andou pelos túneis durante vários minutos e não chegou a lugar algum. Kai estava agora em um lugar onde se encontravam cinco túneis.

–Droga... Pra onde ir agora?...

Nesse momento, Kai escutou um barulho vindo do terceiro túnel. Pensou que poderia ser Lon e então seguiu por este.

Este túnel levou Kai até uma rocha grande que ficava no alto da caverna, quase encostada no teto. Kai foi um pouco mais a frente, estava escutando vozes vindo lá de baixo. Ele olhou para baixo e viu uma grande sala semicircular onde havia muitos túneis. Ali era o centro da caverna.

Nessa sala estava reunido um bando de raposas brancas. Mais de vinte. No centro da sala estava uma das raposas. Era a líder e pela voz, se tratava de uma fêmea. Kai parou para ouvir sobre o que estavam falando.

–[...] E por isso temos que nos preparar! É um grande evento que só acontece uma vez por ano! Vivemos aqui durante um ano inteiro esperando por este dia! O dia em que teremos nosso glorioso banquete!

Todas as raposas na sala gritaram “Sim!”. A líder continuou:

–Hoje à noite os morcegos migrarão para cá! E nós estaremos esperando a chegada deles! E nessa hora teremos que apanhar todos os que conseguirmos pra armazenar comida para passarmos muitos meses! Pra depois procurarmos outra caverna como essa. Essa foi a maior até agora e é esperado que seja o maior banquete que sempre sonhamos depois de muito tempo! Entendido?

Novamente todos na sala gritaram “Sim!”.

Kai se desinteressou pela conversa e decidiu voltar de onde veio para procurar por Lon. Mas ao se virar, tomou um susto. Lon estava bem atrás dele. Com o susto, Kai fez a rocha onde estavam desmoronar e isso chamou a atenção das raposas. A líder se aproximou dos pedregulhos e viu o lobo e o leopardo caídos no chão.

–Mas o que diabos é isso?!

Disse ela. Ela continuou:

–São intrusos! Eles vieram roubar nosso jantar ou estragar nosso plano!

Kai levantou rapidamente, pegou Lon com a boca e saiu correndo por um dos túneis mais próximos.

–PEGUEM-NOS!!!

Gritou a líder das raposas. As raposas correram atrás deles com a ordem da líder.

Kai estava em pânico. Corria desgovernado e sem rumo por entre os túneis, segurando Lon na boca, que estava indicando por que túnel seguir.

Havia mais de quinze raposas os perseguindo.

Para onde quer que ele fosse era surpreendido por uma raposa, que tentava pará-lo. Afinal elas viviam naquela caverna há tempos e já conheciam todos os túneis e caminhos.

Kai desviava de todos os botes das raposas enquanto corria a toda velocidade. Até que enfim chegou na saída da caverna. Porém, bem na frente da saída, estava a líder. Ela deu a volta devagar e foi para trás das costas de Kai. Nesse momento Kai aproveitou para colocar Lon no chão.

–Lon, foge! Rápido!

Gritou Kai.

–Mas e você?

Perguntou Lon preocupado.

–Eu me viro. Agora sai logo daqui!

Lon correu para fora da caverna o mais rápido que pôde. Não havia nenhuma raposa lá fora. Ele estava seguro. Ele se afastou um pouco e ficou parado esperando Kai sair.

Logo Kai se viu cercado de raposas. A saída estava completamente bloqueada por mais delas.

A líder se aproximou de Kai lentamente dizendo:

–Você acha que vai sair daqui ileso depois de causar tantos problemas para nós?

Kai se afastou para de ré e disse:

–Problemas? Que problemas? Se for pela rocha que caiu, foi um acidente e...

–Não idiota! Caso você não saiba e, provavelmente, sabe, pois estava nos espionando... Estávamos esperando uma coisa hoje à noite e você estragou!

Disse a líder interrompendo Kai.

–Você está falando dos tais morcegos que vão vir pra cá? Não faço a mínima idéia de como eu posso ter estragado isso.

Argumentou Kai, estranhando a situação.

A líder se aproximou mais um pouco e gritou:

–Não?! Aquele seu “acidente” segundo os meus companheiros, desabou mais de dez túneis fundamentais que ligavam à rede! Os morcegos não vão entrar na caverna se os túneis estiverem fechados!

Kai não estava compreendendo. Ele perguntou

–Mas... Eles não vão entrar por aqui?

A líder passou a pata sobre o rosto, indignada. Tentou se manter calma.

–É. Eles vão entrar por ali. Mas se eles não tiverem como circular pela caverna, como iríamos armar nossa emboscada?! Você acha que ficaríamos todos na entrada da caverna com uma placa dizendo “Venham todos, sejam nosso jantar”? Entendeu agora? Ou quer que eu desenhe?

Kai entendeu o que a líder quis dizer dessa vez. Então ele disse:

–Ah ta... Agora entendi... Bem... Desculpem-me por isso...

A líder impaciente e cheia de raiva disse:

–“Desculpem-me”? Poupe-me! Chega de papo! Vamos pular direto para a parte em que você morre! Soldados peguem-no!

Três das raposas correram na direção de Kai pela esquerda. Ele se virou rapidamente e desviou da primeira, que saltou em sua direção mirando seu pescoço. As outras duas vieram logo depois e conseguiram morder violentamente suas duas pernas frontais. Kai gritou de dor e em seguida se balançou, arremessando as duas raposas contra a parede.

Kai tentou correr para fora da caverna, mas foi barrado por mais raposas. Ele revidou seus golpes com patadas e mordidas, mas mesmo ele sendo muito maior e mais forte, elas estavam em um número muito maior.

–Peguem-no! Matem-no!

Gritou a líder, que estava logo atrás.

Kai não teve dificuldade em derrubar todas as que o atacaram.

A líder passou mais uma vez a pata sobre o rosto e disse em voz baixa:

–Oh meu deus... Eu estou cercada de incompetentes! Terei que acabar com você, eu mesma.

Ela então se preparou e deu um bote correndo a toda velocidade na direção de Kai. Quando chegou perto o suficiente saltou e deu uma patada certeira no rosto de Kai, que recuou com o impacto.

Kai tentou acertá-la varias vezes com patadas, mas ela era rápida e desviava de todos os golpes. Kai então resolveu tentar outra coisa, começou a se bater contra as paredes do túnel onde estavam lutando. A líder parou um pouco e tentou entender o que ele estava fazendo.

Sem entender nada, a líder pegou distância e preparou mais um bote. Porém, quando chegou perto e saltou escutou o teto do túnel trincar e começar a rachar.

–Mas o quê?!

Gritou ela ainda no ar. Kai estava sorrindo enquanto a via se aproximar.

Kai parou de se bater contra as paredes e esperou a raposa chegar mais perto e então pulou bem alto e agarrou a pata da líder com a boca, em seguida a arremessou ao teto da caverna com toda a força. O impacto fez com que ela desmaiasse. Além disso, fez o túnel começar a desmoronar.

Kai, então, correu o mais rápido possível para fora da caverna enquanto pedaços do túnel vinham ao chão.

Segundos após sua saída, a entrada da caverna se fechou com os pedregulhos que caíram, com um barulho extremamente alto.

Kai parou e virou-se para a entrada e Lon veio correndo em sua direção gritando.

–Kaaaaaai! Você conseguiu!

–Sim.

Disse Kai, com um sorriso no rosto.

–Kai! Isso foi tão legal! Foi você quem fez tudo desmoronar?

–Foi.

–Foi irado! E eu também vi como você se esquivou de todos aqueles ataques! Você venceu todas as raposas! E mal se machucou.

Lon estava pulando de alegria.

Kai olhou para suas pernas que estavam sangrando por causa das mordidas que recebeu. E viu que seu pelo estava meio sujo por ter batido contra as paredes tantas vezes. Mas mesmo assim continuou sorrindo.

Então Kai disse:

–Está bem, Lon... Eu ganhei delas e a gente está livre. Mas... Como vamos voltar pro nosso caminho? Você sabe onde estamos?

A alegria de Lon diminuiu. Ele se sentou na neve e olhou a sua volta. Não podia ver nada a não ser a mesma paisagem branca e sem vida. Não podiam voltar, pois a entrada da caverna ficava na parede de um penhasco enorme. Seria impossível escalar. Lon então disse meio chateado:

–Não sei onde a gente ta... Não sei pra onde temos que ir... Desculpa, Kai...

Kai também olhou ao redor e então disse:

–Pelo menos a tempestade passou. O ruim é que daqui não tem como voltarmos...

–Então pra onde vamos?

Perguntou Lon preocupado. Kai parou para pensar um pouco e logo respondeu:

–Bem... Acho que se tivéssemos atravessado aquela ponte teríamos ido parar em um lugar um pouco mais a frente, em cima desse penhasco. Vamos andar pela encosta do penhasco, até acharmos um lugar por onde pudéssemos subir até lá em cima. E vamos seguir em frente a partir de lá.

–Certo!

Disse Lon, contente novamente.

Então os dois começaram a andar seguindo a encosta do penhasco. Por sorte, em alguns minutos eles chegaram mesmo a um lugar por onde podiam subir de volta até lá em cima.

–Bem... Aqui estamos nós, como você disse.

Falou Lon.

–É. Daqui acho que é só seguir pra lá.

Disse Kai apontando uma direção.

–Você tem certeza?

Perguntou Lon. Kai respondeu:

–Não tenho certeza... Mas temos que continuar. Se não, não vamos chegar a lugar algum.

–Isso é verdade... Mas... Kai... Depois disso tudo que passamos lá dentro daquela caverna cheia de túneis... Notei uma coisa sobre você.

Disse Lon sorrindo. Kai ficou curioso e perguntou:

–Ah é? E o que foi?

–Descobri que você é ótimo pra fazer as coisas desabarem!

Falou Lon caindo na gargalhada. Kai ficou sem graça e deu uma risada.

Mudando de assunto, Kai falou:

–Agora vamos logo. Já está tarde e logo vai anoitecer. Precisamos andar.

Então os dois partiram.