O Caduceu de Kanus

7 Capítulo 7 - Divido um mesmo corpo


A manhã do dia seguinte presenteou o castelo com uma leve e aconchegante chuva. O dia parecia perfeito para simplesmente continuar na cama, beber um chocolate quente, e ler um livro. Mas, infelizmente, eu tinha aula neste dia, e não podia ficar em minha cama me lamentando por não conseguir fazer nada por Milena.

No caminho para a sala, passei na enfermaria para ver o estado dela. Como se isso fosse possível, ela parecia ainda pior. Sua força vital parecia completamente sugada de seu corpo, e o único indício que ela ainda estava viva era uma respiração fraca e quase imperceptível.

— Eu irei tentar dar o meu máximo, Jack. — Balhena tentou me confortar, ao me ver em pé ao lado da cama. — Existem pessoas que conseguem sair vivas de um ferimento desse tipo. Sinto que Milena será uma delas.

Tentei acreditar nisso, mas algo dentro de mim dizia que ela não ia simplesmente se curar sozinha.

Um Nicolau tristonho e melancólico entrou na sala, carregando um pesado volume que eu nunca tinha visto antes. Tinha a capa felpuda, e podia jurar que as letras na capa pareciam ter sua luz própria.

— O que é isso? — apontei, percebendo que o título estava em língua anciã.

— Feitiços e conjurações para magos nível um. — ele disse, olhando para mim, seus olhos apagados e sem emoção. — Devido as circunstâncias, você precisará aprender a se defender o quanto antes.

A raiva subiu em minha cabeça.

— Hey! Não pense que Milena se feriu pois não soube se defender. — me levantei da carteira, elevando meu tom de voz. — Se não fosse por ela, estaríamos ambos mortos!

Pensei que Nicolau iria gritar comigo. Mas ele apenas balançou a cabeça em concordância.

— Ela é uma Ergun, no fim das contas. — ele explicou, sentando-se em sua cadeira. — E isso é um péssimo sinal, Jack. Erguns têm a habilidade de se transformar em qualquer animal que desejarem, e isso é uma habilidade muito, muito perigosa. Até mesmo para os próprios deuses.

— Alguém conseguir se transformar em um tigre é uma ameaça para os deuses?

— Ah, mas não é apenas isso que alguns conseguem fazer. — Nicolau limpou sua garganta com uma tosse. — Pense bem, Jack. Milena nunca teve um treinamento apropriado, e conseguiu se transformar em um tigre que, de acordo com sua descrição, era extremamente poderoso. Pense em ques tipos de animais ela poderia se transformar com o treinamento certo.

O entendimento atingiu minha cabeça como uma pancada.

— Ela poderia se transformar... em monstros? — perguntei, súbitamente me lembrando da variedade de nomes de monstros que existiam nos treze mundos, cada um pior que o outro.

Sua expressão escureceu.

— Sim, Jack, ela pode. — ele respondeu, se levantando. — Isso geralmente não iria trazer muitos problemas para os deuses. Mas existe um monstro em específico que tem o poder de destruir os treze mundos caso voltasse a vida. — ele escreveu um nome completamente estranho no quadro. — Um Ergun poderia ter a habilidade de se transformar nesse monstro. Ainda não sabemos com total certeza, pois isso nunca aconteceu, mas os deuses não querem correr esse risco.

Estreitei os olhos para conseguir traduzir o nome. Estava escrito na língua anciã, mas com muito esforço consegui traduzir.

Cthulhu.

— Eu... — engoli em seco. — Já ouvi falar desse nome.

— Um monstro com essa força não pode ser escondido dos Hérezis. — ele desenhou o que seria a aparência do monstro no quadro. Um ser enorme, com asas esqueléticas e uma boca recheada de tentáculos. — Quando os primeiros Herézis descobriram sobre sua existência, meramente por causa de seu poder que emana em Réulinjin, ele quase ameaçou ser despertado. A consciência de sua existência trouxe forças para ele, e foi somente com a aliança entre deuses e magos que ele foi impedido de acordar e trazer o caos para os treze mundos.

— Os magos precisaram intervir? — perguntei, atônito. — Mas se os magos criaram o universo, porque fizeram uma criatura assim?

— É aí que entra a parte realmente misteriosa sobre esse ser. — ele respondeu, me encarando. — Ele não foi criado. Sua existência se antecede a existência de todo o universo em si. Ele é uma força tão primitiva que é o único monstro em toda Árvore de Ijimin que pode, de fato, matar os magos.

Os cabelos de minha nuca se eriçaram.

— Então você está me dizendo que Milena poderia se transformar nele? — me ajeitei de volta para minha carteira. — Isso parece muito poder para uma pessoa só.

— A questão é que nem sempre Erguns tem poder sobre suas próprias transformações. — ele sentou-se, cansado, em sua pequena cadeira no palanque. — Cthulhu é uma força poderosa o suficiente para fazer Milena trabalhar em seu próprio benefício.

— Então é por isso que o mago cósmico não nos ajudaria?

Pela primeira vez, Nicolau pareceu pesaroso e assustado, como se desejasse estar em todos os lugares menos ali.

— É exatamente por isso que o Mago Cósmico nos ajudaria. — ele se levantou. — E é por isso que não podemos permitir que você vá atrás dele, Jack.

A famíliar sensação ardente se reacendeu dentro de mim, viajando por todos os meus membros. Antes que eu tivesse chance de fazer qualquer coisa, Nicolau fez um gesto com suas mãos e me vi preso por cordas invisíveis, exatamente como em meu pesadelo.

— Estamos fazendo isso para lhe impedir de fazer algo que não pode ser desfeito. — ele disse, com uma voz grossa e cortante. — Não nos veja como inimigos. O verdadeiro inimigo é os que vivendo no centro da árvore.

— O décimo terceiro mundo? — perguntei, com os dentes cerrados.

— É o lar dos magos, evidentemente. — ele se aproximou de mim, uma barba recém-aparada em seu queixo sugerindo um suspiro. — Atualmente é o local aonde está acontecendo a Guerra da Tríplice Miticidade.

— Guerra da Tríplice Miticidade? — perguntei. Riria do nome se não estivesse preso.

— É o que chamam. É uma guerra que tem o poder de destruir os treze mundos, Jack. Se o Mago Cósmico não for contido e conseguir, de fato, invocar Cthulhu, estamos todos condenados. — Nicolau fez um arco com os braços, apontando para toda a sala em volta. — Cthulhu simplesmente iria engolir tudo o que conhecemos e vivemos. Ele é tão imenso que sequer tem uma medida de altura certa, e os poucos que o víram nos Dias de Aurora não estão com uma mente sã para nos dizer.

— Dias de Aurora?

— Os tempos em que a Árvore estava se formando. — ele balançou a cabeça. — Não temos tempo para terminar esta aula. Preciso escoltá-lo de volta para seus aposentos. Precisamos assegurar que você não fará nada de estúpido, mas se você colaborar não iremos precisar lhe manter como um prisioneiro por muito tempo.

— Então é isso que estão fazendo? — cuspi. — Me mantendo como prisioneiro?

— É para seu próprio bem. — ele mordeu a língua, seu rosto carismático desaparecendo aos poucos. — Não podemos deixar algo tão poderoso quanto Milena continuar vivo em tempos como esse.

A chama ardendo dentro de mim foi embora tão rápida quanto veio. Tentei reacendê-la e socar a cara de Nicolau ali mesmo, mas sabia que isso não adiantaria de nada.

Os guardas de armadura púrpura — que eu ainda não sabia exatamente seus nomes — me escoltaram de volta para meus aposentos. Mas, desta vez, não encontrei conforto em minha cama, ou sequer fiquei impressionado com a vista que a janela me proporcionava. Sentia como se as paredes estivessem me pressionando, fazendo minha cabeça ficar tonta e longe dali.

Nos primeiros momentos, soquei as paredes com força na tentativa de fazer a chama reacender. Joguei meus travesseiros no ar, tentei rasgar meu pesado cobertor de lã, e até mesmo tentei quebrar a porta do guarda-roupa — que tinha sido perfeitamente consertado desde meu encontro com o Kelitus.

Ela salvou a minha vida, e agora eu não posso salvar a dela, pensei. Este pensamento entrava em minha mente, envenenando todo o meu corpo com uma sensação incômoda e horripilante de impotência.

Um servo fantasmagórico entrava periodicamente em meus aposentos, me trazendo uma bandeja cheia dos mais variados tipos de comida. Na terceira vez em que tentou me fazer comer, desistiu e não entrou mais no meu quarto.

Não lembro de ter deitado, e muito menos de ter adormecido. Mas, quando abri os olhos novamente, eu estava em uma versão do meu quarto completamente diferente. Tudo continuava lá, os mesmos móveis em seus mesmos lugares, mas alguma coisa estava diferente; algo completamente novo e poderoso.

Olhei para os lados na esperança de encontrar alguém. No instante em que olhei para o meu próprio corpo, soube que era um sonho; eu não era Jack Holistan, mas sim Buck. Fui até um largo espelho na porta de meu guarda-roupa, e vi os seus olhos cor magma cintilando contra a luz do luar que entrava por minha janela.

— Buck? — perguntei. Me sentiria estúpido por estar falando comigo mesmo, mas de algum modo eu sabia que, naquele sonho, este corpo não pertencia somente a mim.

— Jack. — um eu completamente diferente respondeu. Meus lábios se mexeram sem eu sequer notar, e a voz saiu de mim em um movimento totalmente involuntário. — Desculpe se esta é a única maneira que tenho para lhe contatar. Mas você precisa partir.

— Como irei fazer isso? — perguntei. Em qualquer outra ocasião, teria achado cômico estar conversando usando uma voz tão aguda e estridente como a de Buck. — Estou sendo mantido como prisioneiro.

— Eles lhe subestimam, garoto. — seus olhos cintilaram. — São cheios de si, e garantem que nunca irá conseguir sair desse lugar. Use essa arrogância a seu favor.

— Se eles pensam que eu nunca saírei desse lugar, então é porque eu nunca vou sair. — respondi, soando velho e cansado. — Quer dizer, esta é Valhena, afinal, a melhor escola de mágica do mundo. Que chances eu tenho?

— Você tem todas as chances, Jack. Só precisa pegar uma delas. — meu corpo involuntariamente começou a se mexer. Era estranho, como se eu estivesse sendo carregado por alguém. — Você irá precisar fazer um feitiço de transporte. Concentre todo o seu chi em suas mãos, e profira as seguintes palavras; Lenito Kakum.

— Lenito Kamum. — repeti. — O que isso significa?

— Não temos um significado para isso na língua Munikin. Ela apenas existe, e serve para este propósito. Lembre-se de focalizar exatamente o local aonde quer ir, e se prepare, pois um feitiço assim demanda muita energia.

— O que é exatamente o meu chi? — perguntei, talvez já sabendo a resposta.

— Varia para muitas pessoas. Algumas sentem um formigamento em seu corpo, outras não sentem absolutamente nada.

— No acampamento em Réuli, senti meu corpo queimando em chamas quando fiz aquela explosão na luta com Hugo. É isso o meu chi?

Meus olhos — ou melhor, os olhos de Buck — brilharam ainda mais ao se virar novamente para o espelho.

— Então seu chi se manifesta assim? — ele coçou a barba. — Muito intrigante. Esta é a forma mais poderosa do Chi se manifestar. Se realmente sente isso, então fazer este feitiço não será problema para você.

— Que lugar devo focalizar minha mente para ir? — perguntei, confuso.

— Acredito que Milena tenha lhe falado sobre a viagem entre os galhos de Ijimin.

— Sim, ela me disse isso. Mas também me disse que era apenas para seres místicos, ou algo assim.

— Existe uma maneira de você viajar sem ser um deus, ou um mago. Você precisa focalizar sua mente no palácio principal que viu lá em Réuli. — ele disse, desenhando no ar o que imagino eu ser o castelo.

— Quando fui em Réuli, Férion me disse que eu nunca precisaria entrar naquele castelo se tivesse sorte. — me lembrei.

— E isso continua sendo verdade. Mas, infelizmente, sua sorte não é das melhores, e você vai precisar entrar.

— Quem mora lá?

Mas, antes que eu pudesse ter qualquer resposta, o sonho dissolveu-se em uma nuvem preta e difusa, e acordei em meu quarto com um sobressalto. Consegui destinguir alguém parado a minha frente, e esfreguei meus olhos para conseguir ver melhor.

O machado de dois gumes em suas costas me fez reconhecê-lo imediatamente.

— Olá garoto! — Jeodio veio em minha direção com passos pesados e longos. — Vejo que você subiu na vida, não? Eu sabia que tinha sentido uma aura de poder em você no ritual de passagem! — ele me deu um abraço de urso, sua barba cheirando a peixe e cebola.

— Jeodio? O que está fazendo aqui? — me levantei da cama, o sonho ainda lívido em minha cabeça.

— Soube o que aconteceu com Milena. — sua expressão súbitamente tornou-se misteriosa. — Você precisa ser forte, rapaz. Isso já aconteceu comigo uma vez; apaixonei-me por uma maldita Ergun, e no final ela foi arrancada de meus braços. Jurei destruir os responsáveis por isso, e consegui, mas no final eu percebi que eles estavam certos. Pessoas com essa habilidade não podem andar pelos treze mundos, e nem pelos treze que virão depois destes.

Cerrei meus punhos. Queria socá-lo na cara, mas seu machado tirou um pouco do meu ânimo de fazer isso.

— Você não entende. — meus dentes estavam fechados de agonia. — Ela não tem culpa por ter nascido assim! Vocês deveriam ficar felizes por isso, pois se o que Nicolau me disse é verdade, seria ótimo ter um Ergun como um aliado!

— Ah, mas é claro que seria uma vantagem. — ele sentou-se na minha cama, limpando um pedaço de arroz de sua barba. — Mas até quando essa lealdade duraria? Até quando o Ergun estaria do nosso lado, e não no do inimigo?

— Vocês não podem matá-la por uma mera suposição! — gritei.

— Ninguém irá matá-la, meu caro amigo. — ele disse, as sombrancelhas erguidas em alerta. — Se ela sobreviver a este ferimento por contra própria, então os deuses tem um propósito para mantê-la viva. Mas aço cósmico é algo muito difícil de se sobreviver. Ele age lentamente, mas muito dolorosamente. Começa entrando em suas veias, depois lhe impede de sequer pensar. E, nos últimos dias, tudo o que você deseja é morrer logo de uma vez.

— Quanto tempo levará para ela chegar a estes últimos dias?

— Cerca de uma quinzena. Como eu disse, o aço mata muito lentamente. Talvez vinte, pois o seu corte não fora muito profundo, mas eu não diria mais que isso.

— Obrigado. — fiz uma irônica reverência.

— Não faça nada estúpido, garoto. Você não é tão poderoso assim.

Você que pensa, velhote, pensei. Mas não disse nada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.