O Caduceu de Kanus

4 Capítulo 4 - Eu, sem querer, explodo alguém


Para meu azar, a primeira aula no dia seguinte era prática. Um instrutor gordo e fedido — que os iniciantes chamavam de Bola de Estrume — colocou todos os recém-chegados em uma fila indiana, bem no centro do campo de treinamento.

— Prestem bem atenção em tudo o que vocês aprenderem aqui, pirralhos. — sua voz era grossa e medonha, como uma espécie de tiozão bêbado. — A sobrevivência de vocês lá fora dependerão disso.

Enquanto falava, seus olhos sondavam e analizavam todos os recém-chegados. Quando parou em mim, ele demorou um segundo a mais, limpou a garganta, e continuou falando.

— Me chamo Balion, terceiro de uma linhagem pura e nobre, e terei o desprazer de ser seu instrutor em seus primeiros anos. — ele anunciou, andando de um lado para o outro, com sua armadura de ferro adaptada para alguém do tamanho dele. Seu bigode preto e volumoso estava gorduroso e manchado com restos de seu café da manhã, e seus olhos esverdeados estavam apagados e preguiçosos.

Fiquei parado ouvindo o discurso atentamente. Conseguia sentir olhares hostis em mim, e durante um momento jurei ouvir alguém ao meu lado cochichar meu nome. Desde que tinha ido para o centro ao terceiro toque da trombeta — uma das regras escritas na folha — vários garotos me olhavam e decidiam se deveriam me temer ou tentar arrumar briga comigo.

— Teremos um veterano para lhes ensinar hoje a arte de se defender. — Balion disse, apontando para alguém que se aproximava a passos largos e apressados. — Conheçam Hugo, um dos nossos melhores guerreiros.

De começo, tive dificuldade em reconhecê-lo por conta de toda a armadura que estava usando. Mas quando ele disse, seu tom de voz era inconfundível.

— Me chamo Estevan. — anunciou, com um ar de superioridade. — E hoje vocês irão apanhar muito. Mas, no final, espero que aprendam alguma coisa com isso.

Era ele. O menino em que eu esbarrara quando estava indo para o conselheiro. O cara que correu em pânico por conta dos meus olhos.

— Preciso de um voluntário. — ele pediu, e previsivelmente ninguém levantou a mão. — Você.

Ele estava apontando para mim.

— Eu? — perguntei, tentando não soar estúpido.

— Sim, você. — retrucou, erguendo o tom de voz. — Por acaso é cego? Se aproxime e arme-se.

— Eu não tenho arm... — comecei a protestar, mas logo Balion apareceu carregando uma armadura de bronze e uma espada de madeira.

— Tome cuidado com esta armadura. Qualquer arranhado nela e você irá limpar os estábulos por um mês. — advertiu-me, enquanto me ajudava a se vestir.

— Vista, e me enfrente, Munikin. — Hugo cuspiu, desembainhando uma espada de prata que reluzia contra a luz do sol.

— Não é justo.. — um dos meninos da fila disse. — Você está com uma espada de verdade e ele com uma de madeira!

Hugo o encarou, os olhos brilhando de satisfação. Era um menino de aproximadamente treze anos de idade, com longos cabelos pretos e lisos que lhe caíam até os olhos.

— O que você disse? — ele fez uma concha sobre o ouvido. — Quer ser o próximo? Ah, claro! Só deixe-me acabar com Jack primeiro.

A menção de meu nome fez meus cabelos arrepiarem. Eu não lembro de ter dito meu nome para ele.

— Hugo, lembre-se das regras. — Balion relembrou, súbitamente preocupado. — Não pode ferir propositalmente dentro dos limites do acampamento.

Balion riu, acompanhado de Hugo, e eu imaginei que aquela regra não se aplicava a esta situação.

— Prontos?

— É claro! — Hugo rugiu, sua voz alcançando quase todo o acampamento.

— S-sim. — tentei controlar minha voz sem muito sucesso. — Estou pronto.

Alguns espectadores curiosos observavam de longe, sentados na porta de seus alojamentos com binóculos; não podiam perder os novatos serem espancados.

— Preparados.. — Balion começou a contagem, tirando um apito do bolso e levando-o aos lábios. — Lutem!

No momento em que o apito soou, Hugo já estava em cima de mim, dando uma forte estocada com o cabo da espada em meu ombro. Ele explodiu em uma dor agonizante, e vacilei, quase largando minha espada no chão.

— Oh, seu ombro está doendo docinho? — provocou. — É esse o tratamento que feiticeiros merecem!

— Eu não sou um feiticeiro! — berrei, subitamente investindo contra ele, a espada erguida acima de meus ombros.

Por um momento, funcionou. Mas a surpresa de Hugo por esse movimento repentino durou pouco, e meu golpe foi desviado com facilidade. O choque das espadas fez um formigamento percorrer por todo o meu corpo, e meus músculos do braço esquerdo urraram de dor.

— Oh, o pequeno Jack ficou nervoso? — seus olhos castanho-claros brilhavam selvagens e ameaçadores.

Ele descreveu um arco com sua espada que teria me decepado se eu não tivesse me abaixado a tempo. Se Balion achou isso contra as regras, não disse nada. Uma gritaria vindo dos iniciantes começou, e todos diziam; "Jack! Jack! Jack!" em uma única voz.

Hugo desviou sua atenção de mim para olhar os meninos em volta. Todos estavam me dando suporte agora, e senti uma reconfortante onda de energia me revigorar por conta disso. Aproveitando seu momento de distração, investi contra ele, acertando com o pedaço de madeira em sua barriga e fazendo-o se curvar de dor.

— Maldito! — ele berrou, se levantando. — Vou matar você aqui mesmo!

Ele girou sua espada na minha direção, com a ponta passando a centímetros de meu tórax. Felizmente, consegui ser mais rápido, e enquanto ele se recuperava do recente golpe na barriga, acertei suas pernas com tanta força que minha espada se partiu em dois, voando lascas de madeira por todo o campo.

Os iniciantes urraram um grito animador, aumentando o tom de voz ainda mais, desta vez dizendo; "Acabe com ele! Acabe com ele!". Com o canto do olho, pude ver que estavam sendo liderados pelo menino que tinha tentado me defender no começo.

Cometi a burrada de olhar para eles, e isso foi o suficiente para sentir uma explosão de dor em minha nuca, e eu sair cambaleando para frente até finalmente cair no chão, quase desacordado. Minha visão estava turva e escura, e meus olhos pareciam que iriam sair das órbitas. Um vulto escuro pairou acima de mim, e vi que era Hugo, brandindo o cabo de sua espada em meu rosto, pronto para me desacordar.

— Não... — disse, com a voz fraca e falhando.

— Você deu mais trabalho que o esperado, Munikin. — ele disse, desdenhoso. — Por sua petulância, todos os iniciantes pagarão caro por terem te apoiado! — ele olhou para os meninos, que instantaneamente abaixaram seu tom de voz e se calaram. — Talvez darei um tratamento especial para aquele ali.

Vi que ele apontou para o menino que me ajudou, e aquilo foi a gota d'água para mim. Senti uma pequena chama em meu abdomen, que logo se transformou na sensação que senti no ritual de passagem; todo o meu corpo parecia estar em chamas, mas dessa vez era diferente. Ao invés de sentir dor, sentia que meu corpo estava sendo bombardeado com adrenalina.

Mesmo horas depois, eu ainda lutava para entender como fiz o próximo movimento.

Me concentrei, e canalizei toda a sensação de calor dentro de mim para meus punhos. Abri ainda mais os olhos, e meu mundo estava completamente vermelho, a anterior sensação de pânico nos olhos de Hugo tinha voltado.

— Voc... — ele começou, mas antes que pudesse terminar, eu desferi meu golpe.

Com uma força que eu não imaginava que tinha, acertei seu rosto com minhas mãos, e um barulho quase insuportável de explosão preencheu o local, deixando minha visão completamente branca e o sentimento de ardor ficar ainda mais intenso.

Quando tudo terminou, um silêncio mortal tomava conta do local. Todo meu corpo estava dolorido, mas me esforcei a levantar e olhar em volta. Minha visão já não estava mais vermelha, e a onda de adrenalina que antes senti tinha ido embora, junto com a sensação de ardor em meus pulsos.

Deitado, a mais ou menos cinco metros a frente, estava Hugo, completamente desacordado e com um buraco de queimadura em sua armadura que expunha seu tórax, como se alguém tivesse jogado lava líquida em cima. Balion me olhava com uma expressão assustada, seguido por todos os outros iniciantes no local que, felizmente, pareciam assustados mas intocáveis.

A pequena grama que estava a minha volta fora completamente chamuscada, deixando um perfeito círculo preto que me envolvia. Quando o susto passou, todos os meninos explodiram em murmúrios nervosos.

— Como ele fez aquilo?

— Quem é o pai dele, afinal?

— Você viu o corpo dele pegando fogo?

— Aquela explosão foi ele quem criou? — este último eu reconheci como sendo o menino dos cabelos longos e lisos.

Senti um alto barulho de faíscas ao meu lado, e quando me virei Buck estava de pé, me encarando. Conseguia notar raiva em seus olhos, mas isso não era tudo... ele não estava completamente com raiva de mim. Havia algo mais.

— Pensei ter mandado você ler as regras, Senhor Jack! — Buck disse, autoritário. — Não é permitido o uso de magia nos limites de nosso acampamento!

— Desculpe, eu.. — comecei, completamente confuso e cansado. — Eu não sei como fiz isso.

— Ah, vocês feiticeiros nunca sabem! — Balion interviu, apontando seus dedos gordos para mim. — Mas sempre fazem!

— Eu.. — meu tom de voz estava calmo e extremamente ameaçador. — Não sou um maldito feiticeiro.

— Claro! E eu não sou gordo! — retrucou.

— Deixe isso comigo, Balion. — Buck levantou a mão, o repreendendo. E, felizmente, isso foi o suficiente para fazê-lo se afastar de mim.

— Você vai mandá-lo para.. — Balion começou, com um tom de voz baixo.

— Sim. É o que irei fazer. — Buck o interrompeu.

— O que vocês estão olhando, moleques? — Balion gritou para os iniciantes. — Todos para seus alojamentos, já!

Uma fila de garotos completamente assustados e curiosos se dirigiu para fora do campo, me lançando um misto de olhares nervosos e admirados.

Quando já estavam bem longe, Buck se aproximou de mim, com um olhar penoroso.

— Ah, isso é ruim, Jack. — ele concluiu, após alguns segundos fitando o céu. — Muito ruim.

— O que exatamente isso significa? — perguntei. — Eu.. ter feito isso.

— Venha comigo. — ele pegou em meu braço. — Vai doer um pouco, mas é normal. Segure forte em meu braço.

Senti meu corpo sendo sugado de mim, com todos os meus músculos enfraquecendo. Por alguns instantes, pareceu que eu estava em queda livre, com um forte vento me envolvendo e sem apoio em meus pés. Mas, tão rápido quanto todas essas sensações vieram, elas foram embora.

Caí em algum lugar fofo e macio, de modo desajeitado. Minha cabeça doía ainda mais que antes, e se ficasse pior eu iria desmaiar de dor. Buck pegou em meus ombros e me ajudou a levantar para que eu pudesse olhar aonde estávamos, e a visão tirou meu fôlego.

Pense em um castelo completamente branco, com os tijolos polidos e completamente livres de sujeiras e rachaduras. Agora pegue este castelo, e o coloque em meio as nuvens, bem em cima no céu. Esta é minha visão.

Estávamos em um pequeno círculo de pedra que se ramificava em várias passarelas de mármore suspensas no ar, a quilômetros acima da superfície. Buck segurou em meus ombros e me guiou pelo caminho, com passos lentos e cuidadosos.

— Que lugar é esse? — perguntei, sem esconder a surpresa na voz.

— Aqui é Valhena. — ele respondeu, e senti meu estômago tentando digerir uma pedra. — A melhor escola de mágica do mundo.

Lembrei de Jeodio que, de acordo com Férion, tinha estudado neste exato local e conseguido produzir um dos feitiços mais avançados.

— E o que exatamente estou fazendo aqui? — perguntei, já sabendo da resposta.

— Pelo visto, cometemos um pequeno erro. Seu lugar não é em nosso acampamento. — ele apontou em direção ao castelo. — Aqui é onde pessoas como você devem desenvolver seus poderes.

— Meus poderes? Então está dizendo que.. — engasguei. — Eu sou mesmo um feiticeiro?

— Use o termo que quiser, criança. — sua voz carrancuda tinha voltado. — Feiticeiro, mago, bruxo, necromâncio.

— Harry potter..

— Como?

— Nada.

Quando chegamos nos portões, eles se abriram suavemente e sem produzir qualque espécie de ruído. Um senhor de idade, usando uma túnica branca e um cajado de madeira, se aproximou de Buck.

— Meu amigo! — o velho anunciou, animado. — Quanto tempo faz que eu não lhe vejo?

— Dezessete anos, mestre. — Buck respondeu, com um tom respeituoso. — A última vez que nos vimos foi na visita do mago vermelho a terra.

Os olhos do velho brilharam.

— Ah, sim, claro. Me lembro como se fosse ontem! — ele limpou a garganta, e pareceu notar-me pela primeira vez. — E quem é este garoto?

— Me chamo Jack. Ahn... senhor. — disse, nervoso.

— Me chamo Nicolau, diretor de Valhena e professor de invocação. — ele se apresentou, estendendo a mão.

— Eu vou estudar aqui? — perguntei, pegando em sua mão e trocando um caloroso aperto.

— Se Buck lhe trouxe aqui, provavelmente sim! — ele olhou de volta para Buck. — Faz tempos em que não recebemos um novo aprendiz!

— Você sabe como está difícil achar Munikins com sangue mágico nesses tempos. — ele disse, com um pesar na voz. — Acho que Jack será o único por pelo menos durante os próximos dez anos.

— Ah, mas você se engana, amigo! — Nicolau retrucou, contente. — Ontem mesmo Jeodio nos trouxe uma outra Munikin com aptidão para necromancia.

— Dois em um só ano? — Buck parecia verdadeiramente surpreendido. — Acho que o Mago Vermelho está nos abençoando.

Era constrangedor ficar parado ali, ao lado de duas pessoas, ouvindo-as tratar de mim como se eu fosse um presente para a terra, uma bênção que só aparecia uma vez a cada dez anos. Quer dizer, nem sequer popular na escola eu era.

— As coisas estão se agitando, Buck. — Nicolau começou, mas olhou para mim e se conteve. — É melhor terminarmo esta conversa lá dentro, não acha?

— Sim, claro. Acho que posso ficar para um chá. — Buck disse, adiantando-se na direção do portão.

Os segui, reparando no castelo. Era ainda mais surpreendente do lado de dentro. Um grande pátio se estendia do lado de fora, com uma fonte no centro que jorrava um líquido azul fluorescente. Um volumoso e extenso jardim encobria quase todo o local, com um caminho de pedras rústicas levando para a porta principal dos alojamentos no castelo.

— Moleque. — Buck me chamou, e me aproximei dele. — Sabe o que isso significa, certo?

— Não faço a menor ideia, para ser sincero. — admiti.

Ele deu um suspiro.

— Significa que eu estava errado. — ele disse. — Aparentemente, seu pai não foi um camponês que fugiu de Réuli e se apaixonou por sua mãe.

— Porque diz isso? — perguntei.

— Porque, pelo o que eu saiba, os Sete Grandes não andam por aí disfarçados como camponeses em Réuli.

— Meu pai é um dos Sete Grandes? — engoli em seco, surpreso.

— Espero que seja um deles. Se for um dos.. — ele começou, mas foi interrompido por Nicolau.

— Vamos, entrem! — ele abriu uma pequena portinhola que ficava ao lado da casa do ferreiro. — O chá ainda está morno.

— Lhe explico melhor depois, Jack. — Buck prometeu. — Agora, prove um pouco do chá de Nicolau. É o melhor chá dos Treze Mundos.

— Treze Mundos?

— Não lhe explicaram sobre os Treze mundos?

— Não.

— Bem... — ele estralou os lábios, pensativo. — Então também lhe conto isso depois.

Senti vontade de socá-lo na cara, mas imaginei que isso não seria muito ético de minha parte.