O Caduceu de Kanus

5 Capítulo 5 - Outra dimensão não me faz menos burro


A vida em Valhena era substancialmente mais agradável do que no acampamento. Meu alojamento ficava em uma enorme suíte na torre ao extremo direito, com uma visão de tirar o fôlego para uma cidade que, mais tarde, descobri que era Los Angeles. Havia uma cama de casal no centro, com grossos cobertores de peles, e a direita o maior guarda-roupa que eu já vira, com quase dois metros de altura e cinco portas, feito de madeira maçica.

A rotina, pelo menos nos primeiros meses, baseava-se em um farto café-da-manhã no refeitório; um grande salão cruzado por uma mesa imensa de sessenta lugares, iluminado por archotes que lançavam uma luz âmbar no rosto dos presentes. Após as oito horas, eu e Milena — a única outra aprendiz no castelo inteiro — nos dirigíamos para uma sala de aula, aonde passávamos quase o dia todo ouvindo sobre a história de Réuli, Valhena e os Treze Mundos.

— No momento da criação, treze mundos foram gerados, separando-se um do outro e, mais tarde, sendo ligados pela Árvore de Ijimin. — Nicolau explicou, desenhando em um quadro negro um pequena esquema que mostrava como era a árvore, e em que posição estava cada mundo. — Nós estamos aqui, em Réulinjin. — ele apontou para o planeta que ficava em um dos galhos superiores da árvore.

— Réulinjin? — Milena perguntou, uma expressão de dúvida no rosto. — Este nome vem de Réuli?

Os olhos de Nicolau brilharam, e ele deu uma tímida palma em aprovação.

— Exatamente! São poucos que conseguem ver essa ligação, senhorita Milena. — não pude deixar de me sentir um pouco enciumado.

Milena olhou para mim e sorriu, seus cabelos dourados e cacheados soltos, caíndo em seus ombros, e seus olhos azuis me fitando. Na mesma hora me senti estúpido por ter sentido ciúmes.

A noite, sentávamos eu e Milena no refeitório, durante o jantar, com um grosso volume em mãos entitulado; "GUIA DEFINITIVO PARA MUNIKINS DE PRIMEIRA VIAGEM!", e passávamos quase a noite toda revisando a matéria vista no dia.

Não pude deixar de sentir uma extrema saudade de minha mãe. Queria perguntar para Nicolau se tinha alguma maneira de eu entrar em contato, mas não fazia ideia do que falar caso conseguisse. Eu não poderia ligar para ela e falar; "Oi, mãe, então.. estou em um mundo totalmente novo que ninguém sabe que existe! Mas, hey, tô de boa."

— Algo lhe preocupa? — Milena perguntou, notando meu ar melancólico.

— É só minha mãe. — suspirei. — Não tenho notícias dela desde que... descobri isso tudo.

— Ao menos você tem alguém com quem se preocupar no mundo dos Hérezi. — respondeu, com um tom machucado na voz.

— Você não tem família?

Ela me encarou, e pude ver em seus olhos azuis que ela não queria falar sobre o assunto. Me ajeitei na cadeira, e voltei a focar minha atenção no livro.

— Como eu vou memorizar isso tudo? — mudei de assunto, e vi que ela sentiu-se grata por isso. — Quer dizer... eu não vou lembrar o nome dos treze mundos.

— É muito fácil, Jack. — ela disse, se inclinando e passando a mão sobre meu livro. — Os que fazem parte dos galhos de cima da árvore terminam com jin. Gueujin, Mijin, Briojin, Kelojin, Réulinjin e Volikinjin.

— Pare por um momento. — disse, brincalhão, levando a mão à cabeça. — Estou começando a ficar tonto com esse tanto de nome.

Ela riu.

— O décimo terceiro mundo fica exatamente no meio. — ela apontou para um tronco grosso da árvore que fazia parte de sua estrutura. — Nicolau não quis me revelar o nome, e nosso livro não diz nada sobre. Então imagino que seja algo restrito.

— Os que fazem parte dos galhos de baixo terminam com Mun. — ela passou sua mão sobre os seis outros planetas abaixo de nós. — Biomun, Céomun, Querimun, Xylomun, Zitromun e Necamun.

— Se você falar eles rápido o suficiente... — notei. — Parece que está mugindo igual uma vaca.

Ela estava usando óculos redondos e proporcionais a maça de seu rosto, e por trás dele pude ver que ela sentia-se confortável em minha presença.

— Você tem uma maneira estranha de ver as coisas, Jack. — ela observou, voltando a atenção para seu próprio livro.

— Acho que nesse mundo em que estamos, nada é considerado estranho. — súbitamente me lembrei de uma coisa importante. — Como você descobriu seus poderes?

Por um momento, achei que ela iria limitar-se a olhar para mim e encerrar o assunto, mas ela se mexeu distraídamente em sua cadeira, e pensou por alguns segundos.

— Eu estava voltando para... casa. — ela vacilou por alguns momentos na palavra casa. — E fui atacado por um Gornen.

— O que é um Gornen? — perguntei o nome totalmente estranho para mim.

— Pelo o que eu pude ver, é uma espécie de cobra gigante com pés de centopéia. — ela respondeu, estreitando os olhos para se lembrar da imagem. — Nada bonito de se ver.

— Eu imagino.

— Enfim.. — ela pegou um copo de água que estava na sua frente e tomou uma generosa golada. — Senti como se meu corpo estivesse congelando, como se várias pessoas encostassem um cupo de gelo na minha barriga. E, antes que pudesse me dar conta, tinha congelado o Gornen completamente.

— Você derrotou sozinha seu primeiro monstro? — perguntei, admirado, lembrando que eu não estaria aqui se não tivese sido salvo por Gary e Izabel.

— Não diria que fui eu. Mas sim os meus poderes.

— Bem, eles fazem parte de você, então...

— Sua vez. — ela interrompeu. — Conte-me como descobriu seus poderes.

— Em uma briga, basicamente. Eu já estava dentro de Réuli quando tudo aconteceu, e senti mais ou menos o que você sentiu. — expliquei, gesticulando na direção de minha barriga. — Mas, ao invés de uma sensação congelante, senti que meu corpo estava queimando de dentro pra fora.

— Interessante... — ela franziu as sombrancelhas. — Gelo e fogo. Dois pólos térmicos.

— Dois o que?

Ela revirou os olhos.

— Pólos térmicos, bobão. — me deu um soco brincalhão no ombro. — Estudar nunca foi seu forte né?

Me espreguiçei na cadeira para provar o ponto dela.

— Ah, você sabe... — comecei, um pouco envergonhado. — Eu nunca fui muito bom com essas coisas. Todas as vezes em que eu parava de frente um livro para aprender teoricas e termos, minha cabeça voava para outro mundo.

— Então eu tenho uma teoria.. — ela segurou um lápis entre os dedos. — Tudo o que você está vendo e presenciando desde Réuli é, na verdade, um mundo fictício. Você só caiu no sono enquanto estava estudando. — um sorriso zombeteiro invadiu seus lábios.

— Ah, eu bem queria que fosse. — isso era, em parte, mentira. Fora a minha total escuridão sobre como está minha mãe, esta nova vida é uma melhora da minha antiga. Muito mais ação ocorrendo e, hey, eu até consegui vencer um valentão.

Havia poucos moradores no castelo; além de mim e Milena, apenas Nicolau — nosso professor teórico — e Horácio — que seria o nosso futuro professor prático. Dois guardas vestidos com uma armadura púrpura guardavam os portões principais, ao lado de um anão gorducho e barbudo que trabalhava nas forjas. Alguns servos rondavam o local mas, de uma forma bem traumatizante, descobri que eram fantasmas. Deviam algo para o magos, e por isso serviriam em Valhena até sua dívida ser paga.

As visitas, entretanto, não podiam ser mais frequentes. Quase toda semana conseguia ver Jeodio — que, por algum motivo, não me reconhecia — e um mercador misterioso e macabro que fazia comércio de especiarias para o castelo. Nicolau tinha me dito, em um particular dia que me pegara olhando, que ele vendia temperos para as cozinhas. Mas, mais tarde no mesmo dia, discuti com Milena que nunca vira um tempero com cor verde-fluorescente.

— Quando teremos aulas práticas? — Milena perguntou, na aula do dia seguinte.

Nicolau ergueu seus óculos meia-lua e a encarou nos olhos. Por experiência, eu sabia que isso era o equivalente a uma bronca.

— Magia é uma arte muito perigosa. — ele explicou, andando em torno de seu pequeno palanque ao lado do quadro negro. — É volátil, traiçoeira, e irá lhe controlar se você não controlar ela. Temos que garantir que você irá dominá-la, e não o contrario. Se não..

— Se não o que? — perguntei, notando sua expressão de dor.

— Continuemos com nossa aula. — ele se esquivou de minha pergunta com um sorriso fraco. — Estávamos falando sobre a guerra que se antecedeu a ascensão dos deuses.

— Quando iremos falar sobre os magos? — interrompi, antes sequer de conseguir me conter.

— Como você provavelmente já deve ter ouvido em Réuli, senhor Jack.. — ele largou um grosso livro que estava segurando. — Conhecimento é a arma mais perigosa.

— Como sabe que eu já ouvi isso?

Seus olhos brilharam.

— Férion lhe contou. Ele já estudou aqui, e ouviu esse ditado exatamente de mim.

Meus cabelos se eriçaram. Alguma coisa em sua fala me deixou em alerta, como se eu estivesse esperando o time inimigo na queimada lançar a bola.

— Ah. — foi tudo o que consegui responder.

Milena estava com a cabeça abaixada, anotando alguma coisa em seu caderno, totalmente alheia a nossa conversa.

— Como eu ia dizendo.. — Nicolau elevou sua voz para chamar a atenção dela. — Os Herézis tem até um nome para ela.

— Guerra de Tróia. — Milena respondeu, excitada.

— Exatamente, senhorita Milena. — ele começou a escrever alguns nomes no quadro negro. — De acordo com a versão Hérezi, o rapto da Helena de Tróia fora o estopim da guerra. E está certo, claro, mas é muito mais profundo que isso.

"Entendam uma coisa, meus caros. Na noite em que os gregos enganaram os troianos, magias muito poderosas se despertaram. Quando Odisseu arquitetou seu plano de enganar os troianos com o gigante cavalo de madeira, surgiu o primeiro pilar para o poder imortal; a engação. Aquiles, quando fora morto com uma flechada no calcanhar, despertou a fraqueza."

"Na noite em que inúmeros troianos foram massacrados ainda em suas camas, surgiu-se o pilar que, mais tarde, originaria-se no deus da guerra; a violência. Com esses três pilares fundidos, reunindo todas as maldições do ser humano, surgiu-se os Sete Deuses."

— Então está dizendo que os deuses surgiram a partir de coisas ruins? — perguntei.

— Você irá descobrir, eventualmente, que as forças negativas do universo são muito mais poderosas, Jack. — Nicolau explicou, me encarando nos olhos. — Mas elas vêm com um preço alto demais a se pagar.

— E qual seria esse preço? — arrisquei.

Ele limpou a garganta com uma tosse, como se estivesse decidindo se deveria ou não me contar.

— Como eu disse, Jack. Saber das coisas é perigoso. — ele respondeu, previsívelmente. — Só me faça perguntas nas quais esteja preparado para as respostas.

Imaginei que aquilo seria o máximo de informação que conseguiria arrancar dele naquele dia.

— Como é do saber de todos, existem sete deuses principais. — ele começou, escrevendo no quadro seus nomes. — Também temos alguns deuses menores, claro, mas eles não serão relevantes para a aula de hoje.

— O primeiro, e o mais importante deles, é Kanus. Ele é o Deus dos Quatro Elementos. — desenhou no quadro um esquema simples para representar o fogo, ar, terra e água. — Toda matéria orgânica existente nos treze mundos é controlável por ele.

Um pequena esquema estava feito, com um quadro dizendo o nome do deus e sua função na frente.

"Kanus — Deus dos quatro elementos.
Vera — Deusa da paz.
Teônio — Deus da guerra.
Yutus — Deus da sabedoria.
Hujimin — Deus da enganação.
Asmovi — Deusa do superficial.
Jintek — Deus da fraqueza. "

Anotei todos os nomes em meu pequeno caderno de anotações, sabendo que precisaria estudá-los bastante até conseguir decorar todos.

— Isso é tudo por hoje, meus caros Munikins. — ele finalizou a aula, estralando os dedos e fazendo uma pequena xícara de chá aparecer em suas mãos. — A propósito, não tentem fazer isso que eu fiz agora. Estritamente proibido para alunos, iria esgotar nosso estoque de café em uma semana.

Rimos, e o acompanhamos para fora da sala.

A noite, pensamentos sobre minha mãe invadiram minha mente e me impediram de dormir. Uma vela fraca e âmbar era toda a luz que tinha em meus aposentos; apesar de termos eletricidade, alguns costumes Nicolau insistia em manter. Olhei para uma grande janela ao lado de minha cama, observando as estrelas e desejando saber o nome das constelações.

— Sinto sua falta, mãe. — disse, baixinho, para mim mesmo.