O Céu Continua Azul
4 Capítulo 4
— Vocês enlouqueceram? Isso é suicídio! – Laura gritou, se levantando da poltrona.
Ronnie logo a segurou pelos ombros, levando-a de volta para o assento.
Perder tempo com recuperação era bobagem. Essa era a posição de Jim. Laura mal havia acordado do episodio em que ela quase havia matado ele, e o Senhor do tempo queria despejar seu plano sobre ela, o qual ele passara arquitetando por cerca de doze horas junto a Ronnie. Ainda precisava revisar alguns pontos, ele admitia. Mas já havia certa beleza nele. Lógico que Jim já previra a reação de Laura quando contou tudo a ela, mas decidira omitir o real motivo de ela ainda estar ali. Se contasse, poderia diminuir drasticamente a chances dela participar do esquema, ou poderia motivá-la a se juntar a eles. Mas não iria manter esse segredo para sempre. Para tudo funcionar, ela teria que ser voluntaria, sabendo de todas as possibilidades e riscos. Jim também corria riscos, assim como Ronnie. Seqüestro, e agora traição e conspiração. Apenas bastava Laura ir contar tudo ao Ministério. Ela era a prova viva de tudo aquilo. Correr riscos fazia parte da vida dele a muito tempo.
— Suicídio garantido, pode se dizer, Laura. Mas Ronnie e eu estamos planejando algo bom. Para todo mundo. O Ministério tem que cair. – Jim entrelaçou os dedos, resistindo à vontade de estralá-los.
— E por que diabos ele deve cair? As coisas não estão estáveis, para todo mundo?
— Querem que acreditemos nisso. Mas Blacksteel está a beira do colapso. As casas aristocratas estão se preparando para a guerra, então é obvio que as relações entre elas estão hiper tensas. E o sangue que vai ser derramado vão ser de civis, gente que não tem nada a ver com isso. – Ronnie entendia e sabia como as coisas iriam se desenrolar caso houvesse guerra em sua nação. – E esses civis já estão nervosos o bastante para que haja uma rebelião entre eles, ou o mais provável, se virem contra o Ministério. Está tudo um caos. A única e mais forte linha de defesa do Ministério são os Deuses da guerra. Também são a única coisa que mantém a aristocracia na linha. Se controlarmos isso, podemos ter sucesso.
Laura estava ficando irritada rápido. Nunca pedira por aquilo. Participar de uma derrubada de governo? Nunca em mil anos ela pensaria em fazer aquilo, muito menos estar relacionada. E em parte estava com raiva de Jim, que a nocauteou com força desnecessária. Se não tivessem explicado para Laura a situação, ela iria partir cada osso no corpo daquele garoto. Ela não tinha que levar desaforo dele para casa. Muito menos aceitar os pedidos insanos dele.
— Olha pessoal, eu odeio governos tanto quanto qualquer um. Mas estão me pedindo para ser ponta de lança numa loucura. E eu mal sei controlar minha força. Vocês querem que eu assuma o controle de um exército inteiro! Eu não posso fazer isso. Duas semanas atrás eu não sabia nem ler os anúncios desse lugar. O alfabeto deles ainda confundia Laura. – E mesmo se eu aceitasse, eu não posso fazer isso sozinha. Eu mal mantinha minha casa em ordem, imaginem um exército.
— Você não vai fazer isso sozinha. Jim estará com você a todo momento. Pode não parecer, mas ele tem talento tanto para o combate, tanto para a estratégia. – Ronnie deu um tapa leve no ombro de Jim.
— Ah, claro. Isso me deixa aliviada. – Laura disse sarcasticamente.
— Por favor, tem como você pensar no assunto? – Ronnie perguntou mais docemente possível. Laura revirou os olhos.
Karol Van Whelm é irritantemente persuasiva quando queria. “Hoje não Barnes, mesmo você confiando nela, é suicídio. Pense em Jessie”. Lembrar da irmã caçula ajudava Laura a raciocinar melhor e tomar a solução mais adequada.
Mais uma vez, Laura se levantou da poltrona. Pegou um casaco que estava sobre o sofá, e o vestiu.
— Eu preciso sair um pouco. Juro que vou pensar no assunto, Ronnie! – Laura acariciou a mão da amiga. – Só preciso respirar um pouco. Tentar por a cabeça no lugar. Tudo bem?
— É claro. – Ronnie envolveu as mãos de Laura, e apertou suavemente. Laura agradeceu com um pequeno sorriso.
Jim passou a palma da mão sobre os cabelos. Suspirou, levantou e foi para o seu quarto quietamente. Ronnie percebeu isso, com uma pontada de preocupação. Seguindo a deixa, Laura também deixou a casa, olhando para os lados, apertando os olhos devido ao vento forte.
Ronnie olhou para os seus pés, imaginando o que se passava na cabeça de seus dois amigos. Decidira focar no que estava em sua cabeça, o que sabia e o que faria. Então revisou o plano todo em sua mente. Jim e Laura precisariam ascender no exército, coisa que levaria anos no mínimo, mas isso já era previsto. Nenhuma revolução fora da noite para o dia. Assim que se tornassem Deuses da guerra, eles teriam controle de dois quintos do exército ministerial. Mas só isso não seria o bastante para uma tomada de poder. Também teriam que ter controle sobre a aristocracia e o povo. Aristocratas defenderiam o Ministério numa revolução e eram orgulhosos demais para seguir alguém, ainda mais colaborar com o povo, cuja economia era a fortuna dos ricos. Eles também teriam que cair. São mais fáceis de lidar. Há muito se falava de uma possível guerra entre as casas. O que precisavam era apenas que alguém lhes desse o empurrão para cair no precipício. Teriam que ter alguém dentro desses círculos para alimentar fofocas e inimizades. Ronnie se encarregaria disso, mas estava pensando em algo um pouco mais conjunto. Alguém novo que se infiltrasse nos círculos da aristocracia, e escutar os rumores. Ronnie apenas introduziria tal pessoa. Quanto menos ligação melhor. Poderia haver casas que estivessem dispostas a uma causa nobre. Talvez. Mas apenas rumores não levam ninguém a guerra. Teria de haver ameaças e com certeza sangue. Nada motiva mais do que vingança. E havia o povo. Ronnie não duvidava que já houvesse grupos que buscam a queda do Ministério. Apenas teriam que achar o grupo mais propenso, assim Jim e Ronnie dariam os meios para eles terem uma chance de lutar. Os outros grupos viriam com o tempo. Em resumo, destruiriam o Ministério de dentro, voltando seus recursos e população contra eles. O plano ainda precisava de alguns toques.
Vestindo uma jaqueta, Jim avançou rapidamente para a saída.
— Ei! Aonde você vai? – Ronnie perguntou antes que ele saísse.
— Vou atrás da Laura. Quer vir junto? – ele perguntou fechando o zíper da jaqueta.
— Ela não quer ver ninguém agora, Jim. Acredite. – Ronnie se esticou e pegou a própria blusa. Iria para casa. – E o que você quer com ela? Fazer companhia, com certeza não é.
— Ela precisa de direcionamento. O que é melhor que a verdade para fazer isso? – Jim estralou o dedo anelar.
Ronnie fitou ele com os olhos arregalados.
— Você tem certeza disso?
Jim assentiu. Caminhou em direção a porta e desapareceu numa esquina.
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Duas semanas haviam bastado para Laura memorizar os lugares novos para ela, e a selecionar em quais deles ela iria num possível futuro. Atravessou outro cruzamento e entrou na lanchonete que ficava aberta vinte e quatro horas. Máquinas cruzavam o ar carregando pratos e copos, pedidos feitos e outras maquinas anotavam os pedidos. Serviços automatizados, sonho de todo dono de estabelecimento. Únicos custos que haveriam de arcar seria de compra dos serviços e reparos. Um robô se aproximou da mesa de Laura, que pediu um milk shake. Aquilo ajudava-a a pensar. Sem rodeios, ela analisou tudo o que estava em sua mente. O pedido de Ronnie e Jim, galgar os degraus da hierarquia do exército, se tornar uma Deusa da guerra, derrubar um governo. Aquilo era insanidade. Laura já estava quase se convencendo que enlouquecera. Toda aquela situação era demais para ela. Apoiou a cabeça nas mãos, sentindo-se perdida.
O som da campainha na porta de entrada da lanchonete tirou Laura de seus pensamentos. A sua frente, Jim sentou-se e pediu um café. Ela suspirou e ergueu o olhar para o Senhor do tempo. Aquilo já estava se tornando perseguição.
— Como você me achou aqui? – Laura perguntou.
— Não existem muitos lugares que vendem milk shake por aqui, você sabe. Imaginei que precisaria de um para poder pensar.
Laura ficava intrigada com o tanto de informação e comportamentos dela que Jim havia memorizado. Ele já estava assustando ela. Jim definitivamente poderia ser um perseguidor. O robô entregou o milk shake e o café.
— Veio aqui me convencer do plano maluco de vocês? – Laura levantou uma sobrancelha.
— Não. – Ele pegou o café e bebericou. – Isso é uma coisa pra você decidir sozinha. Mas não quer dizer que posso colocar algumas cartas na mesa.
Laura o imitou e sugou um pouco da bebida gelada. As palavras dele tinham-na deixado curiosa. O que mais ele poderia dizer?
— Sinceramente, você vai me deixar mais confusa se continuar tentando me convencer. E juro que se começar a contar a historia da sua vida e suas tragédias, dessa vez eu te mato de verdade.
Um sorriso se insinuou no rosto de Jim. Laura adorava quebrar clichês. Ele segurou o dedo indicador esquerdo com o polegar e o estralou.
— Sem histórias nem tragédias de vida hoje. Vim contar a verdade.
— E o que seria a verdade, Jim Graham? O que eu quiser acreditar ou o que você disser? – ela arqueou uma sobrancelha.
— Isso vai depender de você, Laura. – ele inclinou o copo de café para ela numa saudação.
A garota suspirou, olhando pela janela, pensando na irmã mais nova. Ela já estava a duas semanas sozinha, a preocupação de Laura atingia níveis enormes. Ainda tinha pesadelos do dia em que despencou do céu. O dia onde tudo deu errado. Nos pesadelos ela morria por causa da queda, ou caia no mesmo local onde...
Uma pergunta brotou em sua mente.
— Jim, no dia em que eu cheguei aqui, eu estava caindo. Era para eu ter morrido! Mas durante a queda, eu desacelerei. Como isso é possível? – ela tomou mais um pouco do milk shake.
— Nós programamos nosso céu para isso. – ele respondeu, desinteressado.
Laura engasgou e olhou incrédula para Jim.
— Programar o céu? Tá, agora isso é maluquice! – ela limpou os cantos da boca.
— Você é um dos seres mais poderosos desse mundo e está sendo atendida por serviçais robôs. Você realmente acha que programar o céu é algo absurdo? – Jim franziu a testa.
De repente, a pergunta dela parecera boba e embaraçosa. Escondeu o rosto que estava ficando vermelho atrás do copo de milk shake, olhando para o lado.
— Você não é a primeira a chegar aqui, loirinha. Nem vai ser a última.
O comentário fez algo faiscar a mente de Laura.
— Não sou a primeira... – Jim fitou ela, se remexendo no lugar. – James, o que aconteceu aos outros que vieram antes de mim? Quero a verdade – Laura rezou para ele não confirmar as novas suspeitas dela.
— Foram deportados. Os que não quiseram ficar aqui. Todos mandados de volta para a terra de onde vieram.
Assim que ele terminou de falar, Laura agarrou o cabelo esbranquiçado de Jim, e empurrou a cabeça do Senhor do tempo contra a mesa. O som do baque e da mesa quase se partindo atraiu a atenção dos clientes e dos robôs serviçais. Rapidamente, Laura voltou a posição anterior, tomando seu milk shake. Mordia o interior da boca, se segurando para não arremessar Jim do outro lado do estabelecimento. Ele havia roubado duas semanas de sua vida. Pensar que Ronnie também participava de tudo aquilo, também a magoava. Tudo o que Laura queria fazer era quebrar todos os ossos de Jim, um por um, apenas para ouvir o som deles se partindo. Lentamente, Jim se recuperou e voltou a assumir sua postura costumeira. Seu rosto não exibia nenhuma emoção, como se já esperasse aquilo. Tateou a mesa, e pegou o copo de café, conferindo se não havia derramado nada. A atitude calma dele apenas irritava mais Laura.
— Antes de você querer pegar uma faca e me fatiar em pedaços, posso te explicar a situação, e por que fiz isso?
“É bom você ter um excelente motivo para me fazer de prisioneira aqui” Laura pensou. Trincou os dentes e assentiu. Mesmo com raiva, ela sabia deliberar e escutar os outros.
— Eu quero sair daqui. Quero deixar o exercito. Viver uma vida normal. – Jim tamborilou os dedos na mesa.
Laura o encarou, inquisitiva. Esticou as palmas das mãos, torcendo os lábios.
— E para que eu serviria? Não sou útil para você com esse simples propósito. – Ela se inclinou sobre a mesa – Se quer me convencer, vai ter que tentar mais.
— Pelo visto você não imaginou todo o contexto. Eu sou um mestiço. Uma ferramenta útil para o Ministério. – Ainda enxergando incompreensão por parte de Laura, ele continuou. – Imagine o seguinte: Você tem um exército comum. De tempos em tempos, alguém aparece se alistando para o exército, fora da época de colheita de tributos. Até ai, nada de novo, não é? Mas imagine que essa pessoa tem força o suficiente para arremessar um dos seus tanques de guerra da Terra Mãe, como se fosse um peso de papel. Isso é um enorme diferencial numa guerra, não acha? Você deixaria essa pessoa sair do seu exército?
Agora Laura tamborilava os dedos na mesa. Com a mão livre, passou a mãe sobre a testa, pensativa. Imaginou o cenário que Jim descrevera para ela.
— Provavelmente não. Mas não há um tempo máximo de serviço? Um limite?
— Existe, mas facilmente revogável. Ai é que está o meu problema, Laura. – Jim tomou o último gole de café. – Tenho certeza que você pode desvendar o resto.
Ela realmente não precisou fazer muito esforço para deduzir o resto.
— Você precisava que alguém tomasse seu lugar. – Laura se remexeu novamente no lugar, inquieta. – Espera, tem algo que não está certo! Como você teria certeza que iriam te dispensar, e não escolheriam ficar com nós dois?
— Você é uma nascida da Terra Mãe. É bem mais forte que eu. E os Juízes amam um nascido da Terra Mãe, um melhor substituto para um Deus da guerra. Sempre escolhem o mais forte. Talvez escolhessem ficar com nós dois, mas era pouco provável. E não manchariam a imagem do Ministério de serem “justos”.
Laura não podia negar, havia lógica naquilo. Assim como os motivos de Jim.
— Então... Você queria que eu ficasse aqui para...
— Ter uma vida que não se resuma em caçar e lutar para o Ministério. Nada que você não possa entender, Laura. – Jim esticou o corpo para trás, sentindo a coluna estalar. – Olha, eu errei ao manter você aqui. Me desculpe. E Whelm não tem nada a ver com isso. Eu a arrastei, e ela apenas quer me proteger. Não devia ter a usado assim. Não se faz isso com quem se importa com você. Mas essa situação abriu uma possibilidade sem paralelos. Algo maior que a minha liberdade. É a liberdade de todos nós! Esbarramos em algo que pode mudar tudo.
Com os dedos entrelaçadas no topo da cabeça, Laura respirou fundo. Encarou o copo de milk shake, agora vazio, e pensou em sua casa, assim como pensou sobre Jim. Senhores do tempo. Soldados do Ministério e seus Juízes, com esporádicas missões de viajar entre as várias versões da Terra, entre diferentes épocas para consertar anomalias temporais. Volta e meia se deparavam com Espectros temporais, seres irracionais que faziam muito estrago se fosse deixadas livres no mundo. Também era o trabalho de um Senhor do tempo exterminá-los. Os mais aptos voltavam de todas as missões, os azarados não passavam de sua terceira missão. Era um trabalho perigoso. Era o trabalho de Jim, e ele era muito bom nisso.
— Tudo bem, James. E o que você espera me contando a verdade? Que eu desista de ir embora? Eu poderia muito bem sair por aquela porta agora, e nunca mais ver nenhum de vocês novamente. O que acha disso?
Apoiando a cabeça nas mãos, ele bocejou.
— Sinceramente, eu não acho nada. Eu expus tudo a você. Só quero que você considere as possibilidades aqui. – Com um dedo, ele coçou a nuca. – Se nosso plano der certo, vamos dar liberdade para uma nação inteira, e acabar com um sistema que não vê problema em utilizar pessoas para seus próprios interesses e guerras. Pense nos Senhores do tempo como os casacas vermelhas da Inglaterra, e Blacksteel como os Estados Unidos colonial. Tudo o que queremos é liberdade.
“Me desculpe Whelm, sei que falei que não iria tentar convencê-la, mas é algo maior que ela que está em jogo.” Jim pensou.
Encarando o Senhor do tempo, Laura suspirou, exausta. Os músculos ainda doíam por causa daquela manhã. Deu um leve tapa na mesa, e esticou a mão na direção de Jim. Ele fitou o gesto, e ergueu o olhar para Laura.
— Vou ajudar vocês, não porque você me pediu, mas porque precisam de mim. – Ela sacudiu novamente a mão na frente de Jim, indicando para aceitá-la.
Hesitando um pouco, ele apertou a mão da garota. Podia sentir ela tentando esmagar a mão dele, mas sorriu sinceramente, e Laura retribuiu o sorriso. Não eram amigos, eram apenas pessoas cujos os interesses se alinhavam. Precisavam um do outro.
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Estava escurecendo em Blacksteel, mas não havia necessidade de voltarem para casa ainda. Havia muita coisa que Jim queria contar para Laura, a maioria, informação sobre Blacksteel. Mas decidira guardar para si mesmo essas informações. Já fora um dia longo o suficiente, não queria dar a ela uma dor de cabeça. Enquanto caminhavam, Jim se lembrou do que havia pegado em sem quarto, caso Laura aceitasse fazer parte do plano. Eles precisavam de comunicação. Remexeu o bolso da jaqueta e de lá retirou um pequeno ArcPad. Era do tamanho de um botão, invenção da Terra-21. Jim adorava esses caras. Sempre com algo novo, afinal, era uma das Terras mais avançadas em questão tecnológicas. O ArcPad servia como um comunicador baseado numa rede neural. Esses dispositivos uma vez conectados com o sistema nervoso da pessoa, poderiam estabelecer um linha direta com outros ArcPads de amigos e familiares, podendo trocar mensagens telepáticas e baixar arquivos direto para o próprio dispositivo. Também era possível a “conferência”, que era como uma chamada de vídeo. A diferença era que, ao invés de ser apenas uma imagem plana, o contato era projetado diretamente para o córtex frontal do cérebro, exibindo o contato como se ele realmente estivesse ali. Era um salto e tanto depois do celular e a internet.
Cutucou com o cotovelo Laura, e a chamou mais para perto. Ela entrelaçou os braços dela no de Jim, se escondendo atrás dele para se proteger do frio. Os músculos retesaram, mas logo relaxaram.
— Vamos levar o plano adiante, mas para isso, vamos ter que manter contato constante. – Jim falou por cima do ombro. Abriu a mão e revelou para ela o dispositivo. – Isso vai nos ajudar nessa tarefa. Mas teremos que ir visitar um amigo, Dexter terá que instalar isso pra você. Tudo bem com isso?
— E como vou saber se isso é seguro? – Laura perguntou um pouco alto demais.
Levantando o braço livre, Jim segurou a ponta da orelha e mostrou o próprio ArcPad, situado logo atrás da orelha. Ele sentiu a respiração quente de Laura na nuca, e sua pele se arrepiou. “Controle-se Graham” ele pensou. Laura comprimiu os lábios e assentiu.
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Kendall não era nem de longe uma escolha viável.
Havia recebido uma chamada de Jim mais cedo, dizendo-lhe que Laura concordara com o plano. Uma boa notícia para essa insanidade. Ronnie não queria perder tempo, precisava achar alguém logo, uma pessoa que servisse ao propósito de se infiltrar nas rodas sociais aristocráticas que Ronnie não tinha acesso. Teria que consolidar alianças entre e destruir as casas menores e médias de Blacksteel. Mesmo que as maiores casas e as mais próximas ao Ministério caíssem, as casas menores ascenderiam e tentariam se consolidar no poder. Se acontecer, Ronnie gostará de ter influência e algum controle sobre elas. Kendall era uma de muitas pessoas na lista de Karol Van Whelm para o cargo. Já havia escolhido a história de inserção do espião. Um herdeiro de uma casa pequena interiorana em ascensão, procurando criar alianças, já que estava se mudando para a capital. Uma história simplista. O espião ouviria e criaria rumores, faria alianças. Reportaria tudo para Ronnie, que proveria a escalada dele, até os círculos mais altos, onde teria mais impacto. Estava longe de ser perfeito, mas era o plano.
Mas achar a pessoa correta se provava uma tarefa complicada. Todos os seus contatos tinham ligações com as altas casas e o Ministério. Teria que procurar mais afundo em Blacksteel. Alguém que não entregasse Jim e os outros, e que poderia se manter dentro do plano. Com desenvoltura para se misturar aos sangues azuis e de rápido aprendizado. “Será que há alguém assim por aqui?” Ronnie pensou. Coçou a lateral do pescoço, e foi para o seu quarto. Não era nada muito luxuoso, insistia que fosse assim. Esparramando-se pela cama, ligou seu ArcPad, e abriu os arquivos de imagens. A grande maioria eram fotos de infância e da adolescência. Excluiu arquivos inúteis e visualizou algumas imagens. Com os dedos deslizando no ar, ela foi arrastando as imagens uma a uma descompromissadamente, enquanto bocejava. Parou e expandiu a imagem selecionada. Ronnie e Jim estavam bebendo cerveja num bar que ficava nas proximidades de Arshten, a universidade onde se treinavam Senhores do tempo, e Ronnie também estudou matérias diplomáticas e políticas. Em volta deles, se encontravam outros estudantes. Alguns de casas mais nobres e alguns até eram herdeiros de pequenas nações. Todo tipo de gente aparecia por lá. Logo mais ao fundo, via-se uma costumeira briga entre estudantes que vinham dos campos ou das partes mais pobres de Blacksteel e das nações vizinhas. Esses alunos sempre eram os mais acalorados, seja em beber ou brigar, se mantinham firmes no que acreditavam estar correto. No final de cada briga, os lutadores sempre terminavam em abraços, e seus rostos inchados sorrindo alegremente.
Aquilo fez algo faiscar na mente de Ronnie. Estava procurando pessoas que queriam revolução no lugar errado.
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