O Antes e o Agora
11 Capítulo 11
Duas semanas se passaram desde a situação péssima que eu tinha passado com Olavo. Há uma semana atrás ele havia mandado uma mensagem pedindo para me ver e eu apenas ignorei.
Esse período serviu para que eu refletisse e chegasse à conclusão de que já havia passado da hora de deixar meus joguinhos para trás, talvez dessa vez eu tenha passado dos limites e realmente Olavo estava nutrindo sentimentos verdadeiros por mim, e o pior, eu também estava sentindo algo a mais por ele. Eu percebi que o simples desejo de conquista-lo havia se tornado algo mais quando me peguei chorando por querer tanto estar com ele e ao mesmo sentir que meu orgulho e meu medo me impediam.
Eleonora provavelmente percebeu que eu não estava bem e me convenceu a sair para espairecer. Nos encontramos em um barzinho para tomarmos vinho e colocar a conversa em dia.
— Mas então amiga, esse tal Olavo realmente te desestabilizou ein?! Você está gostando dele? – Eleonora me perguntou com os olhos cheios de curiosidade.
— Eu realmente não quero gostar dele, mas me parece tão difícil. – Respondi – Você sabe que eu jamais ocuparia o cargo de amante e minha intenção desde o início era não ter nada mais que um caso com ele. Será castigo?
— Realmente você não nasceu para ser a válvula de escape de alguém amiga. Mas e se ele deixasse a esposa, você ficaria com ele? – Eleonora questionou
— Não! – Respondi com toda certeza – Eu não gostaria de ser o motivo de uma separação onde uma das partes está doente emocionalmente, isso seria maldade da minha parte!
— No entanto você fez disso um jogo de conquista até conseguir ficar com ele! – A encaracolada me disse. – Você sabe que eu nunca deixaria de ser sincera com você amiga, por isso eu acho que não é hora de você ter um ataque de altruísmo! Já está feito e se você realmente acha que está na hora de tirar seu time de campo coloque tudo em pratos limpos com ele, ignora-lo sim seria maldade da sua parte!
Eleonora estava certa! Ela sempre estava certa quando se tratava de respeitar os sentimentos dos outros. Tomei um gole da minha bebida, respirei fundo e falei:
— Você está certa, vou colocar um fim nisso!
Depois de poucas horas peguei um taxi em direção a minha casa. Eu realmente não estava no clima então nosso encontro não rendeu muita coisa. Minutos depois já estava parando na porta do meu prédio onde um homem se encontrava sentado na escadaria da entrada.
Aos poucos fui me aproximando e vi que era Olavo. Quando ele percebeu minha presença se levantou e perguntou:
— Onde você estava, faz horas que eu ligo para você e só cai na caixa de mensagem!
— Vai com calma aí Olavo! – Alertei o moreno. – O que você quer comigo?
— Por favor, não me diga que você estava com o Augusto! – Ele disse baixinho.
— Eu estava com uma amiga. – Respondi de forma ríspida.
— Eu preciso te contar uma coisa, é muito importante! – Ele disse se aproximando de mim mudando o semblante de preocupado para feliz. – Eu sei que ficamos essas duas semanas sem nos falar e isso foi importante para que eu tomasse uma decisão. Eu percebi que não faz sentido ficar preso em um relacionamento fracassado, então, hoje mais cedo me sentei e conversei com a Carol e pedi a separação!
— Eu fico feliz que você tenha conseguido colocar sua felicidade acima dos problemas da sua esposa. – Respondi. – Espero que o que nós tivemos não tenha contribuído para essa decisão.
— É claro que contribuiu! Você me mostrou uma perspectiva que há tempos eu não enxergava! Você me mostrou o que é se apaixonar de novo e o que eu mais quero é viver isso com você! – Ele disse se aproximando de mim e acariciando meu rosto.
— Eu não quero essa responsabilidade! Eu não quero ser o motivo da sua separação! Você não tem o direito de me atribuir essa culpa! – Respondi tirando as mãos de Olavo do meu rosto. Ele recuou assustado.
— Mas meu amor eu não estou te culpando por nada!
— EU NÃO SOU SEU AMOR! – Gritei
— Úrsula, porque você está agindo assim?! – Ele sussurrou incrédulo.
— Porque? Olavo você não tem que atribuir a ninguém uma decisão que deveria ser só sua! Eu não precisei te mostrar que seu casamento era uma merda, você provavelmente percebeu isso sozinho! E tem mais, na última vez que nos vimos eu falei que eu não sabia se estava preparada para um relacionamento e o que você faz? Termina seu casamento por minha causa! Eu não quero me sentir obrigada a ficar com você por carregar essa responsabilidade! – Disse com os olhos marejados.
— Como você pode ser tão cruel quando só o que eu quero é te fazer feliz?! – Olavo me perguntou com tristeza.
— Você me acha cruel? E largar a esposa com depressão é tranquilo? – Eu disse com ironia.
— Eu não te entendo Úrsula! Você agora a pouco deu a entender que me separar tinha sido uma boa decisão, que contribuiria para minha felicidade! – Ele disse confuso.
— EU TAMBÉM NÃO ME ENTENDO! A ÚNICA COISA QUE EU SEI É QUE EU ME PREFERIA ANTES DE ME ENVOLVER COM VOCÊ! EU NÃO QUERO GOSTAR DE VOCÊ, ESTAR COM VOCÊ, PORQUE QUANDO ESTAMOS JUNTOS EU NÃO TENHO CONTROLE SOBRE MIM! EU SÓ QUERO VOLTAR A TER MINHA VIDA DE ANTES! ANTES DE VOCÊ APARECER E BAGUNÇAR TUDO! ANTES, QUANDO EU CHEGAVA NO MEU PRÉDIO E NÃO TINHA QUE ME DEPARAR COM VOCÊ E SUAS CRISES DE CIÚMEs ACHANDO QUE POR ALGUM MOTIVO EU SOU PROPRIEDADE SUA! NÓS NUNCA DARIAMOS CERTO, SABE PORQUE? SIMPLESMENTE PORQUE EU NÃO QUERO! – Eu tinha me descontrolado e não sabia porque estava agindo dessa forma e falando tantas coisas que machucariam Olavo.
— SABE DE UMA COISA ÚRSULA? POR MAIS QUE VOCÊ ACHE QUE SIM, O MUNDO NÃO VAI ESPERAR VOCÊ SUPERAR SEUS DILEMAS E SUA DIFICULDADE PARA AMADURECER! – Olavo me respondeu, mostrando que a discussão estava passando dos limites.
— ISSO É UM PROBLEMA INTEIRAMENTE MEU! – Respondi.
— Eu já cometi alguns erros na minha vida, mas acabo de perceber que você é o maior deles! Pode ficar tranquila, eu NUNCA mais vou te procurar e não pense que eu não sei o que a palavra nunca significa! – Olavo disse depois de alguns segundos e eu pude perceber sua raiva e decepção.
As palavras dele me atingiram de tal forma que eu fiquei imóvel sentindo as lágrimas escorrerem quentes pelo meu rosto enquanto ele virava as costas e caminhava para seu carro. Ao ouvir a batida da sua porta eu me sentei na escadaria escondendo o rosto com as mãos enquanto o choro insistia em não cessar.
Alguns segundos depois uma série de barulhos me assustaram. Me levantei buscando a fonte de toda aquela confusão e reconheci de longe o carro de Olavo, agora capotado. Corri o mais rápido que pude e ao me aproximar percebi que havia outro carro na cena do acidente, deduzi então que o outro carro que só estava com a frente danificada bateu no veículo de Olavo de forma que o fizesse capotar quando ele passava pelo cruzamento distraído e nervoso provavelmente por causa da nossa discussão.
Reuni minhas forças para ter coragem de me aproximar do carro de Olavo. Só de pensar que o pior poderia ter acontecido minha consciência começava a pesar uma tonelada.
Quando eu me aproximei do carro que estava de ponta cabeça percebi Olavo agora desacordado no teto do carro e consegui identificar ferimentos na sua testa.
— ALGUÉM CHAME UMA AMBULÂNCIA, RAPIDO! — Gritei o mais alto que pude como se a altura da minha voz fosse diretamente proporcional à velocidade que o resgate chegaria.- Olavo, por favor acorda! Não morre, eu te imploro! Me desculpa por tudo que eu disse, você não pode morrer agora! – Disse para o corpo imóvel a minha frente enquanto as lágrimas escorriam em meu rosto.
Passaram-se alguns minutos e a ambulância chegou e eu só percebi quando o socorrista pediu para que eu me afastasse. Fiquei ali em pé observando o trabalho da equipe com o pensamento longe, torcendo que nada grave tivesse acontecido.
— Você conhece a vítima? – O socorrista perguntou me tirando dos meus pensamentos.
— Somos amigos, eu não estava no carro com ele. – Respondi
— Você pode acompanha-lo até o hospital?
— Sim! – Respondi depois de hesitar por alguns segundos. Apesar da nossa discussão, eu não poderia deixar Olavo sozinho agora.
Entramos na ambulância e Olavo continuava desacordado. Alguns segundos depois ele começou a tentar se mexer na maca.
— Úrsula... Úrsula... – Olavo disse com a voz fraca.
— Eu estou aqui, fica tranquilo, nós estamos indo para hospital! – Respondi segurando uma de suas mãos e me aproximando mais dele. – Agora tenta não se mover muito, por favor!
Quando chegamos ao hospital os médicos levaram Olavo para a emergência e eu fiquei na sala de espera aguardando notícias. Depois de uma hora o médico apareceu e me explicou que Olavo tinha quebrado algumas costelas, um braço e sofrido uma concussão cerebral. Apesar de ser muita coisa, ele estava se recuperando.
— Poderia ter sido pior, ele estava sem cinto o que aumenta muito as chances de um acidente assim ser fatal! Quando ele puder receber visitas a enfermeira avisará à senhora, mas fique tranquila, seu marido ficará bem! – Disse o médico tentando me acalmar.
— Ele não é meu marido! – Respondi rápido.
— Ele estava chamando por uma mulher, pensei ser você! Me desculpe! – O médico disse confuso.
— Provavelmente deve ser a esposa dele, vocês poderiam entrar em contato com ela para avisar o que aconteceu?! Nós somos apenas conhecidos! – Eu disse mesmo sabendo que ele chamava por mim, depois de organizar as ideias rapidamente e perceber o problema que aquela situação traria para nós dois.
— Doutor, o paciente já pode receber visitas rápidas! – A enfermeira nos interrompeu. Mal esperei a reação do médico e caminhei para o quarto onde Olavo estava.
Quando cheguei lá percebi que ele ainda não estava acordado. Me aproximando pude observar os hematomas e arranhões pelo seu rosto e corpo e nesse momento as lágrimas começaram a cair novamente. Me sentei do lado da cama e segurei sua mão.
— Olavo, eu não sei se você está me ouvindo agora, mas eu vim me despedir. Talvez só eu saiba como é um alívio saber que você está fora de perigo porque mais cedo eu achei que o pior tinha acontecido e tudo que eu queria era gritar de desespero, mas não podia, eu não podia nos expor! – Falei com a voz embargada. – Se você tivesse morrido eu jamais me perdoaria e eu não posso deixar de imaginar que tudo isso aconteceu em consequência da nossa discussão e das coisas horríveis que eu te disse hoje! Eu espero que você me perdoe por ser tão cruel e egoísta. Hoje quando você me contou da separação eu não sei porque agi daquela forma quando só o que eu queria era te abraçar forte e ficar junto com você! Eu não sei qual é o meu problema e talvez eu esteja estragada, mas eu sei que não posso ser o que você espera que eu seja! Eu me apaixonei por você, mas eu sei que isso vai passar. Espero que passe para você também e que você possa ser feliz! – Me aproximei de Olavo, acariciei seu rosto e por fim selei meus lábios ao dele em um selinho demorado. Virei as costas e sai do quarto sem olhar para trás.
Passei pela recepção onde uma mulher desesperada procurava por informações sobre o marido, era Carolina a esposa de Olavo. Saí rapidamente do hospital antes que ela ou alguém me reconhecesse.
Peguei um taxi a caminho do meu apartamento. Passei pela escadaria que algumas horas antes tinha sido palco da minha discussão com Olavo. Cheguei ao meu apartamento, corri para o quarto e enterrei o rosto no meu travesseiro e chorei, não sei por quanto tempo, até pegar no sono.
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