Notas iniciais
Espero que estejam gostando.

Ainda com o CD dos Arctic Monkeys tocando no som do carro, acelerei na estrada, seguindo o caminho indicado pelo GPS. Nem sabia que o carro vinha equipado com um desses. Como Emery havia previsto, o clima estava horrível para alguns, com nuvens cinzentas e espessas ocultando o sol. Vesti-me como uma adolescente típica em um dia assim: uma jaqueta parka verde-oliva sobre um moletom confortável e quente, uma calça jeans de lavagem escura e coturnos pretos. Antes de sair de casa, Bjørn insistiu que eu usasse um relógio prateado, que aparentemente pertencia a Arabella. Não houve muita conversa; ele simplesmente me deu o relógio e desapareceu. Os outros concordaram e me encorajaram a usá-lo, sem me dar explicações.

A medida que o GPS indicava meu destino, o cenário ao redor parecia saído de um filme: ruas arborizadas, casas com fachadas elegantes e jardins bem cuidados. Ao me aproximar da cafeteria, parei em frente a um pequeno prédio belíssimo, com janelas amplas e uma fachada de tijolos à vista que emanava um charme rústico. Minha mochila estava cheia de livros e um tanto pesada para alguém do meu tamanho, mas eu esperava que ninguém notasse. Coloquei-a nas costas e saí do carro antes que a chuva começasse a castigar meus cabelos. Com todas aquelas roupas, eu parecia aquecida.

Ao entrar na cafeteria, fui recebida por um aroma de café recém-moído e doces caseiros. A decoração era aconchegante, com móveis de madeira escura e luzes pendentes que criavam um ambiente acolhedor. Para minha surpresa, Ezra estava do outro lado do balcão, terminando de servir um espresso para uma senhora simpática, que sorriu agradecida. Ao me ver, ele acenou e me chamou até ele.

— Falei para não se preocupar com a carona e que nos víamos aqui — Riu descontraído.

— Não sabia que trabalhava aqui — Disse, sentando-me em uma das cadeiras altas em frente ao balcão e colocando minha mochila no colo.

— Na verdade, eu não trabalho. Esta é a cafeteria da minha irmã mais velha. Decidi ajudar hoje, já que teria que passar por aqui de qualquer jeito — Ele colocou a toalha que segurava no ombro esquerdo, revelando um olhar de satisfação. — Mas e aí, gostou do lugar? Aceita algo para beber? Está um frio lá fora, imagino.

— Nossa, nem me fale. O lugar é a coisa mais linda que já vi! — Menti sobre o frio, mas não sobre o lugar. A ideia de beber algo fora da minha dieta era um desafio. — Acho que por agora não vou beber nada. Antes de sair de casa, bebi algumas xícaras de chá com meu tio, mas mais tarde aceito a oferta!

— Olha que não vou te deixar sair daqui sem experimentar algo — Ele piscou, dando um sorriso de lado. — Mas vamos lá para a mesa, sua mochila deve estar pesada de tantos livros. Também trouxe alguns.

Levantei-me e fiquei no aguardo enquanto ele se livrava do avental e sussurrava algo no ouvido de uma mulher extremamente semelhante a ele, que me olhou de cima a baixo de uma maneira que me deixou alerta.

— Quer que eu carregue para você? — Perguntou Ezra, já ao meu lado, com um olhar prestativo.

— Não precisa, não está tão pesado quanto parece — Respondi, tentando soar convincente.

Ele deu de ombros e me guiou até uma mesa perto da janela, onde duas xícaras de chocolate quente já nos aguardavam. A chuva começava a cair lá fora, criando uma sinfonia suave contra o vidro.

— Eu não imaginei que você era uma fã de chá. — Disse ele, um pouco sem jeito.

— Não tem problema! — Merda. Deixei a mochila no chão, ao lado da cadeira, e sentei-me à sua frente, o lugar era extremamente privilegiado, com vista para a janela, nos dando uma boa visão da chuva.

O ambiente ao redor era tranquilo, com poucas pessoas, todas envoltas em conversas baixas e risos ocasionais. O som da máquina de café ao fundo e o murmúrio da chuva criavam uma atmosfera interessante

— Então, que livros você trouxe? — Perguntou ele, inclinando-se um pouco para frente, claramente curioso.

— Ah, trouxe alguns clássicos. E você?

Retiramos alguns dos livros de nossas respectivas mochilas e os colocamos na mesa. Alguns títulos acabaram sendo repetidos, nos dando a oportunidade de trocar por outros. Quando tudo estava devidamente organizado, iniciamos um debate sobre os “impactos” sugeridos pelo Sr. Anderson: seriam eles negativos ou positivos?

Conseguia pensar em ambos. Afinal, foram épocas marcadas pela fome e miséria, onde todo o foco estava voltado para a indústria bélica. Todos os homens, de todas as idades, foram convocados para servir nas guerras, afetando a mão de obra em todos os setores. Mesmo ao fim da guerra, a insanidade e crueldade não pararam por aí, estendendo-se ao Tratado de Versalhes, que humilhou os países perdedores e gerou situações que ecoam e impactam até hoje, como o exemplo da Alemanha. Também houve impactos positivos que vi de perto, como os avanços na medicina através das cirurgias plásticas e a entrada das mulheres no mercado de trabalho. A Primeira Guerra Mundial impactou de tantas formas que era difícil saber por onde começar.

— Sugiro que ambos os impactos sejam mencionados — Cortei o silêncio, fazendo-o parar de ler o capítulo sobre os conflitos pré-existentes da época.

— Hm… prossiga — Empurrou o livro para o lado, apoiando os cotovelos sobre a mesa e relaxando a postura, esperando que eu concluísse minha linha de raciocínio.

— Não é possível focar em apenas uma única vertente da palavra impacto. Analisando a semântica do que nos foi pedido e a história em si: não existe apenas uma espécie de impacto — E quando percebi, já estava tagarelando sobre os meus pensamentos referentes ao assunto, tentando não entrar em tantos detalhes para não levantar suspeitas.

— Quando o Sr. Anderson me disse que você seria uma ótima parceira de trabalho, admito que duvidei bastante do que ele estava falando, mas pelo visto, desta vez ele acertou — Ao invés de parecer atordoado com a quantidade de informações, Ezra parecia excitado. — Você fala sobre guerras com tanta emoção, é quase como se tivesse participado.

— É só que... eu leio muito sobre o assunto. — Precisei de uma desculpa fiel e que não parecesse mentira. — A história me fascina. Acho que é importante entender todos os ângulos, tanto os bons quanto os ruins. E também a minha mãe era professora de história em uma universidade no Alasca.

— Concordo plenamente. A história é moldada por uma série de eventos complexos, e é injusto simplificá-la. Gosto da sua perspectiva. — Ele se inclinou um pouco mais para frente, a intensidade de sua atenção era quase palpável. — Qual é o impacto que mais te fascina?

— Acho que o avanço na medicina, especialmente na cirurgia plástica. É incrível como a necessidade durante a guerra impulsionou descobertas que ainda hoje beneficiam tantas pessoas. E também a mudança no papel das mulheres. A guerra foi um catalisador para tantas transformações sociais.

— Eu não poderia concordar mais. — Ele sorriu, encantado com meu entusiasmo. — O que houve com a sua mãe? Ela parou de lecionar?

— Morreu. — Falei de maneira seca. Sequer sabia os motivos de estar compartilhando minha vida com aquele garoto. — Acidente de carro.

— Foi a professora universitária encontrada no Cobalt River e...

— Sim. — O interrompi. O que meu pai havia feito com a minha mãe foi tão feio que tiveram que ocultar o crime como um acidente de carro. Disseram que o carro derrapou no gelo e o corpo nunca foi encontrado. — Se não se incomoda, prefiro voltar para o trabalho...

— Ah, sim, me desculpe por isso. Que tal nos aprofundarmos mais nos impactos causados?

Após o ocorrido, retornamos nossa atenção para o trabalho e seguimos com a abordagem sugerida. Enquanto eu destacava os impactos negativos, Ezra se dedicava a destacar os impactos positivos, para que então, no final, juntássemos as ideias em uma espécie de relatório. Vez ou outra, eu fingia estar lendo parte dos livros que trouxe para manter as aparências. Já era o terceiro chocolate quente que a irmã de Ezra deixava em nossas mesas. Lembro-me de beber dois e não saberia descrever o quão ruim o gosto e textura eram. Só conseguia pensar em como seria um inferno regurgitar o conteúdo para que não ficasse preso em minhas entranhas e apodrecesse. A mulher continuava a me encarar.

— Qual o nome da sua irmã? — Perguntei.

— O quê? Ah, Eleanor. — Continuou a escrever sem tirar os olhos do caderno. De repente, me vi escrevendo o nome "Eleanor Lockhart" na última página do caderno discretamente.

— Seus pais não trabalham aqui? — Não sei se ele consegue manter a mente em dois lugares ao mesmo tempo. Continuei a escrever enquanto fazia as perguntas.

— Eles moram em Montrewood, na esquerda da estrada, junto dos meus irmãos mais novos. — Ele parecia muito concentrado. Até que parou de escrever e me olhou nos olhos. Acredito que algo supostamente deveria acontecer, mas ele não falou mais nada.

Seguimos em silêncio até finalizarmos. Trocamos de caderno para dar continuidade aos tópicos um do outro e analisar se seria necessário acrescentar algo.

— Não há nada para acrescentar aqui. — Falou, repleto de indignação. — Tudo está completo. Início, meio e fim.

— Posso dizer o mesmo sobre você, está perfeito. — Sorri, analisando sua escrita. — Creio que nos resta apenas juntar as partes.

E assim o fizemos. Organizamos nossos pensamentos, anotações e iniciamos nosso relatório. Devo dizer que o processo foi divertido. Vez ou outra, percebi Ezra me encarando como se algo estivesse errado. Seus olhares alternavam entre sua irmã e meus olhos. Um pedido de socorro silencioso, talvez? Já estávamos ali há algumas horas. Talvez ele quisesse ir para casa. Tentei apressar a minha parte para que pudéssemos sair cedo dali.

— Com pressa? — Perguntou ele.

— Na verdade, não. E você? — Coloquei a caneta ao lado do caderno.

— Por que está escrevendo com tanta pressa? — Replicou meus movimentos.

— Estamos aqui há horas e você parece meio impaciente, olhando para sua irmã o tempo inteiro. — Debrucei sobre a mesa, olhando-o nos olhos.

— E-eu? — Gaguejou, olhando para os lados.

— Sim. — De repente, tudo parecia estranho. Voltei a me sentir observada. Era um sentimento conhecido. — Tem algo incomodando?

— Não, está tudo bem! Só estou averiguando se ela precisa de ajuda com algo.

Péssima desculpa. Algo estava errado e eu sabia. Aquele garoto simpático havia sumido, dando espaço a alguém que se escondia nas sombras de Eleanor. Enquanto seu olhar estava sobre a mesa, Ezra se mantinha quieto, como se algo tivesse dado errado. Seu único foco era apenas continuar o relatório, e assim o acompanhei, sem mais delongas. Foram longos minutos silenciosos até que finalizamos tudo. Ezra parecia satisfeito, e eu também. Guardamos nossos materiais em nossas respectivas mochilas, e quando retornei para a altura da mesa, fui surpreendida por Eleanor me olhando de perto.

— Acredito que meu irmão não nos apresentou da maneira correta. — Disse cordialmente.

— Prazer, Mia Zimmerman! — Estendi a mão para cumprimentá-la.

— Prazer em conhecê-la, me chamo Eleanor Lockhart. — Abaixou-se para ficar ao nível dos meus olhos. Ezra segurou em seu pulso. — Não nos atrapalhe, Ezra...

Ela olhou para ele em súplica e depois me olhou.

— Poderia me explicar o que você faz por esse lado? — Ela parecia estar tentando fazer algo com os olhos.

— Trabalho de história. — Apontei para os cadernos de Ezra, que ainda estavam em cima da mesa. Mas eu sabia que essa não era a sua pergunta.

— Você sabe o que quis dizer.

— Mas eu vim para isso. — Tentei argumentar.

Eleanor suspirou, visivelmente irritada. — Não estou perguntando sobre o trabalho escolar. Estou perguntando o que você realmente faz aqui.

Ezra, nervoso, tentou intervir. — Eleanor, por favor...

— Cale-se, Ezra — ela disse, com um tom que me fez arrepiar. — Mia, você sabe do que estou falando. Qual é a sua verdadeira intenção aqui?

Fiquei em silêncio, encarando-a. A atmosfera havia mudado drasticamente. Eleanor parecia pronta para arrancar a verdade de mim, e eu estava começando a sentir que havia algo muito maior acontecendo do que um simples trabalho de história.

— Eu... eu só vim para fazer o trabalho de história — insisti, tentando manter a calma. — Não sei do que você está falando.

Eleanor se endireitou, mantendo seus olhos fixos nos meus. — Vamos ver quanto tempo você consegue manter essa farsa.

— Elle… — Ezra cortou. Entendi o que estavam querendo fazer, mas era tão falho que dava dó. Terminei de arrumar as minhas coisas e meu celular tocou na mesma hora.

Ivar: “Você precisa sair daí.”

Ouvir a voz de Ivar foi uma surpresa.

Mia: “Estou indo, tio. Desculpa a demora.” — Pude observar os irmãos se entreolhando.

Ivar: “Creio que já percebeu o que está acontecendo aí.”

Mia: “Sim, não irei demorar. Já estou de saída.”

— Creio que preciso ir, pessoal. — Aproveitei a desculpa, segurando a alça da minha mochila e me levantando. Aproveitei que a chuva havia dado uma trégua e coloquei minha jaqueta apoiada no meu braço livre. — Obrigada pela hospitalidade.

Tirei algumas notas de 20 dólares do bolso da calça e depositei em cima da mesa.

— Não precisa, Mia. — Disse Ezra, parecendo um pouco desconfortável.

— Claro que precisa! — Sorri, tentando aliviar a tensão. — Não me sentiria à vontade de outra forma.

Me despedi dos irmãos e segui meu rumo ao carro. Destranquei o veículo e, cautelosamente, coloquei meu material no banco do carona. Sentei-me ao volante, mas antes de dar partida, vi Ezra caminhando para o ponto de ônibus. Dirigi até lá e abaixei o vidro.

— Aceita uma carona? — Perguntei.

— Está indo para Montrewood?

— Pelo que me falou, eu passo exatamente pelo caminho da sua casa. — Sorri de forma convidativa.

Ele pareceu pensativo por um tempo, olhou para os lados e por fim aceitou. Coloquei minha mochila no banco traseiro e ele fez o mesmo. Logo após, sentou-se no banco do carona e colocou o cinto.

— Você dirige bem? — Questionou, tentando aliviar o clima tenso que pairava desde a cafeteria.

— Nunca reclamaram. — Dei de ombros, tentando manter o tom leve.

— E quantas pessoas pegaram carona com você até hoje?

— Você é o primeiro. — Soltei uma risadinha enquanto acelerava.

O caminho para Montrewood não foi longo. Deixei Ezra escolher o CD, e para minha surpresa, ele escolheu um do Radiohead. Ambos sabíamos todas as letras, o que trouxe uma sensação de familiaridade e conforto ao trajeto.

Conforme dirigia, o ambiente no carro começou a ficar mais relaxado. Cantávamos juntos, às vezes desafinando de propósito, rindo das nossas próprias tentativas.

“Are you such a dreamer
To put the world to rights?
I'll stay home forever
Where two and two always makes up five”

A música parecia dissolver a tensão anterior, criando um espaço onde podíamos apenas ser nós mesmos, sem preocupações.

— Sabe, Mia — disse Ezra durante uma pausa entre as músicas, olhando pela janela. — Acho que você é uma das pessoas mais interessantes que já conheci.

Sorri, mantendo os olhos na estrada. — E você, Ezra, tem uma família bastante peculiar.

— Sim, peculiar é uma boa palavra para descrever minha família. — Ele riu, embora um pouco amargamente.

A conversa fluiu naturalmente, intercalada pelas canções do Radiohead que tanto apreciávamos. Chegamos a Montrewood em pouco tempo, e ele me guiou até a entrada da estrada que levava à sua casa.

— É aqui. — Disse ele, apontando para uma estrada à esquerda.

— Certo. — Estacionei o carro e virei-me para ele. — Obrigada pela companhia. Foi divertido.

— Eu que agradeço pela carona. E desculpe pela minha irmã... ela pode ser um pouco intensa às vezes.

— Ezra!! Ezra!! Você demorou!! — Gritava uma garotinha de cabelos negros como a noite e um sorriso faltando o dentinho da frente. Ezra deixou o carro e foi em direção a ela.— Perdeu toda a diversão. A mamãe fez pipoca e assistimos aquele filme que você gosta de fantasmas.

— Eu garanto que se eu pedir, vocês assistem comigo outra vez, não é? — Falou enquanto bagunçava o cabelo do garotinho, que até então estava quieto. — Não vão me deixar na mão sabendo que tenho medo de fantasmas.

— Claro que não vamos te deixar na mão, irmãozão! — Disse o garotinho com entusiasmo.

— Obrigada pela carona. — Ezra se encostou na janela do carro, olhando diretamente nos meus olhos. Respirou fundo antes de continuar. — Espero que não lembre de nada do que houve aqui.

— Obrigada pela tarde no café! — Entrei na sua jogada, entendendo que ele precisava disso. Meu olhar pareceu o mais vago possível e ele parecia feliz com isso. — Nos vemos na segunda.

Ezra deu um sorriso de alívio e assentiu. Ele deu um passo para trás, permitindo que seus irmãos se aproximassem e o cercassem com perguntas e risadas. Observei por um momento, vendo a alegria sincera nos rostos das crianças e a maneira como Ezra se misturava tão naturalmente com eles, apesar de tudo que havia acontecido mais cedo.

Antes de partir, ele se virou novamente para mim, acenando uma última vez. Respondi ao aceno, liguei o carro e comecei a dirigir de volta. No retrovisor, vi a silhueta de Ezra encolhendo cada vez mais até desaparecer completamente.

Enquanto dirigia, não pude deixar de pensar na estranha tensão que havia sentido na cafeteria, especialmente na presença de Eleanor. Havia algo nela, algo que parecia guardar segredos que eu ainda não compreendia completamente. E Ezra, com seus olhares e suas palavras misteriosas, só aumentava minha curiosidade.

Mas, por agora, estava contente em saber que tinha conseguido manter a fachada, ajudando Ezra a manter sua própria. A música do Radiohead ainda ecoava em minha mente, e o ritmo constante da estrada sob os pneus do carro me acalmava.

✦───────────✦───────────✦───────────✦

Ao chegar em casa, desci do carro e peguei minha mochila no banco traseiro. O peso do dia parecia acumulado nos ombros, cada passo em direção à porta de casa era um alívio. O cansaço se misturava com a sensação de alívio, como se finalmente pudesse respirar fundo depois de horas contidas.

O banho demorado foi uma bênção. O vapor se espalhava pelo banheiro, criando um ambiente reconfortante. Observar o vapor dançar no ar em uma dança delicada, era uma forma de meditação para mim. Talvez seja a primeira vez que aprecio tão intensamente esses momentos simples da vida.

Mas junto com essa calmaria, veio uma fome voraz. Uma sede que queimava minha garganta, como se brasas estivessem sendo engolidas. O olfato, aguçado como nunca, buscava desesperadamente por algo para saciar essa fome. O cheiro de sangue, mesmo que distante, parecia me chamar a quilômetros de distância.

Olhei para o relógio prateado que Bjørn me obrigou a usar. Tinha me esquecido completamente de tirá-lo antes do banho. Minha cabeça latejava, um incômodo que parecia aumentar à medida que pensamentos confusos tomavam conta da minha mente. Como explicaria para Bjørn que molhei o relógio de Arabella? Uma preocupação a mais em meio a tantas outras.

Optei por vestir uma calça cargo preta e uma blusa de manga longa listrada, roupas que estavam dobradas no meu guarda-roupa, possivelmente compras feitas para mim anteriormente. Era reconfortante vestir algo familiar em meio a esse mar de incertezas.

A sede continuava a me consumir, uma fome que parecia crescer a cada minuto. Mas junto com ela, algo mais me consumia. Passei horas ao lado de Ezra, e algo não estava certo. Corri até a sala de jantar, onde o cheiro de sangue pairava no ar.

— Atrasada novamente. — Disse Bjørn, com um tom de voz que não escondia a frustração.

— Dê um desconto, irmão. — Emery interveio, lançando-me um olhar compreensivo.

Sentei-me à mesa em silêncio, focada em saciar minha sede o mais rápido possível. A cada gole de sangue, sentia meu corpo relaxar um pouco mais. A sensação de queimar no fogo do inferno se dissipava aos poucos, mas algo ainda não estava certo.

Foi então que concluí:

— Ezra é um de nós. A irmã, Eleanor também.

— O que você está dizendo? — Disse Ivar, confuso.

— Acredito que sejam híbridos, por isso demorei para perceber. A mortalidade se confundindo com a imortalidade, seu sangue diluído em veneno. — Enquanto eu falava, todos na mesa pareciam perplexos. — Hoje retornei para casa sedenta, qualquer um em meu lugar, com falta de controle, faria uma besteira. As únicas pessoas nas quais não tive sequer vontade de chegar perto e fazer algo foram os irmãos Lockhart. Acredito também que tenham alguma espécie de habilidade para manipulação, mas não funcionou comigo.

— O relógio. — Bjørn se pronunciou, interrompendo o silêncio tenso que pairava sobre a mesa. — Como a habilidade de Arabella possuía um ponto fraco, mandei fazer o relógio para dar de presente a ela em seu aniversário. Ela sempre andava com ele, mas por algum motivo, quando viajou pela última vez, acabou o esquecendo. Ele funciona como um escudo mental. Quando ouvi vocês dois conversando sobre o garoto, achei que seria útil. Não é como se a Bella fosse usar…

Tudo fez sentido. O relógio era a chave para entender a estranha resistência que senti em relação a Ezra e Eleanor. Eles eram diferentes, e agora eu sabia por quê.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.