O Caçador da Morte: O Acordo

2 Capítulo 01 - A Morte Vem de Caminhão


Notas iniciais
Olá, esse capítulo é um pouco maior, mas espero que aproveitem a leitura mesmo assim!

Quando Marcus Tomás Borges Albuquerque acordou naquela manhã de quarta-feira, ele nunca imaginou que iria morrer. Na realidade, ele estava mais preocupado com a nota da prova de matemática que tinha feito na semana anterior. Ele acordou naquela manhã tendo a certeza que tinha errado a questão cinco da prova. Marcus com certeza não acordou imaginando seu fim trágico.

Porém dizem que os melhores dias são aqueles que acontecem as coisas mais inesperadas, apesar de que Marcus teria dificuldade de enxergar onde está o lado positivo em ser morto. Não que ele soubesse que iria morrer. Ele não sabia, por isso não faz sentido falar disso agora.

Enquanto termina de vestir o uniforme, ele só conseguia pensar na questão cinco da prova, ele tem certeza que a resposta era negativa, menos treze, ele repetia para si mesmo, mas também tem quase certeza que colocou apenas treze na resposta final e isso o faria perder alguns pontos na questão, até mesmo zerar a questão inteira, já que a professora de matemática do colégio era uma verdadeira bruxa.

Marcus estava tentando não surtar com isso, mas era quase impossível. Ele é ansioso demais quando se trata de suas notas, principalmente levando em conta que ele odeia estudar e faz isso com muita frequência. A possibilidade de uma recuperação o deixa aflito, mas isso nunca aconteceu em todos os seus anos escolares, ele tem um boletim perfeito, nunca com notas abaixo de nove. Um futuro com recuperação só existia na cabeça ansiosa do garoto.

Ele terminou de colocar o uniforme e se sentou em uma cadeira para pôr seus tênis, fazendo tudo no automático. "Não adianta ficar nervoso antes da hora" ele pensou. Mas é obvio que aquilo não adiantaria até a hora em que tivesse com o exame em suas mãos e confirmasse suas suspeitas de que foi desligado e burro e então se afundaria em matemática para se castigar com o estudo. É assim que funciona.

— Marcus! — ele ouviu sua mãe o chamar e virou um pouco a cabeça em direção a porta fechada do seu quarto, saindo de seus devaneios. — Anda logo! Vai perder o café da manhã.

Ele revirou os olhos, mas não respondeu, apenas focou no Led Zeppelin que toca em sua caixa de som. A mãe dele é psicóloga, não ligaria para o ato rebelde.

Quando a mãe do menino se cansou e ele ficou apenas com o som da banda, Marcus voltou a sua rotina matinal de se alimentar com ansiedade e nervosismo dando uma volta no quarto antes de voltar para frente do espelho e encarar o reflexo, encontrando o seu eu de quinze anos.

Marcus tem expressões neutras e belos olhos castanhos escuros mostrando ansiedade que ele guarda consigo desde... bem... desde sempre. A pele bronzeada com algumas espinhas típicas da puberdade, os cabelos cacheados castanhos livres e caindo pelo rosto, sinal que precisa cortar, olhos castanhos escuros e os lábios avermelhados se mexendo enquanto ele masca chiclete. Ele se encarou por tempo o suficiente para uma música acabar e começar outra, até finalmente pegar seu casaco e amarrar na cintura

O rapaz fez uma careta para o uniforme da sua escola, um short tactel preto até um pouco acima do joelho, camisa branca com a gola e as pontas da manga de verde — a cor da escola — e o brasão do lado direito da camisa. O tênis é livre, contanto que fosse preto, branco, cinza ou verde, Marcus tinha o bom senso de usar um all star preto comum, contudo muitos meninos iam com aquelas chuteiras fluorescentes horrorosas se achando algum tipo de jogador de futebol ou algo assim. Ele não desgostava ou gostava do uniforme, era padronizado e o menino preferia usar isso do que ficar pensando em uma roupa pra vestir todos os dias.

Depois de parar de se encarar, Marcus foi até sua escrivaninha e se sentou. Na mesa tem sua redação (treinamento para o vestibular e isso ele não gosta nem um pouco), seu notebook aberto no Twitter, o estojo com as canetas para fora e o celular vibrando com mensagens dos seus amigos. Ele arrumou o material enquanto ignora as mensagens e lê sobre alguma idiotice na rede social. Um meme ruim tirou o primeiro sorriso do dia dele, que sumiu no momento em que batidas raivosas na porta o tiraram sua atenção, contudo ele nem fez esforço para virar a cabeça.

— Marcus! Desliga essa porcaria e desça para o café! Agora! — o garoto ouviu a voz do seu pai, que não é psicólogo, então não era tão paciente com as rebeldias do filho.

Porém ele não liga, então ignorou novamente. A voz raivosa do pai de Marcus sumiu por cima da guitarra da banda de rock e seus pensamentos e ele continuou a arrumar sua mochila sem preocupação com o horário.

Marcus nunca foi muito de falar sobre nada com ninguém. Ele é bem quieto e sério em comparação ao restante da família e é difícil para seus pais entenderem essa personalidade distante e fria do filho mais novo. A mãe de Marcus constantemente quer o levar para o psicólogo e o pai tenta o educar à moda antiga, sendo duro com ele. Entretanto, a única coisa que Marcus quer é ter um pouco de paz enquanto se arruma para a escola, é o jeito dele e não deveria ser algo difícil de entender.

Contudo, o garoto sabe que é difícil, que os pais ficam preocupados que Marcus não age que nem os irmãos mais velhos. E isso o irritava um pouco.

A música finalmente acabou e com o material arrumado ele não tinha mais desculpas que o permitiam ficar no quarto além do horário, então Marcus desligou tudo, colocou o celular no bolso e saiu do seu conforto para a vida real.

Assim que chegou à cozinha, o garoto encontrou sua irmã e seu irmão mais velho brigando e seu pai reclamando dele para a mãe.

— Todo dia ele faz isso! Não respeita mais a gente, ele tem que seguir o horário! — O homem esbravejava. — Senão essa casa vira uma bagunça!

— Querido, sabe como o Marcus é, ele faz isso todas as manhãs, temos que respeitar o espaço dele. — A mulher tentou argumentar.

— E ele tem que respeitar nossas regras! — ele se virou irritado para a mesa onde os mais velhos estão. — Dá para calarem a boca?

Aqui está mais um motivo de Marcus enrolar todas as manhãs para descer para o café. Ele gosta de paz e é uma coisa que sua família não entende.

Primeiro o mais novo avaliou o pai, Miguel Albuquerque, cinquenta e três anos, um homem alto, com uma barriga presa pela roupa formal do trabalho, pele escura, olhos castanhos e cabelos que estão sempre baixos, já aparecendo alguns fios brancos. Ele passa a maior parte do tempo sério ou irritado e Marcus não se lembra de como é o sorriso do pai nem se forçar muito, se é que ele já sorriu alguma vez. Miguel trabalha como engenheiro em uma empresa de petróleo e como ele está sempre reclamando do trabalho Marcus imaginou que esse também fosse um dos motivos da irritação do pai.

Depois o garoto olhou para sua mãe, Helena Borges Albuquerque, quarenta e sete anos, baixa, cabelos lisos e loiros presos em um rabo de cavalo, pele clara com bochechas vermelhas e olhos cor de mel que brilham quando batem no sol. Ela é muito bonita e Marcus sente um pouco mais de afeto por ela do que pelo pai, talvez por lembrar do sorriso caloroso da mãe e não de gritos. Apesar disso, ele também foge da mãe, Marcus tem a impressão que a mulher fala com ele como se Marcus fosse algum de seus pacientes, e isso o irrita também. Marcus não é um paciente, ele só quer que Helena aja como mãe normal algumas vezes.

Mas ele não podia reclamar, sabe que existem pais muito piores que os seus. Contudo, sobre os irmãos, ele sabe que existem melhores. Marcus tem a impressão que ele e os irmãos só gostam um do outro, porque são irmãos e que eles tivessem que conviver juntos sem o fator laço sanguíneo, provavelmente não se gostariam.

O mais velho é Heitor Albuquerque, de dezenove anos, é uma cópia de Miguel, mas tem os olhos de Helena. Ele foi muito popular quando estudava na escola e agora é bem popularzinho na faculdade. Heitor estuda Engenharia Mecânica e é o orgulho e alegria dos pais. Já a irmã do meio é Mariana Albuquerque, de dezessete anos, é a cópia da mãe, mas com os olhos do pai, ela está no terceiro ano do ensino médio e estuda muito para o vestibular, pois quer fazer medicina. Marcus tem a impressão que ainda vai ver a irmã fazer cursinho para vestibular por um tempo, mas mesmo a achando irritante, é claro que ele não fala isso para ela.

Eles três são bem diferentes em quesito personalidade, Marcus mais do que os mais velhos. Heitor e Mariana fazem mais do tipo alegre, popular, fazem a festa. Marcus sempre foi mais sério e fechado. Era complicado. Ainda assim, os mais velhos brigavam muito.

— Ah! Apareceu! — Miguel exclamou para o filho mais novo assim que os dois mais velhos pararam de brigar. — Decidiu descer? Já que aparentemente é você quem faz as regras por aqui.

— Bom dia para você também. — foi o que Marcus se limitou a dizer, colocando a mochila no canto e sentando-se à mesa, não fazendo questão de cumprimentar os irmãos.

— Está vendo, Helena? Somos moles demais com ele! Por isso fica agindo assim. — Miguel apontou para o garoto, totalmente indiferente arrumando o café da manhã, deixando o chiclete de lado.

— Calma Miguel — a mulher pediu e também sentou-se à mesa. — Marcus?

— Hum?

— Nada de "hum" — o pai falou irritado. — "Sim, mãe" ou "Sim, senhora."

Ele revirou os olhos.

— Sim, mãe? — Marcus perguntou tentando segurar a ironia.

— Seu pai e eu já não falamos para você que tem que descer no horário combinado para o café da manhã? — Helena perguntou calma. — Então por que continua desobedecendo?

Ele suspirou e olhou para a mãe.

— Porque eu quero.

O garoto realmente pensou que fosse matar seu pai naquele momento.

— Está vendo Helena? Isso que dá deixar ele fazer o que quer! — Miguel vociferou e a mulher suspirou, com o óbvio pensamento que as coisas seriam mais fáceis se o filho mais novo fosse igual aos dois mais velhos. — Afinal, o que você faz tanto nesse quarto? Se deixar fica o dia inteiro nele.

— Nossa que perturbação porque eu desço cinco minutos depois do horário — Marcus falou, cansado. — Eu estava arrumando as coisas.

— Se nós temos regras, é para serem seguidas.

— Óbvio que ele fica assistindo pornografia, pai — Heitor falou provocativo. — Esse moleque é doente.

— Heitor! — Helena repreendeu.

— Vá a merda, Heitor — Marcus disse sem nenhum escrúpulo.

— Marcus! — Miguel repreendeu.

— Mas é claro que nada de bom ele faz trancado naquele quarto o dia todo — Mariana falou no mesmo tom que o mais velho. — Deve estar envolvido com droga ou algo assim.

— Vá a merda você também, Mariana.

— Marcus, se você usar esse linguajar na mesa novamente, vai ficar de castigo, entendeu? — Miguel esbravejou.

— Tá.

— Mas eu investigaria as drogas, se fosse você — Mariana voltou a dizer.

— Mariana, chega — foi Helena quem disse — eu tenho certeza que o irmão de vocês não está envolvido com nada errado — a mulher falou e ponderou por uns instantes antes de olhar para ele. — Não está, certo?

— Mãe, claro que não! — Marcus exclamou ofendido. — Meu Deus, depois vocês perguntam porque eu quero ficar no meu quarto.

— Marcus, chega — seu pai disse.

— Essa discussão nunca leva a lugar nenhum. — Marcus largou a comida e olhou para eles. — Todo dia de manhã vocês falam a mesma coisa, porque não me deixam em paz?

— Regras são regras — Miguel respondeu seriamente.

— Além disso, é a única hora que podemos passar juntos — Helena falou.

"Grande coisa" foi o que ele pensou, mas decidiu se calar e tomar seu café em silêncio até a hora de ir para escola. O que o levou de volta para a questão cinco de matemática.

Marcus não sabe o que é pior, escola ou sua família. Talvez tivesse que fazer uma lista de prós e contras.

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Quando Marcus chegou na escola, suas pernas o guiaram automaticamente para o pátio onde tem um conjunto de bancos e mesas semelhantes de parques para os alunos ficarem no tempo livre. Ele sabe que é lá que algum dos amigos deve estar e estava certo. Assim que chegou perto o suficiente para enxergar, encontrou sua melhor amiga, Camila Cardoso, lendo um livro.

Ele se sentou na mesa, retirou os fones e suspirou.

— O que foi? — ela perguntou, fechando o livro.

Marcus deu um sorriso leve.

— Nada, por que você acha que tem alguma coisa? — ele perguntou.

— A sua cara diz tudo.

Ele revirou os olhos, mas não por irritação. Marcus não poderia ter uma amiga melhor que Camila, ela é simplesmente umas das melhores pessoas que existem. Eles são muito parecidos no quesito personalidade, eles têm gostos parecidos para música, filmes, séries e atividades, também eram bem sérios e fechados, a diferença é que Camila costuma ser mais gentil com as pessoas que Marcus. O que é bom, pois tem que existir um equilíbrio entre eles.

— Meus pais me perturbando como sempre — ele resmungou.

— O que aconteceu dessa vez?

Todo dia eles reclamam porque eu fico muito tempo no meu quarto — Marcus explicou, revoltado. — É chato, eu estudo, eu faço minhas coisas, será que eles não podem me deixar em paz com minhas coisas?

— Pais são assim mesmo, todos perturbam com alguma coisa o tempo todo — Camila deu ombros -, não tem muito o que a gente pode fazer.

— O seu pai não é assim, é?

— Às vezes. Ele reclama que eu não fico muito tempo com meu irmão quase todo dia, mas Felipe já é grande, não quer ficar comigo o tempo todo — Cami disse. — É assim mesmo, só ignorar, uma hora passa...espero.

— Não acho que passe — Marcus deitou a cabeça na mesa. — Eu estou cansado, não dormi bem essa noite.

— Conta outra novidade — Camila provocou.

Marcus a olhou com ironia.

— Já disse que te odeio hoje?

— Eu sei que você me ama.

Ele levantou a cabeça novamente.

— Você se lembra da prova de matemática?

— Infelizmente sim, por que?

— Quanto que deu a questão cinco da prova?

— É por isso que você perdeu o sono? — ela perguntou com um erguer de sobrancelhas.

— Entre outras coisas — Marcus admitiu, sabe que não adianta mentir.

— Bem, eu não lembro ao certo, mas acho que menos treze — Camila respondeu, depois de pensar um pouco.

— Eu acho que coloquei treze.

— Tá, você vai perder uma questão, a prova tinha quinze — ela deu ênfase. — Vai perder só alguns décimos.

— Estudar é a única coisa que eu sou bom, no mínimo eu tenho que fazer isso direito.

— Você também é um bom nadador.

— É isso também.

— E você toca bateria.

— É.

— E sabe desenhar e também...

— Eu já entendi — ele interrompeu, sorrindo de leve.

— Desencana Marcus, essas coisas acontecem, você não pode se punir toda vez que cometer um erro — Camila disse.

— Não é isso que as pessoas normais fazem? — Marcus perguntou com ironia e os dois riram.

O diálogo foi interrompido por uma pessoa gritando atrás de Marcus e pelo revirar de olhos de Camila, só podia ser uma pessoa: Pedro Vasconcellos, mais um dos melhores amigos de Marcus e Camila.

— E aí cachorrão! Estávamos te procurando! — Pedro exclamou animado assim que chegou perto dos amigos.

Por "estávamos" ele quis dizer ele e Cauã Ferreira, o outro amigo de Marcus.

De longe, é um quarteto engraçado de se observar, eles são bem diferentes à primeira vista, mesmo que intimamente eles se pareçam. Ainda assim, ninguém entende ao certo como eles aconteceram, só sabem que existe e que funciona.

Pedro é o rico e popular do grupo, atraindo muita atenção de todo mundo por onde passa, afinal todos conhecem os Vasconcellos. Pedro é extremamente engraçado e divertido. Também têm várias garotas caindo aos seus pés, claro, porque além de tudo ele é bonito. Altura mediana e pele negra, cabelos crespos raspados dos lados e olhos castanhos muito bonitos, um físico de dar inveja por conta do futebol que ele, como o bom hetero top que é, prática com vigor e, é claro, torce pro Flamengo.

O Cauã é mais tímido, forte e moreno, ele é o mais alto de todos e passa a impressão de ser mais velho do que realmente é. O menino tem cabelos muito lisos, pretos, olhos escuros, um tanto puxados e expressões não muito amigáveis, ele parece ser um bully, na verdade, mas ele é um cara muito bacana e divertido depois que o conhece. Ele é louco por artes marciais, mas a favorita de Cauã é capoeira, ainda que ele lute muay-thai e jiu-jitsu, essa é uma das razões dele ser tão forte e a sua aparência — e a popularidade de Pedro — deixam os valentões longe. Ele também é indigena, vive junto da sua tribo em uma reserva em uma área rural da cidade e é um dos poucos, senão o único, da aldeia que estuda mais longe de casa.

Já Camila é a única menina do grupo, mesmo fechada, ela é muito gentil e todos gostam muito dela, pois sabem que podem contar com ela em praticamente qualquer situação. Ela também é ótima em mediar conflitos, em seu coração ela sabe ajudar com gentileza e se precisar, com repreensão. Ela tem cabelos cacheados castanhos, que ela mantém presos na escola, mas quem já os viu solto sabe que são bem volumosos, os olhos da mesma cor, escondidos por cílios bonitos, um sorriso agradável, ela é alta de tem um corpo típico de nadadora, já que ela também pratica natação, tal como Marcus.

Observando atentamente, dá para entender como os quatro são amigos.

— Cachorrão? — Marcus perguntou com ironia.

— Você é um cachorrão — Pedro riu e se sentou com os amigos.

— Ele me chamou assim também — Cauã falou. — É melhor do que o antigo.

— Eu tenho minhas dúvidas. — Camila pensou por um segundo. — Acho que nada supera "docinho de coco".

Os quatro riram.

— Ei! Meus apelidos são ótimos, docinho de coco — Pedro provocou.

— Certo, vamos fingir que acreditamos — Marcus disse. — O que vocês querem? Por que estavam me procurando?

— Ele estava, eu só estava seguindo. — Cauã deu ombros.

— Claro, duas coisas, a primeira é para todos — Pedro começou. — Vamos sair hoje.

— É quarta-feira. — Marcus o lembrou.

— E daí?

— E daí que ninguém sai em plena quarta, se sai fim de semana. — o outro rebateu. — Eu preciso estudar.

— Pra que? Você é o maior nerd que eu conheço — choramingou Pedro.

— Eu sou o maior nerd que você conhece porque eu estudo. — Marcus suspirou. — Além disso, eu achei que você tivesse treino hoje.

— Tenho, o que me leva ao aviso que eu vim dar a você. — Pedro apontou para ele. — O diretor quer que você vá a sala dele.

— Como que você quer sair se tem treino hoje? — Cauã perguntou erguendo as sobrancelhas.

— O que você fez hein, Marcus Tomás? — Camila perguntou ao mesmo tempo.

— Para que ele quer que eu vá a sala dele? — Marcus perguntou junto e depois se virou para a amiga. — Por que eu teria feito algo de errado e não te contado?

— Você tem um ponto.

— Ok, respondendo ao Cauã, nós iríamos depois do treino e respondendo ao Marcus, eu não sei — Pedro falou. — Agora respondam a minha pergunta.

— Definitivamente não vamos sair hoje. — Camila se levantou com o celular na mão. — Você deveria ir ver o que o diretor quer, Marcus.

— Tô indo. — ele também se levantou. — Onde você vai?

— Preciso fazer uma ligação.

— Ligação? Estamos em mil e novecentos? Manda um áudio! — Pedro disse, confuso.

Camila ignorou e se afastou digitando no celular e só restou aos meninos saírem do jardim da escola e ir para dentro do prédio, passando por alguns inspetores que os olharam em busca de desvio de uniforme, e como não acharam nenhum, seguiram em frente.

O Instituto Templários da Terra é a melhor escola que a região poderia oferecer. Um colégio que tem no mundo inteiro e, por algum motivo desconhecido, tem naquele fim de mundo do interior do Rio de Janeiro, mas dava certo e todo mundo que preze um por cento pela educação dos filhos tenta colocar eles naquela escola. Obviamente nem todos conseguem, porque quem não tem dinheiro para pagar a mensalidade caríssima, só pode contar com a inteligência dos filhos para conseguir o máximo de porcentagem de bolsa na prova que tem todo ano. Marcus estudou em um colégio primário (como a maioria das pessoas, já que a escola só tem bolsa a partir do sexto ano) até o quinto ano e depois conseguiu cem por cento com a prova. Cauã e Camila, a mesma coisa, já Pedro sempre estudou ali, já que a família Vasconcelos é a mais rica da cidade.

No geral, o colégio é bem agradável, tem bastante grama, árvores, quadras de futebol, vôlei, basquete, piscina de natação, auditório, salas para aulas extracurriculares fechadas, entre outras coisas. O prédio é grande, quatro andares, o primeiro para o Infantil e outras salas como direção, coordenação, auditório e entre outros e do segundo para cima são salas do Fundamental I (a partir do terceiro ano) até o Ensino Médio no quarto andar. Pintado por um verde sem graça, com o grande brasão do colégio na porta, que é, obviamente, o planeta Terra. As salas são todas iguais e se não fosse pelos números das portas, as pessoas iam viver se confundindo.

Marcus se separou dos amigos — Pedro ainda estava falando sobre saírem mais tarde — que iriam para a sala de aula e ele para a sala do diretor. Por mais incrível que pareça, o diretor Gustavo Albuquerque é uma pessoa que Marcus gosta, primeiro porque ele é jovem, tem apenas trinta anos, o que faz com que ele entenda a maioria dos adolescentes com mais facilidade. Segundo porque ele é irmão mais novo do seu pai e é uma cópia bem humorada do mais velho.

Assim que entrou na secretaria, que é onde fica a sala do diretor, Marcus deu de cara com a secretária dele, Jessica Martins. Ela é aquela típica secretária bonitona padrão que todo mundo quer chamar atenção. Marcus sabe que seu tio fica com ela, pelo menos é o garoto imagina, ou é isso ou os dois realmente ficam horas trancados no escritório em reuniões.

— Oi Marcus — Jessica cumprimentou. — Como vai?

— Bem e a senhora?

— Estaria melhor se você não me chamasse de senhora.

Marcus deu um sorriso tímido, realmente, ela não deve ter nem trinta anos para que ele se refira a ela como "senhora", mas é força do hábito.

— Desculpa — ele disse educado, normalmente não ligaria em chamar ela de senhora ou não, para o garoto é completamente indiferente, porém tem algo em Jessica que o intimida. — Meu tio...digo, o diretor Gustavo, me chamou para a sala dele.

— Ah, ele me avisou. — Jessica apontou para a porta. — Pode ir, ele está te esperando.

Marcus a olhou uma última vez e foi até a sala do seu tio, bateu duas vezes na porta e entrou.

Gustavo tirou os olhos do computador e olhou para o sobrinho, dando um sorriso caloroso para o garoto. Ele e Miguel, seu irmão, poderiam se passar por gêmeos se eles não tivessem vinte e três anos de diferença, já que são muito iguais. A única diferença entre eles é que Gustavo é mais humorado, sorri mais e é muito mais compreensível, mas em contraposto do irmão ele nunca teve uma família fixa, sempre com uma namorada diferente nos Natais e mora sozinho em uma pequena casa, vivendo pela cerveja de todo dia, o incansável trabalho de diretor e, é claro, pela secretaria gostosa.

Marcus nunca entendeu o porquê do tio não ter ido embora daquela cidade no momento em que teve a oportunidade. Ele é o tipo "alma livre" que se vê pelo mundo e não é condizente da personalidade dele ficar preso em um lugar tão pequeno, mas não, ele passou um ano viajando depois que terminou a escola e quando voltou fez faculdade pela região, alugou uma casinha e, depois, arrumou um emprego como diretor. E está nesse ramo até hoje.

Talvez ele gostasse da comodidade. Marcus nunca saberia.

— Senta garoto — ele mandou, apontando para a cadeira.

— Eu fiz algo de errado? — foi a primeira coisa que Marcus perguntou.

Gustavo ergueu uma sobrancelha.

— Por que você sempre parte do pressuposto que fez algo errado? — o diretor perguntou.

— Por qual outro motivo você me chamaria na sua sala? — Marcus perguntou. — Você só me chama aqui quando tem algo para reclamar e em algum momento vai e fala "porra Marcus" quando eu tentar me justificar.

Gustavo fez uma cara de quem entendeu e depois balançou a cabeça.

— Certo, mas não foi por isso que te chamei — Gustavo falou. — Vai entrar um garoto novo na escola.

— E daí?

— Eu quero que você apresente a escola para ele — explicou Gustavo.

— Não vou mesmo. — Marcus revirou os olhos. — Pode esquecer.

— Não quero fazer disso uma ordem, Marcus, mas vai ser se você ficar se negando.

— Então já é uma ordem — ele concluiu.

— Não, é um pedido, se você tiver o que fazer, vou pedir a outra pessoa — o diretor falou e passou o dedo pela borda da mesa. — Mas eu sei que você não tem treino de natação hoje.

— Eu não vivo só pela natação — Marcus rebateu.

— Claro que não, por isso estou te perguntando. — Gustavo levou as mãos até o queixo e coçou.

Marcus podia mentir, mas fazer isso seria tratar seu tio como o resto da família e levando em conta que ele é a única pessoa com quem o garoto tem um mínimo de afeto, ele achou que não seria certo.

— Não, eu não tenho nenhum compromisso marcado — ele respondeu contragosto. — Mas eu preciso estudar.

Isso não é mentira, ele realmente precisa estudar, principalmente se sua nota de matemática for ruim e estudaria mesmo se ela for boa.

— Não vai ser uma visita longa, meia hora para mostrar a ele os lugares mais importantes e depois pode ir para casa — garantiu Gustavo.

— Por que para mim? Você sabe que não gosto dessas coisas — Marcus falou com um revirar de olhos. — O Pedro é muito melhor para isso do que eu, muito mais sociável.

O diretor novamente levou a mão ao queixo e depois afastou.

— Tem razão, mas ele não pode, tem treino hoje e a hora que acabar já vai ser tarde para manter ele na escola — ele confessou.

— Ah, então você já pediu a ele e não pode.

— Claro que já.

— A Cami?

— Também não pode. — Ele deu ombros.

— Então sou a última opção? — perguntou Marcus, levemente ofendido.

— Não, a minha última opção seria o Cauã, ele é um bom menino, mas não é exatamente amigável logo de cara, não é? — Gustavo suspirou. — Além do mais, eu sei que ele tem treino de sabe-se lá o que hoje.

Marcus resmungou e não respondeu. Ele odeia socializar com quem não tem afinidade e a ideia de passar meia hora com um desconhecido é como se fosse um pesadelo.

— Marcus, você e seus amigos são os adolescentes menos insuportáveis dessa escola — começou Gustavo. — Então se vocês são os menos insuportáveis, imagina os mais? Eu não quero que o menino desista porque o resto vai ser um bando de popularzinho metido, você é gente boa, por mais chato que seja. — o homem o olhou profundamente, enquanto Marcus faz uma careta. — Por favor, o garoto deveria ter começado a escola junto com todo mundo, mas perdeu o pai em um acidente, vai ser difícil para ele começar no meio de março, ele precisa ter, nem que seja um colega, no primeiro dia.

Chantagem emocional não funciona com Marcus. Na maioria das vezes. Porém Gustavo tocou em um assunto importante. Perder alguém é algo que o garoto entende, já que ele perdeu o avô há dois anos e ainda é muito dolorido de pensar. De todas as pessoas do mundo, o avô de Marcus era o que ele mais amava e mesmo assim tiraram isso dele.

— Tá — ele disse, depois de suspirar. — Apresento a escola para o novato.

— Muito obrigado — O diretor agradeceu aliviado. — Não precisa ser sala por sala, só a piscina, algumas quadras, principalmente a de atletismo, já que é o que ele vai fazer, a sala do primeiro ano, laboratório, auditório e refeitório, se tiver algo mais que queira mostrar, faça.

— Tudo bem — Marcus resmungou. — Que horas ele vai estar aqui?

— As três.

— Três?! — Marcus perguntou indignado. — O que eu vou ficar fazendo aqui até às três da tarde?!

— Estudando? Ah! Mostre a biblioteca e a informática para ele também — Gustavo lembrou.

— Vai pagar meu almoço. — E agora Marcus não estava mais falando com o diretor e sim com seu tio.

— Pago, vamos no restaurante aqui na frente comer.

— Que seja.

O sinal que indica a primeira aula começou e Marcus se levantou, senão se atrasaria para matemática e para sua derrota na questão cinco.

— Aqui, leva esse bilhete para a Fernanda se ela não te deixar entrar — Gustavo falou, entregando um papel avisando que Marcus estava na sala dele. — Sei como ela pode ser complicada.

Realmente, a mulher é um demônio.

— Valeu — ele disse e se virou para sair.

— Marcus — o diretor chamou e ele olhou. — Obrigado.

— Não tem de que.

E Marcus saiu da sala antes que seu tio ficasse emotivo demais. Até porque o avô dele era pai de Gustavo e ele sofreu quase tanto o sobrinho com a perda.

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Acabou que Marcus acertou a questão cinco da prova. Ele realmente tinha colocado menos treze. Porém para a infelicidade dele, estava preocupado com a questão errada, deveria ter pensado na oito, que ele errou uma mísera conta que o fez errar tudo.

— Você não ficou com máximo nessa questão, mas dei pontos porque você montou a conta toda certa e teria acertado se não fosse esse erro. — a professora Fernanda disse o entregando a prova novamente. — Ainda assim sua nota foi a maior da turma, nove vírgula seis, parabéns, foi muito bem.

Marcus se limitou a dar um sorriso amarelo (afinal, não é todo dia que a professora elogia alguém) e a voltar para seu lugar com decepção evidente. Ele passou o resto do dia decepcionado, nem ficou feliz com o dez que tirou em história e química. Pedro, Cauã e Camila tentaram o animar, mas ele estava inconformado. Aquele nove vírgula seis iria persegui-lo pelo resto de sua vida.

Para a sorte dele, como a média da turma tinha sido baixa — eu tirei quatro vírgula cinco, Marcus! Pedro repetia para ele — a professora passou um trabalho extra para a turma, eles teriam que refazer as questões que erraram na prova, para tentar subir a média.

O peito dele ardia de raiva e ansiedade com a ideia de ter que fazer trabalho extra para conseguir aumentar a média, mas era isso ou se contentava com a nota que tinha tirado e é mais fácil Papai Noel descer de trenó do que isso acontecer.

Então, depois que almoçou com seu tio — e avisou a Mariana que ficaria até mais tarde na escola — ele se trancou na biblioteca e refez a questão oito quantas vezes pode até dar cinco para três e ele parar por conta do compromisso que tinha. Em casa ele continuaria seu castigo por ser desligado e com sorte seus pais não ligariam para o nove vírgula seis em matemática e focariam no dez em história e química. Marcus até pensou em não mostrar a prova, assim teria tempo de refazer e tirar dez.

Decidido a deixar isso de lado por um tempo, ele foi até a secretária pela segunda vez no dia, ao chegar lá, Jéssica não estava e a porta da sala do seu tio estava fechada. O garoto olhou o relógio, três para as três, achou melhor esperar, então se sentou, tirou um chiclete de menta do bolso (o melhor sabor de chiclete) e colocou na boca. Ele masca mais chiclete do que a maioria dos dentistas acha saudável, mas é o que o ajuda a controlar a ansiedade, então ele continua dia após dia, comprando caixas e mais caixas daquele doce gostoso.

Os pensamentos de Marcus foram interrompidos assim que a porta da sala do diretor se abriu e Jessica colocou a cabeça para fora com um sorriso simpático. O menino sentiu as bochechas corarem.

— Entra, já estão te esperando.

Ele entrou rápido na sala do diretor, quanto mais cedo acabar com isso, mais cedo vai poder ir para casa e continuar a estudar. Porém, no momento em que Marcus entrou e seus olhos bateram no novato, sua nota em matemática parecia ser problema de outro mundo. Aconteceu algo com que ele, que Marcus pensou que só acontecia em filmes, o ambiente sumiu e seus olhos ficaram fixos no garoto a sua frente.

"Puta.Que.Pariu."

O novato é sem dúvidas o menino mais bonito que Marcus Tomás já tinha colocado os olhos. E aquele velho assunto chamado "sexualidade" apareceu novamente para assombrá-lo.

Contudo, Marcus acha difícil não achar ele gato, porque ele é muito. O menino tem uma pele lisinha, morena, com algumas pintinhas pelo rosto, cabelos — e Marcus achou importante frisar isso — pretos e compridos e olhos — novamente ele deu ênfase nessa parte — também pretos. O novato é alto, até mesmo mais do que Tomás e se veste de um jeito bad boy abrasileirado, calça colada, camisa branca, casaco enrolado na cintura e tênis all star preto. Fora que a orelha dele é furada, usando brincos de prata e ele também usa outros acessórios de prata, anéis, colares e pulseiras.

Ele é muito mais do que bonito. Ele é gostoso. Uma mistura de Damon Salvatore com Severus Snape. E os dois são, tipo, os crushes de infância de Marcus.

E o pior disso, na visão dele, é que enquanto ele encara o novato como se ele fosse a criatura mais linda que já pisou na Terra, o garoto o olhou de volta e deu um sorriso confiante que deixou Tomás de pernas bambas. "Puta.Que.Pariu" ele pensou novamente.

— Bem, deixe-me fazer as apresentações — O diretor falou e Marcus o olhou, se lembrando que tem mais três pessoas na sala além dele e do novato. — Esse aqui é o Marcus Tomás Albuquerque... — Gustavo colocou a mão no ombro do sobrinho, que acenou para o menino novo e a mulher ao lado dele, que Marcus supôs ser a mãe. — Ele é um dos meus melhores alunos, com as melhores notas e um excelente comportamento e eu não falo isso só porque sou tio dele. — os adultos riram, o menino novo deu um sorriso educado e Marcus revirou os olhos. — Ele estuda aqui há bastante tempo, então ninguém melhor do que ele para apresentar a escola para seu filho.

— Obrigada por isso — a mulher agradeceu.

— Não tem de que.

— Marcus, essa é a senhora Ivana Dias. — Gustavo continuou as apresentações. Marcus esticou a mão para cumprimentá-la, enquanto avalia a mulher. Ivana não tem muita semelhança com o filho, tem cabelos loiros, curtos, olhos verdes claros, baixa e é um tanto acima do peso, a única semelhança é a pele com pintinhas. — E esse... — a atenção de Marcus foi para o menino. — É Daniel Dias.

"Daniel Dias, então esse é o nome dele."

— Muito prazer — Marcus falou com sinceridade genuína, esticando a mão para que ele apertasse.

O prazer é todo meu — Daniel respondeu com um sorriso que fez Marcus se arrepiar inteiro.

— Ah...é.

"Meu Deus Marcus, aja como gente."

— Eu vou resolver alguns assuntos com a dona Ivana, enquanto isso... Marcus você apresenta a escola para o Daniel — Gustavo explicou. — Meia hora é o suficiente?

— Sim... eu acho — respondeu Marcus.

— Ótimo, então divirtam-se.

Marcus achou que seria difícil se divertir, não quando enquanto está tão encantado pelo menino novo, porém não quis comentar isso com o tio e fazendo um sinal para que Daniel o acompanhasse, eles saíram da sala para o tour que seria o mais longo da vida deles.

●❯────────────────❮●

Marcus descobriu cedo que Daniel não é do tipo que fala muito, entretanto tem muitos olhares e sorrisos misteriosos para dar, o que é quase tão ruim para a sanidade mental dele do que a voz ridiculamente sexy do novato.

Ele tentava evitar a troca de olhares, ou pior, tentava evitar o revirar de estômago que sente ao pensar no menino tão perto de si. Marcus sabe que é hetero, sabe que seu interesse é exclusivo em pessoas do sexo feminino. Homens não estão na sua lista de desejo.

Bem, é o que ele repete para si mesmo todas as vezes que acha que está minimamente atraido por alguém do mesmo sexo. Sexualidade é algo que ele tenta fugir constantemente, porque — "puta merda", ele pensou com uma careta — imagina ter que se assumir para seus pais? O inferno que seria! Helena com certeza ia reunir a família e falaria sem parar sobre o como ela o ama, sobre sexo e cuidados que se tem que ter, Miguel ficaria mudo e sairia na primeira oportunidade e Heitor e Mariana iriam rir o tempo inteiro.

Não. Ele já tem preocupações demais. Além disso, Marcus sabe que não é gay, ele gosta de meninas também.

Bissexualidade existe né Marcus, ele se lembrou de Camila, da vez que ele disse isso para ela.

Porém não, muita complicação se entender e se assumir. Marcus não tem cabeça para isso.

Só que, olhando para Daniel Dias, ele definitivamente tem vontade de tentar, nem que seja um pouquinho.

— E aqui é o laboratório de ciências. — Marcus abriu a porta do lugar e entrou, admirando as bancadas de trabalho e as prateleiras e armários com diversos objetos de ciências. — Nós temos que vir aqui uma vez por semana, por causa das aulas de química, física e biologia, uma semana para cada aula.

— O mês não tem quatro semanas? — Daniel perguntou enquanto toca em um pote com uma cobra, morta, óbvio, dentro.

— Nós temos duas aulas de cada uma dessas matérias, só que a única que é dada por dois professores diferentes é química — Marcus explicou. — Então eles trazem a gente aqui sempre.

— Entendi.

— Tem os dias próprios para isso e normalmente fazemos ou observamos experiências, por isso venha de calça e com o cabelo preso ou então não entra e leva falta. — ele se virou para Daniel, dessa vez o vendo colocar os olhos em um microscópio. — Já te mostrei tudo de importante no primeiro andar, eu acho... — Marcus contou, a área das crianças onde não podiam entrar, a biblioteca, o auditório e, agora, o laboratorio de ciencias, "tudo certo", ele pensou — A próxima parada é a sala de aula antes de irmos para o lado de fora, então eu vou te dar os horários das aulas e dos dias do laboratório.

— Beleza. — ele se afastou do objeto e deu uma olhada geral no ambiente. — Legal aqui.

— É mesmo, para quem gosta de ciências. — Marcus o olhou. — Você gosta?

— Não, mas é legal.

Marcus Tomás concordou. Ele estava tentando achar algo que Daniel gostasse, e já descobriu duas coisas que ele não gosta, que é teatro (descobriu isso quando o levou no auditório e explicou sobre as peças que acontecem) e ciências. Na biblioteca ele respondeu um "tanto faz" quando Marcus perguntou se ele gosta de ler, então ele imaginou que Daniel fosse neutro.

— Ok, vamos então, vou te mostrar a sala de aula e a informática.

Os dois saíram do laboratório e Marcus Tomás guiou o novato escada acima, ambos em silêncio. Pelo canto do olho ele conseguia observar Daniel olhando para todos os lados com curiosidade, admirando o ambiente. É realmente bem bonito ali, até para uma escola, tem vários cartazes e pinturas espalhadas, é confortável.

— Então, o diretor disse qual vai ser sua sala? — Marcus perguntou.

— Ele disse que é a mil e um — Daniel respondeu.

— A mesma que a minha. — Marcus sorriu, feliz que poderia vê-lo todo dia e depois fez uma careta com o próprio pensamento.

— São quantos primeiros anos? — ele perguntou.

— Três de cada ano do ensino médio.

Daniel concordou e eles finalmente chegaram ao quarto andar. O andar do ensino médio.

— Beleza, aqui é a informática. — Marcus abriu a porta e mostrou fileiras e mais fileiras de computadores. — Pode usar quando precisar, mas se for ficar mais de uma hora precisa marcar com o pessoal daqui antes, eles normalmente ficam aqui, devem ter saído para tomar café, mas são gente boa, não se preocupe.

— Ok, anotado. — eles saíram da informática e voltaram a andar. — Aqui tem bastante regras, não é?

— Padrão, eu acho — Tomás deu ombros. — Não vejo muitos problemas nelas.

— Sério? Você não parece ser do tipo que segue regras — Daniel respondeu com um sorriso malicioso.

"Oh meu Deus, dai-me forças."

— Só não sigo aquelas que eu acho injusta.

— Então você é justiceiro — concluiu ele.

— Justiceiro de mim mesmo.

Daniel riu fraco e jogou os cabelos para o lado.

— Entendi, acho que vamos nos dar bem — Daniel falou próximo dele, causando arrepios no outro.

"Hétero! Você é hétero! Pense no discurso humilhante que você teria que ouvir da sua mãe e das risadas dos seus irmãos e do olhar neutro do seu pai, pense em"... Marcus se virou para Daniel e percebeu o quão perto ele está e que o perfume dele tem um cheiro muito bom. "É Marcus, você é bi, muito bi."

"Cale a boca subconsciente."

— Acho... vamos... sala? — ele tentou formar alguma frase.

— Oi? — Daniel perguntou, se aproximando mais.

— Sala de aula, vamos, vou te mostrar.

Marcus deu uma volta e saiu andando rápido até a sala da mil e um, ouvindo a risada baixa do novato atrás de si. O coração dele está disparado e o corpo inteiro arrepiado.

"Puta que pariu hein, era só o que me faltava", ele pensou nervoso.

Ele estava tão nervoso, com os sentimentos a mil e querendo urgentemente escapar de Daniel, que entrou com tudo na sala de aula e demorou dois segundos para perceber que ela está sendo usada.

— Marcus?

O garoto olhou para sua professora de matemática, Fernanda, sentada à mesa dos professores com cara de poucos amigos. Nas carteiras dos estudantes havia cerca de quinze adolescentes com livros abertos e Marcus se lembrou que sua escola tem o sistema de detenção e provavelmente era isso que estava acontecendo. Marcus com certeza não queria estar na pele deles.

— Professora Fernanda, mil perdões — ele pediu com sinceridade, ouvindo risadas dos outros alunos. — Eu não vi que a sala estava ocupada.

— Eu percebi. — Fernanda olhou para os demais alunos e eles se calaram na mesma hora.

— Eu estou apresentando a escola para o novato, esse é Daniel Dias — Marcus deu um passo para o lado e mostrou o menino. — Daniel, essa é nossa professora de matemática, Fernanda Castro.

— Seja bem-vindo — Fernanda disse.

— Obrigado — Daniel agradeceu educado, mas com vontade de rir.

— Bem, Daniel, essa é a sala que você vai estudar. — ele olhou para a professora. — Se importa se eu pegar o cronograma para ele?

— Você já interrompeu mesmo.

Marcus concordou e saiu andando até o armário no fundo da sala, pegou dois papéis e voltou. No caminho tropeçou no pé de Gabriel Gomes, o valentão do colégio, e lançou a ele um olhar do tipo "vou contar ao Cauã que andou me enchendo", pediu desculpas para a professora mais uma vez e saiu da sala.

— Essa foi uma exibição e tanto — Daniel comentou rindo.

— Muito engraçado — Marcus disse irônico e empurrou os papéis na direção dele antes de andar na direção da escada. — Culpa sua que me deixou nervoso.

— Eu te deixei nervoso? — ele perguntou provocativo.

Marcus Tomás decidiu ignorar Daniel.

— Quem é o menino que te fez tropeçar?

— Gabriel Gomes, fique longe dele — Marcus alertou. — Ele tem dezessete anos, mas ainda está no primeiro ano, é burro igual a uma porta, mas o pai tem muito dinheiro e muito poder. O Gabriel adora pegar os novatos desprevenidos, então se achar que ele está te perseguindo fica perto de mim, ele me perturbou hoje porque estou sozinho, mas não é doido de fazer isso perto do Pedro ou do Cauã.

"Ou da Camila", Marcus completou mentalmente.

— Pode deixar. — Daniel olhou para trás. — Mas eu sei lidar com meninos tipo ele, na minha antiga escola era o que mais tinha.

— Hum, sério? Onde você estudava?

— Em uma escola de outra cidade, depois da ponte. — ele explicou. — Não era a melhor de todas, então entrava qualquer um, eu tinha que me defender de caras como ele o tempo todo.

— Que merda — Marcus disse.

— Pois é.

— Por que você veio para cá?

— Depois que meu pai morreu minha mãe precisava de um emprego melhor e conseguiu aqui — ele voltou a dizer. — Ela é professora e filho de funcionário ganha bolsa, como ia ficar muito pesado ir e voltar todos os dias, nós mudamos para cá.

— Entendi, sinto muito pelo seu pai — Marcus falou com sinceridade. — Você vai gostar daqui, caras como Gabriel são raros.

— Imagino que sejam, mas eu não sei se vou gostar daqui. — Daniel observou o ambiente. — Aqui é um tanto elitizado demais.

— Sim, mas é uma boa escola, não acho que seja nisso que tem que focar. — Marcus deu ombros. — Nem todo mundo aqui é rico, a maioria não é.

— Mas a galera estuda aqui muito pelo status, tinha gente da minha cidade que ficava uma hora, às vezes duas, só para estudar aqui, sendo que lá tem escolas boas — explicou Daniel. — Só para dizer que estuda no Templários da Terra.

— Sério? Quem se prestaria a fazer uma prova para bolsa muito difícil só por status? — Marcus perguntou com uma careta.

— Você não tem ideia do que as pessoas se prestariam por status.

Ele teve que concordar.

O resto da visita se passou sem maiores diálogos, Marcus apresentou a cantina, quadras e piscina para o garoto. Descobriu mais coisas que ele não gosta e descobriu que ele gosta de corrida, o que Marcus já sabia pela conversa de mais cedo com seu tio. Por fim, os dois estavam voltando em silêncio para a secretaria, quando Daniel deu uma corridinha para ficar ao lado do guia.

— Você pratica algum esporte?

Marcus ergueu as sobrancelhas, foi a primeira pergunta pessoal que Daniel fez para ele desde que começaram a visitação.

— Sim, faço natação.

— Imaginei, seu físico é de nadador — ele comentou.

"Meu o que?"

— Ahm, como? — Marcus perguntou confuso e envergonhado.

— Seu físico, sabe? Você tem braços e pernas definidos e costas largas, típico de nadador — Daniel explicou.

"Ele reparou nisso tudo?" E de repente as pernas de Marcus Tomás voltaram a ficar bambas.

— Bem, é, na natação a gente treina muito o braço e a perna — Marcus murmurou, o coração acelerado.

Não é como se Marcus não tivesse reparado nele durante toda a visita, só que ele não falaria isso tipo...nunca.

Finalmente — para a preservação da saúde mental de Marcus — eles voltaram para a secretaria. Jessica já está em sua mesa novamente e assim que os meninos voltaram ela disse que os dois poderiam entrar na sala do diretor. Ao entrarem Gustavo e Ivana estão tomando café e conversando e pararam no momento em que focaram na dupla.

— Ah, olá, como foi a visita? — Gustavo perguntou educado, falando mais para Daniel do que para Marcus.

— Foi tranquilo, a escola é grande, mas consigo me virar — respondeu Daniel.

— Ótimo, tenho certeza que se precisar o Marcus vai te ajudar com qualquer coisa que seja, certo? — ele perguntou, olhando dessa vez para o sobrinho, deixando bem claro que não existia uma resposta negativa para aquela pergunta.

— Claro, qualquer coisa só me procurar — Marcus respondeu e ele quase completou literalmente qualquer coisa, mas pensou que seria sugestivo demais.

— Eu ainda preciso conversar sobre mais uns detalhes com você Daniel, sobre as aulas e tudo mais, acho que a Jessica tem um cronograma de aulas para te dar... — o diretor continuou.

— Marcus Tomás me deu um — Daniel falou.

— Ótimo, mas ainda preciso acertar alguns detalhes.

— Eu já posso ir? — Marcus perguntou, com as bochechas coradas, por ouvir o novato o chamar pelos dois nomes.

— Pode sim, obrigado — Gustavo agradeceu..

— Obrigado, Marcus Tomás — Daniel também agradeceu, dando um sorriso de canto e uma piscadinha. — A gente se vê amanhã?

— Claro... até amanhã.

Marcus se despediu de todos, mas olhando fixamente para o novato até sair da sala, desejando mais do que tudo que o amanhã chegue logo para que ele possa olhar da beleza de Daniel Dias.

É claro que Marcus não sabia que não o veria amanhã, pois iria morrer em alguns minutos.

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Marcus sempre volta de ônibus para casa e a caminhada do ponto de ônibus até a casa dos Borges Albuquerque não é tão longe, coisa de dez minutos. Porém naquele calor infernal que está fazendo, parecia que Marcus Tomás estava andando a horas e nunca chegava em casa, Marcus quase cogitou pegar um uber e se tivesse feito isso provavelmente teria evitado a própria morte. Mas na hora achou que seria muita preguiça de sua parte e continuou o caminho andando.

Por sorte ele tinha levado o boné dentro da mochila e — melhor ainda — tinha uma nota de dez na carteira, o que serviu para ele comprar uma lata de refrigerante e um pacote de biscoito. Feliz enquanto comia, ele estava quase saltitando, seu calor e fome sendo supridos e, é claro, seus pensamentos presos em Daniel.

É quase tão saudável pensar em Daniel quanto comer aqueles biscoitos, ou seja, nada saudável. Alimentar seu cérebro com aquelas fantasias seria brincar frente a frente com um problema que Marcus ignora há anos, que é sua sexualidade. Mas é meio difícil não pensar na personificação de seus crushes de infância bem na sua frente, todo bonitão e com leves provocações a serem feitas.

Ele iria perder a sanidade mental rapidinho desse jeito. E a vida, mas Marcus Tomás ainda não sabe disso.

Marcus virou uma rua e, com um suspiro de alívio, percebeu que logo estaria em casa. Ele continuou a caminhada, o menino está com os fones no último volume, ouvindo um pop dos anos 2000, sem perceber que mexe a cabeça e um pouco do corpo conforme o ritmo da música.

O garoto passou por um bar com alguns homens e poucas mulheres, alguns jogando cartas e outros apenas bebendo. Ele conhece a maioria daquelas pessoas, já que estão sempre ali, então Marcus cumprimentou educadamente o pessoal com aceno de mão e, quem viu, retribuiu o cumprimento. Andou mais alguns passos e parou para atravessar a rua, olhando uma senhora regar as plantas do outro lado, agora ele só precisaria atravessar e virar a esquerda e estaria na sua rua, então seria apenas uma questão de tempo para estar em casa.

Porém Marcus não chegaria em casa naquele dia. Concentrado na música, — e agora além de dançar discretamente, ele começou a cantar baixo — os pensamentos presos em Daniel e os olhos fixos na atividade da senhora, a água que sai da mangueira caindo nas plantas o deixando hipnotizado, ele atravessou sem olhar para os lados e não viu o caminhão em alta velocidade indo em sua direção.

O som da buzina conseguiu ser mais alto que a Britney Spears cantando nos ouvidos do garoto e ele se virou para tentar entender de onde veio o barulho. Assim que observou o caminhão, o cérebro de Marcus Tomás demorou um tempo para processar o que estava prestes a acontecer, e ele continuou caminhando devagar, o corpo mexendo enquanto canta, seria tarde demais para fazer algo mesmo se ele tivesse entendido de imediato, mas ele só entendeu bem em cima da hora, quando o caminhão estava prestes a atingir seu rosto. A última coisa que Marcus se lembrou foi do rosto do motorista, ele tem certeza que era uma caveira encapuzada.

Depois disso tudo ficou preto e Marcus Tomás morreu.

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Notas finais
Comentem o que acharam!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.