Comecei a explorar Trost assim que saí do barco, com o peso das mortes das pessoas que eu mais amava esmagando meu peito. Meus amigos, minha família, não restava mais nada. Eu esperava apenas que na Tropa de Exploração encontrasse uma forma de impedir que isso acontecesse com mais pessoas, para evitar que isso se tornasse um efeito dominó.

A feira estava lotada e os diferentes barulhos e as vozes distintas martelavam minha cabeça, ao mesmo tempo em que eu não conseguia mais entendê-los. Muitas famílias unidas passavam por mim com sorrisos no rosto, fazendo-me sentir isolada do resto do mundo inteiro.

Os titãs não tinham chegado até o distrito de Trost. Afinal, Trost ficava na Muralha Rose e era bem distante do limite entre o domínio dos humanos e dos titãs, diferentemente de Shiganshina. Os habitantes de lá tinham muito mais estabilidade financeira que a maioria das pessoas da Muralha Maria.

— Ei, garotinha.

Senti um hálito de álcool atrás de mim, bem próximo de meus cabelos.

— Cadê a sua família?

Virei-me para o homem e notei seu uniforme, com um símbolo na jaqueta. Ele pertencia à Polícia Militar.

— Eu a perdi. E não sou uma garotinha. Tenho 16 anos, senhor.

— Mas você é baixa para sua idade, hein? — zombou ele, dando uma gargalhada logo depois. — Meu nome é Zacarias Ernmont. Estou te convidando neste momento para vir morar em minha casa. Creio que você seja uma fugitiva do desastre em Shiganshina, não?

Não respondi, mas perguntei a mim mesma quantas pessoas estariam ali como imigrantes.

— Vamos lá, garota.

Ele deu leves tapas em minhas costas e me guiou, segurando-me pelos ombros, até uma casa simples de dois andares, um pouco distante do rio e do tumulto da feira.

— Minha mulher, Laysa, vai cuidar para que você fique bem.

Zacarias aparentava ter cerca de 40 anos, com uma barba mal feita e alguns fios grisalhos em meio aos seus cabelos castanhos. Seu rosto era gentil, com um leve sorriso, apesar de estar um pouco corado após ter bebido.

— Querido?

Uma mulher que parecia ser um pouco mais nova abriu a porta, e logo me estudou com os olhos. Atrás dela, mais três adolescentes como eu me olhavam curiosos, sentados no chão.

— Trouxe mais um... Que bom!

Laysa deu um sorriso sincero acompanhado de um olhar caloroso. Mas suas mãos tremiam, provavelmente por pensar em tudo que os fugitivos de Shiganshina passaram.

— Seja bem-vinda. Qual é o seu nome? — ela perguntou.

— Meu nome é Julie. Julie Strëwartch — falei, surpreendendo-me com minha voz fraca. Eu estava sendo tomada pela mágoa novamente.

Meus olhos se embaçaram e pisquei várias vezes para afastar as lágrimas. Eu não queria chorar. Não na frente daquelas pessoas.

— Está tudo bem agora — consolou-me Laysa, bondosamente. — Sinta-se em casa.

— Isso mesmo. Agora cuidaremos de vocês quatro como se fôssemos seus pais. Não se preocupem — reforçou Zacarias, em posição de sentido, com um punho fechado nas costas e outro sobre o coração, com um sorriso confiante no rosto. — Vocês têm um novo lar agora.

Então ele foi embora, e sua mulher me deu espaço para entrar na casa. Era um lugar bem simples, com quatro camas em um quarto do lado da sala de estar, e uma cozinha ao lado da porta de entrada. Uma escada era a passagem para o segundo andar, e ficava localizada perto de um armário. Um armário parecido com o que minha mãe tinha em casa.

De repente, tudo apagou.

Uma luz surgiu aos poucos e comecei a enxergar meu quarto, minha mãe na cozinha e meu pai e minha avó dançando juntos uma música alegre na frente de minha porta.

Levantei-me e o cenário mudou. Agora eu estava ajoelhada no chão, assistindo dois titãs gordos com dentes surpreendentemente brancos levando meu pai e minha avó à boca. Minhas lágrimas escorriam quentes por minhas bochechas quando ergui minhas mãos e as vi cobertas de sangue.

— Julie.

Tudo escureceu novamente e comecei a abrir meus olhos.

— Julie.

Eu os cocei e me sentei rapidamente no sofá. Não reconhecia aquela voz masculina.

— Você desmaiou — disse um garoto que parecia ser mais velho.

— Qual é o seu nome? — perguntei, tendo consciência de que ele era um dos adolescentes refugiados.

— Para que quer saber?

— Não seja rude, Eliah-kun — censurou uma garota atrás dele. Ela olhava para mim. — Meu nome é Elisa Demetry. Não sei o sobrenome do Eliah — Deu de ombros -, mas não deve ser nada demais.

— Eu sou Bryan Heuns — apresentou-se outro garoto. — Prazer, Julie.

— Por que toda essa formalidade depois de tudo o que passamos, hein? — falou Eliah entre os dentes, irritado. — Não precisa de nada disso.

Ele saiu pisando forte, esfregando a testa com as costas da mão, e subiu as escadas correndo.

— Não ligue para ele — aconselhou Elisa, balançando a cabeça enquanto secava uma vasilha. — Laysa deve chegar em breve com as compras. Você deve estar com fome, não?

Senti meu estômago doer de fome, mas não conseguia esquecer a dor por trás dos olhos de Eliah.

— Vamos lá, anime-se — pediu Bryan. — Você consegue ser mais legal. Tenho certeza.

— Quantos anos você tem? — indaguei, perplexa com aquela despreocupação.

— Quatorze.

— Consegue esquecer facilmente as coisas, não é?

— Não vai adiantar nada se remoermos o passado — disse ele, dando um sorriso reconfortante.

— Bryan está certo — confirmou Elisa, depois de colocar a vasilha em cima da mesa. — Você precisa olhar para frente.

— Eu estou olhando para frente — rebati.

E não estava mentindo. Eu só conseguia enxergar um futuro: estar lá fora, matando aqueles seres horrendos mais conhecidos como titãs.

— Entendo — suspirou Bryan. — Se você realmente quer alguma coisa, vá em frente. Mas ninguém vai se responsabilizar por seus erros.

Ele se sentou numa poltrona e soltou um longo e profundo suspiro. Elisa se sentou ao meu lado e colocou a mão sobre a minha.

— Todos nós temos nossos lados escuros, Julie. E todos nós queremos ser livres, pode ter certeza. Então... é melhor você se acostumar.

Surpreendi-me com a seriedade com que ela disse aquilo, e não posso negar que senti uma onda de calor atravessar meu corpo. Não falei mais nada, sabendo que o quanto eu quisesse perguntar ou descontar minha raiva, a história deles era tão triste quanto a minha.

A porta de entrada se abriu. Laysa entrou com uma cesta cheia de pães e algumas sacolas e fechou a porta dando um leve empurrão com o ombro.

— Ah, ela acordou... — murmurou ela, sorrindo de canto. — Estão com fome?

Elisa tirou a mão da minha e assentiu com a cabeça, retribuindo o sorriso. Bryan soltou um "claro" que eu quase não ouvi enquanto pensava no que poderia estar por trás daqueles olhos desnorteados daqueles jovens que podiam ter uma história mais tenebrosa que a minha.