O Anjo

3 III - Talvez


Talvez eu não tenha realmente te esquecido, talvez sejas a última pessoa em que penso antes de adormecer, talvez sejas a primeira que me atravessa a mente quando acordo, talvez visites o meu subconsciente ocasionalmente, talvez eu tenha deixado demasiadas palavras por pronunciar, consequência dos medos terríveis que me assolavam a alma sempre que ponderava as tuas reacções intempestivas, talvez eu sinta uma necessidade urgente de telefonar-te e perguntar-te simplesmente como estás e se sentes a minha falta, talvez tenha um desejo estranho de aparecer inesperadamente á tua porta apenas para saber se tu a abririas para mim, talvez eu ainda queira dar-nos uma nova oportunidade. Talvez. Mas decididamente, não. Eu escolhi excluir-te definitivamente da minha vida e talvez isso seja o suficiente para esquecer-te e apagar-te irreversivelmente da minha memória. Talvez...

Talvez nós nunca seremos mais que instantes perdidos na multidão, pedaços de alma que se foram distanciando sem tentarem alcançar o outro. A saudade que sinto acumula-se e desgasta-me enquanto a tua vida prossegue sem interrupções e devora-me a incerteza de sentires a minha falta. O meu ânimo sabe perfeitamente estar melhor sem as tuas palavras que se colam ao meu peito e me torturam, sem as madrugadas longas que me impediam de dormir descansadamente, sem esse olhar fixado de forma indiscreta no meu enquanto me lê descaradamente os pensamentos, e sobretudo, sem o teu veneno a impedir-me o oxigénio. Sentir a tua ausência em cada parte de mim não implica desconhecer a catarse inerente a tal processo, mas por vezes, a dor é mais que imensa e chega a transbordar. No entanto, sou obrigada a reconhecer que com o teu silêncio, a minha alma conheceu paz e tranquilidade, as trocas violentas de vocábulos cessaram e as minhas provas de amor regressaram a um coração carente. Se estou bem sem ti? Não, não estou definitivamente bem mas estou, sem dúvida alguma, melhor...

Escrevo-te estas palavras porque não consigo continuar a ser parte desta equação. Eu amei-te demasiado. Sinto a tua falta a cada dia. Ponderava, em muitos momentos, se pensarias também em mim. Se alguma vez voltarias a desejar-me como antes? Se alguma vez voltarias a amar-me como amaste? Existem tantas perguntas que faço a mim própria uma e outra vez, mas por esta altura, existem questões que nunca serão respondidas. Não posso continuar a imaginar como teria sido. Não é de todo justo que tenhas seguido em frente e que eu tenha permanecido no sítio onde me deixaste, paralisada pelo medo. Sei que estou nisto sozinha, já há muito tempo que luto apenas por mim. Apesar do simples pensamento de nunca mais trocarmos uma palavra que seja, me assuste profundamente, tenho que pensar primeiro em mim. Não posso fingir que está tudo bem quando não está apenas para que seja permitido que continues na minha vida de uma forma ou de outra. Costumavas confidenciar-me que nunca deixarias de ser meu, que só te imaginavas ao meu lado por toda uma eternidade. Se esses sentimentos eram fortes e verdadeiros, ainda devem estar guardados em ti e talvez um dia sejas capaz de voltar a expressá-los. No entanto, tenho que parar de pensar nos momentos passados juntos porque estes terminaram. Sinto-me tola por ainda me sentir assim. Serei idiota? Ou apenas uma pessoa que ama verdadeiramente? Tenho que deixar-te partir sem permitir-te regressar por uma fresta qualquer. Tenho evitado tomar uma decisão nos últimos três meses e provavelmente conseguiria adiar mais algum tempo, mas preciso ser forte e tomar medidas. Obrigada por teres sido uma das melhores pessoas a passar pela minha vida. Obrigada por ensinares-me tanto sobre mim. Obrigada por mostrares-me como se ama alguém incondicionalmente. Nunca poderia odiar-te devido á intensidade do meu amor, mas odeio que a nossa relação tenha chegado a um fim amargo como este. Até detesto que não possa desejar ou esperar que voltes para mim uma vez mais. Falar contigo ou ver-te novamente iria apenas fazer-me voltar atrás na minha decisão. Sinto tanto a tua falta e sempre sentirei saudades tuas. Gostava que alcançasses na vida tudo o que sempre te fez feliz e gostava imenso de lá estar para ver-te atingir esse estado de plenitude. Mas, a realidade é este teu abandono cruel sobre o meu coração rasgado e dilacerado e chegou a altura de desprender-me de ti. Sem retorno.

A minha escrita é sobre ti. Sempre é. Não nasce na minha mente outro assunto, nem nas pontas dos meus dedos . As letras que fluem naturalmente de mim para o exterior são sobre ti porque o dia só faz sentido quando as tuas palavras se encontram com as minhas. O meu sorriso nasce por ti porque nunca os vocábulos foram tão repletos de sentidos nem a semântica dos sentimentos tão vulnerável a ponto de fazer nascer uma felicidade tão espontânea. As minhas mudanças de humor inexplicáveis, os meus ciúmes, a minha insegurança chata como forma de te querer sem saber como, a possessividade de te querer trancado no meu mundo. O meu coração espia-te a todo o instante sem que te apercebas desta pequena instabilidade do meu ser. Eu, que nem te pedi permissão para seres o alvo da minha vontade, do meu desejo insaciável. Talvez não quisesses, talvez eu nunca te possa alcançar do modo que eu verdadeiramente almejava. Importas-te que seja eternamente sobre ti o meu desejo de amar desenfreadamente, sem limites impostos, abraçar-me a um fogo que queima e devora sem controle possível? Queria que fosses tua a sorrir em simultâneo com o meu sorriso fácil, permites-me? Não se trata de invadir o teu universo, mas o meu sempre foi assim, repleto de e a transbordar de ti. Sem querer inundar-te de medo, porque este sentimento que não morre nem adormece não assusta ninguém mais do que a mim própria. Só quero que entendas quando eu estiver diferente e em silêncio. Porque em alguns momentos, é demasiado para mim que seja tudo sempre sobre ti.

Sentir deveria ser muito mais que isto. Mais que aguardar por um sinal enquanto abraças o medo á medida que todas as feridas se reabrem sem avisar, mais que relembrar todas as juras quebradas. Deparar-se com a solidão na quietude da noite, em que apenas melodias tristes te embalam na saudade que perdura mesmo que não queiras. Deveria ultrapassar todos os limites traçados e estabelecer que promessas são mais que palavras soltas, desperdiçadas num momento apenas. Guardar tantos sentimentos dentro de mim quando caem por terra todas as declarações e juras de um amor que seria diferente após desculpas esculpidas no meu peito, criaram novos monstros no meu já carcerado interior. Acreditei no que os meus sentires me sussurravam e julguei seres merecedor de novas chances e capaz de recriar sentimentos que estavam há muito adormecidos num recanto esquecido de mim. Partiste mais uma vez, levando contigo quase toda a minha essência, metade da minha capacidade de sentir, todo o meu coração e deixaste-me por resignar-me com as recordações impregnadas de asquerosa saudade. Sentir nunca será muito mais que isto...

Perguntaste-me se te tinha esquecido e o meu coração definhou como se de uma ténue folha de papel se tratasse. Os sentimentos nele contidos desde que me recordo da minha instável existência, estremeceram ao sentirem-se confinados a um espaço tão restrito, tendo em conta a sua dimensão. Não sei se tens consciência, mas esquecer o teu semblante foi impossível, apagar do meu ser todos os sentires que sempre causaste em mim, eliminar todas as palavras, sensações, estados de alma que ficaram gravados na minha mente, igualmente impossível foi. Estes sentimentos, mesmo guardados num coração danificado, nunca poderiam cessar de existir porque hoje sei que esquecer alguém como tu não é exequível e se me perguntarem como sei, digo que o sei porque tentei imensas vezes até sentir-me exausta, mas apagar-te definitivamente do meu coração e da minha alma, não consegui e desconfio que algum dia conseguirei fazê-lo...

No silêncio da madrugada e escuridão simultânea da minha alma, entreguei o meu corpo a alguém que não senti. A pele retraiu-se abruptamente com o toque que lhe era desconhecido e recusou-se a abraçar esta invasão que lhe era imposta. O coração, outrora adormecido, rebelou-se dentro de um peito até há pouco cicatrizado e suturado, desesperado por não conseguir impedir esta insensata decisão. Os lábios esfriaram quando recordaram o calor que emanaram naquela noite proibida, os olhos fecharam-se e a tua face surgiu novamente na minha mente. Era por ti que o meu corpo chamava, o meu coração se desfazia em chamas, a minha pele aguardava ansiosamente. Acordaste-me em saudade no término de rios de tempo, com palavras de amor, promessas de eternidade e beijos roubados pela calada da noite. Abri os olhos e não estavas lá! Entrei em pânico, confesso. Chorei compulsivamente e soluçei, sem saber exactamente como parar ou como acalmar um coração sedento de ti. Acabei por sucumbir e adormecer noutros braços, embalada mais pela saudade que por outra razão qualquer...