O Baralho do Mágico Demônio
12 O Vidente de Blackthorn
CIDADE DE BLACKTHORN
ESTÁDIO FINNEGAN
O apito soa com o final do primeiro tempo. Placar se mantendo em 0x0, porém com certas dificuldades.
“E ACABA O PRIMEIRO TEMPO! APESAR DE NENHUM GOL, O TIME BLACKTHORN TEM LIDERANÇA ABSOLUTA NA POSSE DE BOLA E MANTEVE UMA PRESSÃO GIGANTESCA EM PURPLE DAHLIA! SERÁ QUE TEREMOS UMA VIRADA NO SEGUNDO TEMPO, OU FINN AISLING GUIARÁ SEU TIME PARA FINALMENTE MARCAR E GARANTIR QUE SEU TIME SE MANTENHA NO TORNEIO DAS FLORES?!” A voz do comentarista ecoa pelo estádio, continuando suas observações sobre o jogo com um colega.
Arya se senta no banco, frustrada, bebendo uma garrafa inteira de água.
“Que saco, aquele cara tem uma carta. Eu tenho certeza.” Arya reclama, apontando com o polegar para os bancos do time rival, especificamente para o capitão do time. “A aura dele é estranha.”
O capitão deles era Finn Aisling, um cara de 16 anos, cabelo castanho claro abaixo das orelhas e usando óculos esportivos. O uniforme deles era camisa branca com short azul, o brasão um galho de abrunheiro, com frutos e flores brancas. Finn parecia conversar seriamente com seu time, criando estratégias para mudar a situação atual do jogo provavelmente.
“Sinceramente, você não para de falar de aura faz um tempo, desde a Cerimônia de Abertura.” Eli comenta, se sentando ao lado dela, secando o suor com uma toalha. “Eu sei que eu não vejo nada, mas sei lá, você tem ficado cada vez mais estranha desde que conseguiu o Ás de Espadas.”
“Aura? Que estranho, ele parece normal. Aqueles óculos são engraçados, parecem de natação. Por quê? Espera, ele sabe algo que a gente não sabe? Será que vai ter uma inundação?” Seira pensa, olhando ao redor, nervosa. “Eu não sei nadar, Oceano me ajuda! Esse uniforme de goleira deve ser horrível pra nadar também, eu vou me afogar se isso acontecer.” Coitada pensando demais em coisas simples novamente.
“Isso não importa, estranha sempre fui. O que importa é que ele definitivamente tá usando a carta dele contra a gente, e tá funcionando bem demais!” Arya continua, de saco cheio. “É sério, como a gente tá zero a zero assim? A gente ficou na defensiva o primeiro tempo inteiro! E das poucas vezes que a gente tentou avançar, eles conseguiram parar a gente, até eu! Tô nem aí, eu vou usar minha Investida Obscura no próximo.”
“Não seja idiota, caramba, a gente não pode ficar usando uma coisa dessas assim, todo mundo vai ver!” Eli rebate, apontando para as arquibancadas. Não era o estádio inteiro, obviamente, mas ainda assim uma boa quantidade de pessoas estava vendo o jogo, seja famílias de jogadores, ou pessoas interessadas no Torneio das Flores, independente, era gente demais para simplesmente ignorar.
Arya bufa, frustrada.
“Sei lá, a gente se transforma. As máscaras escondem a nossa identidade mesmo.”
“Claro que não! O que você vai fazer? Uma pessoa estranha invade o jogo, usa poderes estranhos e vaza? Isso não vai ajudar. No máximo se transformar mantendo o uniforme do time, mas isso continua sendo último recurso.” Eli retruca novamente. “A gente ainda tá empatado, não perdendo. Qualquer coisa a gente vai pros pênaltis, e com você e o Steven, a gente definitivamente vence nisso.”
“É, se a gente for... Pelo menos ele é o único com carta.” Arya suspira, encarando o time rival, que descansava e discutia estratégias, ela conseguia ver uma aura clara ao redor de Finn, o mesmo tipo que ela via na Eli, mesmo que mais fraca que de Eli. “Deve ser de número baixo.” Ela diz, olhando novamente para Eli. “Sua aura é mais forte, provavelmente por ter o Ás. Mesmo com a Seira.” Ela aponta para a garota – que continuava olhando ao redor do estádio em paranoia -, uma aura rosa forte ao redor dela em sua visão. “O Steven tem uma aura mais fraca, mas ainda assim bem decente. Se é o Seis de Espadas, então ele é o meio-termo. O babaca de óculos lá tá abaixo disso. O que cê tem de Ouros abaixo do Seis?”
“Alguém me chamou?” Steven pergunta, se aproximando das garotas, antes de olhar para Seira, que parecia a ponto de chorar. “Hm... Ela tá bem?” Ele aponta, levantando uma sobrancelha.
“Não, ninguém te chamou, mas já que tá aqui. “Eli rola os olhos, olhando para ele. “Inventa uma desculpa pra treinadora, porque a gente tem que sair rapidinho.” Ela ordena, antes de puxar Arya e Seira, saindo do campo, seguindo pelos corredores em direção ao vestiário feminino.
“Por que a gente tá correndo? Será que é evacuação? Ah, não, e se a água chegar aqui? Meu laço favorito tá no armário do vestiário. Socorro.” Seira pensa, tremendo.
“Inventar uma desculpa, sério? Não é possível...” Steven bufa, antes de sacudir a cabeça e voltar para o banco. “Espero que voltem antes do segundo tempo, esse jogo já tá ruim o suficiente.”
“Onde elas estão indo?” Monica questiona, dando um susto em Steven que estava distraído.
“Ahn... É... Banheiro. Elas já voltam, né? Rapidinho... Coisa de garota e tal...” Steven inventa, gritando internamente. ‘É bom que elas voltem.’
Monica levanta uma sobrancelha, mas não diz mais nada, ao invés disso preferindo se alongar. Era a forma que melhor a ajudava a pensar, a acalmando e ajudando em criar uma solução para a situação do jogo.
VESTIÁRIO FEMININO
Eli rapidamente abre seu próprio armário, puxando sua mochila de dentro e procurando por seu celular.
“Droga, tava aqui em algum lugar.” Ela reclama, buscando em cada bolso possível.
“Vai logo! Sinceramente, podia ter memorizado todas as cartas, seria útil.” Arya a apressa, nervosa.
“Falar é fácil! São 52 cartas, eu tô tentando, mas é muita coisa. Por que você não faz isso, em? Memorizar cada carta dos seus homi, evento e data importante do seu jogo, tudo isso você consegue, mas ajudar a guardar as informações do baralho você quer que eu faça.” Eli reclama, revirando os olhos. Ela olha para Seira. “Ela tá bem? Parece até que vai ter um ataque de pânico.”
Arya se vira, olhando para Seira, que realmente parecia que iria chorar a qualquer momento. Arya se senta ao lado dela, a abraçando.
“Viu? Até a Seira tá mal. Levou tanto chute ao gol no primeiro tempo. Deve tá com medo de falhar e a gente perder.” Arya supõe, fazendo carinho na cabeça da amiga.
“Eu não quero me afogar. Será que os bombeiros vão vir salvar a gente?” Seira pensa, choramingando.
“É verdade... Ela se esforçou bastante, mas se não fosse a Monica ordenando uma formação defensiva e a Amanda guiando a defesa pra ajudar, provavelmente a gente estaria em desvantagem bem pior agora.” Eli concorda, finalmente puxando o celular da mochila. “Achei! Finalmente.” Ela diz, se sentando ao lado delas, abrindo o documento com as informações das cartas que ela havia criado. “Ouros, abaixo de Seis...”
“A forma como eles conseguem lidar com todas as estratégias que nós usamos contra eles...”
“Luz do Vidente. Três de Ouros. Habilidade de ver através de objetos, capaz de ler a luz ao redor além das capacidades básicas humanas. Visão futura limitada, possível ver segundos no futuro.” Eli lê, franzindo o cenho. “É...”
“Então é assim que ele tem lido todas minhas estratégias tão facilmente? Não só é capaz de ver uma área maior do campo, mas também ver segundos no futuro, suponho que o suficiente para lidar com nossos movimentos.” Monica diz, parada, inclinada contra um armário, braços cruzados, expressão de seriedade no rosto.
Arya e Eli pularam do banco que estavam sentadas com o susto, surpresas.
“Bem, ahn, é...”
“Isso é só...”
“O quê? Vocês não pensaram mesmo que ninguém percebeu os seus poderes durante a partida pelas vagas no time, não é?” Monica pergunta, inclinando a cabeça, sobrancelha levantada. “Todos do time sabem, não é a primeira vez. Já faz dois anos que essas cartas tem causado problemas. Alguns são inteligentes o suficiente para esconder, outros usam sem nenhuma vergonha. E obviamente ambos os times do Colégio White Rose. Eles são bons, e mantem o uso de suas cartas com o máximo de cuidado possível, mas não, não é um segredo para ninguém nesse torneio.”
“Ahn... Okay. É, faz sentido. Tava torcendo pra que todo mundo achasse que foi um sonho ou sei lá.” Arya dá de ombros, corando de vergonha.
“É óbvio, manter isso escondido não seria tão fácil assim.” Eli suspira, guardando o celular novamente. “Se é assim, então qual o plano? A gente pode usar nossas cartas. Não queria, mas se precisar...”
“Não, trapacear é patético, me recuso a descer ao mesmo nível deles. Se for para vencer, então será de forma honesta.” Monica recusa, séria, parando na frente delas. “Prefiro perder que falhar assim.”
“Quê? Não, não, não. A gente não pode perder!” Arya rebate, se levantando, séria. “A gente precisa desse torneio, sem ele, a gente não tem nenhuma opção!”
“Sim!” Eli se levanta também, mesmo que ambas fossem mais baixas que a garota mais velha. “Olha, a gente tá viajando pelo país pra achar e recuperar todas as cartas pro verdadeiro dono. Esse torneio é a única forma que a gente tem pra viajar e procurar, se a gente perder isso, a gente não vai ter o que fazer.”
“É, a gente não quer trapacear porque sim, mas porque essas cartas são um risco do caramba. Além disso, só vai ser melhor! Se a gente pegar todas as cartas, o Torneio das Flores vai poder ser normal de novo.” Arya argumenta.
“Por que tá pingando tanto? Será que a água tá chegando? A gente não devia fugir?” Seira pensa, paranoica. Era só um chuveiro na sala ao lado do vestiário.
Monica suspira, apertando a ponte do nariz, pensativa, andando de um lado para o outro por um minuto, antes de olhar para elas.
“Nós não vamos trapacear, porém, se necessário e não houver qualquer outra opção, vocês irão usar seus poderes sob minhas ordens.” Ela decide, claramente de mente feita. “Nada mais que o mínimo necessário para acabar com qualquer um que estiver arruinando o Torneio, mas nenhum abuso. Por ele... E o Steven.”
“Ele?” Arya questiona, confusa.
“E o Steven?” Eli adiciona, levantando uma sobrancelha.
Monica suspira.
“Torneio do ano passado. O Time Masculino do nosso colégio enfrentou o do White Rose, e... O capitão do time foi ferido pelo capitão rival, dano na perna, osso quebrado. Nunca mais vai conseguir jogar propriamente. Futuro promissor como jogador destruído... De propósito.” Monica olha para as garotas, expressão mais calma, frustrada e triste. “Isso é o que eles fazem. Não hesitam em machucar alguém de propósito, só para tirá-lo do caminho. Steven jurou vingança. É por isso que ele tem tanto ódio de Reynard e do time dele. Steven admirava seu capitão, e vê-lo perder tudo daquela forma criou um ódio profundo.”
Arya e Eli se entreolharam, horrorizadas, um pouco assustadas.
“De propósito? Por quê? Pra vencer? Pra um torneio de futebol?” Arya pergunta, punho cerrado de raiva.
“Esse é Reynard. Seu ideal de apenas aqueles que estão dispostos a esmagar qualquer um em seu caminho para ascender é absoluto, especialmente no Colégio White Rose. Ele abandonou sua posição de CEO para se tornar diretor do próprio colégio, tudo para doutriná-los em seu caminho. Para ele, o método não importa, o que importa é vencer, e o Vice-Capitão atual do Crimson Rose é o exemplo perfeito disso.” Monica suspira, se acalmando. “Espero que vocês saibam o que estão fazendo. Eu vou ajudar vocês a vencer, então me ajudem a acabar com aquele cara.”
“Que... Que... Que arrombado do caralho.” Arya diz, furiosa, chutando um armário, o som de metal ecoando no vestiário. “Não importa, a gente vai acabar com ele, e depois eu vou chutar ele com tudo bem no meio das pernas.”
“Definitivamente. A gente não vai perder, nem desistir. Não importa o que eles tentem.” Eli concorda, determinada. ‘Que droga, isso é longe demais. E o Steven... Não esperava isso dele.’ Ela sacode a cabeça, afastando o pensamento e focando no que importava no momento. “A gente tem que voltar. O jogo vai continuar já já.”
“Sim... Só que a Seira ainda tá nervosa. Acho que isso tudo não ajudou, né? Segurar chutes de alguém que prevê os movimentos dela assim.” Arya comenta, colocando uma mão no ombro da garota, que ainda tremia.
“Preciso de uma boia, talvez um colete salva-vidas. Será que tem botes aqui?” Ela provavelmente não prestou atenção em nada.
“Não, ela só está imaginando coisas de novo. Sinceramente, talvez uma consulta com um psicólogo seria útil, ela claramente precisa.” Monica nega.
“Imaginando? Do que você tá falando?” Arya pergunta.
“Foco exagerado em certos detalhes. Começou quando viu os óculos de Finn, tem prestado atenção constante nas saídas desde que saiu de campo e tem tido sobressaltos toda vez que percebe água pingando. O nível de facilidade que se distrai, além de sua inocência quase infantil, é algo... Preocupante.” Ela comenta, as duas garotas olhando entre ela e Seira.
“Seira? Seira! Ei, se acalma.” Arya diz, segurando os ombros da amiga, Seira se assusta levemente antes de prestar atenção em Arya. “Ei, tá tudo bem. A gente tá segura, okay? Não precisa ficar com medo.”
“Sério? A gente tá? Oh... Ha. Que bom.” Seira respira profundamente, tocando o pingente de seu colar, abaixo de seu uniforme. Ela sorri, concordando com a cabeça.
“Eu não sei se rio ou não. Pelo menos ela tá bem.” Eli comenta, aliviada. “Não sei como a mente dela consegue escalonar coisas dessa forma.”
“Mente fértil, que se foca mais que o necessário em certos detalhes. Preocupante que costume ser para algo ruim, entretanto. Óculos de grau esportivos são parecidos com de mergulho, e para a mente dela, talvez pensasse que algo como uma inundação aconteceria. Meu irmãozinho é parecido, às vezes uma imaginação assim pode causar mais danos do que o esperado se alimentado de forma errada.” Monica coloca a mão na testa de Seira. “Está tudo bem, não se preocupe. Garanto que se algo ruim acontecer, nós vamos dizer, certo?”
Seira concorda com a cabeça aliviada.
“Posso falar com meu pai sobre isso, talvez ele consiga ajudar a encontrar um psicólogo.” Eli sugere.
“Você sabe quem a mãe dela é, a gente não tem muito jeito de ajudar.” Arya sussurra.
“Eu sei, mas a Monica tem um ponto. Talvez ela precise de ajuda.” Eli sussurra de volta.
“Talvez falar com o da escola? Pode ajudar.”
“Okay, isso é mais fácil.”
“Eu sei que querem ajudar, mas o segundo tempo vai começar em breve.” Monica lembra.
“Certo, é verdade. Vem Seira, a gente vai vencer esse jogo e comer um monte de doce depois.” Arya fala, segurando a mão da amiga e a puxando novamente para o campo, Eli as seguindo.
Monica as vê partir, antes de encarar o armário que Arya havia chutado. O metal torcido, deixando um buraco profundo. Seus olhos se semicerraram.
“Isso não é efeito de uma carta, é? Não... O que ela é?” A jovem murmura para si mesma.
As três voltaram até os bancos do próprio time, Ekaterina dando ordens para o resto do grupo, enquanto eles se aqueciam para o segundo tempo. A mulher se vira para as garotas, irritada.
“Sinceramente, já era hora de vocês aparecerem. Estava pronta pra substituir vocês, o que pensam que estavam fazendo?” Ela questiona, sua sombra cobrindo as garotas.
“Sossega um pouco, acontece, elas tão aqui, não é? Não tem por que perder a cabeça com isso.” Jacob comenta, relaxado, sentado no banco mexendo em um tablet, claramente planejando formações para o segundo tempo.
Ekaterina rola os olhos, se virando para ele, quando Monica as alcança.
“Elas estavam buscando informações sobre o oponente. Portador de Carta, visão futura e ampla do campo. Eu tenho um plano, mas primeiro nós teremos que verificar os limites das habilidades dele.” Monica diz, séria, pegando o tablet de Jacob, que não diz nada, apenas prestando atenção, Ekaterina parando ao lado dela para verificar.
“Ah não, de novo não. Será que não dá pra ter um torneio decente de novo? Eu entrei no time pra me divertir, não pra ficar tendo que lidar com esses babacas.” Veronica comenta, frustrada. A ruiva cobre o rosto com as mãos, grunhindo de frustração. “Devia ter escolhido Vôlei.”
“Ei, calma, Vero.” Adam, o namorado dela, a abraça de lado, a consolando. “A gente dá um jeito nisso. Não é a primeira vez.”
“É isso aí, se preocupa não. A gente esmaga qualquer babaca que acha que pode usar essas merdas contra a gente. Vão ver, eu vou encher a rede deles de gol dessa vez.” Steven diz, confiante, estalando seus punhos.
“Certo. Vem aqui todo mundo.” Monica se senta no banco, os outros a rodeando olhando para a tela do tablet. Na tela um mapa do campo, com as marcações mostrando os números do time. Monica guia os números, mudando as formações pelo campo. “Ele tem lido nossos movimentos e prevendo nossas ações, então se quisermos lidar com isso, vamos ter que descobrir o limite dessa habilidade.” Monica encara Seira. “Você vai ter que dobrar seu esforço no gol, especialmente nos primeiros minutos. Consegue fazer isso? E Amanda, você tem feito um bom trabalho em comandar a zaga, preciso que foque totalmente na defesa com a Seira.”
As duas garotas concordam com um aceno de cabeça, um pouco nervosas, mas determinadas.
“Steven, você vai ficar na zaga também nesse início.” Ekaterina ordena.
“O quê? Por quê? Você sabe que eu sou melhor no meio-campo.” Ele reclama, inconformado.
“É, mas a gente precisa de uma defesa mais forte pro plano dela funcionar, e você é a nossa carta na manga pra isso.” Ela rebate, obviamente não iria mudar de ideia.
O apito para o segundo tempo soa, chamando todos para campo novamente.
Monica suspira, antes de guiar todos para o campo em uma formação diferente. 3-4-3. Amanda estava no meio dos Zagueiros como Libero, Steven e Robert juntos dela. Seira estava nervosa, mas focada no gol. No meio do campo estavam Monica e Elloise, com Adam e Vince nas laterais. A frente Arya e Verônica, prontas para o pontapé inicial do segundo tempo. As duas garotas se olharam, determinadas, acenando com a cabeça antes de começar.
Como previsto, Arya recebe a bola de Veronica, imediatamente correndo para o lado rival, porém Finn obviamente esperava isso, guiando dois jogadores para interceptá-la, porém Arya imediatamente chuta a bola para Verônica. A jovem era mais ágil driblando um jogador, se movendo para mais perto do lado direito do campo enquanto prosseguia. Três jogadores se moveram para ficarem em seu caminho, mas ela rapidamente passa a bola para o meio do campo, Arya tendo se livrado da marcação recebe a bola, se movendo até o lado esquerdo do campo.
Finn mantinha o foco, mantendo certa distância, preferindo guiar outros jogadores, porém ele ainda seguia a bola, se mantendo mais próximo do objetivo, obviamente prevendo as ações do time inimigo com sua carta. Ele seguiu para mais perto da direita quando Veronica se moveu até lá, e agora se movia para seguir Arya para o lado esquerdo.
Arya esperou até que ele estivesse o mais distante possível da direita do campo, antes de se virar e chutar com tudo através do campo. A bola atravessando o local, voltando para o lado do campo de Dália, especificamente para a direita, a bola sendo pega por Vince. Finn se surpreende, tentando guiar o time, mas claramente hesitando por alguns segundos enquanto corria para o centro novamente.
Vince estava próximo do meio-campo, focado na frente enquanto mantinha atenção em Monica com o canto do olho.
‘55... 50... 45... 40... 35... Agora. 30... 25...’ Os olhos de Monica estavam focados em Vince e Finn, olhos semicerrados, até que ela finalmente fez um gesto com a mão.
Vince percebeu o sinal, virando e chutando a bola através do campo novamente, dessa vez Adam sendo aquele que a recebeu na lateral esquerda e avançando. Finn parou por um momento, seus olhos se focando em Monica por um momento, antes de finalmente entender o que estava acontecendo. Olhos se arregalando por um segundo, antes de recuar novamente para seu lado do campo, guiando seu time para tentar uma defesa.
Adam se encontrou com Arya no caminho, passando a bola para ela. Finn estava longe o suficiente para seu time não conseguir se ordenar além do básico, a garota atravessando o campo inimigo rapidamente enquanto Finn forçava uma defesa pesada que a parasse. Arya parou, entretanto, exatamente 36 metros de Finn, antes de chutar com toda a força.
A bola disparou pelo campo, jogadores saltando para fora do caminho com o susto. O goleiro até tentou, mal alcançando a bola a tempo, que o atingiu no peito, ele era um garoto mais velho e robusto, usando toda a força para pará-la, porém não foi o suficiente, sendo jogado para trás com a bola, que entrou no gol.
“É GOOOOOOL PARA O TIME PURPLE DAHLIA! DA CAMISA 9, ARYA BLACKWELL! ELA ATÉ PODE SER JOVEM, MAS SEUS CHUTES DEFINITIVAMENTE NÃO ESTÃO DE BRINCADEIRA. SINCERAMENTE, O QUE OS PAIS DELA DÃO DE COMER PARA ESSA GAROTA?” A voz do comentarista ecoa pelos alto-falantes do estádio, algumas pessoas torcendo, outras frustradas.
Arya sorri, celebrando, se juntando aos outros do time, high-five com Adam, Vince e Verônica.
“A visão expandida tem 25 metros de raio. Visão futura tem 10 metros além disso.” Monica explica para eles, acenando com a cabeça para o quarteto. “Manter algo como a capacidade de ver tudo ao seu redor obviamente seria algo muito complexo para um ser humano. Informações demais para se manter de uma vez só, e a visão futura é o mesmo. Com o chute de Arya, acredito que sua Visão Futura não esteja realmente conectado com simples vontade, mas sim com presenças. Ele não foi capaz de prever a trajetória da bola, o goleiro mal teve tempo de reagir, diferentes das últimas vez que ele sempre estava preparado.”
“Isso quer dizer que se a gente conseguir manter uma estratégia que mantenha a bola longe o suficiente dele, ele não vai ter como prever nossos movimentos. O problema é que ele também percebeu que nós sabemos e provavelmente vai tentar nos impedir.” Eli comenta, séria. “Principalmente que eles vão ter a posse da bola agora.”
“Realmente, nós vamos ter que focar absolutamente tudo na defesa e um possível contra-ataque. Não tem como fugir da habilidade dele dentro da pequena e grande área. Seira vai ter que focar e muito, Amanda, você tem que dar seu melhor nisso, sua habilidade de ler o campo é boa demais e vai ajudar bastante.” Monica ordena, guiando o time para formação 4-4-2, focada especialmente em defesa. Enquanto isso o time de Finn mudou para 4-3-2-1. “Isso... Será quê...?”
Os dois jogadores adversários se preparam para iniciar o jogo novamente, porém, ao invés de avançarem em busca de tentar empatar o jogo, eles chutam para trás, mantendo a bola no próprio lado do campo, se movendo ao redor de Finn, nunca se afastando do raio de sua habilidade.
“Eles vão esperar até o final do jogo.” Monica diz, frustrada, antes de respirar profundamente, uma expressão de seriedade se formando. “Ele sabe a vantagem que tem. Com sua carta, sua posse de bola é basicamente garantida e um ataque direto vai ser extremamente difícil de se parar. Ele planeja esperar até o último momento possível antes de atacar, empatar o jogo e forçar uma disputa de pênaltis.” Ela presume.
“Isso não daria chance pra gente também com prorrogação?” Amanda pergunta, confusa.
“Não, no Torneio das Flores, os jogos iniciais só têm dois tempos e disputa de pênaltis. Só nos jogos finais que existe prorrogação.” Elloise corrige, discordando com a cabeça.
“Por melhor goleira que Seira seja, ela vai ter uma desvantagem gigantesca se irmos para os pênaltis com os poderes dele lendo seus movimentos.” Monica adiciona.
“A gente ainda assim conseguiria acabar com ele, quero ver tentar segurar um dos meus chutes nessa.” Steven cruza os braços, sorrindo.
“É ISSO AI! Se ele tentar, a gente vai meter chute no goleiro até ele sair correndo chorando.” Arya concorda, se animando.
Eli não consegue evitar um sorriso.
“É, não duvido nisso, mas ainda assim. Arriscado demais. A gente precisa parar o avanço deles a todo custo e manter a bola longe deles depois.” Ela diz, completamente focada no time rival.
“Mantenham posição, foquem completamente na defesa e não esqueçam do plano. Cinco minutos em breve.” Monica ordena, todos obedecem, mantendo a formação, um pouco mais apertada, perto da zaga, prontos para lidar com o avanço inimigo.
Como ela havia dito. 5 minutos para o fim do jogo e Blackthorn finalmente avançou. O atacante a frente, com Finn logo atrás, outros jogadores ao seu redor em um círculo perfeito, indo até o lado de Dahlia pela lateral direita. O lado de Dahlia bateu de frente com eles, ao menos um ou dois jogadores marcando os jogadores inimigos. Apesar de Finn tentar dar ordens, Dahlia também se focava nelas, mantendo o foco em impedir que os jogadores conseguissem obedecer propriamente.
Arya se encontrou diretamente com Finn, cenho franzido, usando o melhor de sua velocidade e força pra impedir que ele conseguisse driblá-la, e mesmo se ele conseguisse, sempre havia mais alguém para interceptá-lo, duas pessoas sempre mantendo pressão para impedir que usasse suas habilidades propriamente.
Por mais efetivo que sua carta fosse em ler toda a área ao seu redor, eram muitas pessoas de uma única vez. O time de Dahlia propositalmente se mantendo na área de efeito ao invés de se afastar dela, uma forma de dificultar a leitura do campo por Finn ao sobrecarregar sua habilidade com presenças demais para se manter atenção.
Ele claramente estava frustrado, tentando criar uma forma de quebrar as defesas de Dahlia, até que ele sacudiu sua cabeça, mudando seu foco. O efeito de visão estendida foi cancelado por ele e ao invés disso ele manteve apenas a visão futura. Com a sobrecarga não mais o afetando, ele se focou completamente em avançar. Sua melhor habilidade, além de análise de campo, sempre havia sido dribles, e com sua visão futura o dando uma visão de segundos vantajosos a frente, ele conseguiu passar por jogador atrás de jogador com certa facilidade.
Na verdade, já fazia um tempo que ele não o fazia. Desde que havia conseguido sua carta, ele havia sido obrigado pela escola a usá-la para guiar o time, ficando em sua maioria para trás enquanto os outros realmente jogavam. Sinceramente, qual havia sido a última vez que ele tinha jogado propriamente assim? Além das tardes que ele praticava dribles sozinho, ou jogava com algumas crianças no campo perto de sua casa?
Finn não conseguiu evitar de abrir um sorriso. A adrenalina de estar na frente, de enfrentar outros jogadores diretamente e por suas habilidades de drible a teste, de novo, e de novo. Um salto para evitar um carrinho, um giro e uma embaixadinha para desviar de outros dois. A bola fazia parte dele naquele momento, se movendo entre seus pés com uma facilidade conquistada depois de centenas de horas treinando desde pequeno.
Era uma sensação que ele não devia sentir faz meses. Uma felicidade que o motivava. Uma fluidez de seus pés que tornava aquela bola uma extensão de si mesmo. Naquele momento Finn esqueceu do jogo, do torneio, das ordens, até mesmo de sua carta. Sua Visão Futura desativada também. Ele não precisava de habilidades mágicas para jogar, para driblar, tudo que ele precisava era do carinho que ele tinha por algo que o fazia feliz desde pequeno.
Finalmente Finn estava próximo do gol, um embate rápido entre Steven e ele pela bola, ambos lutando pela posse até que Finn conseguiu driblar e avançar. O jovem não hesitou, chutando ao gol com precisão, canto superior direito, bem no ponto. Seira se moveu rapidamente, pronta para parar a bola, quando algo diferente a interceptou. O atacante do time Blackthorn avançou, e com uma bicicleta de ótimo timing, chutou a bola, mudando sua trajetória para o lado oposto, diretamente para o canto esquerdo do gol.
Seira parou imediatamente, se virando e correndo, saltando com tudo, mãos a milímetros da bola, mas que infelizmente passou direto. Entretanto, surpreendentemente foi a vez de Steven de interferir, ele não conseguia chegar a tempo para interceptar a bola, porém, instintivamente ele levantou sua mão, se concentrando. Pouco antes da bola entrar no gol, uma barreira de sombras se forma, a bola a atingindo e sendo jogada por cima da trave ao invés disso.
O apito toca, sinalizando o final do jogo.
“E ASSIM TERMINA O JOGO! O TIME BLACKTHORN FEZ UM AVANÇO SURPREENDENTE! E QUE JOGADAS INCRÍVEIS DE FINN AISLING, UMA VERDADEIRA AULA DE CONTROLE DE BOLA E DRIBLES SEM IGUAIS QUE ESSA CIDADE NÃO VIA FAZ ANOS!” O comentarista anuncia, claramente animado. “ASSIM DAHLIA VENCE E AVANÇA NO TORNEIO DAS FLORES. DOIS TIMES INCRÍVEIS QUE DEMONSTRARAM CONTROLE DE CAMPO E ESTRATÉGIA SEM IGUAL HOJE!”
Finn suspira, frustrado, antes de ter uma mão oferecida por seu atacante, que o ajuda a levantar.
“Fazia tempos que eu não via você daquele jeito, em? Foi divertido.” Ele disse, o guiando para se juntar com o resto do time.
“É... Foi. E aquela bicicleta? Foi incrível. Finalmente conseguiu fazer uma como tanto queria.” Finn ri, seguindo o amigo.
“NÉ NÃO? Eu treinei tanto pra conseguir meter uma dessas! Pena que não foi gol, mas caramba, foi incrível do mesmo jeito.”
Steven entretanto, estava ainda em choque, olhando para a própria mão, então o local onde a barreira de trevas havia se formado temporariamente, já não mais presente.
“Desde quando você consegue fazer isso?” Arya pergunta, se aproximando, admirada.
“Desde... Um minuto atrás? Eu só... Sei lá. Só veio na cabeça. A ideia de defender e tal. Barreira Sombria. E consegui fazer aquilo.” Ele sacode a cabeça, voltando a se focar ao seu redor. O placar de 1x0, vitória, e Finn sentado no banco bebendo água.
Steven foi em direção a ele, Monica o olhando e decidindo o seguir.
“Aqueles dribles... Você é muito bom.” Steven comenta, tentando parecer mais casual que o esperado para a situação.
“Realmente. A própria postura e forma de agir. Aquele final... Você não parecia estar usando sua carta mais.” Monica adiciona, parando ao lado de Steven.
Finn ri levemente, tirando seus óculos e os colocando de lado.
“É, eu só... Lembrei. Lembrei porque eu jogo futebol. Fazia tempo que eu não me sentia assim, aquilo foi bem divertido. Vocês são bons também, não esperava que conseguiriam descobrir e lidar com minha Luz do Vidente dessa forma.” Finn elogia, sorrindo.
“É, coisa da Monica. Ela é o gênio daqui, sempre inventando um jeito de tirar a gente de problemas. Aquela jogada final sua foi muito maneira... Pra falar a verdade, tecnicamente eu trapaceei naquela hora. Mesmo que tenho sido meio sem querer, não foi muito justo...” Steven confessa, um pouco frustrado.
“Tá tudo bem. Foi intenso, mas legal da mesma forma. Pelo menos você fez isso pra ajudar seu time, enquanto isso eu...” Finn olha para o lado, seu time concordando com a cabeça, antes dele continuar. “Aquele cara, o Reynard, do Crimson Rose... Ele tá envolvido nisso. Vendeu cartas pra um monte de times no Torneio, em troca de favores e votos dentro da Comissão Esportiva envolvida com o Torneio.”
“É sério isso? Filho da-” Steven se irrita, mas Monica coloca uma mão em seu ombro.
“Algo assim era esperado a esse ponto. Óbvio que estaria envolvido com algum tipo de corrupção nisso tudo. Pessoas como ele sempre estão. Tch.” Monica balança a cabeça, se virando para ir embora, Steven pronto para ir junto.
“Espera! Eu... Aqui.” Finn chama, se levantando. Sua carta aparece em sua mão, um Três de Ouros prismático, uma luz clara emanando de si. “Não preciso disso. Quero jogar futebol de verdade, não aquilo de antes. É melhor com vocês... Só acaba com eles, beleza? E aquele cara.”
Steven se surpreende por um momento, antes de sorrir, uma expressão de determinação em seu rosto. Ele invoca a própria carta, um Seis de Espadas prismático, com uma aura roxa sombria ao seu redor. As duas cartas sentem o poder uma da outra, até que o brilho do Três de Ouros diminui, aceitando a força de vontade maior de Steven, comparada a aceitação da derrota de Finn. Steven pega a carta, dando um aceno de cabeça para Finn, antes de voltar para seu próprio time.
“E aí, Eli. Adivinha o que eu tenho aqui?” Steven diz, sorriso exibido, mostrando a carta para a garota.
Os olhos de Elloise se arregalam, com ela rapidamente a pegando.
“E eu pensei que a gente ia ter que confrontar ele depois.” Ela diz, puxando o próximo Ás de Ouros, a Três de Ouros se desfazendo em luz e sendo absorvida para a carta superior. Eli olha para Steven por um momento, antes de suspirar e sorri de leve. “Valeu, de verdade. Você foi bem durante o jogo.”
O sorriso de Steven se alarga, feliz de verdade.
“Né? E ainda consegui desbloquear o poder da minha carta. Não tenho certeza como usar de novo, mas pelo menos tenho uma ideia melhor.” Ele se vira para Ekaterina. “Treinadora, você sabia, não sabia? Que ia dar certo? Foi por isso que me botou na defesa. Pra que eu entendesse minha carta melhor.”
Ekaterina dá de ombros.
“Você pensa demais garoto, deixa tudo que aconteceu no passado encher sua cabeça. Às vezes você só precisa da motivação certa, eu só te coloquei onde pensei que seria o melhor.” Ela responde, casual, antes de se virar para o time. “Certo, todo mundo! Vão se trocar de uma vez, e vê se não esqueçam nada importante. O ônibus para o hotel sai daqui a pouco.” A mulher lembra a todos, os guiando para dentro do estádio.
“É, e amanhã vocês vão poder aproveitar pra explorar a cidade. Divertido, não? Ótima forma de celebrar. Blackthorn é uma cidade bem antiga, mas tem coisas bem interessantes pra se ver se souber até onde ir.” Jacob continua, escoltando os garotos até o vestiário masculino.
“Brincadeira, eu queria meter uma porradinha nele de leve. Talvez dar uma bolada na cara.” Arya comenta, levemente chateada por Finn ter entregado a carta tão facilmente. As garotas já tendo se trocado e indo em direção ao ônibus da escola.
“Isso não importa, a gente venceu. Vamos continuar no torneio e temos outra carta no nosso arsenal. Vitória absoluta na minha opinião.” Eli dá de ombros.
“Foi divertido. Apesar dos chutes deles terem sido bem assustadores. Eles pareciam adivinhar onde eu ia toda vez.” Talvez Seira não tenha prestado muita atenção em certos detalhes, acontece.
“Eu sei que eu quero dormir. E aproveitar amanhã pra ver algum dos locais de festival da cidade.” Amanda adiciona, cansada, mas satisfeita, apesar de tudo, seu comando na defesa funcionou em sua maior parte.
“É, melhor.” Arya concorda. “Será que tem algum acontecendo agora?”
“Tomara que tenha joguinhos com prêmios. Uma pelúcia nova seria legal pro meu quarto.” Seira pensa, animada.
Elloise ficou um pouco para trás, enquanto as amigas subiam no ônibus. Seus olhos não conseguiram evitar em se virar para o céu. A garota ajustou seus óculos, franzindo o cenho, ela pôde jurar ter visto algo voando entre os prédios na distância. Será que estava imaginando coisas?
“Licht! No ônibus, agora.” Ekaterina ordena.
Elloise tem um sobressalto, olhando para a treinadora, então novamente para os prédios. Nada. Talvez realmente estivesse imaginando coisas... Talvez.
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