O Cão
1 Primeira fase: Aparências
"De novo o grito agoniado quebrou o silêncio da noite, mais alto e cada vez mais perto. A ele se juntou outro som, um rosnar profundo, musical e, apesar disso, ameaçador, subindo e descendo como o murmúrio baixo e constante do mar.
— O cão! — exclamou Holmes. Venha, Watson, venha! Deus do céu, se chegarmos tarde demais…"
Em sua mente, a nítida imagem do detetive já estava formada; corria este último pela noite no encalço de aterrorizantes gritos a quebrar o silêncio imaculado num terreno incerto. Eram decerto gritos mais altos que os meus, fora de sua imaginação, pois eu o chamei três vezes... Bruno, Bruno, disse, Bruno, disse outra vez, e por fim consegui dissipar a cena de Sherlock Holmes.
Me perdoe. Não vi você chegar, meu bem. Ele levantou os olhos do livro, e aquilo pareceu uma difícil libertação. Então deixou o banco em que estava sentado para me cumprimentar de pé, com um beijo suave na bochecha, e sorriu. O mesmo sorriso cálido e gentil de sempre.
“Que tal o livro? ”
“Ainda não terminei, mas tenho gostado muito. Obrigada pela indicação”.
O parque era vazio a cada segunda-feira como aquela. Andamos de mãos dadas, conversando sobre amenidades, aproveitando a paisagem quase bucólica. A ideia perfeita de encontro que eu mantinha era esta, mesmo depois de quase três inteiros anos. Mas logo pude perceber que ele estava distraído: eu o conhecia tão bem que distinguiria seu dia bom de um dia ruim com o mero olhar.
“Não é nada. Só coisas da empresa” respondeu ao ser questionado, e gentilmente disse que eu não me preocupasse. Sempre tentando me fazer bem, nunca tentando atrapalhar meu dia; tudo englobava a personalidade atenciosa.
A empresa lhe era constante motivo de dor de cabeça. Era de esperar, pois em pouco tempo de serviço Bruno foi capaz de ascender no cargo de forma primorosa. O atual chefe, já velho e ansioso por aposentar, via naquele jovem extraordinário seu primeiro sucessor. Porém seu destacamento no trabalho despertou a inveja de muitos que não tiveram a mesma trajetória, desejosos de puxar-lhe o tapete na primeira oportunidade.
“E sobre hoje à noite? ” Perguntou; sabia que eu tinha que em breve retornar ao trabalho, e ele também.
“Me desculpe. Não poderei jantar. A Constância quer sair para um barzinho com umas amigas, e eu esqueci que já tinha prometido há tempo esta saída”.
“Você pode ir para a minha casa depois”.
“Tudo bem. ”
“Te esperarei. ”
E se despediu de mim com um beijo tal qual o que já me havia dado, e rumei para a parada de ônibus sabendo que deveria cumprir minhas obrigações de horário. Por muito pouco não cheguei atrasada no consultório. Doutor Antônio, meu chefe, amarrou a cara ao me ver, mas desta vez não havia nada a reclamar. Apenas deixou uma pilha de papéis sobre minha mesa sem dizer palavra, e se dirigiu a mim apenas para pedir que desmarcasse um paciente na agenda.
Pelo final da tarde me ative ao celular e logo vi as ligações perdidas. Era Constância, querendo uma certeza de que eu não a deixaria na mão, que de fato compareceria ao bar e ela então me apresentaria novas amigas, e eu disse que sim. Era comum que ela viesse me lecionar sobre como se fazia necessário que eu conhecesse gente nova, pois andava muito sozinha e de amiga possuía ela e apenas ela; eu me cansava de dizer que não era essencial: eu tinha Bruno, e, portanto, não sentia que me faltava coisa alguma.
Eu o conheci há pouco menos de três anos; era uma noite amena de setembro. Já se dava o horário de recolher, as luzes da cidade iam se apagando uma a uma até que todos os estabelecimentos estivessem fechados. Naquela época, havia um pequeno bar, batizado com o inadequado nome de Garrafada— e eu raramente ia em bares, embora talvez causa justamente a impressão contrária- que agradava a todos justamente por estender-se nas horas. Tinha cedido a insistência de Constância em que a acompanhasse neste dia. Nos sentamos no balcão, e de imediato o barman começou a nos servir. Como já era muito tarde, eu optei por uma atitude moderada; Constância, no entanto, pouco se importou com o pudor. Em cerca de duas horas ela já não se mantinha em pé, e estava inebriada a ponto de dizer as maiores besteiras de sua vida. O barman nos olhava feio.
--Deixe-me ajudar com isso- falou uma moça bonita e gentil quem eu nunca havia visto antes. Ela apontou para a estante de bebidas e balançou a cabeça, indicando que estava sóbria. — Sua amiga não vai aguentar muito mais tempo.
É raro que eu engate em conversas com estranhos, ainda mais em uma noite como aquela, e mais raro ainda que aceite favores. Mas aquela mulher expressava uma simpatia ímpar, tão cativante que se tornou impossível negar sua oferta de dirigir até a casa de Constância e deixá-la em segurança. Conversamos por um bom tempo enquanto minha amiga, proibida de tomar mais um gole que fosse, se recuperava. Foi um efeito muito estranho o tempo de conversa com aquela mulher que provavelmente nunca saberei o nome. Parecia que nos conhecíamos há anos. Nunca saberei porque não me ocorreu de perguntar, mesmo quando ela quis saber o meu, e me amaldiçoo por isto.
Tínhamos por fim decido que já era hora de partir. Ela pegou o molho de chaves no bolso e ajudou Constância a se levantar, e bem nesta hora um homem de mais ou menos minha idade que acabara de entrar no Garrafada nos avistou e veio se aproximando. Eu já ia dispensá-lo quando Constância, com o pouco de distinção que lhe restava, exclamou:
“Bruno!”
Perguntei de onde se conheciam; respondeu que tinham sido colegas no ensino médio há anos e que, embora não houvessem sido exatamente amigos próximos, ele ainda guardava muito apreço por ela. Constância confirmou com murmúrios quase incompreensíveis.
“Veja só seu estado... Vamos, vamos, deixe que eu te leve para casa.”
Argumentei que não era necessário, que já tínhamos carona. A mulher concordou. Bruno respondeu rapidamente:
“Agradeço, mas, por ser homem, será mais fácil para mim carregá-la se for preciso. Além do mais, somos amigos desde a adolescência”
A mulher argumentou um pouco mais, mas Bruno permaneceu firme e ela cedeu. Quando ela foi embora e eu rumava para o estacionamento junto a Bruno e a uma Constância quase inconsciente, ele se apresentou de maneira adequada.
“Me desculpe a falta de educação. Meu nome é Bruno. É um prazer conhecer você.”
“Eu sou Melina.”
Até o momento, estava incerta se deveria confiar numa figura que apareceu tão de repente, mas ele me lançou um sorriso tão carismático que minhas dúvidas se dissiparam ali mesmo. Não há uma pessoa que não seja conquistada por seu jeito inconfundivelmente bondoso.
Com auxilio, coloquei Constância no banco traseiro e sentei-me ao seu lado. Bruno foi na frente, dirigindo. Era um carro novo, notava-se pelo cheiro que o couro dos bancos exalava, e bem-conceituado no mercado. Tive vontade de puxar assunto. Perguntei-lhe se ia ao Garrafada com frequência.
“ Não, não com frequência, mas casualmente com meus amigos ou até sozinho, como hoje. E você? ”
“Não sou muito de sair pela noite. Isto só acontece vez ou outra, e só por causa de Constância. Veja que situação...”
“Quem era aquela mulher com quem você conversava logo que cheguei?”
“Ninguém.”
Fui invadida por uma estranha sensação ao dizer aquilo. Algo parecido com culpa.
A casa de Constância era muito longe. Me surpreendeu que ele estivesse disposto a percorrer todo o caminho, mas pareceu fazê-lo com satisfação. Conversou alegre durante todo o trajeto, e, quando enfim chegamos, ele parou frente a porta da casa.
“Ei” falou, bem quando nos despedíamos “Será que posso ter seu número?”
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