O Barco
1 Único
Notas iniciais
O Barco
A primavera era a melhor estação do ano na opinião de Soluço. Os dias não eram tão quentes quanto no verão, nem tão frios quanto no inverno, ou mesmo no outono. As chuvas eram mais frequentes, devolvendo assim o tom verde as folhas e a vida as florestas. E, talvez o mais bonito, os campos floresciam, transformando-se em verdadeiros tapetes de flores.
Era um desses que Soluço observava, sentado na grama verde, no alto de um penhasco. As costas apoiadas na barriga de Banguela, que quase dormia com a serenidade do local. Os olhos fixos no capo ao pé do penhasco, coberto por flores lilases e rosas, formando um lindo mosaico.
Passava pouco do meio dia, porém o sol não estava forte o bastante para incomoda-lo. O céu estava com poucas nuvens, em um azul bonito."A mesma cor dos olhos de Astrid", ele pensou deixando um sorriso bobo tomar conta de seu rosto.
Ele sabia que não tardaria para esposa procurá-lo. Astrid logo sentiria sua falta no treino e viria pedir satisfações de porquê havia faltado. Mas Soluço tinha seus motivos para não ter ido até a academia. A manhã fora muito mais agitada que o normal, ele estava cansado, esgotado. Até Banguela parecia meio morto. Os dois só precisavam de algum tempo de descanso, e voltariam a toda.
O moreno teria ido para casa, mas sabia que sua esposa não estava lá. Nem ela, nem seu filho. O rapaz sorriu ao lembrar do menino. O pequeno já estava com seus cinco anos e, ele era obrigado a admitir, parecia cada vez mais com ele.
O menino era pequeno, tinha os cabelos castanhos como os seus, e os olhos, que nasceram azuis como os da mãe, mudaram com o tempo. Eles chegaram a ser completamente castanhos, mas depois assumiram um tom azul esverdeado que mudava com a claridade. Quando mais claro, mais azul, mais escuro, mais verde.
O pequeno Espirro era amado por todos em Berk. Por que Espirro? Bem, isso era uma história engraçada. Se bem que só passara a ser engraçada para Soluço pouco muito tempo depois.
Flashback on
Soluço batia incessantemente com a perna boa no chão. A sala em que estava era escura e tinha um forte cheiro de guardado. As prateleiras tomavam as paredes, e estas, estavam cobertas de livros.
Ele estava em uma sala isolada da biblioteca de Berk. Onde ficavam os documentos, livros banidos e proibidos, diários de líderes passados e, o motivo de ele estar ali, o livro de registros.
Seu filho tinha nascido há menos de três horas. O que o rapaz menos queria era sair de perto dele e de Astrid. Queria aproveitar as primeiras horas de vida daquele ser que ele ainda mal acreditava na existência. Era utópico demais existir algo, ou nesse caso alguém, que fosse parte dele e de Astrid. Fruto do amor dos dois.
Mas é claro que as coisas não podiam ser como ele queria, não eram na maioria das vezes. O mais novo líder precisa registrar seu filho, anunciar oficialmente que o trono de Berk tinha um herdeiro.
- Ah, te achei! — ele ouviu Bocão exclamar.
Logo o viking apareceu e depositou na mesa à frente de Soluço um livro. Mas não era qualquer livro, sem dúvidas aquele era o maior livro que o garoto já vira em toda sua vida. Bocão dizia que o nome de todos que nasceram em Berk estavam naquele livro. Até aquele dia ele não achava possível, mas depois de ver aquele gigantesco livro, não tinha dúvidas.
Bocão abriu o livro em algum lugar entre o meio e o fim. Uma nuvem de poeira subiu e Soluço tossiu. Outra coisa, a sala estava coberta de poeira. Esta, junto com o mofo, parecia ter se apoderado do lugar há muito tempo e declarado como seu, e ninguém parecia disposto a contraria-la.
Bocão limpou o superfície do livro com a mão e molhou a pena na tinta.
- Então, qual vai ser? — ele perguntou animado.
- O quê? — indagou Soluço.
- O nome do garoto — explicou Bocão — Qual vai ser?
Soluço gelou. Por um segundo pediu a todos os deuses que tivesse falado sobre isso com Astrid antes. Mas não, ele não tinha a menor ideia.
O rapaz respirou fundo, na esperança de que , com o ar, viesse um ótimo nome, mas tudo que veio foi poeira. Essa adentrou por suas vias respiratórias, causando uma coceira imediata. Seu peito se encheu, a respiração parou e sua boca se abriu involuntariamente. Seguidamente se ouviu um barulho.
- ATCHIM!
Soluçou fechou os olhos o coçou o nariz. Definitivamente queria sair rápido dali.
- Espirro? — perguntou Bocão com uma careta.
- Sim, um espirro — respondeu Soluço ainda coçando o nariz.
Soluço viu Bocão dar de ombros e fechou os olhos. Chegou a ponderar o nome de seu pai, Stoico, mas lhe pareceu um nome muito forte e pesado para um ser tão pequeno.
O rapaz ouviu um baque e abriu os olhos. Bocão havia fechado livro e escrevia numa folha.
- Não é um nome muito comum — ele comentou — Mas faz sentido.
- O que? — perguntou Soluço confuso.
Bocão não ouviu, ou simplesmente ignorou.
- Afinal — ele continuou — O que mais poderia ser filho de um soluço , se não um espirro?
Soluço fitava tudo sem entender. Do ele estava falando? Por que tinha fechado o livro?
- Aqui está garoto — disse Bocão lhe entregando o folha.
Então tudo fez sentido. Depois de seu nome e do de Astrid estava escrito "Espirro Spantocius Strondus". É, era melhor ele começar a pensar numa desculpa muito boa para aquilo.
Flashback off
Astrid não ficara exatamente feliz com a novidade, na verdade, ela só não batera no marido porque esse se certificara que o filho estivesse por perto até que ela se acalmasse.
Soluço viu banguela levantar a cabeça e as orelhas, para em seguida sentir uma rajada de vento em seu rosto. Menos de um minuto depois um grito ecoou :
- Papai!
Soluço virou a cabeça e viu o pequeno correndo em sua direção. Ele sorriu e levantou-se para receber o filho, que pulou em seus braços e abraçou o pescoço do pai. Esse pegou o filho no colo e olhou para frente, à tempo de ver Astrid acariciando a cabeça de Tempestade e indo na direção deles.
- E aí, garotão? — ele perguntou.
O garoto olhou nos olhos do pai. Os do pequeno estavam mais para verdes naquele momento.
- Você não foi treinar — ele disse — A gente ficou te esperando.
- O papai estava cansado — explicou o rapaz.
Astrid se aproximou e ele puxou-para perto dando-lhe um beijo rápido.
- Ah, isso é nojento — reclamou Espirro escondendo o rosto na curva do pescoço do pai.
Astrid riu e se afastou. O pequeno fitou o pai e este logo colocou-o no chão. Espirro correu até Banguela e o abraçou. O Fúria da Noite sorriu e abanou o rabo. Soluço balançou a cabeça incrédulo, as vezes Banguela parecia mais um cachorro do que um dragão.
- Cansado, é ? — perguntou Astrid de braços cruzados.
- Ei, eu não sou de ferro! — ele reclamou — Ou melhor, a maior parte não é...
Ele balançou a perna mecânica e Astrid lhe deu um soco no peito, rindo.
- Você não muda, mesmo — ela disse.
Soluço olhou para trás e notou que seu filho estava distraído com Banguela. Então puxou a esposa pela cintura e ajeitou sua franja.
- Sei que você gosta desse jeito — ele disse antes de beija-la.
Ele sentiu Astrid relaxar e apertou um pouco mais sua cintura. Uma das mãos de sua esposa foi para sua nuca e a outra repousou em seu peito, exatamente onde ficava seu coração.
Aquela sensação de felicidade e segurança nunca tinha parado de aparecer, mesmo depois de milhares de beijos. Ele sentia que a cada dia a amava mais e mais. Ele amava os olhos azuis da esposa, mas tinha certeza de que se os mesmos fossem castanhos, amaria-os da mesma maneira. Afinal seu coração pertencia a ela e ele sempre amaria tudo e qualquer coisa relacionada a ela.
Com calma se separam, ainda olhando um nos olhos do outro.
- Pai — uma voz chamou-o.
Soluço sorriu e se virou para o filho. Esse estava com a mão sobre a cabeça de Banguela e o rosto levemente corado.
- Eu fiz um desenho — ele anunciou — Queria mostrar para você.
Soluço se aproximou e abaixou-se ao lado do filho. Este colocou a mão no bolso e de lá tirou um papel dobrado. Soluço pegou o papel e desdobrou-o. Nele estava desenhado um navio viking. O casco estava enfeitado com escudos, o mastro alto com a vela estiada e uma carranca como figura de proa. Os traços eram inseguros, um pouco estremecidos, mas o desenho era bonito. Bom até demais para uma criança de cinco anos.
- Você gostou? — perguntou Espirro apoiado em uma perna e balançando a outra para frente e para trás.
- Se eu gostei? — indagou Soluço orgulhoso — Eu amei!
O pequeno sorriu e abraçou o pai. Banguela empurrou os dois com a cabeça e os três trocaram um olhar cúmplice. Simultaneamente olharam para Astrid, que balançou a cabeça de forma negativa.
- Não, não mesmo — sentenciou ela.
- Ah, vamos! Por favor! — pediu Soluço — Eu já ajustei o equipamento par a suportar nós dois! Vai dar certo!
Astrid negou novamente.
- Um voo livre com o Espirro, Soluço? — ela balançou a cabeça — Ele só tem cinco anos, não é uma boa ideia.
- Mamãe — Espirro chamou e Astrid se virou.
O pequeno estava ao lado de Banguela, em sua cabeça estava o capacete do pai, claramente muito grande para ele.
- Por favor — ele implorou.
As mãos estavam juntas, em gesto de súplica, e os olhos verdes se destacavam no capacete preto. Astrid suspirou e fitou o marido, ainda apreensiva.
- Nós vamos ficar bem — ele garantiu.
Astrid fechou os olhos e suspirou.
- Está bem — ela cedeu.
Espirro sorriu e correu para abraçar a mãe.
Minutos depois os dois estavam acenando para a loira e levantando voo. Espirro estava acostumado com tudo aquilo. O pequeno tinha o equilíbrio perfeito, mas o pai mesmo assim segurava-o pela cintura, apenas por precaução.
O pequeno se abaixou um pouco e tocou as nuvens, deslumbrado como sempre. Soluço simplesmente amava ver as reações do filho enquanto voavam. Elas transbordavam alegria, inocência, liberdade.
Quando chegaram a altura certa, o rapaz virou o filho, fazendo-o ficar de frente para ele. Rapidamente prendeu o equipamento do pequeno ao seu, e olhou em seus olhos, agora mais claros, passando vagarosamente de verde para azul.
- Eu não vou poder te segurar — Soluço avisou — Você não vai cair, estamos presos um ao outro, mas pode me abraçar se quiser.
O pequeno assentiu e agarrou o pai no momento seguinte, com o capacete ainda em sua cabeça. Banguela virou a cabeça e os fitou. Soluço assentiu e acionou o equipamento, sendo jogado no ar assim que abriu as asas de sua armadura.
Espirro deixou o capacete do pai cair, mas Banguela, que estava abaixo deles, pegou-o com uma das patas. O pequeno abraçava o pai com força, o rosto enterrado em seu peito.
- Ei, está tudo bem? — indagou Soluço.
O pequeno tirou o rosto do peito do pai e assentiu, ainda aparentemente assustado.
- Olhe em volta, não é bonito? — indagou o rapaz na esperança de acalmar o filho.
Esse aceitou a sugestão e girou a cabeça. Logo a expressão de medo deu lugar a encantamento. Os olhos do menino brilhavam, agora tão azuis quanto o céu."Tão azuis quanto os da mãe" notou Soluço distraídamente.
Ele olhou para baixo e viu a esposa acenado. Ele sabia que ela ainda estava preocupada, mas tinha um sorriso no rosto.
Quem diria que ele, que sempre somente tivera o pai, no fim o perderia. Porém, para compensar essa perda, ele havia ganhado uma mãe, uma esposa que o amava e um filho. Além, é claro, de Banguela. Agora sim sua família estava completa.
Notas finais
Espero q tenham gostado da série de ones! Vejo vcs numa prox!
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Bjs, EuSemideus
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