O Bosque
2 Segundo Contato
Notas iniciais
Uma gorda mariposa planava preguiçosa próxima à lamparina que Vitória colocara no peitoril da janela de seu quarto muito tempo depois do sol ter-se afundado no horizonte. A noção de tempo da garota se perdeu desde a última vez que sua mãe bateu à porta, pedindo para que ela descesse para jantar e alegando, extremamente irritada, que uma moça de quinze anos não deveria estar fugindo do jantar em família. "É véspera de Natal!", ela insistira uma última vez antes de dar-se por vencida e ir embora fumegando. Vitória ignorou aquilo completamente e manteve os olhos fixos na mariposa, o brilho das chamas refletido em seu olhar vidrado, imóvel.
O inseto bateu suas asas, se aproximando cada vez mais da chama que bruxuleava, débil.
Um cheiro desagradável de queimado pairou até o nariz de Vitória, cujo rosto foi desaparecendo, jogado nas sombras e tendo apenas a luz das estrelas que brilhavam fracamente para distinguir as silhuetas em seu quarto, quando a lamparina se apagou com um breve chiado. Numa inquietação repentina, a jovem, sentindo-se desconfortável na posição em que estava, virou-se para poder encarar o teto escuro.
Um sorriso rasgado a encarou de volta.
Vitória se enrijeceu em cima do colchão macio diante da fileira de dentes espaçados e tortos como as lápides de um cemitério. Seu único olho parecia infinito em sua profundidade e estava fixo no rosto da garota. Seu bafo de decomposição inundou o aposento escuro enquanto a criatura se arrastava por cima da garota como uma aranha gigantesca e de um amarelo doentio.
O rasgo que era sua boca abriu-se um pouco mais e um barulho baixo e gutural veio subindo do fundo daquela garganta fétida, e soou como o zumbido de um enxame de vespas raivosas.
— Tenho fome...
Vitória sequer estremeceu.
— Volte para o bosque — disse, baixinho.
— Já faz trinta dias — insistiu o anjo, agitando suas asas murchas e fazendo voarem penas amassadas e sujas para todos os lados — Chega de esperar.
Vitória soltou sua risada mais doce enquanto erguia uma das mãos para tocar Tera na face.
— Isso tudo é culpa sua — não havia nada de doce em sua voz — Você insistiu para que eu não lhe trouxesse mais crianças. Disse que o sangue delas é fraco. Adultos são mais difíceis, Tera.
O monstro inclinou a cabeça, como que sem entender, provocando o ruído de vários estalos em seu pescoço enrijecido.
— Apenas me traga sangue fresco — disse lenta e teimosamente.
Os longos dedos de Tera se esgueiraram até o pescoço fino de Vitória, provocando leves arranhões enquanto aquelas unhas pontudas brincavam em seu entorno. Esta não reagiu de forma alguma. Deixou-o brincar até que perdesse o interesse, sentindo o peso daquela criatura esguia sobre si.
— Volte para o bosque — tornou a jovem.
Houve um momento de silêncio, e então Tera começou a se arrastar para fora da cama macia, fazendo as molas abaixo de si rangerem, contrariadas. Seu olhar não se desviou de Vitória, no entanto, enquanto ele recuava como um animal acuado. A escuridão ao seu redor começou a consumir sua forma.
Vitória piscou.
E nada mais havia lá para se ver.
***
O Natal foi e sempre será a época do ano mais desesperadora para Marcos. Não só pelo fato de ele odiar as cantigas natalinas que todos os programas de rádio acham que têm a obrigação de transmitir, nem por que a quantidade insana de Papais Noéis pelas lojas mais famosas da cidade insistiam em abraçar cada um que passasse por eles, independente do indivíduo querer ou não ser abraçado, e sempre com aquele odor nauseante proveniente do sovaco sufocado por vestes pesadas em meio à um calor de trinta graus que eles carregavam consigo.
Não. Isso não era nada. O que o irritava nessa época eram as tentativas de assalto. Era a época do ano em que a única delegacia de polícia daquela cidade minúscula pipocava com telefonemas de pessoas alegando terem sido assaltadas. E dessa vez não era só isso. No último mês acontecera mais um desaparecimento e seu chefe estava pronto para soltar os cachorros em cima dele por não terem progredido em nada nas investigações.
A lista de pessoas desaparecidas era enorme e só estava aumentando, e Marcos acreditava que eles estavam tão próximos de apanhar o culpado quanto aqueles malditos Papais Noéis estavam perto de usar um desodorante.
Mas tudo iria ficar bem. Seu expediente estava terminado e agora tudo o que ele tinha que fazer era voltar para casa, tirar aquela farda pesada e se afundar em sua poltrona favorita.
Seu relógio de pulso marcava oito horas da noite quando ele começou a descer a rua próxima à sua casa, passando pela única igreja de todo o município, caminhando tranquilamente pela lateral do Bosque da Solidão. Estava justamente pensando se iria comer primeiro ou tomar banho antes, quando chegasse em casa, quando algo preto saltou por cima das grades que demarcavam os limites do bosque produzindo um barulho enorme e fazendo-o recuar, assustado.
Um gato preto e eriçado olhou para ele assim que pousou de leve ao seu lado. Possuía um ar zombeteiro que quase fez com que ele chutasse o bicho para longe.
— Psit! Vá embora! — disse fazendo pequenos gestos para espantar o animal, que lentamente virou-lhe as costas e foi embora — Bicho desgraçado...
Virou-se novamente para se por em seu caminho a tempo de quase dar de cara com uma jovem alta e loira.
— Ei, cuidado aí!
— Graças a Deus, um policial! — a jovem parecia absolutamente aliviada — Por favor, você precisa me ajudar...
Marcos olhou de um lado para o outro, sem saber o que fazer exatamente. A vontade de falar que já terminara o expediente era enorme, mas ele era um policial, no final das contas. Não custava ouvir a garota.
— O que houve? — suspirou, cansado.
Por um breve segundo, o policial podia jurar que vira os olhos dela brilharem em triunfo, mas balançou a cabeça, afastando o pensamento. Afinal, estava cansado.
— É o meu irmãozinho! Estávamos passeando no bosque, mas nós nos separamos. Já está muito escuro e eu não o encontro... O senhor possui uma lanterna, não é? Não pode me ajudar a encontrá-lo?
Bom... Marcos de fato possuía uma lanterna, tocou-a de leve, dependurada no cinto, quando a menina mencionou aquilo. Olhou para ela e daí para o bosque. Ele não tinha ideia do quão grande era realmente o lugar, mas sabia por alto, através de mapas, que não era um tamanho a ser subestimado.
Mas o que podia fazer?
— Me mostre o caminho — pediu.
Eles passaram então pelo enorme portão de ferro, ainda aberto, ladeado por aquelas duas estátuas cafonas de leões rugindo e começaram a contornar as árvores, chamando o nome do garotinho (Gustavo) vez ou outra, mas nem seus gritos eram capazes de ecoar e romper o silêncio esmagador do lugar. Alguns mosquitos já haviam atacado a parte de trás do pescoço de Marcos na altura que decidiram adentrar mais por entre as árvores, se orientando pelo facho de luz que a lanterna fornecia.
A garota andava decidida, desviando-se das árvores com a leveza digna de uma dançarina enquanto o policial seguia desajeitado, logo atrás.
As árvores começaram a se juntar mais e mais e logo já não se podia ver o céu. Quando deu por si, já se passava das onze horas.
— Ei, espere um pouco — disse Marcos, parando e recostando-se em uma árvore para descansar — Já passou-se muito tempo e nem sinal dessa criança. O bosque já deve ter sido fechado. Acho melhor voltarmos e chamarmos reforços...
— Não será necessário — retrucou a outra simplesmente, girando o corpo para poder vê-lo.
Marcos estremeceu, sem saber ao certo o motivo. Não havia entendido o por que de ela estava sorrindo tão agradavelmente e ao mesmo tempo lhe causando tantos calafrios. Ela lá, parada indefesa e iluminada pela lanterna. Seu coração começou a bater forte e descompassado. Ele não conseguia desviar o olhar dela.
Então ele sentiu.
Algo fino e gelado se fechava firmemente em volta de seus ombros desprotegidos. Marcos deu um berro e, contraindo-se, soltou-se do aperto e caiu, aterrissando sobre o traseiro nas folhas macias. E então viu o que o agarrara.
A figura de praticamente dois metros de Tera permanecia no mesmo lugar, ligeiramente curvada. Um pouco de saliva escorria pela abertura grotesca que era sua boca. Ela soltava um barulho que lembrava um zumbido bem baixinho, que poderia muito bem ser uma mosca próximo ao ouvido do homem.
Apavorado, Marcos levou a mão que tremia descontroladamente até o coldre e sacou a arma, apontando-a direto para onde supostamente deveria estar o coração da besta. Atrás de si a jovem riu -ele quase havia se esquecido dela.
— Nem tente — disse calmamente — Nem Deus conseguiu matá-lo. Não será seu revólver a fazer isso agora.
À essa afirmação foi seguido o estouro de uma arma de fogo sendo disparada. O tiro foi certeiro, mas Tera permaneceu de pé.
— Você é bobo mesmo, viu? — Vitória foi até uma pedra maior e sentou-se nela, cruzando as pernas para poder ver melhor o espetáculo.
Tera começou a se mover, daquele jeito lento e atrapalhado de sempre. Cada passo que dava fazia suas pernas estalarem, como se fossem se partir a qualquer instante. Em meio ao desespero, Marcos descarregou o pente de sua arma no peito e cabeça da criatura que avançava, indiferente aos ferimentos dos quais escorria um líquido negro e viscoso. O monstro agora estava a centímetros de distância e já segurava firmemente o policial pelos ombros, forçando-o a olhar através da escuridão de seu olho.
As mãos finas começaram a subir do ombro para o pescoço grosso e suado de Marcos, que começou a choramingar, tal qual uma criança.
— Não... Por favor, não...
Com um movimento rápido, Tera girou a cabeça do pobre homem numa volta completa e então, lentamente, começou a arrancar a cabeça do lugar.
Vitória ficou assistindo Tera girar para lá e para cá a cabeça do pobre infeliz, causando um barulho abafado e enjoativo enquanto a espinha dorsal dentro dele se quebrava em mil pedaços e os tendões se desligavam do resto de seu corpo sem vida.
Quando ele finalmente conseguiu retirar a cabeça, jogou-a de lado e, escancarando a boca, fazendo-a parecer um buraco enorme e não mais um sorriso, encaixou a mandíbula no resto do pescoço que ainda estava ligado ao corpo e começou a sugar, feito um canudinho, todo o sangue que havia ali.
Era um barulho grotesco de sucção intercalados com poderosos goles, quando sua boca estava cheia demais. Mesmo Vitória se sentiu enojada e preferiu encarar a pobre cabeça, caída de qualquer jeito entre as raízes de uma árvore próxima, os olhos abertos em horror absoluto enquanto assistia o destino de seu corpo, impotente.
Levou bem mais de uma hora para que Tera terminasse sua refeição. Quando todo o sangue existente foi drenado de dentro daquele corpo, ele descolou a boca do pescoço e terminou com algumas lambidas na carne rasgada.
Seu rosto estava vermelho com o sangue que espirrara ao decapitar sua vítima, mas ele não fez nenhum sinal de que iria limpar. Apenas jogou o corpo para longe e cambaleou um pouco.
— De nada — disse Vitória de seu canto — Viu? Eu disse para você voltar para o bosque ontem à noite. Você quase não conseguiu tirar a cabeça dele dessa vez...
— Cale-se...
A jovem pôs-se de pé num salto e foi até o corpo, jogado de qualquer jeito na grama. Cutucou-o por alguns instantes e então soltou um suspiro cansado.
— Hein, Tera... Falta muito agora? — perguntou.
— Hmmm? — replicou o outro, observando de pé a garota se espreguiçar e jogar-se de costas no chão.
— Perguntei se falta muito — repetiu — Você sabe. Para conseguir sair daqui. Você disse que se eu te ajudasse, não demoraria...
— Falta pouco agora — respondeu Tera — Logo terei meu coração...
Vitória examinou o rosto pálido e repuxado. Ele sorria, e por algum motivo, ela realmente gostava daquele sorriso. Fazia-a sentir vontade de sorrir de volta.
Foi o que fez.
Fale com o autor