“Em nome de Hel, você está preso!” A figura anuncia, apontando um dedo acusatório, mesmo que sua voz fosse fina como a de um garoto na puberdade, não dando muito tom de ameaça. “Como era o resto mesmo...” Ele murmura para si mesmo, tentando lembrar. “Ah! Demônio Abbadon, conhecido como Chase. Por crimes de sequestro de um animal protegido, tráfico de artefatos mágicos e... O que mais mesmo? Ah é, sair do Submundo sem permissão! E, e...” O garoto olha ao redor. “Causar caos no mundo humano, isso não é nem um pouco legal também.”

A figura apesar de tudo não era nem um pouco ameaçadora. Ele parecia ser um garoto, talvez, ou uma garota? Poderia facilmente se passar pelos dois. Estava no mínimo no começo da casa dos vinte, tendo 1,60 de altura, a pele branca, o cabelo de um tom azul-escuro com múltiplas mechas cinzas, além de ter uma franja que cobre seus olhos quase que completamente. Entre as mechas, se podia ver que seus olhos eram de um rosa forte, com suas pupilas ao invés do normal esperado, na verdade sendo em forma de corações rosas e brilhantes. Seu físico não era muito visível, mas parecia no mínimo franzino, com um moletom bem maior que ele cobrindo seu corpo, chegando até os joelhos de tão grande, suas mãos escondidas dentro das mangas.

O garoto até tentava ser ameaçador, mas era difícil. As bochechas permanentemente coradas, a altura baixa, além de claramente estar um pouco nervoso, mais fofo do que intimidador.

O trio parou, olhando a situação, confusas.

“Ele... Ela? O quê? Hel?” Arya pergunta, completamente confusa. “Por que ele parece uma garota?”

“Acho que o nome é femboy.” Eli responde, com a mesma expressão de confusão.

“O que raios é um femboy?” Arya questiona, olhando para a amiga.

“Basicamente o oposto de você.”

“Como assim, o que eu sequer devia ser?”

“Sei lá, você é mais tomboy.”

“E o que é raios sequer é tomboy?”

“Lésbica, igual você.” Eli dá de ombros.

“Ei! Pera o quê?”

“Okay, é brincadeira, não precisa ser lésbica... Ainda assim, é tipo você mesmo. Como você não sabe o que tomboy, otaku do caramba?” Elloise pergunta, indignada.

“Só porque eu vejo uns animes agora tenho que saber disso tudo é?” Arya bufa, irritada. “E ainda não sei o que é.”

Fofinho... Gentil...” Seira completamente focada no garoto, uma sensação de familiaridade, como se visse um antigo amigo. Ela começa a andar em sua direção, quase que em transe.

“Sinceramente, em? É tipo... Tipo o Astolfo de Fate, tu é viciada naquele anime, devia saber. Agora a gente tem que- Seira?” Eli se interrompe ao perceber a garota indo direto até o centro do caos.

“Seira? Ei, você não pode voltar, o que cê tá fazendo?” Arya chama, correndo até ela, tarde demais.

O demônio, Chase, segura sua cauda. Ela era mais longa do que ele tinha de altura, elástica. Ele começa a girá-la, antes de atacar o garoto com ela, como se fosse um chicote. Apesar da aparência, ela claramente não era normal, o garoto desviando com um salto surpreendentemente alto, com a cauda-chicote acertando o prédio, os tijolos cobertos de rachaduras com a força do golpe.

Sua cauda não era apenas uma cauda, era uma arma. Ser longa não era a única coisa, mas também sua elasticidade, a fazendo alcançar distâncias ao menos duas vezes maiores que seu tamanho, talvez até mais. Chase continuou tentando acertar o garoto, mas ele era ágil, usando seu tamanho e velocidade para desviar, porém Seira acabou chegando perto demais, o chicote indo em sua direção, com a garota muito distraída para reagir.

O garoto reagiu, entretanto.

“GARM! PEGA!” O borrão branco se manifesta novamente, pulando sobre Seira, a fazendo cair, uma barreira de gelo se formando para proteger os dois do ataque.

“Te peguei, moleque.” Chase rosna, a distração causada pela presença de Seira o suficiente para seu chicote acertasse o garoto, se enrolando ao redor de sua cintura. “Essa é por me jogar da porra da minha montaria.” Ele diz, antes de jogá-lo contra uma loja de roupas, o garoto atravessando o vidro, poeira subindo. Então ele se vira para Seira, o borrão branco ainda sobre ela, quase como uma névoa, fria, sem forma, a barreira se mantendo entre eles e Chase. “Agora vocês pirralhas. Vão pagar por aquela humilhação, não só deceparam um dos meus chifres, mas ainda usaram aquela merda de hipnose. Fiquei destruindo pelúcias por uma hora nessa merda. Se eu achar aquele coelho de merda, eu vou transformar ele na porra dum boneco de treino.”

“Fenrir. Soulbond.” A voz do garoto chama do buraco na loja, o borrão negro, que se parecia bastante com fumaça, corre até ele em segundos. Antes que Chase pudesse reagir propriamente, ele havia retornado, saltando sobre o demônio Abbadon e o jogando para longe com uma voadora de ambas as pernas.

O garoto estava diferente, não completamente, mas ainda assim. Em suas pernas, duas grandes botas de um material escuro, e em seus braços, duas manoplas do mesmo material, ao longo delas, quase que como veias, o que parecia fogo fluía pelo material, em ambos, havia garras extremamente afiadas, brilhando como ferro incandescente. Não só isso, entretanto, o garoto por si só estava um pouco diferente. Sua boca agora possuía presas, seus olhos ao invés do rosa, estavam completamente vermelhos, brilhando como chamas, uma expressão selvagem em seu rosto. Isso tudo poderia ser intimidador, se não fosse o fato que agora ele possuía duas orelhas e uma grande e fofa cauda de lobo, que sacudia sem parar.

“NÃO BATE NA CRIANÇA, SEU PAU NO CU!” O garoto grita, furioso.

“Isso... É meio fofinho ainda.” Arya comenta.

“É sério, quem é ele? Não é normal. Isso é pra ser uma carta também?” Eli pergunta, confusa.

“Ele tá emanando uma aura rosa pra falar a verdade, igual da Seira, mas... Bem mais forte. Tipo, muito mais, é insano. Será que...”

“Nem fodendo...”

Tão fofinho... Posso fazer carinho? São tão fofas.” Seira pensa, ainda focada nele, especialmente em suas orelhas de lobo.

“Q-Quê? Carinho? Nas minhas-” O garoto corou de vergonha, a fúria esquecida completamente, rosto escondido nas mãos. A reação foi tanta, que ele saiu daquela forma sem querer. Adeus orelhas e cauda fofinhas, e garras afiadas. “Espera...” Ele olha para Seira. “Amor. Você tem meu poder...” O garoto murmura, surpreso.

Chase tinha atingido uma parede de tijolos, que caiu sobre ele. Ele jogou os tijolos para o lado, antes de se levantar novamente, irritado.

“Já tô de saco cheio de você, moleque. Foda-se a porra da tua família, agora essa merda é pessoal.” Ele diz, puxando sua cauda novamente, a segurando com ambas as mãos, antes de a girar rapidamente. “Vou quebrar cada merda de osso e mandar só os restos.”

“A F-Freyja não ia gostar disso... Quer dizer, não! Eu não preciso de ajuda deles. Você não vai conseguir nada disso!” O garoto diz, determinado.

“Tenta então, já tava entediado nessa cidade de merda mesmo. Vai ser divertido acabar com vocês.” O demônio, retruca, prestes a avançar, quando um dos policiais de antes se joga contra ele, um taser em mãos, utilizando contra Chase bem entre suas escamas. “PORRA!” Ele se debate, jogando o policial para longe. “Filho da puta. Truque merda.”

“Fenrir, pega!” A forma de fumaça se moveu rapidamente, pegando o policial e o colocando no chão.

“Ai, merda. Treinamento básico contra demônios. Atingir entre as escamas.” O policial geme de dor. “Cadê a D.E.M.O.N. nessas horas?”

Como se com um timing perfeito, duas SUVs enormes e blindadas chegaram, pelo menos oito pessoas diferentes pulando de dentro. Todas vestidas com uniformes táticos brancos, usando capacetes que escondiam seus rostos. Em seus antebraços, braceletes grossos que cobriam a região inteira com telas nelas.

“Alvo Agressivo reconhecido. Grupo Beta, trabalhe em evacuar os civis. Grupo Alfa, comigo.” A líder ordena, digitando algo em seu bracelete, antes que do veículo, uma espécie de drone voa, até se manter flutuando um pouco acima de seu ombro. O drone era prateado, tinha a forma parecida com a de uma turbina de avião, com a frente tendo uma tela ciano, com o que pareciam olhos brancos na tela.

Ambos os grupos se moveram, todos fazendo o mesmo que sua líder, com drones similares se movendo e os seguindo. O Grupo Beta cercando a área rapidamente, trabalhando em tirar qualquer civil de perto da área. O Grupo Alfa seguiu a líder, rodeando o demônio.

“A gente tem que sair daqui, agora.” Arya diz, indo até a Seira e a ajudando a levantar. “Isso tá escalonando pra caramba agora, nem sei mais o que tá acontecendo. O que importa agora é ir até a Melanie e o Pêssego.”

E-Espera, ele...” Seira para, ainda olhando para o garoto. “Igual eu.

“Não dá tempo, Seira! Eles lidam com o cara bizarro, a gente precisa ir até a catedral. O Pêssego precisa da gente, não dá pra ficar enrolando.” Arya lembra, tentando puxar a garota.

E o Bob também.” Seira adiciona, concordando com a cabeça.

“É, e encontrar o Joker, não dá pra deixar ele sozinho assim.” Eli termina, apressando as amigas.

“Espera! Joker? Do Senhor Daemon?” O garoto pergunta. “Vocês conhecem ele?”

“Sim, e você? Olha, não dá pra conversar, o marco- o cachorro da nossa amiga precisa de ajuda da gente imediatamente.” Arya explica.

“Marchosias? O Eclipse! Eu tava procurando por ele também. Ele tá bem? Faz tempo demais longe do Submundo. Ele deve tá muito mal...” Ele olha para Chase, o demônio lutando contra o grupo novo, que surpreendentemente conseguia manter pé de igualdade, então ele olha para o trio. “Certo. Eu vou com vocês, ele deve tá tão assustado.”

“Como você- Okay, o nome dele é Pêssego, não Eclipse, mas...” Eli olha para Seira, que ainda parecia admirada com ele, lembrando como ele as havia ajudado, antes de suspirar. “Beleza, rápido.” Ela concorda, o quarteto rapidamente correndo em direção a catedral.

Já estava de noite quando eles chegaram até a Praça Hawthorn, o Festival ainda a todo vapor, apesar de certas tendas fechadas, claramente as de jogos que provavelmente haviam sido destruídas pelo demônio e seu surto – definitivamente justificado – contra as pelúcias locais.

As garotas olharam ao redor, buscando por vestígios de Melanie, Pêssego ou Joker.

“Ali! Eu tô vendo um pouco da trilha.” Arya anuncia, apontando para um lado da praça, onde conseguia ver parte do rastro da carta de Melanie. O grupo se move naquela direção rapidamente. “Me diz, você consegue entender a Seira também?”

“Melhor ainda, quem sequer é você? E você também tem uma carta?” Eli adiciona, séria.

O garoto nega com a cabeça.

“Não exatamente, mas faz sentido acharem que sim. Eu sou a fonte das cartas de Copas.” Ele explica. “Aether Helborn. Filho de Hel. Pecado da Luxúria. E deus do amor. O Senhor Daemon me pediu ajuda em criar as cartas, dando um pouco do meu poder pra ele usar.”

“Agora faz sentido, igual Amanda ao ver a árvore...” Eli murmura para si mesma. “Por isso que ela quis se aproximar.”

“A gente não vai mencionar o fato que ele acabou de dizer que é um deus e pecado da luxúria? Tenta alguma gracinha e te meto uma bicuda!” Arya ameaça, olhos semicerrados em suspeita.

“N-Não é nada disso! É só um título, o oposto inclusive. Sou até Demissexual!” Aether explica, envergonhado.

Eu também!” Seira adiciona.

“Meu irmão Midas por exemplo. Pecado da Ganância, mas é bem generoso! Ou a Nêmesis, ela é da Ira, e super calma... Menos quando ela perde um shiny, ela fica bem irritada quando isso acontece, mas tirando isso.” Aether continua.

“Que tipo de idiota bota títulos desses na base da ironia?” Arya pergunta, indignada.

“FOCO, ARYA! A MELANIE!” Eli lembra.

“Okay, desculpa... Ainda é estranho.” Ela continua os guiando, seguindo em meio ao festival, as tendas e multidão. “Tanta gente, que droga. Não podiam ter deixado pra outro dia ou sei lá?”

Ali!” Seira aponta. No meio do caos do Festival, eles conseguem ver Melanie, tentando guiar Pêssego em direção a catedral. O marchosias cambaleando, dando seu melhor para andar, com Joker claramente cansado sobre ele, dando seu melhor para emprestar a própria energia demoníaca que o dava vida para o animal.

“Eclipse!” Aether corre mais a frente, parando ao lado do lobo, assustando Melanie. “Eclipse, a não, você tá bem? Fraco demais.”

“Q-quem é você? Deixa o Pêssego em paz!” Melanie exclama, ficando entre eles.

“Mel! Ele tá com a gente, tá tudo bem.” Eli diz, os alcançando para o alívio dela e Joker.

“Aether? Que bom, a gente precisa de magia demoníaca... A árvore...” Joker tenta explicar, fraco, antes de desmaiar após usar energia demais, com Eli imediatamente correndo e o pegando nos braços, preocupada.

“Joker! Que droga. A gente tá tentando levar ele até a Árvore Eva pra ele conseguir se alimentar.” Arya explica, preocupada.

“Eva? Entendi, faz sentido. A gente tem que ir logo... Fenrir, Garm, me ajuda.” Aether ordena, os dois borrões se manifestando, cobrindo Pêssego, antes de o levantar com facilidade.

Arya teve quase certeza de ver as formas de dois lobos em meio a fumaça e névoa por um momento, antes que Aether as guiasse rapidamente em direção a Catedral de Perséfone.

“Quem é ele? Certeza que ele é legal?” Melanie pergunta, preocupada.

“Aparente um deus e pecado e nem sei mais.” Arya responde, antes de levar uma cotovelada de Eli. “Ai!”

“Sim, ele é. Salvou a gente daquele demônio maluco.” Eli corrige, acalmando a garotinha. “O importante agora é cuidar do Pêssego.”

Eles rapidamente entram na catedral, ainda mais movimentada que antes. Múltiplos grupos pelo local, apreciando a estrutura, suas pinturas ou apenas as frutas. Aether estava à frente do grupo, as pessoas abrindo caminho enquanto ele ia até a árvore, antes de ser impedido pela mesma mulher de antes.

“Ei, garoto, espera, você não pode chegar mais perto.”

“Tia! Por favor, a gente precisa levar o Pêssego até a árvore, ele tá morrendo.” Melanie pede, segurando a roupa da mulher.

“Tia? Okay, ela parece com a mulher da foto.” Arya comenta, lembrando da fotografia na casa de fazenda. “Só mais... Maneira.”

É bem legal mesmo.” Seira concorda. “Acha que combinaria comigo?” Ela pergunta, olhando para Arya.

“Gótica?” Ela olha entre a mulher e Seira, pensativa. “Talvez um pouco?”

Não as tatuagens! A maquiagem talvez? Ou o estilo de roupa. A mamãe não ia deixar...” Seira claramente um pouco mais triste. “Ou não iria nem ligar...

“Seira...?” Arya olha para a garota, preocupada.

A mulher por outro lado, tia de Melanie, olhou para a garota, então para Pêssego, preocupada.

“Pêssego? Mais como a árvore iria ajudar? Ele precisa de um veterinário.” A mulher argumenta.

“Não! Ele...” Melanie pensa, antes de puxar sua carta, fechando os olhos. O véu que escondia a verdadeira forma de Pêssego de dissipa, mostrando o marchosias, o lobo aos poucos perdendo a consciência, e até a cobra Bob não conseguindo se mover direito mais. “Ele precisa da magia da deusa da árvore, por favor.”

A mulher arregala os olhos, surpresa, sem palavras. Pessoas ao redor também surpresas, olhando para o enorme lobo-alado, alguns puxando celulares para tentar tirar fotos.

“Humanos são tão- Droga.” Joker havia recuperado um pouco de sua consciência, esticando os braços em direção a Melanie. “A carta...” Ele pede, e Elloise obedece, se aproximando, deixando o coelho pegar a carta. “Pela escuridão do naipe em minha mão, que o véu se levante com sua ilusão.” Joker sussurra, a carta brilhando intensamente, antes de uma espécie de véu quase invisível se expande, cobrindo toda a catedral. Todas as pessoas ao redor pareceram confusas por um momento, antes de voltarem a se mover ao redor ignorando o grupo. Os únicos que não pareciam afetados eram o grupo e a tia de Melanie.

“O que você...?” Eli pergunta para Joker.

O coelho claramente estava com dificuldades de manter os olhos abertos.

“Eu... Tenho esse poder. Coringa. Eu consigo usar o poder das cartas livremente, mas é meio chato. E cansativo.” O corpo de Joker estava mole nos braços de Eli. “Criei o véu em larga escala, mas... Tô sem energia.”

“Tá, tá... O Pêssego é... Um grifo?” A mulher questiona, confusa, antes de olhar para a sobrinha, completamente desesperada. “Certo, certo.” Ela sai do caminho, deixando Aether seguir rapidamente até a árvore com Fenrir e Garm o seguindo, carregando Pêssego.

“Aqui, cuidado.” Aether ordena, Pêssego gentilmente sendo colocado na grama aos pés da árvore. “Okay, Eclipse, ou... Pêssego. Vai ficar tudo bem.” O garoto toca uma das raízes com uma mão e o torso do marchosias com a outra, energia rosada começando a fluir de seus dedos. “Eu preciso de tempo, ele precisa de bastante energia. O Joker! Traz ele aqui também.”

Eli concorda com a cabeça, correndo até Aether, colocando Joker junto de Pêssego. O lobo abriu os olhos levemente, antes de puxar o coelho para mais perto com uma pata, a energia sendo compartilhada entre os dois.

“Lobo besta... Ainda tô bravo tá? Não esqueci da cartola.” Joker murmura. Pêssego lambe o rosto do coelho, que abre um sorriso fraco. “Talvez não tão mal...” Até Bob se move um pouco, cutucando Joker. “Pelo menos você é mais comportada.”

“Certeza que eles vão ficar bem?” Eli pergunta, olhando para Aether, que estava concentrado em manter a transferência de energia da árvore para os dois.

“Eu espero... É muita coisa, mas acho que sim.” Ele diz, antes de olhar ao redor, vendo Melanie agarrada na tia, chorando de preocupação. “Só que vocês têm que manter a guarda. A gente não pode deixar ninguém interromper.”

“Pelo menos aquele-” Arya ia comentar, antes de Seira tapar a boca dela, negando com a cabeça.

Pensamentos bons, não pode. Arriscado.” Ela pensa, olhando ao redor desconfiada.

“Seja lá quem for aquele pessoal que apareceu, espero que consigam prender ele.” Eli torce.

“Do que vocês tão falando?” A mulher pergunta, enquanto fazia carinho em Melanie.

“Um demônio, perseguindo o Pêssego. Uns caras de branco e com drones apareceram pra lidar com ele.” Eli explica.

“Branco? Deve ser a D.E.M.O.N.? É uma força especial que lida com essas coisas, criada faz uns anos, depois de um monte de bagunça. Demônios, deuses, semideuses, um monte de loucura. Toda cidade em New Kingdom tem um desses, é tipo a polícia pra coisa sobrenatural.” A mulher explica.

“Okay, isso tá começando a ficar embaraçoso...” Arya sussurra para si mesma. “Talvez eu devesse mesmo sair do farm um pouco, porque todo mundo sabe de coisa estranha assim e eu só descobri por causa do Joker.”

DEMON... Demon... Acho que... A empresa da mamãe trabalha com eles? É... Acho que sim, eu vi gente vestida assim no prédio antes.” Seira tenta lembrar, pensativa. “Algo de... Capturar um mágico? Era isso?” Ela bufa de frustração, tendo dificuldade em lembrar, o pouco que sabia era só de conversas que havia ouvido sem querer. “O quê... D.E.M.O.N.... O que DEMON significa?

“Boa pergunta, DEMON, sério? Quem inventa essas siglas? A gente devia inventar algo também pra gente, por que não?” Arya comenta, pensando. “Nome pro time e tal.”

“Acho que D.E.M.O.N. era algo tipo... Departamento Especial de Monitoramento e Orientação de Não-Humanos? Algo assim.” A mulher responde.

Arya olha para ela, antes de olhar para Eli com indignação, que a olhava de volta surpresa.

“Quê? Não me olha assim, era uma piada. Eu não sabia que um negócio desses realmente existia.” Elloise se defende, ajeitando os óculos.

“Tá, tanto faz. Como você sabe tanto disso?” Arya olha para a tia de Melanie novamente.

“Namorei um cara que trabalha com eles, meio babaca pra falar a verdade. Se achava todo bonzão, chato demais. Me encheu o saco pra caramba por uns meses depois que a gente terminou, não sabe ler o ambiente nem se fosse pra salvar a própria pele.” Ela reclama, frustrada.

“Engraçado, conheço alguém parecido.” Eli diz.

“Beleza, que tal não começar papo de relacionamento agora?” Arya pede.

“Bom, vocês tá estão na idade, não é algo normal?” A mulher questiona.

“Não.” Arya responde, fingindo indiferença.

“Que nada, essas duas aí tão apaixonadas pra caramba.” Eli aponta para Arya e Seira.

Arya fica vermelha, com Seira só inclinando a cabeça para o lado, confusa.

“Faz sentido, fofas juntas.”

Melanie por si só ri, toda aquela conversa a distraindo um pouco da situação difícil, mesmo que parecesse só um monte de besteira de gente velha.

Entretanto, foi naquele momento que mais uma vez Arya sentiu aquele arrepio percorrer seu corpo.

“ELE TÁ VINDO!” A garota grita, imediatamente puxando sua carta e se transformando em seu uniforme de garota mágica.

“Você tem que tirar todo mundo daqui, agora. É perigoso demais.” Eli ordena a mulher, já se levantando e transformando.

“Eu preciso de tempo ainda, não deixa ele chegar perto demais.” Aether pede, antes de se concentrar o máximo possível em curar Pêssego e Joker.

“Certo. Melanie, vamos.” Ela chama.

“Não! Eu não vou deixar o Pêssego.” A garota diz, se afastando da tia e correndo até o marchosias, o abraçando.

“Mas...”

“A gente vai cuidar dela, eu prometo.” Arya garante, adaga em mão.

A mulher suspira, frustrada e preocupada, antes de puxar um rádio e se afastar. Em pouco tempo os outros funcionários do local começaram a evacuar as pessoas, apesar do caos inicial, todos estavam saindo da catedral rapidamente. Foi quando elas viram ele novamente. Chase, o demônio Abbadon, entrando por uma das entradas, fácil de se ver por sua altura e aparência.

Ele ainda estava em sua forma de demônio, porém suas roupas claramente danificadas. Uma das mangas de sua jaqueta de couro despedaçada, o que parecia algemas grossas em seus pulsos, que ele arranca com força bruta.

“Eu já cansei dessa porra. Já fui legal demais pirralhas, na próxima eu mato todo mundo no caminho se vocês continuarem tentando me fazer de trouxa.” Ele rosna, mostrando seus dentes afiados. Sua cauda se move por si só, acertando uma mesa, a partindo no meio e lançando as cestas de frutas para longe.

“Você já se faz de trouxa sozinho, precisa de ajuda não, Pé Grande.” Arya retruca, ficando entre ele e a árvore.

“Pra uma girafa em pé, tudo que você faz fica ridículo mesmo.” Eli adiciona, sorrindo.

É, ahn... Seu idiota!” Seira se junta as duas, já transformada, tentando pensar em um insulto também. “Não, algo, tipo... É... Seu, seu... Altomático!

Arya olha para ela, rindo.

“Altomático?”

É, tipo... Alto e automático. Ele cresceu bastante e tal, sabe, automaticamente?” A garota explica, envergonhada.

“Você tentou, é o que importa.” Arya suporta, fazendo carinho na cabeça dela.

“Vocês pirralhas são irritantes. Foda-se essa merda, eu vou levar o bicho e seus corpos juntos, cartas ou não.” Ele cerra seus punhos, as mangas de sua jaqueta ficando mais apertadas, antes de serem despedaçadas com mais escamas se formando por todo seu corpo, como uma espécie de armadura que cobria a maior parte dele.

“Quão problemático isso é?” Arya pergunta.

“Ele é um Abbadon. É a raça de demônio responsável pelo inferno, força bruta e resistência física é o ponto mais forte deles! Só ataques físicos não são o suficiente.” Aether explica, preocupado, tentando acelerar o processo de cura o mais rápido possível.

“Ótimo, tudo que a gente precisava.” Arya reclama.

“O que importa é garantir a segurança do Pêssego e do Joker, a gente dá um jeito.” Eli afirma.

Sim! A gente espanca ele!” Seira adiciona.

“Talvez eu seja um mal exemplo...” Arya ignora isso por um instante, decidindo focar no que realmente importava. “Certo. Bora ver o quanto esse varapau aguenta.”

Chase segura sua cauda novamente com ambas as mãos, a girando rapidamente com se fosse jogar um laço. Ele ataca com sua cauda, não contra elas, mas contra Aether, porém Seira pula na frente, segurando o impacto com seu escudo, que cresce um pouco ao absorver a energia do golpe.

Arya e Eli avançam pelos lados, ambas com seus ataques a distância, as Lâminas Negras de Arya e os raios de luz de Elloise acertando as escamas, porém mal deixando marcas. Isso não as impede, entretanto, no momento seu foco era atrasá-lo pelo menos enquanto Aether cuidava dos dois animais.

O demônio puxa sua cauda, antes de começar a girá-la ao seu redor, forçando a dupla a se afastar e manter distância, porém Seira não fez o mesmo. Ao invés disso ela decidiu se aproximar lentamente, segurando as chicotadas com seu escudo, que as absorvia e crescia, facilitando a garota a segurar os impactos ainda mais.

“Se é assim, então vem aqui, pirralha.” A cauda de Chase ao invés de atacar novamente, se estica antes de enrolar ao redor de Seira, porém antes que ela pudesse ser puxada, a garota bate a parte de baixo de seu escudo – que já estava com metade do tamanho dela a esse ponto – no chão, a ponta do escudo de coração se cravando na pedra, funcionando como uma âncora, dificultando que o demônio a puxasse.

As outras duas usaram isso para sua vantagem. Arya corre até Chase, sombras transformando sua adaga em espada que ela usa para tentar decepar a cauda. O demônio ao perceber aquilo, corre em direção a garota, colocando um braço na frente no último segundo, com suas escamas fazendo a lâmina ricochetear e Arya dar um passo para trás.

Ele então segura Arya pelo pescoço, porém sua distração foi o suficiente para Eli mover seus espelhos, os seis rodeando o demônio antes de brilharem com uma forte luz, o cegando por alguns segundos e o fazendo derrubar Arya. Logo após, Seira levanta seu escudo do chão, puxando a cauda, que apesar de não conseguir mover o demônio, foi o suficiente para esticá-la ainda mais.

Arya se move, desviando de um gancho às cegas com sua Investida Obscura, aparecendo do outro lado do demônio e acertando a cauda com sua espada, a cortando bem no meio, com Chase gritando, não de dor, mas de puro ódio.

“MINHA CAUDA, SUA PIRRALHAS DO CARALHO! EU VOU MATAR TODAS VOCÊS E JOGAR SUAS ALMAS NA PORRA DO INFERNO!” Ele grita, atacando furiosamente, acertando Arya, a fazendo voar e cair contra um dos pilares centrais da catedral, causando rachaduras na estrutura e a garota cair de vários metros, inconsciente no chão.

“ARYA!” Elloise grita, mas ela não podia ajudar ainda. Chase estava furioso, e mesmo que houve perdido metade de sua cauda, ele não havia perdido a batalha ainda. “SEIRA, VAI CURAR A ARYA!”

Seira sequer precisava de ordens, já correndo até a amiga e se ajoelhando ao seu lado, apontando seu escudo para ela.

Amor Finito.” Seira usa a energia absorvida pelo escudo, da mesma forma que havia usado antes para se curar, agora usando para curar a amiga ferida.

Elloise por outro lado, se põe entre Chase e elas, expressão séria no rosto. Ela sobe em dois de seus espelhos que a levantam do chão, os outros quatro flutuando ao seu redor.

“Se é assim, então que seja. Eu vou dar um jeito de acabar com você, Pernalonga Pirateado.” O olho visível de Eli brilhando com o poder da Luz do Vidente.

Chase puxa sua cauda, agora metade do seu tamanho anterior, um pouco maior que ele mesmo, mas ainda algo perigoso.

“Vem pro pau, pirralha.”

Ele dá uma chicotada vertical, que Eli desvia voando para o lado, antes de atirar um raio de luz contra seus olhos, mas o demônio estava preparado dessa vez, defendendo com seu outro braço, as escamas ainda muito resistentes para serem atravessadas pelo ataque. Então Chase dá uma chicotada horizontal, com a garota desviando com um salto, pousando em dois espelhos diferentes, com os anteriores girando e dando múltiplos tiros, antes de serem atingidos por um soco e uma chicotada que os lança longe, fora do alcance de Eli.

A garota guia os outros dois espelhos ao redor do demônio, dando múltiplos tiros, com ela voando até estar acima dele.

“Em cima, trilho em pé.” Ela chama, Chase olhando para cima, só para ver os espelhos abaixo do pé da garota brilhando, antes de atirarem raios mais fortes. Ele consegue se defender de um com o braço, mas o outro atinge um olho, o cegando por um instante.

Ele então gira sua cauda acima de si, tentando acertar a garota, porém essa distração era apenas para que ela voasse até os dois espelhos anteriores e os recuperasse, voltando a ter seis.

“Usa bem essa cauda, aprendeu como? Ou só é Altodidata?” Ela zomba, guiando seus espelhos com as mãos.

“VAI SE FERRAR COM ESSAS MERDAS DE TROCADILHOS, PIRRALHA DE MERDA!” Chase grita, um olho sangrando, o desequilibrando. Ele ataca com o chicote a sua frente, porém Eli estava pronta, mantendo uma distância segura.

“É porque não viu as merdas que a Arya fala.” Elloise aponta um dedo em direção a Chase, quatro de seus espelhos se fundiram, formando um espelho maior, enquanto um dos espelhos pequenos ficou alguns centímetros a frente. Luz se concentrava no espelho mais largo, antes de ser guiada para o espelho menor a frente, como um funil. “A gente tava praticando, pensando em uns ataques especiais. O que acha desse?” Eli cerra o punho, luz carregada, focada completamente no espelho menor. “Canhão de Luz. Diamond Rush.” O raio de luz foi bem mais intenso, a energia concentrada no maior, antes de ser canalizada pelo menor para um ataque poderoso. Chase até tentou se defender cruzando seus braços a frente de si, mas o raio atravessou até mesmo suas escamas grossas, perfurando seus braços e o atingindo no peito, o demônio sendo lançado em cima de uma mesa com o impacto, que se quebrou.

“Funcionou?” Eli sussurra para si mesma, mesmo que ainda mantendo a guarda levantada, seus espelhos apontados na direção do demônio. Porém, a energia necessária havia sido alta, sua Luz do Vidente se apagando primeiro, antes dela cair de joelhos. “Droga. Forte, mas exigente.”

Cuidado! Ele ainda tá vivo!” Seira tenta avisar, mas obviamente não conseguia. Entretanto, felizmente, Arya se moveu, começando a recuperar a consciência. “Arya! Você tá bem?

Das mesas, um barulho, conforme Chase se levanta, coberto de frutas, uma laranja presa em um de seus três chifres remanescentes. Um buraco atravessava ambos seus braços, onde o raio de luz havia perfurado, seu peito estava chamuscado, com um buraco nas escamas, que por muito pouco pararam o ataque antes que ele chegasse em seu coração.

“Não é qualquer um que consegue atravessar as escamas de um demônio, muito menos de um Abbadon.” Para surpresa de todos, ele ri, um sorriso maníaco mostrando seus dentes afiados. “Pena pra você, o Inferno me preparou pra bem pior que isso.”

Elloise se levanta, fazendo o melhor para se manter focada em continuar lutando, porém ao invés de atacá-la, ele pula, suas garras perfurando uma parede, com ele as usando para escalar a catedral, antes de saltar. Apesar do tamanho, sua cauda ainda era o suficiente para se enrolar em um dos arcos de pedra, o balançando para além de Eli, direto em direção a árvore.

“SEIRA, PROTEGE A MELANIE E O AETHER!” Eli grita, mal tendo forças para lutar mais.

Chase balança novamente, agora saltando diretamente em direção do grupo aos pés da árvore. Melanie não se move, em uma tentativa desesperada de proteger Pêssego. Aether olha para o demônio voando em sua direção, então para Pêssego e Joker, mais da metade, mas ainda assim, só parar era perigoso. Chamar Fenrir e Garm não seria o suficiente com ele focado completamente nos dois animais.

Seira se levanta, tentando se mover para interceptar Chase, mas ela não era rápida o suficiente. O demônio estava prestes a atingir Aether com um soco, quando uma figura se moveu em velocidade surpreendente, segurando o punho do homem com uma força equiparável a ele.

Todos se surpreenderam, olhos arregalados, ao ver quem estava ali. Entre Aether e Chase... Arya. Porém, ao invés de simplesmente em sua forma de garota mágica, ela estava em uma aparência única. Sua pele agora estava cinza, seus cabelos não mais negros e sim brancos, suas escleras negras com írises verdes. Seu uniforme de garota mágica estava rasgado em múltiplas partes, por causa de escamas dracônicas negras, que cobriam seus braços, suas pernas, a frente do torso e ao longo da espinha. Atrás de si, uma cauda longa com ponta afiada em forma do ás de espadas e do meio de sua cabeça, dois chifres cresciam, apontando para cima. Suas mãos e pés eram similares aos do demônio, como garras de dragão.

“SAI... DE PERTO... DOS MEUS AMIGOS!” Arya rosna, furiosa, dentes afiados visíveis em sua boca. Ela aperta mais forte, dobrando o braço de Chase antes de atingi-lo com um gancho de direita, então um chute no estômago, que o fez cair de joelhos, antes de Arya chutá-lo bem no rosto, o lançando para fora da área de grama.

“ARYA?” Eli grita, uma torrente de sentimentos a atingindo. Surpresa, confusão, esperança e um pouco de medo, não dela, mas por ela.

Ela... Tá bem maneira.” Seira pensa, corando.

“Quê? Do que vocês tão falando? Eu tô norm-” Arya olha para si mesma, arregalando os olhos com a surpresa. “MAS QUE MERDA?”

“Demônio... Você era um demônio esse tempo todo, pirralha?” Chase pergunta, rindo, se levantando novamente. Algumas de suas escamas partidas, sangue escorrendo, mas ainda assim ele sorria. “Forte pra caralho ainda. Fazia tempo que eu não enfrentava outro demônio que me causava tanto dano num golpe só, desde aquela vadia da Styx.”

“PERA UM POUCO! Como assim, demônio? Eu não... Sou? Eu tenho uma mãe humana, calma aí! Ou... Será que ela?” Arya arregala os olhos, pensando sobre sua mãe. “Nah, nem ferrando. Ela é uma desenhista, designer gráfico ou sei lá o quê. Demônios não iam trabalhar em algo assim, né?”

“Bom... Tem demônios que vivem no mundo humano como qualquer outro, então... Ou só pode ser seu pai?” Aether sugere. “Você deve ser um Meio-Demônio. Filha de humano e demônio. A questão é qual tipo...”

“Eu sei lá, não conheço ele. Espera, tipo?”

“É tem várias- Okay, espera! Agora não. Eu tô quase terminando, você tem que parar ele.” Aether se interrompe, lembrando do que realmente importava no momento.

“É, verdade.” Arya olha para Eli, muito esgotada para continuar lutando, e Seira, a olhando admirada, fazendo a garota corar.

Eu consigo lutar ainda, conta comigo!” Ela afirma, determinada. Seu escudo havia voltado ao tamanho normal, entretanto, após usar toda a energia armazenada para curar Arya.

“Certo... A gente consegue. Basicamente a mesma força agora, né?” Arya suspira, antes de correr em direção ao demônio adversário.

Chase bate de frente com ela, ambos segurando as mãos do outro em uma disputa de força bruta, o chão abaixo rachando, suas garras perfurando a pedra, para mantê-los no lugar.

“Pode até ser forte, pirralha, mas uma tampinha como você tem muito a aprender pra enfrentar um Abbadon.” Chase provoca, abusando de seu tamanho maior para sua vantagem, pressionando Arya, que foi arrastada um pouco para trás.

“Valeu, Vara de Caju, mas você também tem muito a aprender sobre enfrentar uma adolescente.” Arya responde, soltando Chase, se abaixando e dando um chute com tudo bem no meio das pernas dele, só para nada acontecer. “UÉ?!”

“Boa tentativa.” Ele a segura, antes de socá-la no estômago, a lançando em direção a Aether.

A garota voa, antes de rolar na grama, parando pouco antes deles, tossindo, dor no corpo todo.

“Ai... Era pra ter funcionado.” Arya geme, tentando se levantar.

“É que ele tá na forma de combate, igual você. Demônios na Forma de Combate tem o corpo coberto por essas escamas, sentem bem menos dor, e também não tem as genitais. É uma fraqueza óbvia, então é retirada também quando se transformam.” Aether explica, preocupado com ela.

“AGORA QUE VOCÊ AVISA?” Arya briga, cambaleando para se levantar. “Ai que merda. Isso foi literalmente a primeira coisa que minha tia me ensinou sobre autodefesa! Se tem um cara estranho tentando alguma gracinha? CHUTE NO SACO! Não é possível. Tô gostando ainda menos de demônios.” Ela finalmente recupera o fôlego, se mantendo de pé.

“Bom, foi um golpe baixo também...” Aether comenta.

“ELE É QUASE O DOBRO DO MEU TAMANHO! QUALQUER GOLPE MEU É GOLPE BAIXO!” Arya retruca, frustrada.

“Desculpa, só tava falando...” Aether dá de ombros.

“Okay, novo plano. Espancamento em dupla.” Arya diz, concentrando sombras em suas garras da mesma forma que faz em sua adaga, as tornando ainda maiores, antes de avançar.

“Vem pro pau, caralho! É disso que eu tô falando!” Chase avança também.

Chase dá um gancho de direita, que Arya rebate com o braço, então ele dá um soco de esquerda, que a garota desvia, só para Seira aparecer no caminho, segurando o golpe seu escudo. Arya então corta contra o braço de Chase, que salta para trás para desviar, as garras cortando suas escamas de raspão. Ele então se vira para um pilar, o mesmo rachado pelo corpo de Arya anteriormente, o socando, fazendo com que ele começasse a cair, apenas para a cauda do demônio se enrolar ao redor da pedra. Chase gira, antes de lançar o pilar em direção delas, com a árvore bem no caminho atrás delas, não podiam simplesmente desviar.

Seira levanta seu escudo, e Arya fica atrás dela, segurando a garota, dando suporte ao escudo que recebeu todo o impacto, as arrastando alguns centímetros para trás, porém pelo menos o pilar havia quebrado e parado antes de alcançar os outros.

Então, Seira avança, seu escudo novamente metade do tamanho de seu corpo, mas ao invés de atacar, ela se abaixa, levantando o escudo como plataforma, Arya pulando sobre ele antes de ser impulsionada para cima por Seira. A garota voando em direção a Chase, que lança sua cauda para interceptá-la, no entanto, no último segundo ela usa Investida Obscura, dando um dash de sombra que o atravessa, parando atrás dele e cortando sua perna, o corte fundo e o fazendo cair sobre um joelho, só para Seira usar a oportunidade e utilizar Heartbreak, usando seu escudo como aríete, com toda a energia armazenada para bater diretamente no rosto do demônio com imensa força, o fazendo cair, inconsciente.

Foi?” Seira pergunta, ainda com seu escudo levantado, mesmo que ele houvesse voltado ao tamanho normal após usar a energia para o ataque. “A gente venceu?

Arya encara o demônio inconsciente por um minuto, guarda levantada, antes de suspirar de alívio e se acalmar.

“É, acho que sim. Um golpe desse, centenas de quilos na cara, deve funcionar num demônio também, né?” Ela olha para si mesma. “Okay, mas como saio dessa forma agora? Não dá pra parecer um bicho desses por aí.”

“Sei lá, o Aether deve saber.” Eli cambaleia até elas, já fora da transformação, mas claramente cansada. “Eu tô acabada.”

“Nem me diga... Você parece bem de boa com... Bom, isso.” Arya gesticula para si mesma.

“É, acho que sim. Ainda é você, né?” Eli cutuca a testa da amiga. “É, cabeça oca. A Arya de sempre.”

“EI! Vai ser ferrar.” Ela reclama, mas ainda assim ri.

“Só cuidado com esses dentes aí, parece um tubarão.” Elloise coloca um braço sobre o ombro de Arya, que a ajuda a andar. “Sei lá, talvez eu acorde amanhã e caia a ficha, agora só quero voltar pro hotel e dormir.”

Comida! Sushi! Sushi!” Seira celebra, Arya rindo.

“É, comer é bom... Sushi ou o que for, tô faminta. A gente literalmente só tomou limonada depois de sair do Festival, metade do dia sem nada.” Arya lembra, antes de olhar para Eli. “Por que eu tô te carregando? Eu tô cansada também.”

“Porque você é a brutamontes aqui, agora vamo.” Ela retruca.

O grupo vai até a árvore, as três se deitando na grama, respirando fundo.

“Vocês foram incríveis. E eu tô quase terminando aqui. Eles vão ficar bem, felizmente. O Joker e o Eclipse- Pêssego.” Aether diz.

“E o Bob!” Melanie adiciona, sorrindo, abraçando o marchosias. O lobo parecendo bem melhor, junto de Bob, que a cutucava carinhosamente, a fazendo rir. “Obrigada, vocês são tão legais! Igual heróis nos quadrinhos, soco e chute, e POW e BOOM!” Ela diz, toda animada.

“Que bom que deu tudo certo...” Joker suspira, aliviado, olhando para as amigas, sorrindo. “Tá, vocês foram a melhor escolha. Melhores amigas de todas.”

“É, isso é óbvio, agora vê se toma mais cuidado, coelho tapado. Não assusta a gente assim de novo.” Eli briga, antes de fazer carinho nas orelhas dele. “Idiota. Que bom que você tá bem.”

“É, ainda bem. Se você morrer eu vou te puxar de volta de onde for, besta.” Arya adiciona, cruzando os braços.

Fofo e gentil. Eu gosto.” Seira sorri, abraçando Joker bem forte.

“Obr- Ai, socorro. Obrigado.” Ele grunhe, sufocando no abraço de urso da garota.

Ah! Desculpa!” A garota o solta, preocupada, mas os outros apenas riem.

Foi então que os instintos de Arya se ativaram novamente, um arrepio percorrendo seu corpo. Ao olhar para trás...

Chase havia se levantado, porém, tinha algo muito errado com ele...