DIAS DEPOIS

Três coisas diferentes haviam acontecido após os eventos em Blackthorn.

Primeiramente. O trio estava com seus corpos doloridos. Apesar de danos físicos serem curados ao sair da transformação, isso claramente não impedia que o impacto em seus corpos tivesse ao menos algum efeito. Eli mancava levemente, Seira ainda sentia seus braços um pouco doloridos, e Arya? Digamos que todas aquelas transformações e golpes a deixaram pior que o resto.

“Por que eu segurei aquele babaca? Meu corpo tá doendo todo!” Arya reclama, deitada na grama do campo de futebol, cara no chão, gemendo de dor mesmo dias depois.

Segundamente...

“PARA DE MOLEZA, BLACKWELL! SEU TREINO NÃO ACABOU, VOLTAS NO CAMPO, AGORA!” Ekaterina ordena, claramente irritada.

É, a treinadora delas ainda estava furiosa após as garotas quebrarem tantas regras, no primeiro dia de viagem ainda por cima. Saíram da cidade, chamaram atenção da polícia, não voltaram antes do anoitecer como era obrigatório. Sem falar de como ela teve que lidar com tudo isso por si mesma, desde a polícia até os pais de todos, afinal ela era a responsável naquela situação.

E terceiramente... Castigo. Todas elas. Menos Seira, mas não é como se a mãe dela se importasse muito a esse ponto de qualquer forma. Não só elas eram obrigadas a voltar para casa após o treino, mas Ekaterina deu o próprio castigo, aumentando a quantidade de treinos que elas iriam ter. Tanto que até Arya com seu condicionamento de demônio estava sofrendo – claro que poderia ser explicado pelos efeitos de ter se esforçado mais do que o devido, mas ainda assim.

“Alguém me mata...” Arya grunhe.

APÓS A ESCOLA

CASA DE ARYA

A garota entra em casa, acabada, colocando a mochila na mesa da sala e se jogando no sofá, seus grunhidos abafados pela almofada.

“Dia difícil na escola?” A mãe de Arya pergunta, estando apoiada no sofá, olhando para a filha.

“Quero morrer...” A garota reclama.

“Não seja dramática. É o que dá quebrar as regras desse jeito.” A mulher brinca, rindo.

“Meu tio disse que você vivia matando aula pra matar boss em jogo.” Arya levanta um braço, mole após tanto esforço, apontando um dedo acusatório cegamente para um vaso. “Não é melhor que eu.”

“Não sei por que o vaso de plantas seria, mas tudo bem.” A mãe de Arya ri, antes de contornar o sofá e se sentar ao lado da filha, acariciando o cabelo dela. “Pelo menos eu não me arriscava igual você.”

Arya levanta a cabeça, olhando para a mãe, olhos focados, lendo a aura da mulher. Algo que a garota estava começando a aprender a fazer com pessoas normais.

“Mentira. Você se meteu em encrenca também.” Ela revela, antes de afundar a cabeça na almofada novamente.

A mulher arregala os olhos por uns segundos, antes de inclinar a cabeça, cruzando os braços.

“Você aprendeu a ler as mentiras dos outros agora é? Não basta o seu tio com essa, sinceramente. Bom, foi só uma vez, e por um bom motivo.” Ela confessa.

“O meu também foi...” Arya murmura. O silêncio durou por um minuto, a mulher acariciando a filha, até Arya olhar novamente para a mãe. “Como o meu pai era?”

A mãe dela é pega de surpresa, parando por um momento, antes de suspirar, colocando uma mecha de cabelo da filha atrás de sua orelha.

“Caótico. Bastante caótico. Só que divertido, gentil, amoroso. Meio insistente, mas de um jeito bom. Sempre mostrando o quanto gostava de mim, até que eu finalmente acreditei.” Ela sorri, lembranças do passado.

“O que aconteceu? Você sempre fala que ele foi embora e nunca conseguiu voltar.”

Uma expressão de tristeza cobre a face da mulher.

“Não foi culpa dele, tá? Ele foi obrigado e nunca mais conseguiu voltar.” Ela se levanta repentinamente, indo até seu quarto, antes de voltar alguns minutos depois, com uma pequena caixa em mãos. “Seu pai nunca foi de ter muita coisa consigo, mas isso é algo importante pra ele, que ele deixou comigo. Um símbolo. Pra não esquecer dele, e te entregar um dia, quando você crescesse o bastante.” A mãe da garota oferece a caixa para ela.

Arya olha confusa para a caixa, antes de se sentar e pegá-la, a abrindo com cuidado. De todas as coisas que ela esperava, essa definitivamente a surpreendeu. Era uma luva de motoqueiro. Uma luva meio dedo na cor preta, detalhes em prata sobre ela, com uma corrente pendurada no punho da luva. O que mais chamava a atenção, entretanto, era o símbolo que estava nas costas da luva. Era uma caveira em chamas, com dois chifres que apontavam para trás, duas asas de anjo atrás dela, correntes a rodeavam, com a própria caveira mordendo uma corrente por entre seus dentes. O brasão por si só era completamente em preto e branco, combinando com o resto da luva.

“Isso...?” A garota estava confusa, surpresa, de tudo um pouco. Não era o presente que ela esperava, isso definitivamente. “Por quê?”

“É uma história longa até demais... O que importa é que isso é um dos maiores orgulhos dele.” A mãe dela diz, apontando para o brasão na luva. “O líder deles. Essa marca é algo que ele recebeu com muito esforço, e ele deixou essa luva pra trás, pra você. É um símbolo de esforço, orgulho, determinação. Algo pra você carregar e nunca mais ter medo de continuar tentando.” Ela sorri, acariciando o cabelo da filha. “Pode ser estranho agora, mas você vai entender. Um dia.”

Arya olha novamente para a luva, antes de colocá-la. Luva esquerda, perfeita para ela, afinal ela era canhota. A luva era grande demais, ou pelo menos devia ser, antes que de alguma forma se ajustar perfeitamente em sua mão, como se fosse para estar ali.

“Realmente... Caiu como uma luva, né?” A mulher brinca.

Arya vira sua cabeça lentamente em direção a mãe, uma expressão de indignação em seu rosto.

“Não acredito que você meteu essa.” Arya dá um facepalm, uma piada dessas a esse ponto era sacanagem.

“Não deu pra segurar.”

“E você fala que as piadas do meu tio são ruins.” A garota se levanta, olhando para a luva mais uma vez. “Até que é legal... Posso continuar usando?”

“Por que não? Se você quiser. É o que ela gostaria.” A mãe dela concorda.

Arya vai para o próprio quarto, fechando a porta e se deitando na cama. Ela levanta sua mão com a luva, a olhando contra a luz, pensativa. Esforço, orgulho, determinação. Sua curiosidade sobre quem era seu pai apenas aumentava agora. Ela tentou fazer uma pesquisa reversa do brasão da luva pela internet, horas tentando. Nada. O que quer que fosse, era um mistério.

Ela não sabia o porquê de se sentir assim. Não só a curiosidade, mas vestir aquela luva a fazia se sentir bem. Como se ele estivesse ali com ela. Talvez fosse só sua imaginação, ou... Talvez ser um Cambion crie laços mais profundos e complexos do que ela sequer esperava.

Arya coloca a mão sobre seu peito, acima do coração, respirando profundamente. Ela não consegue evitar um sorriso.

CASA DE ELLOISE

O elevador se abriu, deixando Eli em sua casa na cobertura do prédio. Ela se arrasta até o sofá, colocando a mochila sobre a mesinha ao lado, antes de se jogar nele, rosto contra a almofada, grunhindo de dor e cansaço.

“Alguém me mataaaaaaaaa...” Ela reclama, voz abafada pela almofada. A garota vira sua cabeça, olhando ao redor. O vaso vazio, sem flores novas. “O papai ainda tá no trabalho...”

“Sim, senhorita.” Carol afirma, a empregada atrás do sofá, olhando para a garota.

Elloise toma um susto, caindo do sofá de costas no chão, que felizmente era coberto por um carpete, aliviando a queda.

“COMO VOCÊ FAZ ISSO?” Elloise pergunta, se sentando, pegando seus óculos caídos e os colocando de volta no lugar. “Já falei pra parar de aparecer do nada, caramba em.”

A própria mochila de Eli se sacudiu, antes de cair da mesa também. Provavelmente Joker se assustando com o grito de Eli.

“Sinto muito.” A mulher se desculpa, inclinando a cabeça. “Gostaria de comer agora?”

Elloise pega sua mochila, se levantando.

“Pode ser. Vou só tomar um banho.” A garota concorda, indo em direção ao seu quarto, antes de parar. “Meu pai disse algo? Ou a minha mãe?”

“Aquela infecção recente parece ter causado hospitais a se lotarem rapidamente. Ele tem estado bastante ocupado, disse que não tem certeza de quando terá tempo livre por agora.” Carol responde, indo em direção a cozinha. “E sua mãe tem estado ocupada também, preocupações com como uma possível epidemia poderia afetar a empresa.”

“Entendi... Obrigada.” A garota agradece, antes de entrar em seu quarto.

Ela se senta em sua cama, abrindo a mochila, para encontrar Joker de cabeça para baixo dentro, metade do corpo dentro de sua cartola, as perninhas se sacudindo. Elloise ri, antes de puxar a pelúcia, puxando a cartola para libertar Joker. O coelho tonto, antes de sacudir a cabeça.

“Precisava gritar assim? Eu tava tirando uma soneca.” Joker reclama, ajeitando sua capa, antes de pegar a cartola e colocá-la novamente entre suas grandes orelhas.

“Desculpa. A Carol é mais stealthy que o Solid Snake, vive me dando sustos, aparecendo do nada.” A garota se desculpa, antes de abraçar Joker.

“Você tá bem?” Ele pergunta, a olhando, preocupado.

“Tô... Só... Nada, tá tudo bem.” Ela sorri, fazendo carinho nas orelhas dele. “Vou tomar um banho, jantar daqui a pouco, que tal?”

“Okay, mas...” Antes que ele pudesse perguntar algo mais, a garota já havia se trancado no banheiro.

Joker olhou para a porta, preocupado. Ele pôde jurar ter escutado sons de soluço e choro abafados pela água do chuveiro.

SEIRA

A garota entrou no prédio da empresa, a sede dos negócios de sua mãe, e onde ela morava. Não uma casa, Seira sequer se lembrava como era realmente ter uma casa de verdade fazia muito tempo.

Ela usou o elevador até estar no penúltimo andar. Era um andar padrão que normalmente seria usado como escritórios, mas após reformas havia sido transformado em basicamente um apartamento. O lugar era largo, mas a decoração era básica, cinza, sem vida. Não é como se importasse, a mãe de Seira sequer ia até lá, o lugar inteiro era apenas da garota, gigantesco, vazio.

Seira apenas segue em frente, indo para seu quarto, fechando a porta atrás de si, colocando sua bolsa sobre sua escrivaninha, antes de se deitar em sua cama.

A diferença era absoluta. Ao invés do mesmo vazio cinza do resto do andar, o quarto de Seira era quase como um pequeno sonho. As paredes rosas, com corações e rosas desenhadas em todo canto, a janela de chão ao teto, com cortinas grandes e rosas, o chão coberto por um carpete vermelho bem fofo, a porta do closet entreaberta, mostrando a vasta coleção de roupas – especialmente vestidos – com estampas de coração e flores, com algumas poucas camisas de banda entre elas. De móveis, o quarto tinha apenas a escrivaninha com pilhas de livros de colorir, prateleiras com alguns livros, a cama queen size, além de um sistema de som de última geração perto da cama.

Entretanto, o que mais chamava atenção eram as pelúcias. Dezenas e dezenas delas, em todos os cantos, sem exceção. Desde um ursinho enorme em um canto do quarto, até a pilha gigantesca de pelúcias diferentes que Seira possuía em sua cama, literalmente tomando 1/3 do espaço, em cima da escrivaninha, do sistema de som, no chão, era impossível olhar para qualquer lado sem se dar de cara com alguma.

Seira se estica na cama, perto da pilha de pelúcias. Bem a frente estava a pelúcia de gatinho que Arya havia ganhado para Seira dias atrás. Ela a abraça, sorrindo, algumas pelúcias caindo ao redor da garota, ela não as afasta. Eram sua única companhia em muito tempo, como seus amigos, algo que a deixava feliz.

A garota pega seu notebook, rapidamente colocando sua playlist favorita de Heavy Metal. Era definitivamente um contraste, ver a garota que sempre estava vestida de rosa, com estampas de corações e amava pelúcias, ouvindo esse estilo de música. Suas amigas haviam se surpreendido tanto quando Seira colocou sua playlist favorita para elas escutarem durante sua festa do pijama no dia da abertura do torneio. A garota não conseguiu segurar uma risada ao lembrar de suas reações, as expressões de surpresa, olhos arregalados, foi divertido.

Uma das poucas coisas no quarto que não eram ou vermelho ou rosa eram os poucos posters das bandas favoritas de Seira na parede oposta à sua cama. Ela não sabia exatamente o porquê, mas era o tipo de música que a acalmava, talvez pelo contraste consigo mesma, ou talvez pelas fortes emoções passadas pelos cantores. Às vezes ela se perguntava como seria, deixar todos aqueles sentimentos fluírem completamente de si com todo seu coração. Mostrar ao mundo o que ela sentia, se ele sequer a aceitaria após isso...

Ela se levanta, indo até a cozinha, preparando algo para comer, cantarolando, dançando, enquanto cozinhava, anos de prática solitária. Algo que a satisfazia, a deixava feliz.

Após jantar, ela decide preparar uma sobremesa, cupcakes dessa vez, cobertura com chantili rosa e cereja no topo, simples e delicioso.

Seira cuidadosamente coloca alguns cupcakes em um pote de plástico, tendo certeza de organizá-los propriamente, antes de fechar o compartimento. Então ela vai até o elevador, pressionando o botão para o último andar.

A garota anda pelo longo corredor, em direção a porta do escritório de sua mãe. Pouco antes de alcançar a porta, entretanto, uma mulher sai da sala, fechando a porta atrás de si. A mesma mulher morena que havia atacado Arya e Eli quando elas conheceram Joker, braço direito da mãe de Seira.

Tia Natasha...” Seira pensa, olhando para a mulher, sorrindo levemente. A mulher era amiga de infância de sua mãe, a garota a via como família.

A mulher olha para Seira, então para o pote que ela carregava, antes de se ajoelhar, sorrindo e fazendo carinho na cabeça da garota.

“Doces pra sua mãe, é?” Ela pergunta, com a garota concordando com a cabeça. “Não é uma boa hora, a sua mãe tem estado... Estressada. É melhor deixar ela se acalmar por agora, tudo bem?”

A expressão de Seira mudou, tristeza óbvia em seu olhar. Natasha suspira.

“Aqui, que tal eu entregar eles pra ela? Vou garantir que ela aproveite eles, tudo bem?” Ela oferece, pegando o pote das mãos da garota.

Tudo bem...” Seira concorda com a cabeça.

Natasha abraça Seira gentilmente, antes de se levantar.

“Sua mãe te ama, você sabe, né? Só... Tem sido difícil recentemente. Vai ficar tudo bem.” Natasha faz carinho em Seira uma última vez, antes de Seira se virar, acenando para a mulher, então pegando o elevador novamente para o apartamento abaixo.

Seira se deita em sua cama, cercada por suas pelúcias, abraçando o gato de pelúcia com força. A música alta preenchendo seu quarto, abafando seus pensamentos.

Ao menos ali ela se sentia menos perdida. Ali ela conseguia sonhar, imaginando o que faria junto de suas amigas no dia seguinte. Ali ela conseguia sorrir...

CIDADE DE CHICORY

O sol do entardecer iluminava a cidade costeira, a brisa salgada do mar uma presença constante, com alguns poucos turistas aproveitando o clima da cidade.

Um som de estalido ecoou em uma das ruas estreitas da cidade, então outro, algumas pessoas parando confusas, até perceberem que aqueles sons vinham de um pequeno café próximo.

Rachaduras cobriam a estrutura, se espalhando em uma velocidade alarmante, até que o local entrou em completo colapso, caindo sobre si mesmo. Os poucos clientes presentes conseguiram escapar por pouco, porém um garçom ficou preso nos escombros, agonizando. Som de sirenes ecoaram, se aproximando, algumas pessoas tentando ajudar o homem preso sob a estrutura.

Próxima do local, uma figura sorri, rindo levemente, antes de se virar e afastar do caos. O som de seu salto-alto contra a rua de tijolos quase que ensurdecedor no silêncio que se seguiu. Não havia sido a primeira vez que algo do tipo havia acontecido recentemente, e definitivamente não seria a última.